Apresento a transcrição da entrevista de Benicio del Toro a Marlen Gonzalez sobre Che Guevara, traduzida para o português.
Marlen Gonzalez: Por que Miami para estrear este filme, a cidade onde vivem tantos cubanos, vítimas de uma forma ou de outra de um sistema que está implantado em Cuba neste momento? É uma provocação?
Benicio del Toro: Não. Não é uma provocação. Creio que é importante trazer e ver... Não creio que todos os cubanos pensem igual, necessariamente, sobre um filme a respeito de Che.
Marlen: Mas imagine que o filme tem uma destacada influência, porque vi o filme, apresentando uma imagem positiva de Che. Imagine que você fosse mostrar em Miami Beach, aqui em Miami, ou em qualquer cidade do mundo, a parte boa de Hitler. Estaríamos ofendendo 15 milhões de judeus e 6 milhões de... e a memória de 6 milhões.
Benicio: Eh... eh... Não creio que Che tenha feito campos de concentração.
Marlen: Bem, estamos falando de assassinatos. Agora, não é igualmente um assassino aquele que mata uma pessoa e aquele que mata cem ou que mata cem mil? Não pomos em todos o título de assassino, igualmente?
Benicio: Bem, falamos de pena de morte. O que você diz se aplica à pena de morte, a generais em exércitos ou a qualquer um que defenda a pena capital.
Marlen: Mas não é pena de morte. É ordenar fuzilamentos. E você decidiu interpretar esse papel, é um trabalho de ator para você?
Benicio: Sim.
Marlen: Mas as opiniões que você deu, você, Benicio del Toro, em sua consciência, você disse que Che Guevara foi assassinado como um criminoso de guerra e não foi. Mas você sabe que quando a revolução triunfou, você sabia que ele ficou encarregado de uma prisão em Cuba, chamada La Cabaña, e ali mandou fuzilar mais de quatrocentos cubanos. Você sabia disso?
Benicio: Sim, sabia, mas foram, pelo que entendi e está gravado, está gravado e vi pedaços dessa gravação, muitos desses que foram fuzilados haviam sido, havia um terrorismo de parte do governo Batista.
Marlen: Noventa por cento eram presos de consciência, simplesmente por discordarem do sistema nascente. Simplesmente por terem opinião diferente.
Benicio: Eu não sabia. Não sabia disso. Não. De onde, de onde você tirou isso?
Marlen: Está historicamente documentado, inclusive na Argentina. Não somente por nós, cubanos. E por que não se mostra no filme a parte dos fuzilamentos? Por que se mostra que se fuzila uma pessoa que foge da serra e se salta para o discurso nas Nações Unidas, enquanto em Cuba estão fuzilando, continuarão fuzilando -- fuzilaram, estão fuzilando e continuarão fuzilando -- como para dar a entender que houve fuzilamentos para fazer justiça, mas não se mostra La Cabaña, não se mostram os assassinatos, não mostram os disparos que deu Che a sangue frio.
Benicio: Eh... não, não sei...
Marlen: Ele disse que a forma mais positiva e forte de qualquer manifestação é um tiro bem dado em quem se deve dar, no momento certo.
Benicio: Como é?
Marlen: Che disse que a manifestação mais positiva e forte que existe, além de todas as ideologias, é um tiro bem dado em quem se deve dar, no momento certo. Já havia lido isso de Che? Escrito de próprio punho por Che?
Benicio: Eh, não me recordo exatamente.
Marlen: Veja, "Guevara: Misionero de la Violencia", de Pedro Corzo, cubano. Para que você leia um pouco mais sobre Che.
