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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Esquecidos & Superestimados, de Rodrigo Gurgel

Vamos respirar um pouco de ar puro. Vamos falar de assuntos mais elevados: literatura e o trabalho admirável de Rodrigo Gurgel como crítico.

Foi com grande prazer que li o livro mais recente dele, Esquecidos & Superestimados, publicado pela Vide Editorial. Como em Muita Retórica — Pouca Literatura, obras brasileiras são analisadas, cada uma de um autor diferente. Percorremos assim as primeiras três décadas da nossa literatura do século 20.

Confesso que, desta vez, não li nenhum dos textos que ele aborda. Não importa. Aumentou minha lista de autores a conhecer, com a inclusão de, pelo menos, Simões Lopes Neto, Hugo de Carvalho Ramos e Valdomiro Silveira. Dependendo da minha disposição, gostaria também de ler Júlia Lopes de Almeida, Coelho Neto e Amadeu Amaral.

Gostei muito do capítulo sobre Monteiro Lobato, autor que marcou a minha infância e a de muita gente. Fico incomodado com a patrulha tacanha que ele sofre hoje dos analfabetos politicamente corretos, que querem colocar em suas edições infantis advertências sobre Tia Nastácia. É verdade que olhei novamente a História do Mundo para Crianças e não gostei tanto assim do que li. E fiquei de fato chocado quando li O Presidente Negro. Não acho que a obra infantil de Monteiro Lobato seja racista, mas este livro é sim. As pessoas criticam o racismo que não existe e ignoram o racismo real, porque não lêem nem os livros para crianças nem os para adultos.

Monteiro Lobato é estigmatizado por causa do artigo Paranóia ou mistificação?, de 1917, em que criticou a exposição de Anita Malfatti. Embora acusado de prepotente e de inimigo de qualquer avanço cultural, Lobato publicou inúmeros escritores jovens e desconhecidos, incluindo Guilherme de Almeida, Amadeu Amaral, Gilberto Amado, Lima Barreto, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia. Teve a competência de montar uma rede de distribuição de livros com bancas de jornal, papelarias, farmácias e armazéns. Em 1923, tinha quase 200 títulos no catálogo. Sem a efervescência cultural que sua editora criou, a Semana de 22 não teria sido possível.

Os outros autores mais conhecidos de quem Rodrigo Gurgel trata são Lima Barreto, Euclides da Cunha e Olavo Bilac. Gurgel diz que Lima Barreto defendeu uma literatura militante, que deveria mostrar as qualidades de seus personagens e afirmar que o entendimento e o amor entre pessoas muito diferentes era possível. Mas sua obra é marcada pelo sentimento de derrota, seu e de seus personagens.

Os Sertões, de Euclides da Cunha, é um livro que exige uma disposição especial do leitor para enfrentar um vocabulário rebuscado e descrições topográficas e geológicas intermináveis. Gurgel nos convence de que o esforço vale a pena. Aponta as semelhanças entre um trecho de Os Sertões e um poema de Rimbaud e especula se Euclides da Cunha teria tomado contato com esse autor na biblioteca de Francisco Escobar.

Olavo Bilac é analisado por suas crônicas, consideradas datadas, nas quais abundam hipérboles vazias e falta conteúdo. Podemos ver vários exemplos de sua estilística piegas, cheia de adjetivos extremados e completamente inadequados.

Rodrigo Gurgel elogia três contistas que se situam acima do que se costuma chamar de regionalismo. O gaúcho Simões Lopes Neto é autor de Lendas do Sul, uma coletânea de contos folclóricos narrados com grande habilidade. Hugo de Carvalho Ramos, goiano, escreveu Tropas e Boiadas, narrando histórias de tropeiros do Centro-Oeste. Seus contos cheios de espontaneidade e tensão épica fogem dos lugares-comuns com inteligência, sensibilidade e apuro lingüístico. Valdomiro Silveira, paulista, é autor de Os Caboclos. Os 24 contos desse livro são histórias singelas ou dramáticas, que costumam começar de maneira que a atenção do leitor é imediatamente capturada. Seus narradores se expressam com desembaraço, suas frases se encadeiam sem adereços desnecessários, seu ritmo é leve. É o avesso do beletrismo balofo de Afonso Arinos.

Há muito mais autores esquecidos que superestimados, mas vamos mencionar dois destes últimos. Antônio Sales, autor de Aves de Arribação, tem, segundo Gurgel, o mérito de concentrar em duzentas páginas todos os defeitos da literatura brasileira: ornamentação piegas, retórica afetada, uso desmedido de adjetivos e de lugares-comuns, falta de interação entre os personagens, estilo e técnica narrativa deficientes. João do Rio escreveu A correspondência de uma estação de cura, uma narrativa epistolar frouxamente composta, em que os personagens se expressam invariavelmente de maneira frívola, mesquinha e afetada.

Aprendi muito com Esquecidos & Superestimados, que vai me fazer ler mais.

1. À espera de justiça
— Júlia Lopes de Almeida e A falência

2. Escondido e desprezado
— Emanuel Guimarães e A todo transe!

3. Combate interminável
— Euclides da Cunha e Os Sertões

4. Perseguido, mas brilhante
— Coelho Neto e Turbilhão

5. Perfumaria bilaquiana
— Olavo Bilac e suas crônicas

6. A salvação pelo duplo
— Lindolfo Rocha e Maria Dusá

7. Retorno à querência
— Simões Lopes Neto e Lendas do Sul

8. Manual de literatice
— Antônio Sales e Aves de arribação

9. Salvo da banalidade
— Hugo de Carvalho Ramos e Tropas e boiadas

10. Canalhice e afetação
— João do Rio e A correspondência de uma estação de cura

11. Salvo pela ironia
— Carlos de Laet e suas crônicas

12. Ideologia e azedume
— Lima Barreto e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá

13. Psicopatia e racismo
— Afrânio Peixoto e Fruta do mato

14. Injustamente esquecido
— Valdomiro Silveira e Os caboclos

15. Corrosivo e sempre contemporâneo
— Monteiro Lobato, Urupês e Negrinha

16. O filho tardio de Alencar
— Alcydes Maya e Alma bárbara

17. Sobriedade e sutileza
— Amadeu Amaral e A pulseira de ferro

18. Equívocos e retórica
— Jackson de Figueiredo e Literatura reacionária

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Muita Retórica — Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel

Um dos melhores livros que li no ano passado é Muita Retórica — Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel. É um painel da prosa brasileira da segunda metade do século 19. Em cada capítulo, Rodrigo analisa uma obra de um autor diferente. O único escritor que aparece em dois capítulos é o Visconde de Taunay, com Inocência e A Retirada da Laguna.

Confesso que só li quatro dos livros analisados: Memórias de um Sargento de Milícias, O Cortiço, O Ateneu e Dom Casmurro. Quase todos quando estava no colegial, há mais de 25 anos. Encontrei muitos reflexos da impressão que me ficou dessas obras na crítica de Rodrigo Gurgel.

Memórias de um Sargento de Milícias é um livro muito bom. Despretensioso, leve, bem-escrito, narra o cotidiano de pessoas comuns. Suas personagens são verossímeis e perfeitamente humanas com suas pequenas mesquinharias e seus pequenos gestos de heroísmo. O Cortiço é uma obra forte, com momentos marcantes. Porém, sua visão naturalista, totalmente pessimista sobre a capacidade moral do ser humano, o faz um romance mediano. O Ateneu é um livro muito ruim, tanto pelo excesso de retórica como pelo sarcasmo destrutivo que o narrador dirige contra tudo e contra todos.

E fiquei muito satisfeito por Rodrigo Gurgel não gostar de Dom Casmurro. Ele ressalta o quanto Machado de Assis deve ao autor de Memórias de um Sargento de Milícias, dívida nunca reconhecida por Machado. Rodrigo diz que Bentinho constrói uma narrativa que só conduz o leitor a becos sem saída. Não é possível dizer se Capitu traiu Bentinho ou não. E não é possível dizer mais quase nada. Bentinho simplesmente nos confunde e para nada.

Muita Retórica — Pouca Literatura
resgata diversos escritores esquecidos, como João Francisco Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, Inglês de Souza e Xavier Marques. Dá umas boas pauladas em autores incensados como Adolfo Caminha, Afonso Arinos e Graça Aranha, além das unanimidades José de Alencar, Machado de Assis e Raul Pompéia. Fiquei com muita vontade de ler A Retirada da Laguna e os livros de Joaquim Nabuco e Eduardo Prado. E estou ansioso para começar o próximo do Rodrigo, Esquecidos e Superestimados, que continua analisando a prosa brasileira, agora no início do século 20.

A crítica de Rodrigo Gurgel é muito bem fundamentada. É divertida e equilibrada. Os pontos fortes de uma obra ruim ou os defeitos de um livro excelente não são deixados de lado, mas explicados pacientemente ao leitor.

Para dar uma noção do que é o livro, publico o nome dos capítulos e o autor e a obra a que se referem. Boas leituras!

1. Romantismo autodestrutivo
José de Alencar e Lucíola

2. Talento para recriar a vida
Manuel Antônio de Almeida e Memórias de um Sargento de Milícias

3. O ironista macambúzio
João Francisco Lisboa e Jornal de Timon

4. O contestador liberal
Joaquim Felício dos Santos e Memórias do Distrito Diamantino

5. Valioso, mas desigual
Visconde de Taunay e Inocência

6. Ecos do ultra-romantismo
Bernardo Guimarães e O Seminarista

7. Épico às avessas
Visconde de Taunay e A Retirada da Laguna

8. Lenga-lenga maçante
Franklin Távora e Um casamento no arrabalde

9. O preço do naturalismo
Aluísio Azevedo e O Cortiço

10. Acima do naturalismo
Inglês de Souza e Contos amazônicos

11. Subliteratura e vingança
Adolfo Caminha e Bom Crioulo

12. Encoberto pela retórica
Domingos Olímpio e Luzia-Homem

13. Em busca do realismo
Manuel de Oliveira Paiva e Dona Guidinha do Poço

14. Enfermo de retórica
Raul Pompéia e O Ateneu

15. A pior das respostas
Machado de Assis e Dom Casmurro

16. O antifilisteu
Joaquim Nabuco e Minha formação

17. O anti-revolucionário
Eduardo Prado e Fastos da ditadura militar no Brasil

18. Arenga sertanista
Afonso Arinos e Pelo sertão

19. Retorno ao paraíso
Xavier Marques e Jana e Joel

20. Puro pedantismo

Graça Aranha e Canaã

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Sonho de um Homem Ridículo, de Fiódor Dostoiévski

O Sonho de um Homem Rídiculo é mais um conto fascinante de Dostoiévski.

Assim como em Memórias do Subsolo, temos um narrador sem nome, o Homem Ridículo, que mora sozinho e tem dificuldades de relacionamento com as outras pessoas. Ele decide se suicidar e tem uma arma preparada para isso. Os dias passam, mas ele não se resolve a por seu plano em prática. Numa noite especialmente fria e escura, após ver uma estrela, decide que chegou a hora. Enquanto caminha para sua casa, é abordado por uma menina que pede socorro, pois sua mãe está morrendo. Ele enxota a menina. Porém, continua pensando nela quando chega em casa.

Fica novamente hesitando sobre o suicídio. Sua intenção de se matar vinha do fato de que achava que não se importava com absolutamente nada. Percebe que se importa, pelo menos um pouco, com a menina. Adormece e tem o sonho que dá nome ao conto.

Não vou contar o que acontece daí em diante. Gostei muito da maneira com Dostoiévski constrói o Homem Ridículo e a narrativa. O conto suscita uma discussão profunda sobre a origem do mal, sobre a possibilidade de vivermos num Éden na Terra, sobre a capacidade do homem de amar ao próximo como a si mesmo.

E encerra com a dúvida sobre a nossa possibilidade de fazermos alguma coisa para mudar nossa realidade.

sábado, 16 de agosto de 2014

Trecho de Muita Retórica - Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel


Em Muita Retórica - Pouca Literatura, falando sobre Inocência, do Visconde de Taunay, diz Rodrigo Gurgel:

“Questões biográficas à parte, Inocência tem recebido encômios dos principais críticos brasileiros, algumas vezes com evidente hipérbole. Trata-se de prática rotineira entre nós, infelizmente, chamar de genial o apenas razoável, como se o país, destituído de um número de gênios que corresponda ao tamanho do seu território, se dispusesse a criá-los à força, ainda que, para tanto, fosse obrigado a edulcorar a verdade. E não há exagero em minhas palavras. Leiam os cadernos culturais: aqui, nasce um gênio a cada semana. É pena que a quase absoluta maioria tenha vida efêmera — muitos não resistem à primeira troca de fraldas; poucos, cujos amigos estão nos postos certos, ganham sobrevida de uma década.”


sábado, 2 de agosto de 2014

Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski

Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski, não é uma obra fácil. É curta, pouco mais de cem páginas. Mas é muito densa. Não recomendo ler num ambiente desfavorável à concentração.

O narrador sem nome, o Homem do Subsolo, é um personagem profundamente atormentado. Muda de idéia o tempo todo, corrige o que acabou de dizer, confessa que mentiu. Na primeira parte, falando do seu tempo presente, nos conta que tem quarenta anos, está doente, abandonou um cargo público humilde porque recebeu uma herança modesta e vive isolado da sociedade. Conhecemos sua visão de mundo. É culto, instruído, inteligente. Tem um profundo desprezo pelas pessoas e pela sociedade, mas tem um desprezo maior por si mesmo, pelo fracasso de sua vida. Na segunda parte, narra três histórias que aconteceram com ele catorze anos antes, e que ilustram suas dificuldades em se relacionar com as pessoas.

Temos vontade de voltar a São Petersburgo de 1860 e socar o Homem do Subsolo. Como ele pode ser tão idiota? Como pode dar tanto valor ao que é irrelevante e prejudicar tanto a si mesmo e aos outros?

Porém, não temos como discordar de parte das idéias que ele defende. E defende em seus atos, de maneira especialmente dolorosa para si mesmo, embora possamos perceber que ele sente satisfação em sofrer. O Homem do Subsolo faz talvez a melhor defesa que eu já vi do livre-arbítrio. O ser humano pode saber o que é melhor para si mesmo, mas desejar o que é pior. Como diz Ovídio, nas Metamorfoses, “video meliora proboque deteriora sequor”. “Vejo o que é melhor e o aprovo, mas persigo o que é pior.” E o Homem do Subsolo afirma radicalmente o direito de se perseguir o que é pior. Nestes tempos em que a Alana quer proibir as propagandas de bolacha, os ovos de Páscoa com brindes e o McLanche Feliz, precisamos ler Memórias do Subsolo.

Lembrei-me do personagem F. Alexander, de A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Ele escreve um livro num estilo extremamente pedante, também chamado A Laranja Mecânica, no qual defende o livre-arbítrio e, em seguida, sua família é atacada violentamente por Alex, que personifica a aplicação de suas idéias. Mas ele está certo e exprime exatamente o pensamento de Anthony Burgess. O Homem do Subsolo faz mais ou menos a mesma coisa com as idéias de Dostoiévski.

Memórias do Subsolo foi escrito em resposta a O Que Fazer?, de Nikolai Tchernichévski, um autor comunista que influenciou Marx. Tolstói e Lênin escreveram obras também intituladas O Que Fazer?, por causa do livro de Tchernichévski. O título é uma citação de Lucas 3:10-14. O fato do título de um livro de Lênin vir do Evangelho é uma demonstração da frase de Shakespeare em O Mercador de Veneza, de que até o Diabo pode citar as Escrituras para seus objetivos.

Só li Memórias do Subsolo uma vez. Preciso ler novamente, para comparar o que o Homem do Subsolo diz na primeira parte com o que sei agora da segunda. Quero procurar também o livro de Tchernichévski. Na verdade, Dostoiévski dá uma grande vontade de sair pesquisando a literatura russa.

domingo, 6 de julho de 2014

A Morte e a Donzela, de Ariel Dorfman

Li, meio por acaso, a peça A Morte e a Donzela, de Ariel Dorfman. Tinha assistido o filme há muitos anos. Levei meus filhos à biblioteca municipal e vi o livro e peguei emprestado. Peças de teatro são curtas, li no mesmo dia.

Ariel Dorfman é um autor chileno conhecido pela obra Para Ler o Pato Donald, escrita em parceria com Armand Mattelard. É uma coleção de bobagens sobre o universo Disney, que li também há muitos anos.

A Morte e a Donzela se passa no Chile (ou em algum país latino-americano), pouco depois do fim de uma ditadura militar. Os três personagens são: Paulina Salas, uma mulher que, 15 anos antes, foi torturada pela ditadura; Gerardo Escobar, advogado, marido de Paulina; e Roberto Miranda, um médico. Gerardo tem um problema com o carro e, por acaso, Roberto o ajuda e o leva para casa. Paulina acredita reconhecer Roberto como o principal dos seus torturadores e o seqüestra. Essa é a situação em que a peça se desenvolve.

Ariel Dorfman não diz quase nada sobre as convicções políticas de Paulina. Ela é A Vítima. É forte, corajosa. Está abalada por tudo o que passou, mas sabe o que está fazendo. Nunca denunciou Gerardo enquanto era torturada. Podemos presumir que seja comunista, mas só sabemos que, quando foi presa, ajudava outras pessoas perseguidas a saírem do país.

Roberto Miranda é o vilão evidente. A peça não deixa realmente claro se ele era culpado. Pode ser tudo uma ilusão de Paulina, mas isso é improvável. É óbvio que um torturador é uma figura odiosa. Ele é obrigado por Paulina a gravar e a escrever uma confissão, na qual conta que seu pai teve um infarto quando os comunistas expropriaram sua fazenda, que resolveu se juntar aos militares para minorar o sofrimento dos presos, mas tomou gosto pela coisa e se aproveitou de muitas mulheres torturadas. É totalmente asqueroso, mas não temos certeza se é ele mesmo.

O maior vilão da peça é mesmo Gerardo Escobar, que representa as forças democráticas que assumiram o governo. Ele é covarde, mentiroso, ambicioso, egoísta, hipócrita. Mente para Paulina na primeira cena, negando que já tenha aceito o convite do presidente da República para comandar uma comissão para investigar crimes contra os direitos humanos. Diz a ela que só aceitará se ela concordar, mas já aceitou. Enquanto ela estava presa, sendo torturada, Gerardo arranjou outra mulher. Também mente para Paulina sobre isso. Só pensa em sua carreira, não em Paulina, nem no povo. Sobre Gerardo, não temos dúvidas. Ariel Dorfman quer nos convencer de que não devemos confiar naqueles que defendem a democracia e de que a violência sofrida pelos torturados justifica qualquer coisa.

Por último, uma palavra sobre a anistia, que é o grande tema da peça. Se for possível derrotar uma ditadura pela força, não é necessária nenhuma anistia. Punem-se todos os membros do antigo regime à vontade. Caso contrário, considera-se que o melhor para o país é deixar de lado os crimes cometidos pelos agentes da ditadura, como condição para o fim do arbítrio. Uma anistia não perdoa esses crimes. Considera que esquecê-los é um mal menor, em troca do bem maior que é a conquista da liberdade. Sendo assim, as anistias devem ser respeitadas.

Evidentemente, os outros países não têm nada a ver com isso. Não é por que houve uma anistia no Brasil que Fernando Gabeira ou Franklin Martins poderão algum dia por os pés nos Estados Unidos, depois de terem seqüestrado o embaixador americano. Da mesma forma, os torturadores brasileiros correm grande risco de prisão se saírem do Brasil. Isso é normal e correto. O que não é normal nem correto é brasileiros continuarem tentando reverter o pacto que nos trouxe liberdade política.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Não tem Cavalo de Troia na Ilíada

Terminei de ler a Ilíada. Será que só eu não sabia que a Ilíada acaba ainda muito antes do fim da Guerra de Troia?

Não constam do texto nem o Cavalo de Troia, nem a morte de Ájax ou de Páris, nem a flecha no calcanhar de Aquiles. Até quase o final do texto, Cassandra não é mencionada. Ela aparece, por fim, numa ponta, sendo a primeira a ver Príamo retornando. O fato de Cassandra ter o poder da profecia, mas ninguém acreditar nela, também não está na Ilíada.

É fascinante pensar no poder do livro, da escrita. Acabei de ler um texto literário produzido há cerca de três mil anos, e que ocupou a mente de pessoas como Platão, Alexandre da Macedônia, Dante, Thomas Hobbes, Shakespeare, John Stuart Mill. Pude rir das mesmas coisas que possivelmente fizeram rir leitores tão diferentes, de tantas épocas e lugares. É o melhor meio que conheço para, de alguma maneira, viajarmos no tempo. Homero está presente entre nós em 2014. Podemos visitar, por intermédio dele, a Grécia do século VIII AC, quando a Ilíada foi composta.

Aquiles conversa com seus cavalos
O escudo de Aquiles
A morte de Pátroclo

terça-feira, 25 de março de 2014

Aquiles conversa com seus cavalos

Automedonte com os Cavalos de Aquiles
Henri Regnault, 1868
Óleo sobre tela

No canto XIX da Ilíada, Aquiles conversa com seus cavalos. Segue o texto de Homero:

«Automedonte e Alcimo ocupavam-se em atrelar os cavalos, atirando-lhes em torno formosas coelheiras, colocando-lhes o freio na boca e puxando as rédeas para trás, para a caixa bem ajustada do carro. Com o chicote brilhante e cômodo na mão, saltou para o carro Automedonte; atrás dele, de armadura, subiu Aquiles, resplandescente sob as armas como o luminoso Hipérion; e, com voz terrível, gritou para os cavalos de seu pai:

— Xanto e Bálio, célebres filhos de Podargo, pensai, com o coração inteiramente diverso, em trazer outra vez são e salvo seu condutor para o meio dos gregos, quando nos cansarmos de matança; não o deixeis lá, morto, como deixastes Pátroclo.

Então, debaixo do jugo, um cavalo de fúlgidos pés respondeu-lhe — era Xanto — inclinando a cabeça, enquanto a crina, escapando à coelheira ao longo do jugo, chegava até o chão; e quem lhe deu o dom da palavra foi Hera, a deusa dos alvos braços:

— Certo é que ainda hoje te salvaremos, esmagador Aquiles. Mas próximo está o dia de tua perda; e não seremos nós os responsáveis, mas um grande deus e o poderoso Destino. Pois não foi por nossa desídia nem por nossa indolência que os troianos, dos ombros de Pátroclo lhe arrancaram as armas; mas o poderoso deus, gerado por Leto de belos cabelos, matou-o na vanguarda dos troianos e deu a glória a Heitor. Acompanharíamos ambos o sopro de Zéfiro na corrida, embora seja, como dizem, o mais rápido dos seres. Mas tu, teu destino é ser vencido, à força, por um deus e por um homem.

Depois que assim falou, as Eríneas restauraram a ordem da natureza e lhe tiraram a fala. Com um profundo suspiro, respondeu Aquiles dos pés ligeiros:

— Xanto, por que predizes minha morte? Não precisavas. Bem sei que meu destino é perecer aqui, longe de meu pai e de minha mãe. Contudo, não deixarei de lutar enquanto não tiver rechaçado os troianos.»

Não tem Cavalo de Troia na Ilíada
O escudo de Aquiles
A morte de Pátroclo

sábado, 22 de março de 2014

O escudo de Aquiles


No Canto XVIII da Ilíada, Tétis pede a Hefesto que faça uma armadura para seu filho Aquiles. A que ele tinha antes foi emprestada a Pátroclo e tomada por Heitor. Hefesto, por ser manco, havia sido jogado do Olimpo por sua mãe, Hera, e foi então  criado por Tétis durante nove anos. O deus ferreiro aceitou a incumbência. Fez a armadura e um escudo em uma noite. Homero descreve assim o escudo de Aquiles:

«Fez primeiro um escudo, grande, robusto, bem trabalhado em todos os sentidos. Adaptou-lhe em torno uma orla tripla, brilhante, ofuscante, e nela prendeu uma correia de prata. Havia cinco placas no escudo propriamente dito; e Hefesto nelas entalhou, com arte sábia, primorosos ornatos.

Nele representou a terra, e o céu, e o mar, o sol infatigável e a lua cheia, e todos os astros que coroam o céu, as Plêiades, as Híades, o poderoso Órion e a Ursa, também chamada o Carro, que gira sobre si mesma espiando Órion, e é a única que não se banha no Oceano.

Nele cinzelou duas cidades humanas, belas. Em uma, havia bodas e festins. Os noivos, de seus aposentos, sob as tochas brilhantes, eram levados para a cidade, e em toda parte se erguia o hino nupcial. Giravam jovens dançarinos, em cujo meio se ouviam liras e flautas. As mulheres, em pé, admiravam, cada qual defronte de sua porta. Na praça pública, reunira-se a multidão. Ali surgira uma briga. Dois homens altercavam-se sobre o resgate de sangue de um homem assassinado. Um afirmava haver dado tudo e declarava-o diante do povo, o outro dizia nada haver recebido. Os dois invocavam uma testemunha, para por fim à disputa. A multidão gritava, em parte favorável a um, em parte a outro, ora apoiando um, ora apoiando outro; arautos continham a plebe. Os anciãos estavam sentados em pedras polidas, no círculo sagrado. Empunhavam-lhes os cetros arautos cuja voz faz tremer o ar. Depois, tomando-os dos arautos, eles adiantavam-se e emitiam sua opinião, cada qual por sua vez. No meio estavam depositados dois talentos de ouro, para aquele que, entre eles, pronunciasse o julgamento mais reto.

Em torno da outra cidade acampavam dois exércitos, brilhantes sob as armas. As alternativas discutidas pelos sitiantes eram destruí-la ou tomar a metade dos bens encerrados na belíssima cidade. Mas os sitiados não cediam e, preparando uma emboscada, armavam-se em segredo. A muralha era defendida pelas mulheres, pelas crianças e pelos velhos. Os outros marchavam, capitaneados por Ares e Palas Atena, ambos de ouro e vestidos de ouro, belos e grandes com as armas, como deuses, e perfeitamente reconhecíveis: os soldados, abaixo, eram menores. Chegados ao lugar apropriado para a emboscada, no leito do rio que servia de bebedouro a todos os rebanhos, lá se postaram, cobertos de bronze chamejante. À distância da tropa havia dois vigias, esperando ver os carneiros e bois de chifres recurvos, que não tardaram em surgir diante deles, seguidos de dois pastores, entretidos em tocar flauta, inteiramente alheios à cilada. Vendo-os, correram sobre eles os homens escondidos. Rápidos, afastaram as manadas de bois e os belos rebanhos de alvos carneiros, e mataram os pastores.

Ouvindo o grande alarido feito em torno dos bois, à frente do local em que estavam reunidos, os sitiantes montaram imediatamente nos carros de cavalos campeadores, para lá se dirigiram e lá chegaram num abrir e fechar de olhos. Tomando posição, travavam batalha nas margens do rio; e os combatentes golpeavam-se uns aos outros com as lanças de pontas de bronze. A eles se misturavam a Discórdia, o Tumulto e o lamentável Destino, que segurava um homem vivo apesar de ferido, outro ileso e outro morto, que, através da luta, arrastava pelos pés. O morto tinha as vestes, nos ombros, vermelhas do sangue dos homens. Esses personagens agitavam-se como homens vivos; combatiam, arrastavam para si os cadáveres uns dos outros.

No escudo, Hefesto gravou a macia terra de cultivo, uma terra rica, vasta e três vezes arada. Muitos lavradores faziam girar as parelhas de bois e as levavam para cá e para lá. Quando, tendo feito meia volta, voltavam ao limite do campo, tomavam uma taça de vinho doce como mel, oferecida por um homem que se adiantava. E retornavam ao sulco, ansiosos por chegar a orla da terra arada, que escurecia atrás deles, semelhando terra lavrada, embora fosse ouro. E esse trabalho era um maravilhoso primor.

Hefesto esculpiu ali também um campo real, onde ceifeiros trabalhavam, empunhando afiadas foices. Uma parte do trigo ceifado caía na terra e a outra os enfeixadores amarravam com cordas de palha. Havia três enfeixadores; atrás deles, apanhando o trigo e carregando-o nos braços, crianças forneciam-lhes sem cessar. Entre eles, empunhando o cetro, estava o rei em pé, num sulco, com o coração alegre. Arautos, mais adiante, debaixo de um carvalho, ocupavam-se da refeição. Tendo sacrificado um grande touro, preparavam-no; e as mulheres despejavam muita aveia branca sobre a carne, para o jantar dos ceifadores.

Hefesto tracejou também no escudo, todo carregado de uvas, um belo vinhedo dourado; uvas negras campeavam no alto das cepas, em toda parte sustentadas por tanchões de prata. Em torno, traçou um fosso de esmalte azul-escuro e, em toda a extensão, uma cerca de estanho. Somente um caminho a atravessava, à qual se chegava por um atalho único, pelo qual seguiam os vindimadores no tempo da colheita. Moças e rapazes, cheios de ternos sentimentos, carregavam nas cestas trançadas o fruto doce como mel. No meio deles, uma criança, dedilhando a cítara de som claro, tocava com muita graça e, acompanhando-se da melodia, entoava, com voz meiga, uma linda canção de Lino. Os outros, tocando o solo ao mesmo tempo, seguiam o ritmo do canto e da meiga voz com os pés dançarinos.

Hefesto lavrou no escudo um rebanho de vacas de chifres retos. Essas vacas eram de ouro e de estanho; mugindo, seguiam do curral ao pasto, ao pé de ressoante rio, margeado por juncos ondulantes. Pastores de ouro acompanhavam-nas; eram quatro, seguidos de nove cães velozes. Terríveis, dois leões, no meio das primeiras vacas, agarravam um touro que mugia. Este, com longos bramidos, era arrastado; os cães e os rapazes perseguiam os dois leões, que, tendo rasgado a pele do grande animal, lhe devoravam as entranhas e o sangue negro. Os pastores em vão os perseguiam, atiçando os cães velozes. Estes se recusavam a morder os leões, latindo perto deles e evitando-os.

Hefesto, o ilustre manco, desenhou ainda um pasto em formoso vale, extenso pasto de alvas ovelhas, com estábulos, tendas cobertas e redis.

Nele colocou o ilustre manco um coro variado, semelhante àquele que, outrora, na vasta Cnossos, Dédalo executou para Ariadne de belas tranças. No coro, moças e rapazes que valiam muitos bois dançavam de mãos dadas. Elas trajavam vestidos de fino linho e eles vestiam bem tecidas túnicas, que brilhavam com o suave brilho do óleo; elas traziam belas coroas, e eles, punhais de ouro suspensos em cintos de prata. Às vezes, corriam agilmente formando uma roda, com os hábeis pés, com extrema facilidade, como um oleiro experimenta sua roda; outra vezes, ao contrário, corriam alinhados uns para os outros. Uma multidão cercava, fascinada, o coro encantador. Entre os bailarinos, cantava um divino poeta, que dedilhava a cítara, e dois acrobatas, cujo ritmo era marcado pelo canto, rodopiavam no meio.

Hefesto colocou ainda o grande poder do rio Oceano na borda extrema do escudo solidamente construído.»

Não tem Cavalo de Troia na Ilíada
Aquiles conversa com seus cavalos
A morte de Pátroclo

sexta-feira, 21 de março de 2014

A morte de Pátroclo

Pátroclo veste a armadura de Aquiles e parte
 para a batalha, apenas para ser morto por Heitor

Impressão gicleé por Henry Singleton
Estou lendo a Ilíada. Achei interessante o trecho a seguir. Pátroclo está liderando os aqueus num ataque contra os troianos. Apolo o envolve em escuridão, tira sua armadura e o golpeia. Euforbo o fere nas costas com a lança. Segue o texto de Homero:

«Quando Heitor viu o magnânimo Pátroclo recuar, ferido pelo bronze agudo, aproximou-se dele, atravessando as fileiras; e feriu-o, com a lança, no flanco, embaixo, empurrando o bronze através da carne. Com estrondo, caiu Pátroclo e grande foi a aflição nas tropas aqueias. Assim como o infatigável javali sucumbe ao ardoroso ataque de um leão: ambos, no pico de uma montanha, batem-se furiosos por uma magra fonte em que querem beber os dois; e o javali, arquejante, é vencido, à força, pelo leão; assim Heitor, filho de Príamo, tirou a vida do valente filho de Menoécio, que muitos homens matara, e, triunfante, proferiu estas palavras aladas:

“Pátroclo, pretendias saquear nossa cidade, roubar das mulheres troianas o dia da liberdade e levá-las, em teus navios, à tua pátria. Insensato! Diante delas, os velozes cavalos de Heitor se lançaram à batalha. E com meu pique, entre os bravos troianos, me distingo, afastando o dia fatal. Entretanto, aqui, hão de os abutres te devorar. Desgraçado! Apesar de todo o seu valor, não te ajudou Aquiles e, sem dúvida, quedando-se à parte, mil vezes te recomendou, a ti que marchavas: ‘Não voltes para mim, Pátroclo que os cavalos conduzem, para perto dos ocos navios, enquanto não houveres ensanguentado a túnica e rasgado o peito do mortífero Heitor.’ Assim, sem dúvida, falou ele, e persuadiu-te o espírito, insensato.”

Em tua fraqueza, tu lhe respondeste, cavaleiro Pátroclo:

“Agora, Heitor, triunfa bem. Eis que Zeus, filho de Cronos, e Apolo deram-te a vitória, eles que facilmente me mataram. Eles próprios arrancaram a armadura de meus ombros! Se vinte homens como tu me tivessem enfrentado, todos, de golpe, teriam perecido, suplantados por minha lança. Mas a mim, foram o destino funesto e o filho de Leto que me mataram e, entre os homens, Euforbo. Chegaste em terceiro lugar, e agora me despojas!

Entretanto, mais uma palavra ainda, e guarda-a bem guardada em tua alma: tu mesmo já não viverás por muito tempo. Perto de ti já se erguem a morte e o destino pujante. E serás vencido pela mão de Aquiles, o admirável Eácida.”

Disse, e foi o fim; envolveu-o a morte. Desligando-se-lhe dos membros, voou-lhe a alma para junto de Hades, lastimando sua sorte, deixando a virilidade e a juventude.

Embora ele estivesse morto, respondeu-lhe o glorioso Heitor:

“Pátroclo, por que me predizes o abismo fatal? Quem sabe se Aquiles, filho de Tétis de belos cabelos louros, não morrerá antes de mim, ferido por minha lança?”

Tendo falado, arrancou da ferida a lança de bronze, com o pé sobre o cadáver, que atirou, de costas, para longe do pique. E, sem demora, marchou contra Automedonte, semelhante a um deus, escudeiro do Eácida de pés ligeiros, desejando feri-lo. Este, porém , era levado pelos rápidos cavalos imortais, magnífico presente que os deuses haviam dado a Peleu.»

P.S.: É interessante como alguém que está morrendo consegue dizer tudo isso. E como é possível parar a batalha para conversar assim.

Não tem Cavalo de Troia na Ilíada
Aquiles conversa com seus cavalos
O escudo de Aquiles

sábado, 8 de março de 2014

Trecho de “Sodoma e Gomorra”

Trecho de Sodoma e Gomorra, quarto volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

O Narrador está em uma recepção na casa do Príncipe de Guermantes, procurando algum convidado que o apresente ao anfitrião. Uma mulher vem cumprimentá-lo, chama-o pelo nome, mas ele não consegue se lembrar do nome dela por algum tempo. De repente, o nome surge: Sra. de Arpajon. O Narrador divaga sobre o funcionamento da memória e o processo de tentarmos nos lembrar de algo. Do texto de Proust:

«“Tudo isto”, dirá o leitor, “nada me informa da falta de solicitude dessa dama; mas, já que demorou tanto tempo, deixe-me, senhor autor, fazê-lo perder mais um minuto para dizer que é lamentável que, jovem como o sr. era (ou como era o seu herói, caso não seja o sr.) já tivesse tão pouca memória a ponto de não poder se lembrar do nome de uma dama que conhecia tão bem.” De fato é lamentável, senhor leitor. E, mais triste do que o sr. pensa, quando se sente aí o anúncio do tempo em que os nomes e as palavras desaparecerão da zona clara do pensamento, e onde será preciso renunciar para sempre a dizer para nós mesmos os nomes daqueles a quem melhor conhecemos. É lamentável, de fato, que desde a juventude se necessite desse trabalho para reencontrar nomes que se conhecem bem. Mas, se essa deficiência só ocorresse quanto aos nomes mal conhecidos, muito naturalmente esquecidos, e de que ninguém se dá ao trabalho de tentar recordar, tal deficiência não deixaria de ter suas vantagens. “E quais são, se me faz o favor?” Bem, meu senhor, é que só o mal faz a gente reparar e aprender, permitindo decompor os mecanismos que, sem isso, não conheceríamos. Um homem que todas as noites tomba como uma massa no seu leito e não vive mais até o momento de acordar e se erguer, por acaso esse homem pensará alguma vez em fazer, se não grandes descobertas, ao menos pequeninas observações sobre o sono? Mal sabe ele se dorme. Um pouco de insônia não é inútil para dar valor ao sono, projetar alguma luz sobre essa noite. Uma memória sem falhas não é um excitante muito poderoso para estudar os fenômenos da memória. “Enfim, a Sra. de Arpajon o apresentará ao príncipe?” Não, mas cale-se e deixe-me retomar minha narrativa.»

Leituras recentes

Não estou tendo tempo para escrever sobre os livros que li ultimamente. Terminei O Caminho de Guermantes, terceiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Quero fazer um post com trechos do final do livro, mas não sei quando vou conseguir.

Li Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão em 38 Estratagemas (Dialética Erística), de Arthur Schopenhauer, comentado por Olavo de Carvalho. Também merece um bom post.

E o melhor livro que li no ano passado, Less Than One, de Joseph Brodsky, merece alguns posts.

Enquanto nada disso sai, vou publicar um trecho de Sodoma e Gomorra, quarto volume de Em Busca do Tempo Perdido.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Duas citações curiosas de O Caminho de Guermantes

Achei curiosas estas duas citações que encontrei em O Caminho de Guermantes, de Marcel Proust.
"As pessoas da sociedade ficavam estupefatas com aquilo [a duquesa de Guermantes ter abdicado da temporada de jantares do ano para visitar os fiordes da Noruega] e, sem se preocuparem em imitar a duquesa, sentiam no entanto, com o seu ato, a espécie de alívio que se tem em Kant quando, após a mais rigorosa demonstração do determinismo, descobre-se que acima do mundo da necessidade existe o da liberdade."
Sem dúvida, bem poucas pessoas passaram pela experiência desse alívio.
"Dentre os elementos que, ausentes dos outros dois ou três salões mais ou menos equivalentes que estavam à frente do faubourg Saint-Germain, diferenciavam destes o salão da duquesa de Guermantes, como Leibnitz admite que cada mônada, refletindo todo o universo, acrescenta-lhe algo particular, um dos menos simpáticos era habitualmente fornecido por uma ou duas mulheres muito belas que ali só se achavam por sua beleza, pelo uso que dela fizera o Sr. de Guermantes, e cuja presença revelava logo, como em outros salões, certos quadros inesperados, que, neste, o marido era um ardente apreciador das graças femininas. Todas se pareciam um pouco, pois o duque possuía o gosto das mulheres altas, a um tempo desenvoltas e majestosas, de um gênero intermediário entre a Vênus de Milo e a Vitória da Samotrácia, freqüentemente louras, raramente morenas, às vezes ruivas[...]"
Acho que a intenção de Proust não é explicar melhor as situações narradas, comparando-as com o pensamento de Kant e Leibnitz e com as estátuas gregas, mas, pelo contrário, chamar atenção para a filosofia e a escultura, usando como metáforas as situações que cria.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Proust, sobre a amizade

Achei curioso este trecho de O Caminho de Guermantes, em que Proust fala mal da amizade. Não publico por concordar com ele, mas pelo estranhamento que provocou em mim.

É interessante que ele cite Nietzsche, que é a base filosófica de grande parte de sua obra. Também chama a atenção que Proust enuncie expressamente um dos temas obsessivos de Em Busca do Tempo Perdido: a incomunicabilidade do que existe de mais importante no ser humano, incomunicabilidade essa que só pode ser vencida por meio da arte. O último ponto a ressaltar é que Proust certamente se via como (e era de fato) o artista que traz dentro de si uma obra-prima e cujo dever seria viver para trabalhar. Mesmo assim, adiou por anos o início de seu trabalho e de fato morreu antes de lhe dar a forma final.

Aqui vai o trecho:

«Já disse (e precisamente fora, em Balbec, Robert de Saint-Loup quem me ajudara, a seu pesar, a tomar consciência disso) o que penso da amizade, a saber: que vale tão pouco, que me custa compreender que homens de certo talento, como Nietzsche, por exemplo, tenham tido a ingenuidade de lhe atribuir um certo valor intelectual e, em conseqüência, recusar-se às amizades a que não estivesse ligada a estima intelectual. Sim, espantou-me sempre ver que um homem que levava a sinceridade consigo mesmo a ponto de se afastar, por escrúpulo de consciência, da música de Wagner, imaginasse que a verdade pode cumprir-se nesse modo de expressão, confuso e inadequado por natureza, que são em geral as ações e, em particular, as amizades, e que possa haver um sentido qualquer no fato de alguém deixar o trabalho para ir visitar um amigo e juntos chorarem ao saber da falsa notícia do incêndio do Louvre. Em Balbec, eu chegara a considerar o prazer de jogar com as moças menos funesto à vida espiritual, à qual pelo menos ele permanece alheio, do que a amizade, cujo esforço inteiro consiste em nos fazer sacrificar a única parte real e incomunicável de nós próprios (a não ser por meio da arte) a um eu superficial que não encontra, como o outro, alegria em si mesmo e sim o enternecimento confuso de se sentir sustentado por estacas externas, hospitalizado numa individualidade estranha, onde, feliz com a proteção que lhe é dada, faz reluzir seu bem-estar aprobativo e se maravilha com qualidades a que chamaria defeitos e buscaria corrigir em si mesmo. Além do mais, os difamadores da amizade podem, sem ilusões e não sem remorsos, ser os melhores amigos do mundo, da mesma forma que um artista que traz dentro de si uma obra-prima e que sente que o seu dever seria viver para trabalhar, apesar disso, para não parecer ou arriscar-se a ser egoísta, dá sua vida por uma causa inútil, e a concede com bravura tanto maior quanto mais desinteressadas fossem as razões pelas quais preferiria não concedê-la. Mas, seja qual for minha opinião acerca da amizade, até para só falar do prazer que ela me proporcionava, de qualidade tão medíocre que me parecia algo intermediário entre o cansaço e o tédio, não há beberagem tão funesta que não possa, em determinados momentos, tornar-se preciosa e reconfortante, dando-nos a excitação necessária, o calor que não conseguíamos encontrar em nós mesmos.»

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges

Estou tentando ler em 2014 o que não consegui em 2013. Neste final de semana, li O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges.

Aprecio muito os contos de Borges. Ele cria atmosferas opressivas e ficamos felizes porque não são reais. São frequentes os desfechos surpreendentes, a violência repentina, as referências à arte, especialmente literatura.

O conto de que mais gostei foi "O Suborno", que conta a história de um conflito entre dois professores de inglês antigo em uma universidade americana. "Avelino Arredondo" também é muito bom. Narra, de maneira romanceada, extremamente sutil e original, um fato da história do Uruguai. E "A Noite das Dádivas" é uma história intensa de passagem do mundo da infância para o mundo adulto. De todos, o que menos me agradou foi aquele que Borges mais apreciava, "O Congresso". Talvez não o tenha entendido bem.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Cavalo e Seu Menino, de C. S. Lewis

Terminei de ler, com a minha filha, O Cavalo e Seu Menino, de C. S. Lewis. É o quinto livro de Crônicas de Nárnia que lemos juntos.

É difícil descrever o quanto é especial a experiência de ler com ela. Às vezes, ela se empolga com a história. Às vezes, faz exatamente a pergunta que um personagem vai fazer. Às vezes, para entender melhor uma situação, tenta imitar como seria o gesto, o salto, a dança dos personagens. A imaginação, o vocabulário, a cultura se enriquecem.

E o texto das Crônicas de Nárnia é cheio de questionamentos morais. Essa atitude é boa ou ruim? Qual a motivação desse personagem? Os heróis de Lewis têm fraquezas, erram, julgam-se melhores do que são. São oportunidades para refletirmos.


Não preciso concordar sempre com o autor. Se ele pensa uma coisa e eu penso o contrário, isso também é motivo para conversar com minha filha. Não sou perfeito, o autor não é perfeito, ninguém é perfeito.

O enredo não importa muito. Crianças, animais falantes, fugas, travessias, batalhas. O que importa realmente é o fato de vivermos juntos essas aventuras.

sábado, 6 de julho de 2013

Crepúsculo Sertanejo, de Castro Alves

A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.
A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.
A tarde morria! Mas funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro…
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.
Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um — silêncio!… Talvez uma — orquestra…
Da folha, do cálix, das asas, do inseto…
Do átomo — à estrela… do verme — à floresta!…
As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas, — da brisa ao açoite —;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça co’as penas da noite!
Somente por vezes, dos jungles das bordas
Dos golfos enormes, daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos — um touro selvagem.
Então as marrecas, em torno boiando,
O voo encurvavam medrosas, à toa…
E o tímido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!…

sábado, 6 de abril de 2013

Less than One, de Joseph Brodsky


Estou lendo Less than One, coletânea de ensaios de Joseph Brodsky. Comprei o livro por causa de um texto maravilhoso, A Commencement Address, cuja tradução publiquei aqui.

No primeiro ensaio, que dá título à coletânea, podemos ler este parágrafo, que traduzo a seguir:

I guess there was always some “me” inside that small and, later, somewhat bigger shell around which “everything” was happening. Inside that shell the entity which one calls “I” never changed and never stopped watching what was going on outside. I am not trying to hint at pearls inside. What I am saying is that the passage of time does not much affect that entity. To get a low grade, to operate a milling machine, to be beaten up at an interrogation, or to lecture on Callimachus in a classroom is essentially the same. This is what makes one feel a bit astonished when one grows up and finds oneself tackling the tasks that are supposed to be handled by grownups. The dissatisfaction of a child with his parents’ control over him and the panic of an adult confronting a responsibility are of the same nature. One is neither of these figures; one is perhaps less than “one”.

Acho que sempre existe alguma parte de “mim” dentro daquela concha pequena e, mais tarde, um pouco maior, em volta da qual “tudo” acontecia. Dentro daquela concha, a entidade que se chama de “eu” nunca mudou e nunca parou de observar o que acontecia do lado de fora. Não estou tentando sugerir que haja pérolas do lado de dentro. O que estou dizendo é que a passagem do tempo não afeta muito aquela entidade. Tirar uma nota baixa, trabalhar com uma fresadora, ser espancado num interrogatório ou dar uma aula sobre Calímaco é essencialmente a mesma coisa. É isso que faz com que as pessoas se sintam um pouco espantadas quando se tornam adultos e se percebem enfrentando tarefas que supostamente são tratadas por adultos. O descontentamento de uma criança com o controle de seus pais e o pânico de um adulto diante de uma responsabilidade são da mesma natureza. Cada um de nós não é nenhuma dessas figuras; cada um é talvez menos que “um”.

domingo, 24 de março de 2013

A Cadeira de Prata, de C. S. Lewis


Terminei de ler A Cadeira de Prata, de C. S. Lewis, para minha filha. É o quarto livro das Crônicas de Nárnia que leio para ela.

Gostamos muito de Brejeiro (Puddleglum), o paulama, o personagem sempre pessimista, que espera pelo pior de qualquer situação. Mesmo não acreditando que pode atingir seus objetivos, Brejeiro tem um fortíssimo senso de dever e é quem impele os outros personagens a persistir quando tendem a desanimar.

Minha filha quis ler sozinha as últimas páginas e isso também é uma grande satisfação para mim. Estamos decidindo se vamos continuar em Nárnia ou escolher outro livro para lermos juntos.

sábado, 2 de março de 2013

Trecho d'O Caminho de Guermantes (II)


Certa manhã, Saint-Loup me confessou que escrevera à minha avó para lhe dar notícias a meu respeito e lhe sugerir a idéia de conversar comigo, já que estava em funcionamento um serviço telefônico entre Doncières e Paris. Em breve, no mesmo dia, ela devia me mandar chamar ao aparelho, e ele me aconselhou que estivesse às quinze para as quatro no posto. Àquela época, o telefone ainda não era de uso tão corrente como hoje. E, no entanto, o hábito leva tão pouco tempo para despojar de seu mistério as forças sagradas com que estamos em contato que, não tendo conseguido imediatamente a minha ligação, a única idéia que tive foi de que aquilo era tão demorado, tão incômodo, que quase acabei fazendo uma queixa: como todos nós agora, eu não achava bastante rápida, à minha disposição, em suas bruscas mudanças, a admirável magia pela qual são suficientes uns poucos instantes para que surja junto a nós, invisível mas presente, a criatura a quem desejávamos falar e que, ficando à sua mesa, na cidade em que mora (no caso de minha avó era Paris), sob um céu diverso do nosso, durante um tempo que não é forçosamente o mesmo, em meio a circunstâncias e preocupações que ignoramos e que essa criatura vai nos dizer, se acha de súbito transportada a centenas de léguas (ela e todo o ambiente em que permanece mergulhada), perto de nossos ouvidos, no momento em que nosso capricho assim ordenou. E somos como personagem do conto a quem uma fada, ante o desejo que ele exprime, faz surgir, banhada em claridade sobrenatural, a avó ou a noiva no ato de folhear um livro, de derramar lágrimas, de colher flores, tão perto do espectador e entretanto tão longe, no próprio local onde se encontra de verdade. […]

E logo que nosso chamado ressoou, na noite cheia de aparições para a qual só os nossos ouvidos se abrem, um leve ruído — um ruído abstrato — o da distância suprimida — e a voz do ser amado se dirige a nós.

É ele, é a sua voz que nos fala, que está ali. Mas como está longe! Quantas vezes não pude escutá-la sem angústia,  como se diante dessa possibilidade de ver, antes de longas horas de viagem, aquela cuja voz estava tão perto de meu ouvido, eu sentisse melhor o que há de decepcionante na aparência de uma reaproximação mais doce, e a que distância podemos estar das pessoas amadas no momento em que parece não termos mais que estender a mão para retê-las. Presença real a dessa voz tão próxima — na separação efetiva! Mas também antecipação de uma separação eterna! Com muita freqüência, escutando desse modo, sem ver quem me falava de tão longe, pareceu-me que essa voz clamava das profundezas de onde não se sobe, e conheci a ansiedade que ia me estreitar um dia, quando uma voz voltasse assim (sozinha e já não presa a um corpo que eu não devia rever nunca mais) a cochichar no meu ouvido palavras que eu gostaria de beijar de passagem sobre lábios para sempre em pó.