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sexta-feira, 28 de março de 2014

Não tem Cavalo de Troia na Ilíada

Terminei de ler a Ilíada. Será que só eu não sabia que a Ilíada acaba ainda muito antes do fim da Guerra de Troia?

Não constam do texto nem o Cavalo de Troia, nem a morte de Ájax ou de Páris, nem a flecha no calcanhar de Aquiles. Até quase o final do texto, Cassandra não é mencionada. Ela aparece, por fim, numa ponta, sendo a primeira a ver Príamo retornando. O fato de Cassandra ter o poder da profecia, mas ninguém acreditar nela, também não está na Ilíada.

É fascinante pensar no poder do livro, da escrita. Acabei de ler um texto literário produzido há cerca de três mil anos, e que ocupou a mente de pessoas como Platão, Alexandre da Macedônia, Dante, Thomas Hobbes, Shakespeare, John Stuart Mill. Pude rir das mesmas coisas que possivelmente fizeram rir leitores tão diferentes, de tantas épocas e lugares. É o melhor meio que conheço para, de alguma maneira, viajarmos no tempo. Homero está presente entre nós em 2014. Podemos visitar, por intermédio dele, a Grécia do século VIII AC, quando a Ilíada foi composta.

Aquiles conversa com seus cavalos
O escudo de Aquiles
A morte de Pátroclo

terça-feira, 25 de março de 2014

Aquiles conversa com seus cavalos

Automedonte com os Cavalos de Aquiles
Henri Regnault, 1868
Óleo sobre tela

No canto XIX da Ilíada, Aquiles conversa com seus cavalos. Segue o texto de Homero:

«Automedonte e Alcimo ocupavam-se em atrelar os cavalos, atirando-lhes em torno formosas coelheiras, colocando-lhes o freio na boca e puxando as rédeas para trás, para a caixa bem ajustada do carro. Com o chicote brilhante e cômodo na mão, saltou para o carro Automedonte; atrás dele, de armadura, subiu Aquiles, resplandescente sob as armas como o luminoso Hipérion; e, com voz terrível, gritou para os cavalos de seu pai:

— Xanto e Bálio, célebres filhos de Podargo, pensai, com o coração inteiramente diverso, em trazer outra vez são e salvo seu condutor para o meio dos gregos, quando nos cansarmos de matança; não o deixeis lá, morto, como deixastes Pátroclo.

Então, debaixo do jugo, um cavalo de fúlgidos pés respondeu-lhe — era Xanto — inclinando a cabeça, enquanto a crina, escapando à coelheira ao longo do jugo, chegava até o chão; e quem lhe deu o dom da palavra foi Hera, a deusa dos alvos braços:

— Certo é que ainda hoje te salvaremos, esmagador Aquiles. Mas próximo está o dia de tua perda; e não seremos nós os responsáveis, mas um grande deus e o poderoso Destino. Pois não foi por nossa desídia nem por nossa indolência que os troianos, dos ombros de Pátroclo lhe arrancaram as armas; mas o poderoso deus, gerado por Leto de belos cabelos, matou-o na vanguarda dos troianos e deu a glória a Heitor. Acompanharíamos ambos o sopro de Zéfiro na corrida, embora seja, como dizem, o mais rápido dos seres. Mas tu, teu destino é ser vencido, à força, por um deus e por um homem.

Depois que assim falou, as Eríneas restauraram a ordem da natureza e lhe tiraram a fala. Com um profundo suspiro, respondeu Aquiles dos pés ligeiros:

— Xanto, por que predizes minha morte? Não precisavas. Bem sei que meu destino é perecer aqui, longe de meu pai e de minha mãe. Contudo, não deixarei de lutar enquanto não tiver rechaçado os troianos.»

Não tem Cavalo de Troia na Ilíada
O escudo de Aquiles
A morte de Pátroclo

sábado, 22 de março de 2014

O escudo de Aquiles


No Canto XVIII da Ilíada, Tétis pede a Hefesto que faça uma armadura para seu filho Aquiles. A que ele tinha antes foi emprestada a Pátroclo e tomada por Heitor. Hefesto, por ser manco, havia sido jogado do Olimpo por sua mãe, Hera, e foi então  criado por Tétis durante nove anos. O deus ferreiro aceitou a incumbência. Fez a armadura e um escudo em uma noite. Homero descreve assim o escudo de Aquiles:

«Fez primeiro um escudo, grande, robusto, bem trabalhado em todos os sentidos. Adaptou-lhe em torno uma orla tripla, brilhante, ofuscante, e nela prendeu uma correia de prata. Havia cinco placas no escudo propriamente dito; e Hefesto nelas entalhou, com arte sábia, primorosos ornatos.

Nele representou a terra, e o céu, e o mar, o sol infatigável e a lua cheia, e todos os astros que coroam o céu, as Plêiades, as Híades, o poderoso Órion e a Ursa, também chamada o Carro, que gira sobre si mesma espiando Órion, e é a única que não se banha no Oceano.

Nele cinzelou duas cidades humanas, belas. Em uma, havia bodas e festins. Os noivos, de seus aposentos, sob as tochas brilhantes, eram levados para a cidade, e em toda parte se erguia o hino nupcial. Giravam jovens dançarinos, em cujo meio se ouviam liras e flautas. As mulheres, em pé, admiravam, cada qual defronte de sua porta. Na praça pública, reunira-se a multidão. Ali surgira uma briga. Dois homens altercavam-se sobre o resgate de sangue de um homem assassinado. Um afirmava haver dado tudo e declarava-o diante do povo, o outro dizia nada haver recebido. Os dois invocavam uma testemunha, para por fim à disputa. A multidão gritava, em parte favorável a um, em parte a outro, ora apoiando um, ora apoiando outro; arautos continham a plebe. Os anciãos estavam sentados em pedras polidas, no círculo sagrado. Empunhavam-lhes os cetros arautos cuja voz faz tremer o ar. Depois, tomando-os dos arautos, eles adiantavam-se e emitiam sua opinião, cada qual por sua vez. No meio estavam depositados dois talentos de ouro, para aquele que, entre eles, pronunciasse o julgamento mais reto.

Em torno da outra cidade acampavam dois exércitos, brilhantes sob as armas. As alternativas discutidas pelos sitiantes eram destruí-la ou tomar a metade dos bens encerrados na belíssima cidade. Mas os sitiados não cediam e, preparando uma emboscada, armavam-se em segredo. A muralha era defendida pelas mulheres, pelas crianças e pelos velhos. Os outros marchavam, capitaneados por Ares e Palas Atena, ambos de ouro e vestidos de ouro, belos e grandes com as armas, como deuses, e perfeitamente reconhecíveis: os soldados, abaixo, eram menores. Chegados ao lugar apropriado para a emboscada, no leito do rio que servia de bebedouro a todos os rebanhos, lá se postaram, cobertos de bronze chamejante. À distância da tropa havia dois vigias, esperando ver os carneiros e bois de chifres recurvos, que não tardaram em surgir diante deles, seguidos de dois pastores, entretidos em tocar flauta, inteiramente alheios à cilada. Vendo-os, correram sobre eles os homens escondidos. Rápidos, afastaram as manadas de bois e os belos rebanhos de alvos carneiros, e mataram os pastores.

Ouvindo o grande alarido feito em torno dos bois, à frente do local em que estavam reunidos, os sitiantes montaram imediatamente nos carros de cavalos campeadores, para lá se dirigiram e lá chegaram num abrir e fechar de olhos. Tomando posição, travavam batalha nas margens do rio; e os combatentes golpeavam-se uns aos outros com as lanças de pontas de bronze. A eles se misturavam a Discórdia, o Tumulto e o lamentável Destino, que segurava um homem vivo apesar de ferido, outro ileso e outro morto, que, através da luta, arrastava pelos pés. O morto tinha as vestes, nos ombros, vermelhas do sangue dos homens. Esses personagens agitavam-se como homens vivos; combatiam, arrastavam para si os cadáveres uns dos outros.

No escudo, Hefesto gravou a macia terra de cultivo, uma terra rica, vasta e três vezes arada. Muitos lavradores faziam girar as parelhas de bois e as levavam para cá e para lá. Quando, tendo feito meia volta, voltavam ao limite do campo, tomavam uma taça de vinho doce como mel, oferecida por um homem que se adiantava. E retornavam ao sulco, ansiosos por chegar a orla da terra arada, que escurecia atrás deles, semelhando terra lavrada, embora fosse ouro. E esse trabalho era um maravilhoso primor.

Hefesto esculpiu ali também um campo real, onde ceifeiros trabalhavam, empunhando afiadas foices. Uma parte do trigo ceifado caía na terra e a outra os enfeixadores amarravam com cordas de palha. Havia três enfeixadores; atrás deles, apanhando o trigo e carregando-o nos braços, crianças forneciam-lhes sem cessar. Entre eles, empunhando o cetro, estava o rei em pé, num sulco, com o coração alegre. Arautos, mais adiante, debaixo de um carvalho, ocupavam-se da refeição. Tendo sacrificado um grande touro, preparavam-no; e as mulheres despejavam muita aveia branca sobre a carne, para o jantar dos ceifadores.

Hefesto tracejou também no escudo, todo carregado de uvas, um belo vinhedo dourado; uvas negras campeavam no alto das cepas, em toda parte sustentadas por tanchões de prata. Em torno, traçou um fosso de esmalte azul-escuro e, em toda a extensão, uma cerca de estanho. Somente um caminho a atravessava, à qual se chegava por um atalho único, pelo qual seguiam os vindimadores no tempo da colheita. Moças e rapazes, cheios de ternos sentimentos, carregavam nas cestas trançadas o fruto doce como mel. No meio deles, uma criança, dedilhando a cítara de som claro, tocava com muita graça e, acompanhando-se da melodia, entoava, com voz meiga, uma linda canção de Lino. Os outros, tocando o solo ao mesmo tempo, seguiam o ritmo do canto e da meiga voz com os pés dançarinos.

Hefesto lavrou no escudo um rebanho de vacas de chifres retos. Essas vacas eram de ouro e de estanho; mugindo, seguiam do curral ao pasto, ao pé de ressoante rio, margeado por juncos ondulantes. Pastores de ouro acompanhavam-nas; eram quatro, seguidos de nove cães velozes. Terríveis, dois leões, no meio das primeiras vacas, agarravam um touro que mugia. Este, com longos bramidos, era arrastado; os cães e os rapazes perseguiam os dois leões, que, tendo rasgado a pele do grande animal, lhe devoravam as entranhas e o sangue negro. Os pastores em vão os perseguiam, atiçando os cães velozes. Estes se recusavam a morder os leões, latindo perto deles e evitando-os.

Hefesto, o ilustre manco, desenhou ainda um pasto em formoso vale, extenso pasto de alvas ovelhas, com estábulos, tendas cobertas e redis.

Nele colocou o ilustre manco um coro variado, semelhante àquele que, outrora, na vasta Cnossos, Dédalo executou para Ariadne de belas tranças. No coro, moças e rapazes que valiam muitos bois dançavam de mãos dadas. Elas trajavam vestidos de fino linho e eles vestiam bem tecidas túnicas, que brilhavam com o suave brilho do óleo; elas traziam belas coroas, e eles, punhais de ouro suspensos em cintos de prata. Às vezes, corriam agilmente formando uma roda, com os hábeis pés, com extrema facilidade, como um oleiro experimenta sua roda; outra vezes, ao contrário, corriam alinhados uns para os outros. Uma multidão cercava, fascinada, o coro encantador. Entre os bailarinos, cantava um divino poeta, que dedilhava a cítara, e dois acrobatas, cujo ritmo era marcado pelo canto, rodopiavam no meio.

Hefesto colocou ainda o grande poder do rio Oceano na borda extrema do escudo solidamente construído.»

Não tem Cavalo de Troia na Ilíada
Aquiles conversa com seus cavalos
A morte de Pátroclo

sexta-feira, 21 de março de 2014

A morte de Pátroclo

Pátroclo veste a armadura de Aquiles e parte
 para a batalha, apenas para ser morto por Heitor

Impressão gicleé por Henry Singleton
Estou lendo a Ilíada. Achei interessante o trecho a seguir. Pátroclo está liderando os aqueus num ataque contra os troianos. Apolo o envolve em escuridão, tira sua armadura e o golpeia. Euforbo o fere nas costas com a lança. Segue o texto de Homero:

«Quando Heitor viu o magnânimo Pátroclo recuar, ferido pelo bronze agudo, aproximou-se dele, atravessando as fileiras; e feriu-o, com a lança, no flanco, embaixo, empurrando o bronze através da carne. Com estrondo, caiu Pátroclo e grande foi a aflição nas tropas aqueias. Assim como o infatigável javali sucumbe ao ardoroso ataque de um leão: ambos, no pico de uma montanha, batem-se furiosos por uma magra fonte em que querem beber os dois; e o javali, arquejante, é vencido, à força, pelo leão; assim Heitor, filho de Príamo, tirou a vida do valente filho de Menoécio, que muitos homens matara, e, triunfante, proferiu estas palavras aladas:

“Pátroclo, pretendias saquear nossa cidade, roubar das mulheres troianas o dia da liberdade e levá-las, em teus navios, à tua pátria. Insensato! Diante delas, os velozes cavalos de Heitor se lançaram à batalha. E com meu pique, entre os bravos troianos, me distingo, afastando o dia fatal. Entretanto, aqui, hão de os abutres te devorar. Desgraçado! Apesar de todo o seu valor, não te ajudou Aquiles e, sem dúvida, quedando-se à parte, mil vezes te recomendou, a ti que marchavas: ‘Não voltes para mim, Pátroclo que os cavalos conduzem, para perto dos ocos navios, enquanto não houveres ensanguentado a túnica e rasgado o peito do mortífero Heitor.’ Assim, sem dúvida, falou ele, e persuadiu-te o espírito, insensato.”

Em tua fraqueza, tu lhe respondeste, cavaleiro Pátroclo:

“Agora, Heitor, triunfa bem. Eis que Zeus, filho de Cronos, e Apolo deram-te a vitória, eles que facilmente me mataram. Eles próprios arrancaram a armadura de meus ombros! Se vinte homens como tu me tivessem enfrentado, todos, de golpe, teriam perecido, suplantados por minha lança. Mas a mim, foram o destino funesto e o filho de Leto que me mataram e, entre os homens, Euforbo. Chegaste em terceiro lugar, e agora me despojas!

Entretanto, mais uma palavra ainda, e guarda-a bem guardada em tua alma: tu mesmo já não viverás por muito tempo. Perto de ti já se erguem a morte e o destino pujante. E serás vencido pela mão de Aquiles, o admirável Eácida.”

Disse, e foi o fim; envolveu-o a morte. Desligando-se-lhe dos membros, voou-lhe a alma para junto de Hades, lastimando sua sorte, deixando a virilidade e a juventude.

Embora ele estivesse morto, respondeu-lhe o glorioso Heitor:

“Pátroclo, por que me predizes o abismo fatal? Quem sabe se Aquiles, filho de Tétis de belos cabelos louros, não morrerá antes de mim, ferido por minha lança?”

Tendo falado, arrancou da ferida a lança de bronze, com o pé sobre o cadáver, que atirou, de costas, para longe do pique. E, sem demora, marchou contra Automedonte, semelhante a um deus, escudeiro do Eácida de pés ligeiros, desejando feri-lo. Este, porém , era levado pelos rápidos cavalos imortais, magnífico presente que os deuses haviam dado a Peleu.»

P.S.: É interessante como alguém que está morrendo consegue dizer tudo isso. E como é possível parar a batalha para conversar assim.

Não tem Cavalo de Troia na Ilíada
Aquiles conversa com seus cavalos
O escudo de Aquiles