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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Os Larivière


Aliás, eu a vi poucas vezes durante esses dias, pois ela estava quase sempre em casa daqueles seus primos de que certa ocasião mamãe me havia dito: — Mas sabes que eles são mais ricos que tu. — Ora, vimos então esta coisa tão bonita, freqüente em todo o país por aquela época, e que, se houvesse um historiador para lhe perpetuar a recordação, testemunharia a grandeza da França, sua grandeza de alma, sua grandeza segundo Saint-André-des-Champs, a fim de animar tanto os civis sobreviventes na retaguarda quanto os soldados tombados no Marne. Um sobrinho de Françoise, morto em Berry-au-Bac, era-o também desses primos milionários dela, antigos proprietários de botequins, há muito retirados dos negócios depois de fazerem fortuna. Fora morto, e era um pequeno negociante pobre que, mobilizado aos vinte e cinco anos, deixara sozinha a jovem esposa para gerir o pequeno bar, para onde esperava voltar em poucos meses. Fora morto. E então viu-se isto. Os primos milionários de Françoise, e que não tinham parentesco algum com a moça, viúva de seu sobrinho, haviam deixado o campo, onde há dez anos descansavam, e recomeçaram a trabalhar sem querer ganhar um tostão; todos os dias, às seis da manhã, a mulher milionária, uma verdadeira dama, estava vestida, bem como a filha “senhorita”, ambas prontas para ajudar a sobrinha e prima por afinidade. E fazia três anos que lavavam copos e atendiam à freguesia, da manhã às nove e meia da noite, sem um dia de descanso. Neste livro, onde não há um fato que não seja inventado, nem uma só personagem à clef, onde tudo foi criado por mim segundo as necessidades do que pretendia demonstrar, devo confessar, em louvor de minha terra, que só os parentes milionários de Françoise, renunciando ao descanso, para ajudar a sobrinha sem arrimo, só eles são pessoas reais existentes. E persuadido de que sua modéstia não ficará ofendida, visto que jamais lerão este livro, é com prazer infantil e uma profunda emoção que, não podendo citar os nomes de tantos outros que devem ter agido da mesma forma, e graças aos quais a França sobreviveu, declaro aqui seu nome verdadeiro: eles se chamam Larivière, sobrenome aliás bem francês. Se houve gente infame que se furtou ao alistamento, como o arrogante rapaz de smoking que eu vira no estabelecimento de Jupien, e cuja única preocupação era saber se poderia contar com Léon às dez e meia “porque ia almoçar no centro da cidade”, essa gente era compensada pela multidão inumerável de todos os franceses de Saint-André-des-Champs, por todos os sublimes soldados aos quais igualo os Larivière.

Em Busca do Tempo Perdido, volume VII, O Tempo Redescoberto. Marcel Proust.

sábado, 8 de março de 2014

Trecho de “Sodoma e Gomorra”

Trecho de Sodoma e Gomorra, quarto volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

O Narrador está em uma recepção na casa do Príncipe de Guermantes, procurando algum convidado que o apresente ao anfitrião. Uma mulher vem cumprimentá-lo, chama-o pelo nome, mas ele não consegue se lembrar do nome dela por algum tempo. De repente, o nome surge: Sra. de Arpajon. O Narrador divaga sobre o funcionamento da memória e o processo de tentarmos nos lembrar de algo. Do texto de Proust:

«“Tudo isto”, dirá o leitor, “nada me informa da falta de solicitude dessa dama; mas, já que demorou tanto tempo, deixe-me, senhor autor, fazê-lo perder mais um minuto para dizer que é lamentável que, jovem como o sr. era (ou como era o seu herói, caso não seja o sr.) já tivesse tão pouca memória a ponto de não poder se lembrar do nome de uma dama que conhecia tão bem.” De fato é lamentável, senhor leitor. E, mais triste do que o sr. pensa, quando se sente aí o anúncio do tempo em que os nomes e as palavras desaparecerão da zona clara do pensamento, e onde será preciso renunciar para sempre a dizer para nós mesmos os nomes daqueles a quem melhor conhecemos. É lamentável, de fato, que desde a juventude se necessite desse trabalho para reencontrar nomes que se conhecem bem. Mas, se essa deficiência só ocorresse quanto aos nomes mal conhecidos, muito naturalmente esquecidos, e de que ninguém se dá ao trabalho de tentar recordar, tal deficiência não deixaria de ter suas vantagens. “E quais são, se me faz o favor?” Bem, meu senhor, é que só o mal faz a gente reparar e aprender, permitindo decompor os mecanismos que, sem isso, não conheceríamos. Um homem que todas as noites tomba como uma massa no seu leito e não vive mais até o momento de acordar e se erguer, por acaso esse homem pensará alguma vez em fazer, se não grandes descobertas, ao menos pequeninas observações sobre o sono? Mal sabe ele se dorme. Um pouco de insônia não é inútil para dar valor ao sono, projetar alguma luz sobre essa noite. Uma memória sem falhas não é um excitante muito poderoso para estudar os fenômenos da memória. “Enfim, a Sra. de Arpajon o apresentará ao príncipe?” Não, mas cale-se e deixe-me retomar minha narrativa.»

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Duas citações curiosas de O Caminho de Guermantes

Achei curiosas estas duas citações que encontrei em O Caminho de Guermantes, de Marcel Proust.
"As pessoas da sociedade ficavam estupefatas com aquilo [a duquesa de Guermantes ter abdicado da temporada de jantares do ano para visitar os fiordes da Noruega] e, sem se preocuparem em imitar a duquesa, sentiam no entanto, com o seu ato, a espécie de alívio que se tem em Kant quando, após a mais rigorosa demonstração do determinismo, descobre-se que acima do mundo da necessidade existe o da liberdade."
Sem dúvida, bem poucas pessoas passaram pela experiência desse alívio.
"Dentre os elementos que, ausentes dos outros dois ou três salões mais ou menos equivalentes que estavam à frente do faubourg Saint-Germain, diferenciavam destes o salão da duquesa de Guermantes, como Leibnitz admite que cada mônada, refletindo todo o universo, acrescenta-lhe algo particular, um dos menos simpáticos era habitualmente fornecido por uma ou duas mulheres muito belas que ali só se achavam por sua beleza, pelo uso que dela fizera o Sr. de Guermantes, e cuja presença revelava logo, como em outros salões, certos quadros inesperados, que, neste, o marido era um ardente apreciador das graças femininas. Todas se pareciam um pouco, pois o duque possuía o gosto das mulheres altas, a um tempo desenvoltas e majestosas, de um gênero intermediário entre a Vênus de Milo e a Vitória da Samotrácia, freqüentemente louras, raramente morenas, às vezes ruivas[...]"
Acho que a intenção de Proust não é explicar melhor as situações narradas, comparando-as com o pensamento de Kant e Leibnitz e com as estátuas gregas, mas, pelo contrário, chamar atenção para a filosofia e a escultura, usando como metáforas as situações que cria.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Proust, sobre a amizade

Achei curioso este trecho de O Caminho de Guermantes, em que Proust fala mal da amizade. Não publico por concordar com ele, mas pelo estranhamento que provocou em mim.

É interessante que ele cite Nietzsche, que é a base filosófica de grande parte de sua obra. Também chama a atenção que Proust enuncie expressamente um dos temas obsessivos de Em Busca do Tempo Perdido: a incomunicabilidade do que existe de mais importante no ser humano, incomunicabilidade essa que só pode ser vencida por meio da arte. O último ponto a ressaltar é que Proust certamente se via como (e era de fato) o artista que traz dentro de si uma obra-prima e cujo dever seria viver para trabalhar. Mesmo assim, adiou por anos o início de seu trabalho e de fato morreu antes de lhe dar a forma final.

Aqui vai o trecho:

«Já disse (e precisamente fora, em Balbec, Robert de Saint-Loup quem me ajudara, a seu pesar, a tomar consciência disso) o que penso da amizade, a saber: que vale tão pouco, que me custa compreender que homens de certo talento, como Nietzsche, por exemplo, tenham tido a ingenuidade de lhe atribuir um certo valor intelectual e, em conseqüência, recusar-se às amizades a que não estivesse ligada a estima intelectual. Sim, espantou-me sempre ver que um homem que levava a sinceridade consigo mesmo a ponto de se afastar, por escrúpulo de consciência, da música de Wagner, imaginasse que a verdade pode cumprir-se nesse modo de expressão, confuso e inadequado por natureza, que são em geral as ações e, em particular, as amizades, e que possa haver um sentido qualquer no fato de alguém deixar o trabalho para ir visitar um amigo e juntos chorarem ao saber da falsa notícia do incêndio do Louvre. Em Balbec, eu chegara a considerar o prazer de jogar com as moças menos funesto à vida espiritual, à qual pelo menos ele permanece alheio, do que a amizade, cujo esforço inteiro consiste em nos fazer sacrificar a única parte real e incomunicável de nós próprios (a não ser por meio da arte) a um eu superficial que não encontra, como o outro, alegria em si mesmo e sim o enternecimento confuso de se sentir sustentado por estacas externas, hospitalizado numa individualidade estranha, onde, feliz com a proteção que lhe é dada, faz reluzir seu bem-estar aprobativo e se maravilha com qualidades a que chamaria defeitos e buscaria corrigir em si mesmo. Além do mais, os difamadores da amizade podem, sem ilusões e não sem remorsos, ser os melhores amigos do mundo, da mesma forma que um artista que traz dentro de si uma obra-prima e que sente que o seu dever seria viver para trabalhar, apesar disso, para não parecer ou arriscar-se a ser egoísta, dá sua vida por uma causa inútil, e a concede com bravura tanto maior quanto mais desinteressadas fossem as razões pelas quais preferiria não concedê-la. Mas, seja qual for minha opinião acerca da amizade, até para só falar do prazer que ela me proporcionava, de qualidade tão medíocre que me parecia algo intermediário entre o cansaço e o tédio, não há beberagem tão funesta que não possa, em determinados momentos, tornar-se preciosa e reconfortante, dando-nos a excitação necessária, o calor que não conseguíamos encontrar em nós mesmos.»

quinta-feira, 28 de março de 2013

A morte da avó, em O Caminho de Guermantes


Li esta semana o trecho de O Caminho de Guermantes, de Marcel Proust, em que o Narrador relata a morte de sua avó. Os sofrimentos que ele descreve trazem, de maneira muito forte, a lembrança da agonia de duas tias queridas: Tia Jurema, falecida em abril de 1996, e Tia Célia, em dezembro de 2011.

Tia Ju gostava muito de Proust. Relia sempre sua obra em francês. Deve ter passado por esse trecho muitas vezes. Ela teve um câncer que evoluiu muito rápido; do diagnóstico até o fim, levou cerca de um mês. Leio Em Busca do Tempo Perdido em grande parte por causa dela. Se não fosse por ela, eu o leria de outra maneira; o efeito desse livro sobre mim seria outro. Infelizmente, não comecei a ler antes, para ter tido a oportunidade de conversar com ela sobre Proust.

Tia Célia teve uma doença muito mais lenta, dermatomiosite. Passou dois anos doente, um ano e meio sem diagnóstico. Sofreu mais de um mês numa UTI, submetida a respiração artificial.

Volto a Proust. O Narrador conta que sua avó piorou de repente de uma doença que vinha sentindo havia tempos. Não saía mais de casa. Como não melhorava, chamaram outro médico. Este disse que ela não tinha nada físico, e que precisava sair mais. O Narrador e sua mãe ficam muito aliviados e insistem para que ela vá aos Champs-Élisées com o Narrador, que pretende encontrar alguns amigos. Ele fica irritado quando sua avó demora a sair, demora a andar, demora no banheiro do parque. Depois que ela sai do banheiro, ele se dá conta que ela havia tido um ataque. (Imagino que seja um pequeno AVC.)

Ele a leva até um banco de praça e procura por um fiacre para voltar para casa. Encontra outro médico, amigo de seu pai, e pede que ele a examine. O médico não quer, diz que tem que jantar com um ministro, não tem tempo. Acaba concordando em recebê-los em seu consultório. O Narrador leva a avó até lá, com dificuldade. O médico a examina com profissionalismo, mas não diz nada. Ela sai primeiro. O Narrador pergunta qual o diagnóstico e ouve que sua avó está perdida.

Depois disso, ela vai piorando gradativamente. Fala cada vez menos. Tem um período de cegueira, depois um de surdez. Sente dores cada vez maiores, mas tenta esconder isso dos parentes. Aplicam morfina. Um dia tenta, ela tenta abrir a janela para pular. Em meio ao sofrimento do Narrador e de sua mãe, outras pessoas continuam com suas preocupações fúteis.

Enfim, sua mãe acorda o Narrador uma manhã e lhe diz que agora só poderá contar com seus pais. A avó está tendo convulsões. Pouco depois disso, ela morre.

Seguem alguns trechos do livro:

«Subi e achei minha avó bem pior. Desde algum tempo, sem bem saber do que sofria, ela se queixava da saúde. Na enfermidade é que percebemos que não vivemos sós, mas acorrentados a uma criatura de outro reino, cujos abismos nos separam, que não nos conhece e pelo qual nos é impossível fazer-nos compreender: nosso corpo. Qualquer assaltante que encontrássemos no caminho, talvez pudéssemos sensibilizá-lo em seu interesse pessoal, senão pela nossa desgraça. Mas rogar piedade ao nosso corpo é discursar diante de um polvo, para quem nossas palavras não podem ter mais sentido que o rumor das águas, e com o qual nos aterrorizaríamos de ser condenados a conviver.»

«Cottard tentou, para acalmar a agitação da sua cliente, a dieta de leite. Mas as perpétuas sopas de leite não fizeram efeito porque minha avó punha nelas muito sal, cuja inconveniência era ignorada naquele tempo (pois Widal ainda não tinha feito suas descobertas).»

«Estas foram as palavras que me disse, e nas quais pusera toda a sua finura, o seu gosto pelas citações, sua memória relativa aos clássicos, até um pouco mais do que habitualmente faria e como para mostrar que mantinha mesmo a posse daquilo tudo. Mas essas frases, adivinhei-as mas do que as ouvi, de tanto que as pronunciava com uma voz pastosa e cerrando os dentes mais do que poderia explicá-lo o medo de vomitar.
[…]
Ela me sorriu tristemente e apertou-me a mão. Compreendera que não tinha como me ocultar aquilo que eu adivinhara logo: acaba de sofrer um pequeno ataque.»

«Deixei a minha avó passar primeiro, fechei a porta e pedi ao doutor que me dissesse a verdade.

— A sua avó está perdida — disse ele. — É um ataque provocado pela uremia. Em si, a uremia não é fatalmente uma doença mortal, mas o caso me parece desesperador. Nem preciso lhe dizer que espero estar enganado. Além disso, com Cottard, estão em excelentes mãos. Com licença — disse ao ver entrar uma camareira com sua casaca nos braços. — O Senhor sabe que vou jantar com o ministro do Comércio, e tenho uma visita para fazer antes. Ah, a vida não é um mar de rosas, como se crê na sua idade.

E estendeu-me graciosamente a mão. Eu voltara a fechar a porta e um lacaio nos guiava no vestíbulo, a mim e à minha avó, quando ouvimos grandes gritos de cólera. A camareira se esquecera de abrir a botoeira para as condecorações. Aquilo ainda ia levar dez minutos. O professor continuava sempre a esbravejar, enquanto eu olhava, no patamar da escada, para a minha avó, que estava perdida. Como está sozinha cada pessoa! Regressamos a casa.»

«Então, pela primeira vez os olhos de minha mãe fitaram apaixonadamente os de minha avó, não desejando ver o restante de sua face, e ela disse, começando a lista desses falsos juramentos que não podemos cumprir:

— Mamãe, logo ficarás curada; é a tua filha quem te promete.»

«Por causa dos tormentos de minha avó, permitiam que tomasse morfina. Infelizmente, se esta os acalmava, contribuía para aumentar a taxa de albumina. […] Nos dias em que a taxa de albumina se mostrava muito alta, o doutor Cottard, após alguma hesitação, recusava a morfina. […] Do ponto de vista clínico, por menos esperanças que tivesse em pôr fim àquela crise de uremia, era necessário não cansar os rins. Mas, por outro lado, quando minha avó ficava sem morfina, suas dores tornavam-se insuportáveis. […] Quando a minha avó sofria desse modo, o suor escorria sobre sua vasta fronte cor-de-malva, aí colando mechas brancas do cabelo; e, se ela achasse que não estávamos no quarto, soltava gritos: — Ah, é horroroso! — Mas, se se apercebia de minha mãe, empregava logo toda a energia para apagar do rosto os traços de sofrimento ou, ao contrário, repetia as mesmas queixas, acompanhando-as de explicações que davam retrospectivamente um outro sentido às que minha mãe pudera ouvir:

— Ah, minha filha, é horrível ficar deitada com esse sol tão lindo, quando a gente gostaria de ir passear; choro de raiva contra essas prescrições de todos vocês.

Mas não conseguia evitar os olhares queixosos, o suor na testa, o sobressalto convulsivo dos membros, logo reprimido.
[…]
E minha mãe, à beira da cama, presa àquele sofrimento como se, à força de penetrar com os olhos aquela testa dolorosa, aquele corpo que escondia o mal, conseguisse enfim atingi-lo e carregá-lo, minha mãe dizia:

— Não, mãezinha, não te deixaremos sofrer assim, vamos achar alguma coisa, tem paciência por um segundo; permite que te beije sem que precises te mexer?»

«Mandaram-me enxugar os olhos antes de ir beijar minha avó.

— Mas eu julgava que ela não via mais — observou meu pai.

— Nunca se sabe — replicou o doutor.

Quando meus lábios a tocaram, as mãos de minha avó se agitaram, ela foi toda percorrida por um longo tremor, seja por reflexo, seja porque certas afeições tenham a sua hiperestesia que reconhece, através do véu da inconsciência, aquilo que elas quase não necessitam de sentidos para amar. De súbito, minha avó se ergueu a meio, fez um esforço violento, como alguém que defende sua vida. Françoise não pôde resistir àquela cena e rompeu em soluços. Lembrando-me do que dissera o médico, tentei fazê-la sair do quarto. Nesse momento, minha avó abriu os olhos. Precipitei-me para Françoise a fim de lhe ocultar as lágrimas, enquanto meus pais falavam à doente. O rumor do oxigênio silenciara, o médico se afastou da cama. Minha avó estava morta.

Horas depois, Françoise pôde pela última vez, e sem maltratá-los, pentear aqueles lindos cabelos que mal principavam a embranquecer e até então haviam parecido mais jovens que ela. Mas agora, pelo contrário, eram os únicos a impor a coroa da velhice sobre o rosto tornado jovem e de onde haviam desaparecido as rugas, as contrações, os empastamentos, as tensões e as dobras que há tanto tempo lhe vinham aumentando o sofrimento. Como antigamente, quando seus pais lhe haviam escolhido um esposo, ela apresentava feições finamente traçadas pela pureza e pela submissão, as faces brilhantes de uma casta esperança, de um sonho de ventura, e até de uma alegria inocente que os anos lhe tinham destruído aos poucos. A vida, ao se retirar, acabava de carregar as desilusões da existência. Um sorriso parecia pousado sobre os lábios de minha avó. Sobre aquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, deitara-a sob a aparência de uma mocinha.»

sexta-feira, 15 de março de 2013

Dois trechos de "O Caminho de Guermantes"


Dois trechos que me chamaram a atenção em O Caminho de Guermantes, terceiro livro de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.



I

Parecia-me já ter visto esse olhar; no entanto, somente hoje conhecera o historiador. De súbito, lembrei-me: havia visto esse mesmo olhar nos olhos de um médico brasileiro que pretendia curar as sufocações do gênero das que eu tinha por meio de absurdas inalações de essências vegetais. E como, para que tomasse mais cuidado pela minha pessoa, lhe dissesse que conhecia o professor Cottard, respondera-me como no interesse de Cottard: — Pois eis aí um tratamento que, se o senhor lhe falasse nele, iria fornecer-lhe assunto para uma sensacional comunicação à Academia de Medicina! — Não ousara insistir, mas olhara-me com aquele mesmo ar de interrogação tímido, interessado e suplicante que eu acabara de admirar no historiador da Fronda. Certamente esses dois homens não se conheciam e não se pareciam em nada, mas as leis psicológicas possuem, como as leis físicas, uma certa generalidade. E, se as condições necessárias são as mesmas, um mesmo olhar ilumina animais humanos diversos, como um mesmo céu matinal a lugares da terra situados bem longe um do outro, e que nunca se viram entre si.



II

[O Marquês de Norpois discutindo o caso Dreyfus com Bloch]

— […] Certamente é necessário dar um basta às manobras antimilitaristas, mas também não devemos passar por alto as agitações provocadas pelos elementos de direita que, em vez de servir à idéia patriótica, sonham em servir-se dela. A França, graças a Deus, não é uma república sul-americana, e não se faz sentir a necessidade de um general de pronunciamiento.

sábado, 2 de março de 2013

Trecho d'O Caminho de Guermantes (II)


Certa manhã, Saint-Loup me confessou que escrevera à minha avó para lhe dar notícias a meu respeito e lhe sugerir a idéia de conversar comigo, já que estava em funcionamento um serviço telefônico entre Doncières e Paris. Em breve, no mesmo dia, ela devia me mandar chamar ao aparelho, e ele me aconselhou que estivesse às quinze para as quatro no posto. Àquela época, o telefone ainda não era de uso tão corrente como hoje. E, no entanto, o hábito leva tão pouco tempo para despojar de seu mistério as forças sagradas com que estamos em contato que, não tendo conseguido imediatamente a minha ligação, a única idéia que tive foi de que aquilo era tão demorado, tão incômodo, que quase acabei fazendo uma queixa: como todos nós agora, eu não achava bastante rápida, à minha disposição, em suas bruscas mudanças, a admirável magia pela qual são suficientes uns poucos instantes para que surja junto a nós, invisível mas presente, a criatura a quem desejávamos falar e que, ficando à sua mesa, na cidade em que mora (no caso de minha avó era Paris), sob um céu diverso do nosso, durante um tempo que não é forçosamente o mesmo, em meio a circunstâncias e preocupações que ignoramos e que essa criatura vai nos dizer, se acha de súbito transportada a centenas de léguas (ela e todo o ambiente em que permanece mergulhada), perto de nossos ouvidos, no momento em que nosso capricho assim ordenou. E somos como personagem do conto a quem uma fada, ante o desejo que ele exprime, faz surgir, banhada em claridade sobrenatural, a avó ou a noiva no ato de folhear um livro, de derramar lágrimas, de colher flores, tão perto do espectador e entretanto tão longe, no próprio local onde se encontra de verdade. […]

E logo que nosso chamado ressoou, na noite cheia de aparições para a qual só os nossos ouvidos se abrem, um leve ruído — um ruído abstrato — o da distância suprimida — e a voz do ser amado se dirige a nós.

É ele, é a sua voz que nos fala, que está ali. Mas como está longe! Quantas vezes não pude escutá-la sem angústia,  como se diante dessa possibilidade de ver, antes de longas horas de viagem, aquela cuja voz estava tão perto de meu ouvido, eu sentisse melhor o que há de decepcionante na aparência de uma reaproximação mais doce, e a que distância podemos estar das pessoas amadas no momento em que parece não termos mais que estender a mão para retê-las. Presença real a dessa voz tão próxima — na separação efetiva! Mas também antecipação de uma separação eterna! Com muita freqüência, escutando desse modo, sem ver quem me falava de tão longe, pareceu-me que essa voz clamava das profundezas de onde não se sobe, e conheci a ansiedade que ia me estreitar um dia, quando uma voz voltasse assim (sozinha e já não presa a um corpo que eu não devia rever nunca mais) a cochichar no meu ouvido palavras que eu gostaria de beijar de passagem sobre lábios para sempre em pó.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Trecho d'O Caminho de Guermantes


Trecho de O Caminho de Guermantes, terceiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

Quando Françoise, à noite, era gentil comigo, e me pedia licença para se sentar no meu quarto, parecia-me que seu rosto se tornava transparente e que nela eu percebia a bondade e a franqueza. Mas Jupien, que possuía queda para a indiscrição que só vim a conhecer mais tarde, revelou posteriormente que ela dizia que eu não valia a corda para me enforcar e que procurara lhe fazer todo o mal possível. Estas palavras de Jupien mostraram-me logo, sob uma luz desconhecida, uma prova de minhas relações com Françoise tão diferente daquela em que me comprazia muitas vezes em descansar os olhos e na qual, sem a mais leve indecisão, Françoise me adorava e não perdia ocasião de me celebrar, que compreendi que não é só o mundo físico que difere do aspecto sob o qual o vemos; que toda realidade é talvez tão dissemelhante da que julgamos perceber diretamente e que compomos com a ajuda de idéias que não se mostram mas são ativas, assim como as árvores, o sol e o céu não seriam tais como os vemos se fossem conhecidos por seres que tivessem olhos constituídos de maneira diversa da nossa, ou então, que possuíssem, para esse fim, órgãos diferentes dos olhos e que proporcionassem das árvores, do sol e do céu equivalentes não-visuais. Assim como ocorreu, essa brusca fugida que me abriu uma vez Jupien para o mundo real me aterrorizou. Mesmo assim, só se tratava ainda de Françoise, com quem pouco me preocupava. Seria assim em todas as relações sociais? E até que desespero aquilo poderia me levar um dia, se o mesmo ocorresse no amor? Era o segredo do futuro. Então, só se tratava ainda de Françoise. Pensaria ela sinceramente o que havia dito a Jupien? Dissera-o apenas para indispor Jupien comigo, talvez para que não tomassem a sobrinha de Jupien para substituí-la? O fato é que percebi a impossibilidade de saber de modo direto e seguro se Françoise me amava ou detestava. E assim, foi ela a primeira a me dar a idéia de que uma pessoa não é, como o acreditara, clara e imóvel diante de nós com suas qualidades, seus defeitos, seus projetos, suas intenções a nosso respeito (como um jardim que se contempla, com todas as suas platibandas, através de uma grade), e sim uma sombra onde jamais podemos penetrar, para a qual não existe conhecimento direto, a respeito de quem formamos numerosas crenças com o auxílio de palavras e até mesmo de ações, umas e outras nos dando apenas informações insuficientes e, aliás, contraditórias, uma sombra onde podemos, alternadamente, imaginar, com tanto maior verossimilhança, que brilham o ódio e o amor.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Terminei de ler "À Sombra das Moças em Flor"

Desde o ano passado, estou lendo pela segunda vez "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Terminei agora o segundo volume, "À Sombra das Moças em Flor". Não é uma leitura fácil, não dá para ler em qualquer lugar, com barulho ou de maneira apressada. Porém, é muito recompensadora. Os personagens são muito bem construídos, as situações são interessantes, engraçadas, e o livro apresenta uma rica visão filosófica da vida e da condição humana. Entre os temas trabalhados por Proust estão o impacto das revoluções tecnológicas na vida das pessoas (a fotografia, o telefone, o automóvel, o avião) e o sentido da arte. Recomendo muitíssimo.

Aqui vai mais um trecho, do final do segundo volume:

"E, em suma, é uma forma como outra qualquer de resolver o problema da existência, o de aproximar bastante as coisas e as pessoas que de longe nos pareceram belas e misteriosas, para nos darmos conta de que não têm mistério nem beleza; é uma das higienes entre as quais se pode optar, uma higiene que talvez não seja muito recomendável, mas que nos proporciona uma certa calma para passar a vida e também para nos resignarmos à morte, uma vez que nos permite não lamentar coisa alguma, convencendo-nos que alcançamos o melhor e que o melhor não é grande coisa."

domingo, 11 de novembro de 2012

Outro trecho de "À Sombra das Moças em Flor", de Proust


«Será que a julgara assim tão linda só por tê-la visto de forma tão fugaz? Talvez. Primeiro, a impossibilidade de ter parado junto de uma mulher, o risco de não encontrá-la em outra ocasião, davam-lhe subitamente o mesmo encanto que a um certo país a doença ou a pobreza que nos impedem de visitá-lo, ou, aos dias tão aborrecidos que nos restam por viver, a idéia do combate em que certamente morreríamos. De forma que, se não fosse o hábito, a vida deveria parecer deliciosa às pessoas que estivessem ameaçadas de morrer a todo instante — ou seja, a toda a humanidade.»

[…]


«Se eu pudesse ter descido do carro e falar à moça por quem passáramos, talvez ficasse decepcionado com algum defeito de sua pele, que do carro não pudera distinguir. (E então, de súbito, todo esforço para penetrar em sua vida me pareceria impossível. Pois a beleza é uma seqüência de hipóteses, e a feiúra a reduz, barrando o caminho que já víamos abrir-se para o desconhecido.) Talvez uma só palavra que ela tivesse dito, um sorriso, me houvessem fornecido uma chave ou uma cifra inesperadas para ler a expressão de seu rosto e de seu porte, que logo se tornariam banais. É possível, pois jamais encontrei na vida mulheres tão deliciosas como naqueles dias em que estava com uma pessoa muito grave, de quem não podia me separar não obstante os mil pretextos que inventava; em Paris, alguns anos depois de minha primeira viagem a Balbec, dando um passeio de carro com um amigo de meu pai, e vendo uma mulher que caminhava depressa na noite, pensei que não era razoável, por uma questão de conveniência, perder minha porção de felicidade na única vida que sem dúvida existe. E, saltando do carro sem pedir desculpas, parti em busca da desconhecida; perdi-a no cruzamento de duas ruas, voltei a encontrá-la numa terceira e me achei, todo resfolegante, debaixo de um lampião, diante da velha Sra. Verdurin, a quem evitava por toda a parte e que, surpresa e feliz, exclamou: — Oh, como foi amável em correr para me cumprimentar!»

“Em Busca do Tempo Perdido”, volume 2, “À Sombra das Moças em Flor”

sábado, 10 de novembro de 2012

Trecho de "À Sombra das Moças em Flor", de Proust


Quando Swann me dissera em Paris, um dia em que me sentia bastante mal: — Você deveria partir para aquelas deliciosas ilhas da Oceania; verá que não há de voltar mais — tive vontade de responder: — Mas então não veria mais a sua filha e viveria em meio a coisas e pessoas que ela nunca viu. — E no entanto a razão me dizia: “E que importa, visto que não sofrerás mais? Quando o Sr. Swann diz que não voltarás, quer dizer que não quererias mais voltar, e, visto não quereres voltar, é porque lá te sentirias feliz.” Pois minha razão sabia que o hábito — o hábito que ia assumir agora a tarefa de me fazer amar aquela casa desconhecida, de mudar o espelho de lugar, o colorido das cortinas e de parar o pêndulo — se encarrega também de nos tornar caros os companheiros que a princípio nos desagradavam, de dar outro formato aos rostos, de fazer simpático o som de uma voz, de modificar as inclinações do coração. É claro que essas amizades novas por lugares e pessoas são tecidas sobre o esquecimento das antigas; mas justamente a minha razão pensava que eu podia encarar sem terror a perspectiva de uma vida em que ficaria para sempre separado de pessoas cuja lembrança me fugiria; e era como uma espécie de consolo que oferecia ao meu coração a promessa de um esquecimento que, pelo contrário, me deixava louco de desespero. E não é que o nosso coração não deva também experimentar, ao consumar-se a separação, os efeitos analgésicos do hábito; mas, até que isso aconteça, continuará sofrendo. E o temor de um futuro em que não poderemos ver nem conversar com os entes queridos, e dos quais tiramos hoje a nossa mais profunda alegria, esse temor, longe de se dissipar, aumenta quando pensamos que, à dor de uma tal separação, se acrescentará o que no momento nos parece ainda mais cruel: a de a não mais sentirmos como uma dor e permanecermos indiferentes; pois então o nosso eu terá mudado: não será apenas o encanto de nossos pais, de nossa amante, de nossos amigos que deixará de estar à nossa volta; nossa afeição por eles terá sido tão bem extirpada de nosso coração da qual hoje em dia constitui parte tão importante que poderíamos nos alegrar com essa vida separada deles, cuja idéia hoje nos causa horror; será então uma verdadeira morte de nós mesmos, é verdade que morte seguida de ressurreição, mas num eu diverso e que não pode inspirar afeto às partes do antigo eu condenadas a morrer. E são elas — até as mais débeis, como o obscuro apego às dimensões, à atmosfera de um quarto — as que assustam e reprovam, com rebeliões em que se pode ver uma forma secreta, parcial, tangível e verdadeira de resistência à morte, da longa resistência desesperada e cotidiana à morte fragmentária e sucessiva tal como se insere em todos os momentos da nossa vida, destacando pedaços de nós a cada instante e fazendo que sobre a carne morta se multipliquem células novas.

“Em Busca do Tempo Perdido” volume 2, “À Sombra das Moças em Flor”, de Marcel Proust.

sábado, 4 de agosto de 2012

Por mais que gostemos do veneno que nos faz mal

"Por mais que gostemos do veneno que nos faz mal, quando somos privados dele por uma necessidade durante algum tempo, não podemos deixar de valorizar o repouso, que antes não conhecíamos, bem como a ausência de emoções e sofrimentos."

Marcel Proust, em "Em Busca do Tempo Perdido", vol. 2, "À Sombra das Moças em Flor".

sábado, 14 de julho de 2012

A Sonata de Vinteuil - III

Neste trecho de "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust, já no segundo volume, "À Sombra das Moças em Flor", o protagonista ouve o trecho da Sonata de Vinteuil pela primeira vez, tocado por Odette.

Mas em geral, na maioria das vezes, não ficávamos em casa e íamos passear. Às vezes, antes de ir se vestir, a Sra. Swann sentava-se ao piano. Suas belas mãos, saindo das mangas róseas ou brancas, muitas vezes de cores bastante vivas, do seu chambre de crepe da China, alongavam as falanges sobre o piano com a mesma melancolia que estava em seus olhos, mas não no coração. Foi num desses dias que lhe ocorreu tocar para mim o trecho da Sonata de Vinteuil onde se acha a pequena frase que Swann amara tanto. Mas, as mais das vezes não se entendia nada, pois é uma música meio complicada para quem a ouve pela primeira vez. Entretanto, quando mais tarde me foi tocada duas ou três vezes esta sonata, achei que a conhecia perfeitamente. Assim, não é errado dizer "ouvir pela primeira vez". Se a gente, de fato, como julga, não entendeu nada na primeira audição, a segunda e a terceira seriam outras tantas primeiras e não haveria razão para que se compreenda algo a mais na décima. Provavelmente, o que falta na primeira vez não é a compreensão, e sim a memória. Pois a nossa, relativamente à complexidade das impressões com que se defronta enquanto ouvimos, é ínfima, tão breve quanto a memória de um homem que, ao dormir, pensa mil coisas que logo esquece, ou de um homem meio reduzido à infância, que não se recorda no minuto seguinte daquilo que acabamos de lhe dizer. A memória não é capaz de nos fornecer imediatamente a lembrança dessas impressões múltiplas. Mas esta lembrança se forma pouco a pouco na memória e, no tocante às obras que ouvimos duas ou três vezes, estamos como o colegial que releu diversas vezes antes de dormir um ponto que achava não saber e o recita de cor na manhã seguinte. Apenas, eu ainda não ouvira aquela sonata até esse dia, e onde Swann e sua mulher viam uma frase distinta, esta se achava tão longe de minha percepção nítida quanto um nome que a gente procura recordar e em cujo lugar só se encontra o vazio absoluto, vazio do qual, uma hora mais tarde, sem que se pense nelas, brotam por si mesmas, de um só golpe, as sílabas antes solicitadas em vão. E não apenas a gente não retém de imediato as obras verdadeiramente raras, porém até no íntimo de cada uma delas -- isto me aconteceu no caso da Sonata de Vinteuil -- são as partes menos preciosas que percebemos em primeiro lugar. De modo que eu não me enganava apenas ao pensar que a obra não me reservava mais nada (o que fez com que eu ficasse muito tempo sem procurar ouvi-la) tão logo a Sra. Swann executou a frase mais famosa (eu era tão estúpido a esse respeito como aqueles que já não esperam ter surpresas diante da igreja de São Marcos, em Veneza, porque a fotografia lhes fez saber a forma de seus domos). Muito mais, porém; mesmo quando ouvi a sonata do princípio ao fim, ela me permaneceu quase totalmente invisível, como um monumento do qual a bruma ou a distância não deixam perceber senão partes diminutas. Daí a melancolia que se liga ao conhecimento de tais obras, como a tudo que se realiza no tempo. Quando o que era o mais oculto na Sonata de Vinteuil se desvelou pra mim, então, arrastado pelo hábito para fora da minha sensibilidade, começava a escapar-me, a fugir-me, o que eu distinguira e preferira da primeira vez. Por só ter podido amar em tempos sucessivos tudo aquilo que a sonata me trazia, nunca a possuí completamente: ela assemelhava-se à vida. Porém, menos enganosas que a vida, estas grandes obras-primas não começam por doar o que possuem de melhor. Na Sonata de Vinteuil, as belezas que se descobrem mais rapidamente são também as que cansam mais cedo e sem dúvida pela mesma razão, ou seja, que elas diferem menos daquilo que já se conhece. Mas, quando estas são afastadas, resta-nos amar a tal frase, cuja ordenação, por demais nova para oferecer ao nosso espírito nada além de confusão, a mantivera indiscernível e conservara intacta; e aí então, ela, diante da qual passávamos todos os dias sem o saber e que se reservara, que pelo poder de sua exclusiva beleza se tornara invisível e permanecera desconhecida, ela nos chega por último. Mas também a deixaremos por último. E iremos amá-la durante muito mais tempo que às outras, pois teremos levado muito mais tempo até a amar. Ademais, esse tempo de que precisa um indivíduo -- como me foi preciso a respeito dessa Sonata -- para penetrar numa obra um pouco profunda, é a súmula e como que o símbolo dos anos, por vezes dos séculos, que se escoam antes que o público possa amar uma obra-prima verdadeiramente nova. Talvez por isso o homem de gênio, para evitar as incompreensões da turba, considere que, visto faltar aos contemporâneos a necessária distância, as obras escritas para a posteridade só deveriam ser lidas por ela, como certas pinturas que avaliamos incorretamente de muito perto. Mas na realidade, toda precaução desprezível para evitar os falsos julgamentos é inútil, eles não podem ser evitados. O que faz com que uma obra de gênio dificilmente seja admirada de imediato é que aquele que a escreveu é extraordinário, poucas pessoas se lhe assemelham. Sua própria obra é que, fecundando os raros espíritos capazes de compreendê-la, os fará crescer e se multiplicar. Foram os próprios quartetos de Beethoven (os de número XII, XIII, XIV e XV) que levaram cinqüenta anos para fazer nascer e crescer o público dos quartetos de Beethoven, realizando assim, como todas as obras-primas, um progresso senão do valor dos artistas, pelo menos na sociedade dos espíritos, hoje largamente composta daquilo que era impensável quando a obra-prima apareceu, ou seja, criaturas capazes de amá-la. O que denominamos posteridade é a posteridade da obra. É necessário que a obra (não levando em conta, para simplificar, os gênios que na mesma época podem, paralelamente, preparar para o futuro um melhor o público do qual os outros gênios se beneficiarão) crie ela mesma a sua posteridade. Se, no entanto, a obra era mantida em segredo, e se fosse apenas conhecida pela posteridade, esta, quanto a tal obra, não seria a posteridade e sim uma assembléia de contemporâneos que simplesmente tivessem vivido cinqüenta anos mais tarde. Assim, é preciso que o artista -- e era o que havia feito Vinteuil --, se deseja que sua obra possa seguir seu caminho, lance-a, onde houver bastante profundidade, em pleno e longínquo futuro. E, no entanto, esse tempo a vir, verdadeira perspectiva das obras-primas, se não levá-lo em conta é o erro dos maus juízes, levá-lo em conta é por vezes o perigoso escrúpulo dos bons. Sem dúvida, é fácil imaginar, numa ilusão análoga à que uniformiza todas as coisas no horizonte, que todas as revoluções havidas até agora na pintura ou na música respeitavam todavia certas regras, e o que está imediatamente diante de nós, impressionismo, procura da dissonância, emprego exclusivo da gama chinesa, cubismo, futurismo, difere de modo ultrajante daquilo que o precedeu. É que aquilo que o precedeu é considerado sem levar em conta que uma longa assimilação o converteu para nós numa matéria variada, sem dúvida, mas afinal de contas homogênea, onde Victor Hugo se avizinha de Molière. Imaginemos apenas os disparates chocantes que nos apresentariam, se não levássemos em conta o tempo vindouro e as mudanças que ele acarreta, determinado horóscopo de nossa própria idade madura feito diante de nós durante a nossa adolescência. Apenas, nenhum horóscopo é verdadeiro e sermos obrigados, no caso de uma obra de arte, a computar em sua beleza o fator tempo mescla ao nosso julgamento algo tão casual e, por isso, tão desprovido de interesse verdadeiro como toda profecia cuja não-realização não implicará de forma alguma a mediocridade de espírito do profeta, pois o que chama à existência as possibilidades, ou dela as exclui, não é forçosamente da competência do gênio; pode-se ter tido gênio e não haver acreditado nas estradas de ferro nem nos aviões, ou, sendo grande psicólogo, na falsidade de uma amante ou de um amigo, cujas traições os mais medíocres conseguiram prever.

A Sonata de Vinteuil - II

Mais um trecho de "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Swann ouve a Sonata de Vinteuil inteira.

Mas o concerto recomeçou e Swann compreendeu que não mais poderia sair antes do final desse novo número do programa. Sofria por estar encerrado no meio dessas pessoas, cuja estupidez e ridicularias o magoavam tanto mais dolorosamente que, ignorando o seu amor, incapazes, se o tivessem conhecido, de se interessar por ele e proceder de outra forma que não dar um sorriso, como se se tratasse de algo pueril, ou de lastimá-lo, como se fosse uma loucura, faziam-no aparecer sob o aspecto de um estado subjetivo que para ele não existia, do qual coisa alguma exterior lhe afirmasse a sua realidade; sofria principalmente, e a ponto de que até o som dos instrumentos lhe dava vontade de chorar, por prolongar seu exílio naquele lugar aonde Odette jamais viria, onde ninguém nem nada a conhecia, de onde ela estava inteiramente ausente.


Mas, de súbito, foi como se ela tivesse entrado, e tal aparição foi para ele um sofrimento tão dilacerante que teve de levar a mão ao peito. É que o violino se erguera a notas altas onde permanecia, como que à espera, espera que se prolongava sem que ele deixasse de sustentá-las, na exaltação em que estava de já perceber o objeto de sua espera, que se aproximava, e com um esforço desesperado para tentar durar até a sua chegada, de acolhê-lo antes de morrer, de lhe manter, ainda por um momento, com todas as suas últimas forças, o caminho aberto para que ele pudesse passar, como a gente sustém uma porta, que sem isso cairia. E antes que Swann tivesse tempo de compreender e dizer a si próprio: "É a pequena frase da sonata de Vinteuil, não ouçamos!" -- todas as lembranças do tempo em que Odette o amava, e que até esse dia ele conseguira manter invisíveis nas profundezas de seu ser, iludidas por esse brusco luzeiro do tempo de amor que julgaram estar de volta, tinham despertado e, em vôo rápido, subiram para lhe cantar perdidamente, sem piedade pela sua desgraça atual, os refrões esquecidos da felicidade.


Em vez das expressões abstratas "tempo em que eu era feliz", "tempo que eu era amado", que ele muitas vezes pronunciara até então e sem muito sofrimento, pois sua inteligência só encerrara, do passado, pretensos extratos que não conservavam nada dele, Swann reencontrou tudo aquilo, que dessa felicidade perdida, fixara para sempre a essência volátil e específica; reviu tudo, as pétalas nivosas e frisadas do crisântemo que ela lhe lançara no carro, e que ele conservara entre os lábios -- o endereço, em relevo, da Maison Dorée na carta em que ele havia lido: "Minha mão treme tanto enquanto escrevo" -- a aproximação das sobrancelhas dela quando lhe dissera com ar súplice: "Não levará muito tempo para me fazer sinal?"; sentiu o cheiro do ferro do cabeleireiro, com o qual mandava alisar a escovinha enquanto Lorédan ia buscar a pequena operária, as chuvas tempestuosas que tinham caído com tanta freqüência naquela primavera; o retorno glacial na sua vitória, ao luar, todas as malhas de hábitos mentais, de impressões sazonais, de reações cutâneas, que haviam estendido numa série de semanas uma rede uniforme na qual seu corpo se achava preso. Naquele momento, Swann satisfazia uma curiosidade voluptuosa ao conhecer os prazeres das pessoas que vivem pelo amor. Achara que poderia parar por aí, que não mais seria obrigado a lhe conhecer os sofrimentos; e como agora o encanto de Odette representava pouco para ele, diante desse terror tremendo que o prolongava como um halo perturbador, essa angústia imensa de não saber o que ela havia feito em todos os momentos, de não possuí-la sempre e em toda parte! Infelizmente, ele se recordava do tom em que ela exclamara: "Mas poderei vê-lo sempre, estou sempre livre!", ela que já não o seria nunca mais! O interesse, a curiosidade que ela tivera pela vida dele, o desejo apaixonado de que ele lhe fizesse o favor -- aliás temido por ele, naquele tempo, como causa de transtornos aborrecidos -- de deixá-la penetrar em sua vida; como ela fora obrigada a lhe implorar para que ele se deixasse conduzir à casa dos Verdurin; e quando ele a fazia vir a sua casa uma vez por mês, como fora necessário, antes que se deixasse vencer, que ela lhe repetisse que delícia seria aquele costume de se verem todos os dias, coisa com que ela sonhava então, ao passo que para ele só lhe parecia uma preocupação fastidiosa, costume que depois a desgostara e com o qual rompera em definitivo, ao passo que ela se lhe tornara uma necessidade tão invencível e dolorosa. Não saberia dizer o quanto fora sincero quando, na terceira vez em que a vira, como ela lhe repetisse: "Mas por que não me deixa vir mais vezes seguidas?", dissera-lhe rindo, com um galanteio: "Por medo de sofrer." Agora, infelizmente, acontecia ainda que ela lhe escrevesse de um restaurante ou de um hotel, num papel timbrado; mas era como letras de fogo que o queimavam. "Este escrito do Hotel Vouillemont? Que é que ela pode ter ido fazer ali? Com quem? Que aconteceu?" Lembrou-se dos bicos de gás que eram apagados no bulevar dos Italianos quando a encontrara, contra toda expectativa, em meio às sombras errantes, naquela noite que lhe parecera quase sobrenatural e que, de fato -- noite de um tempo em que nem precisava se indagar se não a teria contrariado ao procurá-la, ao encontrá-la, de tanta certeza que tinha de que ela não teria maior alegria do que vê-lo e voltar para casa com ele -- pertencia a um mundo misterioso ao qual não se pode regressar jamais depois que suas portas se fecharam. E Swann percebeu, imóvel diante dessa felicidade revivida, um desgraçado que lhe causou piedade porque o não reconheceu de imediato, se bem que teve de baixar os olhos para que não vissem que estavam cheios de lágrimas. Era ele próprio.


Quando compreendeu aquilo, sua piedade cessou, mas teve ciúmes do outro eu que Odette havia amado, teve ciúmes daqueles de quem dissera muitas vezes, sem muito sofrer, "ela ama-os talvez", agora que havia mudado a vaga idéia de amar, na qual não existe amor, pelas pétalas do crisântemo e o "reservado" da Maison d'Or, que estavam cheios de amor. Depois, como seu sofrimento se tornasse muito acerbo, passou a mão pela testa, deixou cair o monóculo, enxugou as lentes. E, sem dúvida, se se visse naquele momento, o teria ajuntado à coleção daqueles cujos monóculos examinara, o monóculo que afastava como a um pensamento importuno e sobre cuja superfície embaciada experimentava apagar as preocupações com um lenço.
Existem no violino -- se, sem ver o instrumento, não podemos ligar o que ouvimos à sua imagem, a qual modifica a sonoridade -- acentos que lhe são tão comuns a certas vozes de contralto, que temos a ilusão de que uma cantora foi acrescentada ao concerto. Erguemos os olhos, vemos somente os estojos, preciosos como caixas chinesas, mas, por instantes, ainda somos enganados pelo chamado ilusório das sereias; às vezes, também, julgamos ouvir um gênio cativo que se debate no fundo da sábia caixa, feiticeira e fremente, como um demônio numa pia de água benta; às vezes, enfim, é no ar que o sentimos, como um ser sobrenatural e puro que passa desenrolando sua mensagem invisível.

Como se os instrumentistas muito menos tocassem a pequena frase que executavam os ritos exigidos por ela para que aparecesse, e procediam aos sortilégios necessários para obter e prolongar alguns instantes o prodígio de sua evocação, Swann, que não podia mais vê-la, como se ela pertencesse a um mundo ultravioleta, e como que desfrutava do frescor de uma metamorfose na cegueira temporária que o atingia ao se aproximar dela, Swann a sentia presente, como uma divindade protetora e confidente de seu amor, e que, para poder chegar até ele no meio da multidão e tomá-lo à parte para lhe falar, adotara aquele disfarce de uma aparência sonora. E enquanto ela passava, leve, calmante e murmurada como um perfume, dizendo-lhe o que tinha para dizer, e de quem ele escrutava todas as palavras, lamentando vê-las se evolarem tão depressa, Swann fazia involuntariamente com os lábios o movimento de beijar na passagem o corpo harmonioso e fugidio. Já não se sentia sozinho e exilado, visto que ela, que a ele se dirigia, lhe falara a meia voz de Odette. Pois, Swann já não tinha, como outrora, impressão de que Odette e ele eram ignorados da pequena frase. E ela fora tantas vezes testemunha de suas alegrias! É verdade que também muitas vezes o havia advertido da fragilidade dessas alegrias. E embora naquele tempo ele adivinhasse o sofrimento no sorriso, na sua entonação límpida e desencantada, hoje achava-lhe antes a graça de uma resignação quase alegre. Desses desgostos de que ela falava antigamente e que ele a via arrastar sorrindo em sua trajetória sinuosa e veloz, sem ser atingida por eles, desses desgostos que agora se haviam tornado os seus, sem que tivesse a esperança de jamais se livrar deles, ela parecia lhe dizer como outrora de felicidade: "Que é isto? Tudo isto não é nada." E o pensamento Swann dirigiu-se, pela primeira vez, a um impulso de piedade e ternura, para aquele Vinteuil, aquele irmão desconhecido e sublime que também devia ter sofrido tanto; como teria sido a sua vida? Do fundo de que mágoas pudera extrair essa força de um deus, essa potência ilimitada de criação? Quando era a pequena frase que lhe falava da vaidade de seus sofrimentos, Swann achava doce essa mesma sabedoria que, no entanto, há pouco lhe parecera intolerável quando acreditava lê-la nos rostos dos indiferentes que consideravam o seu amor como uma divagação sem importância. É que, ao contrário, a pequena frase, fosse qual fosse a opinião que pudesse ter sobre a brevidade desses estados de alma, via ali algo, não como o faziam todas essas pessoas, menos sério que a vida positiva, mas, opostamente, tão superior a ela que somente isso valia a pena ser expresso. Tais encantos de uma tristeza íntima era o que ela tentava imitar, recriar, e até mesmo a essência deles que, no entanto, é a de serem incomunicáveis e de parecerem frívolos a todo aquele que não os sente, a frase a captara e tornara visível. De modo que ela fazia confessar seu preço e desfrutar sua doçura divina por todos esses mesmos assistentes -- bastando que tivessem um mínimo de inclinação para a música -- que a seguir os desconheceriam na vida, em cada amor particular que vissem nascer perto deles. Sem dúvida, a forma sob a qual os codificara não podia se resolver em raciocínios. Porém, fazia mais de um ano que, revelando a si mesmo tantas riquezas de sua alma, o amor à música nascera-lhe, ao menos por algum tempo, e Swann considerava os temas musicais como verdadeiras idéias, de um mundo diverso, de uma outra ordem, idéias envoltas em trevas, desconhecidas, impenetráveis à inteligência, mas que nem por isso são menos distintas umas das outras, desiguais de valor e de significado entre si. Quando, depois do sarau dos Verdurin, mandara tocar de novo a pequena frase, procurava descobrir como, à maneira de um perfume ou de uma carícia, ela o aliciava e envolvia, e percebera que aquela impressão de doçura retraída e friorenta era devida à leve separação entre as cinco notas que a compunham e à evocação constante de duas delas; mas, na realidade, sabia que raciocinava assim não sobre a própria frase; porém, sobre simples valores, que substituíam, para comodidade de sua inteligência, a entidade misteriosa que ele havia percebido, antes de conhecer os Verdurin, naquela recepção onde ouvira a sonata pela primeira vez. Sabia que a própria lembrança do piano falseava ainda o plano em que via as coisas relativas à música, que o campo aberto ao músico não é um teclado mesquinho de sete notas, mas um teclado incomensurável, ainda quase totalmente desconhecido, em que apenas aqui e ali, separados por espessas trevas inexploradas, alguns dos milhões de toques de ternura, de paixão, de coragem, de serenidade que o compõem, cada um tão diferente dos outros como um universo de outro universo, foram descobertos por alguns grandes artistas que nos prestam o serviço, despertando em nós o correspondente do tema que encontraram, de nos mostrar quanta riqueza, quanta variedade, sem que saibamos, oculta essa grande noite impenetrada e desencorajadora da nossa alma que tomamos por vazio e nada. Vinteuil fora um desses músicos. Em sua pequena frase, conquanto apresentasse à razão uma superfície obscura, sentia-se um conteúdo tão consistente, tão explícito, ao qual dava uma força tão nova, tão original, que aqueles que a tivessem ouvido a conservariam em si no mesmo nível das idéias da inteligência. Swann se reportava a ela como a uma concepção do amor e da felicidade, cuja particularidade ele sabia logo, e muito bem, de que se tratava, assim como o sabia quanto à "Princesa de Cieves" ou ao "René", quando o seu nome se lhe apresentava à memória. Mesmo quando não pensava na pequena frase, ela existia latente em seu espírito, na mesma condição de certas outras noções sem equivalente, como as noções de luz, de som, de relevo, de volúpia física, que são as ricas posses com que se diversifica e ganha expressão o nosso domínio interior. Talvez as percamos, talvez elas se apaguem, se volvermos ao nada. Mas enquanto vivermos, e assim como ocorre quanto a qualquer objeto real, não podemos fazer de conta que não as conhecemos, como não podemos, por exemplo, duvidar da luz da lâmpada que acendemos diante dos objetos metamorfoseados de nosso quarto, de onde se escapou até a lembrança da escuridão. Por esse fato, a frase de Vinteuil, como determinado tema do "Tristão", por exemplo, que também nos representa uma certa aquisição sentimental, havia esposado nossa condição mortal, adquirido algo de humano que era bem tocante. Sua sorte estava ligada ao futuro, à realidade da nossa alma, de que ela era um dos ornatos mais particulares, mais bem diferenciados. Talvez esse nada é que seja verdadeiro, e todo o nosso sonho é inexistente, mas então sentimos que é necessário que semelhantes frases musicais, essas noções que existem, relativas a elas, também não sejam coisa alguma. Morreremos, mas temos como reféns essas prisioneiras divinas, que seguirão nosso destino. E, com elas, a morte possui algo de menos amargo, de menos inglório, talvez até de menos provável.

Portanto, Swann não estava errado em acreditar que a frase da sonata existisse realmente. Certo, humana sob este ponto de vista, ela no entanto, pertencia a uma ordem de criaturas sobrenaturais e que nunca vimos, mas que, apesar disso, reconhecemos deslumbrados quando algum explorador do invisível consegue captar uma, trazê-la do mundo divino a que teve acesso para brilhar por poucos momentos sobre o nosso. Fora o que Vinteuil fizera quanto à pequena frase. Swann sentia que o compositor se contentara, com seus instrumentos musicais, em revelá-la, torná-la visível, seguir e respeitar o desenho com mão tão macia, tão prudente, tão delicada e tão segura que o som se alterava a todo instante, esfumando-se para indicar uma sombra, revivendo quando lhe fosse necessário andar no encalço de um contorno mais arrojado. E uma prova de que Swann não se enganava ao crer na existência real dessa pequena frase, era que todo amador um tanto perspicaz perceberia de imediato a impostura, caso Vinteuil, tendo menos força para ver e reproduzir suas formas, tivesse procurado dissimular, acrescentando aqui e ali traços de sua lavra, as lacunas de sua visão ou a incapacidade de suas mãos.

Ela havia desaparecido. Swann sabia que retornaria no fim do primeiro movimento, depois de um longo trecho que o pianista da Sra. Verdurin sempre saltava. Ali havia idéias admiráveis que Swann não distinguira na primeira audição e que agora percebia, como se elas, no vestíbulo de sua memória, se tivessem desembaraçado do disfarce uniforme da novidade. Swann escutava todos os temas esparsos que entravam na composição da frase, como as premissas na conclusão necessária, assistia à sua gênese. "Oh, audácia tão genial, talvez", dizia consigo, "como a de um Lavoisier ou de um Ampère, audácia de um Vinteuil movimentando, descobrindo as leis secretas de uma força desconhecida, conduzindo através do inexplorado, rumo ao único fim possível, a aparelhagem invisível em que confia e que não verá jamais!" Que belo diálogo Swann ouviu entre o piano e o violino no princípio do último trecho! A supressão das palavras humanas, longe de deixar reinar ali a fantasia, como se poderia crer, eliminara-a; nunca a linguagem falada foi tão inflexivelmente fatal, não conheceu a esse ponto a pertinência das perguntas, a evidência das respostas. Primeiro o piano solitário se queixava, como um pássaro abandonado pela companheira; o violino o ouviu, respondeu-lhe como de uma árvore vizinha. Era como no começo do mundo, como se só existissem eles dois sobre a terra, ou melhor, naquele mundo fechado a tudo o mais, construído pela lógica de um criador, e onde só os dois existiriam para todo o sempre: aquela sonata. Era um pássaro, era a alma incompleta ainda da pequena frase, era uma fada aquele ser invisível e lastimoso cuja queixa o piano a seguir repetia com ternura? Seus gemidos eram tão repentinos que o violinista deveria se precipitar sobre seu arco para recolhê-los. Maravilhoso pássaro! O violinista parecia querer encantá-lo, aprisioná-lo, captá-lo. Já havia passado para sua alma, já a pequena frase evocada agitava, como a de um médium, o corpo verdadeiramente possuído do violinista. Swann sabia que ela ia falar uma vez mais. E tão bem se duplicara a personalidade dele que a espera do instante iminente em que iria se reencontrar diante dela sacudiu-o com um desses soluços que um belo verso, ou uma notícia triste nos provocam, não quando estamos sozinhos, mas quando a comunicamos a amigos nos quais nos sentimos refletidos como uma outra pessoa cuja provável emoção os enternece. Ela reapareceu, mas desta vez para suspender-se no ar e tocar por um momento sozinha, como que imóvel, e expirar depois. Portanto, Swann não perdia nada desse tempo tão curto em que ela se prolongava. Ela ainda estava ali como uma bolha irisada que se mantém. Assim como um arco-íris, cujo brilho se enfraquece, diminui, depois aumenta e, antes de se extinguir, se exalta por um instante como ainda não o fizera: às duas cores que até então deixara transparecer, acrescentou outras cordas matizadas, todas as do prisma, fazendo-as cantarem. Swann não ousava se mexer e gostaria de manter tranqüilas também as outras pessoas, como se o menor movimento houvesse podido comprometer o prestígio sobrenatural, delicioso e frágil que estava prestes a se desvanecer. Para dizer a verdade, ninguém sonhava em falar. A palavra inefável de um único ausente, talvez de um morto (Swann não sabia se Vinteuil ainda era vivo), evocando-se acima dos ritos daqueles oficiantes, bastava para manter em xeque a atenção de trezentas pessoas e transformava o estrado em que uma alma era daquele modo evocada num dos mais nobres altares em que se pudesse realizar uma cerimônia sobrenatural. De forma que, quando por fim a frase se desfez, flutuando em farrapos nos motivos seguintes que já tinham ocupado o seu posto, se Swann, no primeiro momento, se irritou por ver a condessa de Monteriender, célebre por sua ingenuidade, se inclinar para ele a fim de confiar-lhe suas impressões antes mesmo que a sonata estivesse concluída não pôde evitar um sorriso e talvez também achar um sentido profundo, que ela não percebia, nas palavras que empregara. Maravilhada com o virtuosismo dos instrumentistas, a condessa exclamou, dirigindo-se a Swann:

-- É prodigioso, nunca vi nada tão impressionante... -- Mas um escrúpulo de exatidão fê-la corrigir a primeira assertiva e acrescentou com reserva: -- Nada tão impressionante... desde as mesas giratórias!

A Sonata de Vinteuil - I

Estou lendo "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust, pela segunda vez. A primeira foi há dez anos. Aqui vai um trecho do volume 1, "No Caminho de Swann", sobre a primeira vez que Swann ouve a frase da Sonata de Vinteuil.


Depois que o pianista tocou, Swann foi ainda mais amável com ele do que com as outras pessoas que ali se achavam. Eis a razão: no ano anterior, em uma recepção, ele ouvira uma peça musical tocada ao piano e violino. A princípio admirara a qualidade material dos sons secretos tirados pelos instrumentos, aquilo já fora uma grande satisfação; eis senão quando, por baixo da linha menor do violino, tênue, resistente, densa e dominadora, ele vira de súbito elevar-se, num marulho líqüido, a massa da parte do piano, multiforme, indivisa, plana, entrechocada como a malva agitação das vagas que o luar encanta e memoriza em um dado momento, sem poder distinguir com nitidez um contorno, dar nome ao que lhe agradava, subitamente arrebatado, buscara recolher a frase ou a harmonia -- ele mesmo não o sabia -- que passava e que lhe abria a alma mais largamente, como certos aromas de rosas que circulam no ar úmido da noite têm a propriedade dilatar nossas narinas. Talvez porque não conhecia a música, pudera experimentar uma impressão tão confusa, uma dessas impressões que, no entanto, talvez sejam as únicas puramente musicais, não-extensas, inteiramente originais, irredutíveis a todo gênero diverso de impressões. Uma impressão desse tipo, durante um momento, é por assim dizer "sine materia". E claro que as notas que então ouvimos já se inclinam, segundo a altura e a quantidade, a cobrir diante de nossos olhos superfícies de dimensões variadas, a traçar arabescos, sensações de largura, tenuidade, estabilidade e capricho. Mas as notas desaparecem antes que essas sensações estejam bem formadas em nós para não se submergirem diante daquelas que as notas seguintes ou simultâneas já despertam. E essa impressão continuaria a envolver com sua liqüidez e o seu "fundo" os motivos e por instantes emergem, mal discerníveis, para logo mergulhar e desaparecer, conhecidos apenas pelo prazer particular que proporcionam, impossíveis de descrever, de serem lembrados, denominados, inefáveis -- se a memória, como um operário que trabalha para estabelecer fundações duradouras em meio às ondas, fabricando para nós fac-símiles dessas frases fugitivas, não nos permitisse compará-las às que as sucedem e diferenciá-las. Assim, mal havia expirado a sensação deliciosa que Swann sentira, a sua memória lhe fornecera, de imediato, uma transcrição sumária e provisória, mas sobre a qual já lançara ele os olhos enquanto o trecho continuava a ser tocado, se bem que, quando a mesma impressão voltara de súbito, ela já não era inatingível. Ele lhe concebia a extensão, os grupamentos simétricos, a grafia, o valor expressivo; tinha diante de si essa coisa que já não é mais música pura, que faz parte do desenho, da arquitetura, do pensamento, e que permite recordar a música. Desta vez havia distinguido nitidamente um trecho que se elevava por alguns instantes acima das ondas sonoras. Esse trecho lhe propusera logo volúpias especiais, que nunca imaginara antes de ouvi-lo, e percebia que somente ele lhe podia fazer conhecê-las, e sentiu por aquela frase como que um amor desconhecido.

Num ritmo lento, ela o dirigia primeiro para um lado, depois para outro, depois mais adiante, para uma felicidade nobre, precisa e ininteligível. E de repente, no ponto em que ela chegara e de onde ele se preparava para segui-la, depois de uma pausa de um segundo, mudava de direção bruscamente e, com um novo movimento, mais rápido, miúdo, permanente, melancólico e suave, ela o arrastava consigo para perspectivas desconhecidas. Depois, desapareceu. Ele desejou apaixonadamente revê-la uma terceira vez. E ela reapareceu, de fato, mas sem lhe falar mais claramente, causando-lhe mesmo uma volúpia menos profunda. Mas, chegando em casa, teve necessidade dela, era como um homem em cuja vida uma mulher, mal entrevista por um momento, acaba de fazer entrar a imagem de uma beleza nova, que dá à sua sensibilidade um valor maior, sem que ele saiba sequer se poderá rever algum dia aquela que ele já ama e da qual ignora até o nome.

Mesmo esse amor por uma frase musical pareceu, por um instante, trazer a Swann a possibilidade de uma espécie de renovação. Decorrera tanto tempo que havia desistido de aplicar sua vida a um objetivo ideal e limitava-a a perseguir satisfações do dia-a-dia, que julgava, sem nunca o afirmar formalmente, que aquilo não se modificaria até sua morte; ainda mais, já não sentindo idéias elevadas no espírito, deixara de crer na realidade delas, sem todavia não poder negá-las de todo. Assim, adquirira o hábito de se refugiar em pensamentos desimportantes que lhe permitissem deixar de lado o fundo das coisas. Assim como não cuidava de indagar de si mesmo se não seria melhor freqüentar a sociedade, mas, em compensação, sabia com certeza que se aceitasse um convite devia comparecer e que, se não fizesse visitas, deveria deixar um cartão, assim também, na conversação, esforçava-se para nunca exprimir sinceramente uma opinião íntima sobre as coisas, e sim de fornecer detalhes materiais que de certa forma valessem por si mesmos, evitando que os avaliasse em toda a medida. Era extremamente preciso quanto a uma receita culinária, quanto à data de nascimento ou morte de um pintor, quanto à nomenclatura de suas obras. Às vezes, apesar de tudo, permitia-se emitir uma opinião sobre uma obra, sobre uma forma de compreender a vida, mas então dava a suas palavras tom irônico, como se não aceitasse inteiramente o que dizia. Ora, como certos valetudinários a quem, de súbito, uma região aonde chegam, um regime diverso, às vezes uma evolução orgânica, espontânea e misteriosa,parecem trazer uma regressão do mal de que sofrem, e começam a admitir a possibilidade inesperada de principiar, ainda que tarde, uma vida completamente diferente, Swann encontrava em si, na lembrança da frase que ouvira, em certas sonatas que mandava tocar ver se a descobria, a presença de uma dessas realidades invisíveis em que deixara de acreditar e às quais, como se a música tivesse tido, sobre a secura moral de que ele sofria, uma espécie de influência eletiva, sentia de novo o desejo e quase a força de consagrar a vida. Porém, não tendo conseguido saber quem era o compositor da melodia que ouvira, não pudera procurá-la e a acabara esquecendo. Encontrara naquela semana algumas pessoas que, como ele, se achavam nessa recepção e as interrogara; mas vários tinham chegado após a música, e outros saíram antes; no entanto, alguns lá estavam durante a execução da peça, mas tinham ido conversar em outro salão, e outros, que ficaram para ouvir, só tinham escutado as primeiras notas. Quanto aos donos da casa, sabiam que se tratava de uma obra nova que os artistas contratados tinham pedido para tocar; tendo estes partido para uma turnê, Swann não pôde saber mais nada. Contava com muitos amigos músicos mas, embora recordasse o prazer especial e intraduzível que lhe dera a frase, vendo diante dos olhos as formas que ela desenhava, era todavia incapaz de cantá-la para eles. Depois, deixou de pensar naquilo.

Ora, somente alguns minutos depois que o jovem pianista começara a tocar na casa da Sra. Verdurin, eis que de repente, depois de uma nota alta longamente sustentada durante dois compassos, Swann viu se aproximar, escapando-se debaixo dessa sonoridade prolongada e tensa, como uma cortina sonora para ocultar o mistério de sua incubação, reconhecendo, secreta, sussurrante e fragmentária, a frase aérea e perfumada que amava. E ela era tão particular, tinha um charme tão individual e que nenhuma outra poderia substituir, que aquilo foi para Swann como se houvesse encontrado num salão amigo, uma pessoa que admirara na rua e desesperava de encontrar de novo. Por fim, a frase se afastou, indicadora, cuidadosa, por entre as ramificações de seu perfume, deixando no rosto de Swann o reflexo de seu sorriso. Mas, agora, ele podia perguntar o nome de sua desconhecida (disseram-lhe que se tratava do andante da "Sonata para piano e violino", de Vinteuil), tinha-a segura, podia tê-la consigo o quanto quisesse e tentar apreender a sua linguagem e o seu segredo.