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domingo, 27 de julho de 2014

Cinqüenta Anos Esta Noite, de José Serra

José Serra lançou recentemente o livro Cinqüenta Anos Esta Noite: o Golpe, a Ditadura e o Exílio. Conta toda a sua experiência traumática de líder estudantil, cujo curso e cujos projetos pessoais e políticos foram interrompidos bruscamente pelo golpe de 64.

Li seu relato com grande curiosidade e, para falar a verdade, com grande espanto. Nasci sete anos depois do golpe. Quando comecei a me interessar por notícias, a anistia já era uma realidade. Provavelmente, fui prestar atenção em Serra quando ele se candidatou a prefeito de São Paulo, em 1988. Conhecia muito pouco de sua carreira como líder estudantil.

A primeira coisa que me chocou foi a reunião, que abre o livro, entre o presidente João Goulart e os dirigentes da Frente de Mobilização Popular (FMP), em um apartamento em Ipanema, num domingo de outubro de 1963. Quem conduz a reunião é Leonel Brizola, que liderava a ala radical da FMP. A ala moderada era ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). José Serra, presidente da UNE, com 21 anos, disse a Jango:

“— Presidente, nós defendemos que o pedido de estado de sítio seja retirado. Ele vai suprimir as garantias constitucionais e fortalecer a direita. Vai acabar se voltando contra o povo, contra o seu governo e contra o senhor mesmo.”

É um fato completamente exótico que o presidente da República participe de uma reunião secreta com representantes de organizações regulares e clandestinas para discutir a suspensão da ordem constitucional.

Pelo que Serra conta ao longo do livro, ele certamente não estava preparado, aos 21 ou 22 anos, para dar opiniões embasadas sobre a organização política nacional. Mas fazia isso com desembaraço. Tinha se mudado de São Paulo para o Rio de Janeiro para presidir a UNE. Tinha parado de assistir aulas do curso de engenharia na Poli e voltava a São Paulo apenas para fazer provas e visitar a família. É recebido por Jango para discutir assuntos políticos e educacionais. É convocado pelo Congresso para explicar as atividades da UNE. Discursou no Comício da Central, em 13 de março de 64.

Seis dias depois desse comício, houve a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Serra reconhece que a maioria das pessoas que participou desse ato foi de boa-fé, com medo das ameaças de comunismo que rondavam o Brasil. Conheço gente apolítica que esteve na Marcha, achando que era um tipo de procissão. Serra está convencido que essas pessoas temiam uma ameaça irreal. Não tenho a mesma certeza. Menciona grupos paramilitares de direita e diz que não havia paramilitares de esquerda. Minimiza a importância das Ligas Camponesas de Francisco Julião e dos Grupos dos Onze de Brizola. Não tenho conhecimento suficiente para avaliar essa questão. A sensação que tenho é que a ordem institucional estava sendo claramente ameaçada pelos dois lados. Talvez a esquerda de fato não tivesse força para ser vitoriosa em um golpe. Mas me parece claro que setores importantes dela tinham essa intenção e que as pessoas tinham motivos para ter medo.

É evidente que a ditadura militar brasileira foi uma violência sem tamanho contra toda uma geração de brasileiros. Ninguém deveria ter sido obrigado a fugir do Brasil. Ninguém deveria ter sido preso sem o devido processo legal. Ninguém deveria ter sido torturado, morto sob custódia, desaparecido. Os militares se aproveitaram da ameaça percebida contra a democracia para tomarem o poder e ficarem por lá por 21 anos, traindo as pessoas que os apoiaram.

Então, ocorre o golpe militar e Serra foge. A UNE foi invadida e incendiada. Muitas pessoas foram presas. Depois de vagar por algum tempo sem saber direito para onde ir, Serra se refugia na Embaixada da Bolívia. Muitos outros refugiados passam por lá e, rapidamente, conseguem o salvo-conduto para saírem do Brasil. Ele fica por 80 dias, mas finalmente consegue ir para a Bolívia e, de lá, para a França. Conseguiu uma bolsa em uma universidade francesa, mas passou pouco tempo por lá. Antes do final de 64, falsificou um passaporte brasileiro e, em janeiro de 1965, voltou para a América, para o Chile, com o documento falso. Passando pela Argentina e pelo Uruguai, entrou clandestinamente no Brasil, em fevereiro. Quem o ajudou a cruzar a fronteira foi Brizola, que tentava organizar uma resistência armada ao regime, a partir de Santa Catarina. Quem o ajudou no Uruguai foi Andrés Cultelli, que Serra diz ter sabido depois que era um dos líderes do Movimento de Libertação Nacional, os Tupamaros. Cultelli participou do assassinato de um agente da CIA em Montevidéu. Serra se espanta em descobrir que o “homem cordial e paciente” que o recebeu era um líder Tupamaro.

Escondido em São Paulo, Serra foi ajudado por dois companheiros da Ação Popular (AP), Egídio Bianchi e Sérgio Motta.  Em março, houve uma reunião nacional da AP em São Paulo. Serra queria ir. Os companheiros pediram que ele não se arriscasse e foram à reunião no lugar dele. O Dops interrompeu o evento e prendeu todo mundo. Bianchi e Motta passaram nove dias na prisão, mas não foram torturados. A polícia apreendeu uma pasta de Bianchi, com a correspondência cifrada que ele mantinha com Betinho (Herbert de Souza) e Aldo Arantes, exilados no Uruguai. Os papéis mencionavam contatos com Brizola, que tentava montar uma guerrilha de padrão cubano. A polícia não entendeu os textos cifrados e não deu importância à papelada. Serra resolveu sair novamente do Brasil e foi para o Chile.

No Chile, estudou economia. Conseguiu uma graduação, dava aulas, conheceu sua esposa e teve dois filhos. Trabalhou para o governo chileno.

Sobre o governo de Salvador Allende, Serra narra as arbitrariedades cometidas contra diversos setores da economia e reconhece parte dos erros de Allende. Mas também acusa a oposição de tentar inviabilizar o governo dele. Se o que ele narra acontecesse em meu país e eu fosse a oposição, também tentaria inviabilizar um governo que cometesse aqueles absurdos.

Em agosto de 1973, Serra foi a Moscou, a convite da Federação Mundial da Juventude. Lá, num encontro com Luís Carlos Prestes, ficou sabendo que o general Pinochet havia substituído Carlos Pratts no comando do Estado-Maior das Forças Armadas chilenas. Voltou ao Chile acreditando que logo haveria um golpe, mas não conseguiu sair do país com sua família antes que ocorresse. Ficou seis meses na Embaixada da Itália, até obter um salvo-conduto para deixar o país, em maio de 74. Morou nos Estados Unidos até 1977. Nesse momento, a abertura estava em andamento no Brasil e ele voltou para cá. Chegou a ser interrogado algumas vezes, mas não foi realmente perturbado pelo regime militar a partir de então.

Percebo, nas opiniões expressas por José Serra por todo o livro, que as opiniões dele são diferentes das minhas sobre quase todos os assuntos. Ele é um homem de esquerda, que tem uma visão de esquerda sobre qualquer questão política e econômica. Não é marxista e não apoiou o regime da União Soviética, mas sempre defendeu a intervenção do Estado na vida das pessoas. Gostaria que os meus prezados amigos de esquerda, com quem tenho o prazer de debater, lessem este livro e me contassem em que pontos discordam do autor. Não diferencio o que ele diz do que eles dizem.

O que vou dizer agora vai soar desrespeitoso, mas não posso evitar. Considero Serra um homem sério e acho que seus governos no Município e no Estado de São Paulo foram excelentes. Considero-o um grande administrador. Acho que ele conseguiu seu objetivo no exílio, de ser um dos políticos mais preparados de sua geração. Porém, por todo o livro, ele está sempre se encontrando com comunistas, com terroristas, com guerrilheiros. Acho que ele não tentou de fato participar da luta armada. Mas não vejo uma expressão mais clara de arrependimento ou repúdio por esses contatos, por voltar clandestino ao Brasil, pelas atividades de Betinho ou de Brizola. Não consigo deixar de lembrar do personagem de Casseta e Planeta, o Wanderney, que estava sempre em uma sauna gay com o Peludão, mas declarava aos brados: “— Estou aqui, mas eu não sou gay! Eu não sou gay!”

A declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Sérvia

A Primeira Guerra Mundial começou oficialmente em 28 de julho de 1914, quando o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia, exatamente um mês depois do assassinato do Arquiduque Francisco Fernando.

Uma corrente política dentro do Império Austro-Húngaro considerava que o crime era um excelente pretexto para por em prática seus planos de guerra contra a Sérvia. A Alemanha também se preparava para lutar contra a França e a Rússia e acreditava que aquele era o melhor momento, porque seus inimigos não estariam tão prontos para um conflito. Os partidários da guerra acreditavam que conseguiriam a vitória antes do Natal de 1914.

Depois de intensas mobilizações diplomáticas dos dois lados durante o mês de julho, o Império Austro-Húngaro enviou um ultimato à Sérvia, em 23 de julho, com dez exigências:

  1. Suprimir todas as publicações que “incitem ódio e desprezo pela Monarquia Austro-Húngara” e que “sejam dirigidas contra sua integridade territorial”. 
  2. Dissolver a organização nacionalista sérvia Narodna Odbrana (“A Defesa do Povo”) e todas as outras sociedades semelhantes na Sérvia.
  3. Eliminar imediatamente dos livros escolares e documentos públicos toda “propaganda contra a Áustria-Hungria”.
  4. Excluir da administração civil e militar da Sérvia todos os funcionários que o Governo Austro-Húngaro exigir.
  5. Aceitar na Sérvia “representantes do Governo Austro-Húngaro” para a supressão de “movimentos subversivos”.
  6. Levar a julgamento todos os envolvidos no assassinato do Arquiduque e permitir que autoridades austro-húngaras tomem parte das investigações.
  7. Prender o Major Vojislav Tankosić e o funcionário público Milan Ciganović, apontados como participantes no plano de assassinato.
  8. Cessar a cooperação de autoridades sérvias no “tráfico de armas e explosivos pela fronteira”; demitir e punir as autoridades do serviço de fronteira de Šabac e Loznica, “culpados de auxiliarem os perpetradores do crime de Sarajevo”.
  9. Apresentar “explicações” ao Governo Austro-Húngaro sobre “autoridades sérvias” que manifestaram, em entrevistas, “hostilidade ao Governo Austro-Húngaro”.
  10. Notificar o Governo Austro-Húngaro “sem demora” da execução das medidas que compõem o ultimato.

O governo da Sérvia deveria responder em 48 horas. Extremamente pressionada, a Sérvia aceitou os pontos 1 a 4 e 7 a 10. Pediu maiores esclarecimentos sobre o ponto 5, manifestando a intenção de também aceitá-lo. Recusou o ponto 6, afirmando que violava sua Constituição. Winston Churchill, então Primeiro Lord do Almirantado da Grã Bretanha, escreveu que o ultimato era “o documento mais insolente jamais escrito em sua categoria”. O kaiser da Alemanha, Guilherme II, ao ler a resposta da Sérvia, disse que isso eliminava as razões para a guerra e que a Sérvia havia capitulado da maneira mais humilhante possível. Ele acreditava que as mínimas restrições que a Sérvia havia feito poderiam ser resolvidas por negociações.

Infelizmente, o Império Austro-Húngaro não queria um motivo, mas um pretexto. O chanceler da Alemanha, Theobald von Bethmann-Hollweg, também manobrou para esconder as dúvidas e as propostas de conciliação de Guilherme II, no que foi bem-sucedido.

Em 28 de julho, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia. Em 1º de agosto, a Alemanha declarou guerra à Rússia, que se mobilizava para proteger a Sérvia. Em 2 de agosto, a Alemanha invadiu Luxemburgo, como preparação para invadir a Bélgica e poder atacar a França. Em 3 de agosto, declarou guerra à França. Em 4 de agosto, invadiu a Bélgica, sem declaração formal de guerra. Isso provocou a declaração de guerra da Grã-Bretanha à Alemanha.


Imperador Francisco José,
do Império Austro-Húngaro
Nikola Pašić, Primeiro-Ministro da Sérvia

Kaiser Guilherme II, da Alemanha Theobald von Bethmann-Hollweg,
Chanceler da Alemanha
Czar Nicolau II, da Rússia

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Cem Anos do Assassinato do Arquiduque Francisco Fernando e da Duquesa Sofia

No dia 28 de junho de 1914, o Arquiduque Francisco Fernando (em alemão, Franz Ferdinand), herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, e sua esposa, a Duquesa Sofia de Hohenberg, foram assassinados em Sarajevo. Esse atentado deflagrou a Primeira Guerra Mundial.

O crime foi planejado pelo coronel sérvio Dragutin Dimitrijević, que liderava o grupo terrorista Mão Negra. Ele recrutou um grupo de nacionalistas sérvios, quase todos jovens estudantes, e deu a cada um deles uma pistola ou uma bomba para atirarem contra o carro do Arquiduque. Deu também uma cápsula de cianeto, para que se suicidassem depois do atentado. Os terroristas eram Muhamed Mehmedbašić, Vaso Čubrilović, Nedeljko Čabrinović, Cvjetko Popović, Gavrilo Princip e Trifko Grabež. Čabrinović, Princip e Grabež eram tuberculosos e acreditavam ter pouco tempo de vida.

O Arquiduque e sua esposa estavam em visita a Sarajevo. Seu carro passou por Mehmedbašić e por Čubrilović, que não conseguiram atacá-lo. Quando a comitiva se aproximou de Nedeljko Čabrinović, o terrorista lançou sua granada. O artefato bateu no capô do carro, mas demorou um pouco a explodir. Acabou destruindo o carro seguinte e ferindo cerca de vinte pessoas. O motorista do Arquiduque acelerou e eles passaram incólumes pelos outros três conspiradores.

Muhamed Mehmedbašić Vaso Čubrilović Nedeljko Čabrinović Cvjetko Popović Trifko Grabež
Nedeljko Čabrinović tentou se suicidar tomando a pílula de cianeto e se jogando no Rio Miljacka. O veneno apenas o fez vomitar e o rio tinha menos de vinte centímetros de profundidade. Foi preso pela polícia depois de quase ser linchado.

Gavrilo Princip
Depois de ser recebido na Prefeitura, o Arquiduque decidiu visitar no hospital as vítimas do atentado, contrariando a orientação dos responsáveis por sua segurança. No caminho de volta, a comitiva errou o caminho e entrou em uma rua não prevista. Percebendo o erro, tentaram manobrar para voltar. Gavrilo Princip estava exatamente nesse ponto e disparou sua arma, atingindo o Arquiduque e a Duquesa.

Os participantes do atentado foram presos. Os executores foram condenados a penas de prisão. Os mandantes foram condenados à forca ou ao fuzilamento e executados. Čabrinović, Princip e Grabež morreram de tuberculose na prisão, antes do final da guerra.

Francisco Fernando não era filho do Imperador Francisco José, era sobrinho. Tornou-se o herdeiro do trono porque o príncipe herdeiro Rodolfo de Habsburgo, seu primo e único filho homem do Imperador, morreu em circunstâncias nebulosas, em sua estação de caça em Mayerling, em 1889. A versão oficial é de que o príncipe, de 30 anos, cometeu suicídio depois de matar sua amante, a Baronesa Maria Vetsera, de 17 anos.

Coronel Dragutin Dimitrijević

quinta-feira, 5 de junho de 2014

70 Anos do Dia D

Em 5 de junho de 1944, o general Dwight D. Eisenhower disse uma das frases mais importantes da Segunda Guerra Mundial e, talvez, da história humana: “OK, vamos.” Era a ordem final para proceder, no dia seguinte, à Operação Overlord, o desembarque dos aliados na Normandia, o Dia D.

Foi uma decisão arriscada, porque as condições meteorológicas não eram exatamente favoráveis, mas, se não aproveitassem aquela breve melhora do tempo, talvez a operação fosse adiada indefinidamente.

Eisenhower visita as tropas, em 05/06/1944, momentos antes do embarque
para o Dia D.

Este post é uma pequena homenagem àqueles que lutaram pela liberdade na Segunda Guerra Mundial, a um custo tão elevado. Poderíamos não estar aqui hoje, ou estar em um mundo completamente dominado pela opressão. Não existe agradecimento suficiente aos heróis que entraram na Normandia, em 6 de junho de 1944.

Cemitério de soldados aliados mortos na Normandia

Aqui jaz, em honrosa glória, um companheiro de armas
conhecido apenas por Deus.


Túmulo de um soldado judeu


Talvez o soldado mais alto do exército alemão,
rendendo-se ao cabo britânico Bob Roberts, no Dia D.









domingo, 18 de maio de 2014

Guia Politicamente Incorreto do Futebol, de Jones Rossi e Leonardo Mendes Júnior

Foi lançado recentemente mais um livro da série Guia Politicamente Incorreto, o Guia Politicamente Incorreto do Futebol, de Jones Rossi e Leonardo Mendes Junior.

O foco é muito mais o futebol que a política. Os autores abordam alguns fatos curiosos sobre o início do esporte no Brasil, sobre o craque Friedenreich e o racismo nos nossos clubes durante o século 20. Analisam questões da Seleção Brasileira nas Copas de 70, 82, 94 e 98. Sobre a seleção de 70, dizem que João Saldanha não foi demitido por ser comunista, mas por ser um técnico problemático, que estava fazendo o time jogar mal. Com Zagallo, o time conseguiu uma formação que permitia que os melhores craques jogassem juntos. Sobre a seleção de 82, escrevem que o time tinha falhas graves e mereceu perder para a Itália. Comparam o Brasil de 94 com a Espanha de 2010 e concluem que os dois times são muito parecidos.

O último capítulo, sobre Pelé, Maradona e Messi, não faz nenhuma comparação entre os jogadores, mas desmente 13 mitos sobre eles, inclusive o de que Pelé fez parar uma guerra.

Também narra a Batalha dos Aflitos de maneira não muito heróica para o Grêmio.

Meu conhecimento sobre futebol é muito limitado. Não tenho como opinar sobre a maior parte do que o livro trata, exceto para dizer que achei bem escrito e aprendi um pouco sobre essa história. Mas gostei muito do capítulo sobre a Democracia Corintiana, que diz que tratava-se de uma ditadura, manipulada por uns poucos líderes, principalmente Sócrates, Wladimir e Adílson Monteiro Alves. Também gostei muito do capítulo do futebol como negócio. Comparando o faturamento dos principais clubes com o de empresas não tão grandes assim, percebemos que os valores envolvidos no esporte são baixos, muito baixos.

O trecho mais interessante do livro, como Leandro Narloch apontou, é o que diz que a “lei de Gerson” melhora o mundo. Pena que é tratado de maneira tão rápida, poderia ter sido desenvolvido de maneira mais abrangente. As pessoas normalmente entendem “levar vantagem” como um benefício ilícito, mas não existe razão para isso. Se “levar vantagem em tudo” significar trabalhar para conseguir o melhor resultado possível para si mesmo, isso não é de forma alguma antiético. E, então, se cada um procurar o melhor para si mesmo, a vida melhora para a sociedade como um todo, conforme disse Adam Smith: “Não é pela benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas de sua preocupação com seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas ao seu amor-próprio, e nunca falamos a eles de nossas próprias necessidades, mas sim das vantagens para eles. Ninguém, exceto um mendigo, escolhe depender primordialmente da benevolência de seus companheiros cidadãos.”

terça-feira, 6 de maio de 2014

Ditadura à Brasileira, de Marco Antonio Villa

Depois de Década Perdida, Marco Antonio Villa lançou, no começo do ano, Ditadura à Brasileira - A Democracia Golpeada à Esquerda e à Direita. Da mesma forma que no livro anterior, é uma recapitulação dos fatos mais importantes ocorridos no Brasil entre 1962 e 1984. Cada divisão do livro corresponde a um governo: Jango, Castello, Costa e Silva, Junta Militar, Médici, Geisel e Figueiredo. Dentro de cada divisão, um capítulo para cada ano.

Se Década Perdida é um saudável exercício de masoquismo, Ditadura à Brasileira é menos sombrio. Talvez porque eu não tenha vivido a maior parte desses acontecimentos. Talvez porque a ditadura tenha terminado com grandes esperanças, que depois se concretizaram apenas parcialmente.

O livro é bem completo e abrangente, embora não se aprofunde nos detalhes de cada acontecimento narrado. Quando li os livros do Elio Gaspari, fiquei frustrado por ele pular simplesmente alguns acontecimentos. Marco Antonio Villa preenche essas lacunas.

Durante o conturbado governo João Goulart, havia ameaças à democracia de vários lados. O PCB possuía células clandestinas nas Forças Armadas. O PC do B havia mandado um grupo de guerrilheiros para ser treinado na China. As Ligas Camponesas criaram campos de treinamento de guerrilheiros no Brasil mesmo. Os Grupos dos Onze, de Leonel Brizola, pretendiam ser o embrião de um partido revolucionário. Enquanto isso, os militares também não paravam de conspirar. Nesse ambiente, Jango sabotou sistematicamente o parlamentarismo, até conseguir a volta do presidencialismo. Depois disso, articulava para permanecer na presidência. Assustou a opinião pública e os militares com o Comício da Central e o apoio ao movimento dos sargentos da Marinha.

Sua derrubada pelo Exército foi recebida com alívio pela maior parte da população. Ninguém imaginava que essa intervenção seria diferente de todas as anteriores, entre 1945 e 1964, e que os militares ficariam 21 anos no poder.

Villa considera que o que pode ser chamado de ditadura é o período de vigência do AI-5, ou seja, de 13 de dezembro de 1968 a 31 de dezembro de 1978. Entre 1964 e 1968 e de 1979 em diante, o Brasil teve uma intensa vida cultural e política. Entendo o ponto de vista dele, mas não concordo. As arbitrariedades do Ato Institucional original e do AI-2, AI-3 e AI-4, que ele descreve melhor que o Elio Gaspari, não têm como existir em uma democracia. E o que não é democracia é ditadura. Pode ser uma ditadura parcial, menos agressiva, violenta e mortífera que outras, mas continua sendo ditadura.

Durante todo o regime militar, os governantes evitaram perpetuar um único presidente no poder, falaram por diversas vezes em democracia e reconheciam que o país passava por um regime de exceção. Castello Branco e Costa e Silva governaram numa escalada autoritária, ou por fraqueza ou por vontade, e chegamos ao auge do arbítrio com o AI-5. A doença repentina de Costa e Silva complicou tremendamente a situação. Os ministros militares, com a ajuda do ministro da Justiça, Gama e Silva, impediram a posse do vice-presidente civil, assumiram temporariamente o governo e fizeram uma transição para um novo governo, com mandato determinado. Villa diz que, embora fossem chamados de Os Três Patetas, conseguiram, com habilidade, evitar uma crise maior ainda, arbitrar a disputa que havia pelo poder e manter o país em paz. Médici foi um presidente extremamente autocrático, em cujo governo ocorreu grande parte dos abusos de direitos humanos do regime militar, prisões arbitrárias, tortura e morte de opositores. Seu sucessor foi escolhido pessoalmente por ele, sem consultar mais ninguém.

Enquanto isso, a opinião pública parecia anestesiada, muito mais preocupada com a Seleção Brasileira que com as cassações, banimentos e censura. Ninguém protestou contra o AI-5. Todos pareciam felizes com o “milagre econômico”. A situação começou a virar somente em 1973, com a primeira crise do petróleo. Nas eleições de 74 (sim, houve eleições em 1974, com horário eleitoral gratuito mais livre que em 1978), a oposição conseguiu uma vitória importante, que pegou o governo de surpresa.

Os governos Geisel e Figueiredo foram na direção contrária de Castello Branco e Costa e Silva, desfazendo muito lentamente a estrutura das leis de exceção. Geisel demitiu o general Sylvio Frota do Ministério do Exército, impedindo um provável golpe para manter a ditadura por tempo indeterminado. Para mim, parece que a decisão deles de fazer os militares voltarem aos quartéis foi o fator mais importante para o fim da ditadura.

Não quero menosprezar o trabalho da oposição, a coragem de Ulysses Guimarães, de Sobral Pinto, de tantos outros e, muito menos, o movimento Diretas Já, um dos raros momentos em nossa história em que a população se mobilizou e se uniu para fazer a coisa certa. Mas tudo teria sido muito mais difícil se os governantes não estivessem decididos a permitir que a abertura acontecesse.

Por outro lado, o livro deixa claro que os movimentos de luta armada não contribuíram em nada para a retomada democrática. Foram completamente desbaratados por volta de 1972, não existindo mais quando a abertura começou. Enquanto existiram, desprezaram solenemente a democracia, que chamavam de “burguesa” e tinham como único objetivo estabelecer a “ditadura do proletariado”, que sem dúvida seria muito mais cruel, violenta e sanguinária que a ditadura que sofremos. O livro compara o número de mortos pelo regime e pelos grupos clandestinos em alguns anos. Há um empate em 1969. Em 1970 e 1971, embora o regime matasse mais, os números são da mesma ordem de grandeza.

Uma coisa que me incomodou foi a sensação de que a edição foi feita de maneira apressada. Achei alguns erros de ortografia e gramática e um parágrafo repetido.

Achei falta de mais detalhes sobre a discussão da Lei de Anistia, uma questão muito presente nos dias de hoje, com a instituição da Comissão Nacional da Verdade. E discordo das opiniões econômicas de Marco Antonio Villa, que aparecem em alguns trechos.

Com esses pequenos reparos, considero que é uma obra fundamental para se entender o que foi a ditadura militar no Brasil.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A Anábase, de Xenofonte

Acabei de ler a Anábase, de Xenofonte. É uma história de aventura sensacional, muito bem escrita, sobre um fato verídico e épico. Um exército grego de dez mil homens, encurralado na Mesopotâmia, tentando voltar para a Grécia e enfrentando inimigos em cada lugar por onde passou, além de todo tipo de dificuldades.

No ano 401 AC, o rei da Pérsia era Artaxerxes. Seu irmão Ciro desejava tomar o trono e juntou um exército de centenas de milhares de soldados, incluindo cerca de dez mil mercenários gregos. Xenofonte, que não era soldado, resolveu acompanhar a missão, convidado por um dos generais. Na primeira batalha entre as tropas de Ciro e de Artaxerxes, ao lado do Rio Tigre, Ciro é morto. Os gregos, perseguidos pelos persas, marcham para o norte e conseguem sair dos domínios de Artaxerxes. Porém, em quase todos os lugares por onde passam, o povo local tenta se defender do exército invasor. Para conseguir provisões, os gregos em geral tem de pilhar o que conseguem. Em alguns lugares, os habitantes negociam com os gregos e vendem ou cedem provisões em troca de não serem atacados.

A cada momento surge um problema diferente, que precisa ser resolvido com inteligência. Os gregos também vão aprendendo com seus erros, mas cada erro custa muito caro. Xenofonte narra a história em terceira pessoa e se descreve como um líder natural, o grande herói que propõe as melhores ideias e age sempre com grande virtude. Algumas vezes, é incompreendido ou tem de enfrentar a ingratidão dos soldados. Não sabemos se foi assim mesmo que aconteceu, mas a narrativa é empolgante.

Comprei as obras completas de Xenofonte por menos de R$7,00, em inglês e em grego aqui. Não encontrei nenhuma tradução para o português do Brasil. Fiquei tentado a fazer a minha.

Conforme ia lendo, contava partes da história para minha filha, de 8 anos, e meu filho, de 5. Ele disse que os persas se chamavam assim porque perseguiam os gregos. Quando viu o busto de Xenofonte na capa do livro, perguntou se o Xenofonte era uma pedra. Depois, disse que iria desenhar a Anábase. Comprei um caderno de desenho para cada um de nós três. Minha filha desenhou a batalha entre os gregos e os carduquianos. Essas coisas não têm preço.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Década Perdida, um saudável exercício de masoquismo

Década Perdida - Dez anos de PT no poder, de Marco Antonio Villa, faz uma recapitulação dos principais acontecimentos políticos no Brasil entre 2003 e 2012. Ler esse livro foi realmente um exercício de masoquismo.

De alguns fatos, tenho uma lembrança muito vívida. De outros, já havia esquecido e o livro me fez relembrar. Em praticamente todos, uma certa alegria por reviver cada sofrimento.

Em primeiro lugar, a decepção. Não votei em Lula em 2002, mas acreditava que ele pudesse fazer um bom governo. Começaram as bobagens do Fome Zero, mas eu pensava que qualquer governo pode fazer um pouco de jogo de cena, por bons propósitos. O PT tenta algumas reformas, a oposição vota a favor e a base aliada vota contra. OK, era assim no governo Erundina em São Paulo.

O divisor de águas, para mim, foi o caso do INCA, o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2003. O órgão foi loteado politicamente e o atendimento praticamente entrou em colapso. A partir daí, passei a me considerar em oposição ao governo.

E vamos lembrando, por exemplo, da vergonha alheia sentida quando Lula visitou a Namíbia e disse que a capital do país nem parecia uma cidade africana, era bonita e limpa. Vem o escândalo de Waldomiro Diniz, uma prévia do que seria o Mensalão. A tentativa de Lula de expulsar do país o repórter americano que escreveu que o presidente abusava da bebida. A tentativa de amordaçar a imprensa, com o famigerado Conselho Federal de Jornalismo.

Chegamos a 2005 com o Mensalão ocupando toda a atenção do país. Revejo José Genoino chorando no Roda Viva, ao dizer que os empréstimos ao PT eram legítimos. Lembro de que eu ia encontrar minha esposa para uma consulta pré-natal quando ouvi a notícia de que José Dirceu tinha deixado de ser ministro. O depoimento de Duda Mendonça, quando pareceu que o governo e o PT iam acabar. E a imensa, imperdoável, incompreensível pusilanimidade da oposição, que resolveu deixar para lá e esperar a eleição de 2006.

José Serra tinha nessa ocasião muito mais votos que Lula. Mas o esporte predileto da oposição sempre foi se autodestruir. Alckmin é o candidato. Acontece o escândalo dos aloprados. A oposição não sabe o que fazer e Alckmin aparece com aquela roupa ridícula, cheia de logotipos de estatais. Lula é reeleito.

Revivemos os escândalos de Renan Calheiros e José Sarney, Marta Suplicy, Ministra do Turismo, dizendo "Relaxa e goza" para os turistas que enfrentam dificuldades no Brasil. O caos aéreo de 2007 e o trágico acidente da TAM, em 17 de julho. Um amigo meu não pegou aquele voo porque se atrasou. Um funcionário da empresa em que trabalho esteve no prédio da TAM pouco antes de o avião colidir com ele. Um dos atos mais covardes e odiosos foi a repatriação forçada dos boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que tentaram desertar da delegação dos Jogos Panamericanos.

Temos então o surgimento de Dilma Roussef como candidata, o poste de Lula, a "mãe do PAC", seja lá o que isso signifique. E mais escândalos envolvendo Erenice Guerra. Mais brigas internas da oposição. Dilma, que mal sabe falar, é eleita com alguma facilidade. Temos aquele período em que caía um ministro por mês, quase todos por corrupção. E a imprensa e a oposição poupando o governo de si mesmo, evitando criticar os problemas com medo da popularidade da soberana.

Em 2012, temos pelo menos uma boa notícia, mesmo que incompleta, o julgamento do Mensalão.

Na conclusão, Marco Antonio Villa escreve:
"Não será tarefa fácil retirar o PT do poder. Foi criado um sólido bloco de sustentação que — enquanto a economia permitir — satisfaz o topo e a base da pirâmide. Na base, com os programas assistenciais que petrificam a miséria, mas garantem apoio político e algum tipo de satisfação econômica aos que vivem na pobreza absoluta. No topo, atendendo ao grande capital, com uma política de cofres abertos, em que tudo pode, bastando ser amigo do rei."

Lembrar cada um desses fatos é necessário. Precisamos trabalhar para que, em 2023, Marco Antonio Villa não tenha de escrever "Outra Década Perdida".

domingo, 10 de março de 2013

9 anos dos atentados de Madri

Amanhã faz 9 anos dos atentados de Madri. Na manhã de 11 de março de 2004, homicidas fanáticos explodiram dez bombas em quatro trens, em Madri, matando 191 pessoas inocentes e ferindo mais de 2000.

Esses assassinos são contra a Civilização. Não esta ou aquela civilização, já que isso não existe. Eles são contra a Civilização Humana.

Como faço todos os anos, libertarei um livro do BookCrossing em homenagem à memória das vítimas. O livro que escolhi é Lutando na Espanha, de George Orwell, edição de 1967, da Civilização Brasileira.

Este é o texto da orelha:

MEMÓRIA VIVA

George Orwell (nome verdadeiro: Eric Blair) escreveu Lutando na Espanha baseando-se em experiências pessoais na guerra civil que foi o prelúdio da batalha final contra o fascismo na década de 1940. O livro só pode ser considerado ficção do ponto de vista técnico. No mais, relata fatos. Orwell alistou-se como voluntário nas tropas republicanas e foi ferido no pescoço. Em 1950, êsse ferimento ajudou a matá-lo, pois agravou uma insuficiência pulmonar que o autor trazia consigo desde a infância.

Orwell se definiu como membro da pequena média burguesia. Em outras palavras, sua família deu-lhe uma educação, injetou-lhe preconceitos de classe que não correspondiam a seus meios reais de subsistência. Estudou em Eton, que é par excellence a escola da elite dirigente da Grã-Bretanha. Serviu na Polícia Real na Birmânia. Foi lá que descobriu a mentira e a espoliação em que se assentava o império britânico. Tornou-se socialista.

Orwell não se comportou como o intelectual de esquerda comum, que escreve panfletos contra a classe dominante sem desligar-se dela socialmente. Resolveu experimentar em pessoa a vida dos pobres. Durante dois anos, trabalhou e vagabundeou em Londres e Paris, freqüentando os escalões inferiores da sociedade. Contou o que lhe aconteceu em Down and Out in London and Paris, também a ser editado pela Civilização Brasileira. Quando estourou a revolta fascista de Franco, êle seguiu para a Espanha a fim de defender com armas a causa republicana.

Mais tarde, sem abdicar de sua condição de socialista, tornou-se também um crítico agudo das deturpações do pensamento progressista, cuja degenerescência no totalitarismo êle criticou em vários ensaios e, principalmente, em 1984. Sua última obra, encontrada entre os papéis que deixou para a posteridade, é o ensaio Such, Such Were the Joys, onde narra o sofrimento e a solidão em que viveu na infância.

Em Lutando na Espanha (Homage to Catalonia), Orwell vê a guerra do ponto de vista individual, as misérias, frustrações e horrores experimentados pelo soldado comum, não importa a nobreza da causa que esteja defendendo. Êle humaniza a guerra a fim de revelar-lhe a desumanidade. É um livro simples, modesto e direto, mas só em aparência. Não contém abstrações ideológicas sôbre a condição humana. Fica no terra-a-terra de uma experiência individual diante do perigo concreto da morte, que não toma partido ideológico. Tanto melhor. Quando a guerra civil fôr apenas uma nota ao pé de página na História, a evocação de Orwell será reconhecida pelos nossos pósteros como a memória viva daqueles que pereceram lutando pela justiça e pela liberdade, transcendendo o meramente político e o meramente propagandístico.

Paulo Francis 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Sobre o Dia Internacional da Mulher

O Dia Internacional da Mulher é 8 de março porque é a data do início da Revolução Russa.


Capítulo do livro Liberdade Versus Igualdade, vol. 1, O Mundo em Desordem, de Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa.

«Voto e Cidadania

A luta pelo voto foi o foco das diversas entidades, comitês e jornais criados a partir da segunda metade do século XIX por mulheres das classes média e alta. Segundo consta, em 1906 o jornal Daily Mail chamou as defensoras do voto feminino de suffragettes, com uma conotação claramente pejorativa. A expressão caiu no gosto das militantes e passou a identificar as mais radicais, ou seja, as que saíam às ruas para se manifestar, em ações cada vez mais combativas, até atingir o ápice em 1913, quando Emily Davison pôs fim à própria vida atirando-se sob as patas do cavalo do rei inglês Jorge V a fim de chamar a atenção para a questão do voto feminino.

Paralelamente, outra temática mobilizava um número ainda maior de mulheres, embora com um nítido recorte de classe: a luta pelos direitos trabalhistas e contra a superexploração a que estavam submetidas. As novas organizações de mulheres socialistas não inscreveram nas suas agendas originais o tema do voto feminino, mas o incorporaram à medida que crescia o movimento sufragista. A ideia de "pagamento igual para trabalho igual", uma ousadia sugerida apenas pelas mais radicais, não teve a aprovação nem dos dirigentes sindicais, nem da massa dos trabalhadores, e só bem mais tarde se converteu em reivindicação geral.

Instituíram-se datas de mobilização geral das mulheres trabalhadoras, embora estas variassem de acordo com o local. Oficialmente, foi no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhague, em 1910, que surgiu a ideia de se criar um Dia Internacional da Mulher, nos moldes do Primeiro de Maio, para concentrar atos políticos em favor dos direitos das mulheres. A autora da proposta foi a alemã Clara Zetkin, dirigente do Partido Social-Democrata e amiga de Rosa Luxemburgo, com quem participaria da criação da Liga Spartacus e, depois, do Partido Comunista da Alemanha, pelo qual se elegeu deputada.

Datas de comemoração, lembrança e luta são símbolos poderosos. Zetkin não sugeriu uma data para o Dia da Mulher e, nos primeiros anos, a comemoração se realizava em datas diversas nos diferentes países. Não se sabe ao certo como a celebração acabou se fixando internacionalmente no 8 de março. Mas a divergência entre a mais provável origem histórica da data e a narrativa predominante sobre esta evidencia um combate subterrâneo pela apropriação de um "lugar de memória".

Na Rússia, em 1917, celebrou-se o Dia da Mulher no 8 de março (23 de fevereiro pelo calendário juliano adotado no império dos czares). Naquele dia, as operárias têxteis deflagraram a Revolução de Fevereiro — e esse fato tem tudo para ser a origem da generalização da data. Curiosamente, porém, no imaginário do movimento feminista, a data acabou sendo associada a um evento diferente, ocorrido nos Estados Unidos, em 1911, mas no dia 25 de março: o incêndio na fábrica têxtil Triangle Shirtwaist Co. que matou mais de uma centena de operárias, rotineiramente trancadas para cumprir a jornada completa de trabalho.

A greve na Rússia remete à revolução e ao socialismo. O trágico incêndio nos Estados Unidos remete aos direitos gerais dos trabalhadores e à exploração sem travas da força de trabalho feminina, mas não necessariamente à luta anticapitalista. A memória fabricada tem sentido e significado, sobretudo por aquilo que deixa na sombra.

A eclosão da Primeira Guerra Mundial e a entrada maciça das mulheres em setores de trabalho até então exclusivamente masculinos foram um divisor de águas. Se os homens sofriam nas trincheiras e morriam lutando, as mulheres, sobretudo as da classe média, sofriam pela perda da segurança que durante séculos haviam sido ensinadas a buscar no matrimônio e na submissão aos pais e maridos. A partir daquele momento, a sobrevivência da família estava em suas mãos. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, elas conquistavam uma liberdade inédita e podiam afinal decidir suas próprias vidas.

Encerrado o conflito, os governos encontraram dificuldades para justificar a falta de direitos políticos a quem agora tinha autonomia econômica. As leis eleitorais começaram a se adaptar à nova realidade, a princípio concedendo o direito de voto apenas às casadas ou alfabetizadas, para depois atingir a universalidade. Dinamarca e Islândia aceitaram o voto feminino em 1915. Na Rússia, o voto chegou com a Revolução. Na Grã-Bretanha, Áustria, Alemanha e Canadá, em 1918. Estados Unidos e Holanda, em 1919. No Brasil, em 1932, ampliado em 1934 pela constituição varguista. Na França, contudo, as mulheres tiveram que esperar até o fim da Segunda Guerra Mundial e, em alguns cantões suíços, até 1971.»


Foram muitos os incêndios registrados em fábricas têxteis nos Estados Unidos provocados pela associação entre materiais altamente inflamáveis, iluminação a querosene e portas trancadas para evitar que as operárias abandonassem as oficinas antes do término dos longuíssimos expedientes. Centenas de mulheres morreram antes que os governos estaduais criassem as primeiras leis referentes à segurança e à salubridade nos locais de trabalho.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Stalin queria a URSS fazendo parte do Eixo. Hitler não topou.



Segue um trecho do capítulo O pacto dos totalitarismos: Hitler e Stalin, do livro Liberdade Versus Igualdade Vol. 1 - O Mundo em Desordem, de Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa.
Fontes de inteligência soviética no Japão informaram previamente Stalin sobre as negociações para o Pacto do Eixo, firmado entre Berlim, Roma e Tóquio em setembro de 1940. O pacto tripartite se destinava a dissuadir os Estados Unidos de se envolver na guerra europeia, mas Stalin desconfiava da existência de um protocolo secreto concernente à URSS. Não existia tal protocolo, mas Hitler já oscilava entre as ideias de invasão das Ilhas Britânicas e da URSS. em outubro, o ditador soviético solicitou que Molotov fosse recebido para discutir o ingresso de seu país no Eixo. Ribbentrop respondeu positivamente e a cúpula nazista ensaiou uma proposta de divisão das esferas de interesses no sudeste europeu pela qual os soviéticos se contentariam com uma zona de influência a leste do mar Negro.

O trem de Molotov chegou a Berlim a 12 de novembro. Uma banda tocava A Internacional na plataforma, onde Ribbentrop o aguardava. Seguiram-se dois dias de negociações com o próprio Ribbentrop e com Hitler. Os alemães sugeriram a divisão da Eurásia e da África em quatro esferas de influência. O soviético indicou que seu país não abriria mão de um controle indireto sobre a Bulgária e de uma influência decisiva sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos, na entrada ocidental do mar Negro. Hitler, que não pretendia discutir aquelas demandas, enfatizou que o prêmio maior seria a futura partilha do Império Britânico. Na mesma noite, findo o encontro, ele emitiu uma instrução sigilosa sobre os preparativos para a invasão da URSS.

No encontro, os alemães chegaram a apresentar um esboço de acordo, que concederia à URSS uma esfera de influência meridional, na direção do golfo Pérsico e do oceano Índico. Molotov não se impressionou com a proposta, ciente de que Hitler rejeitava discussões sobre os interesses soviéticos na Europa, especialmente nos Bálcãs. Duas semanas depois, Moscou enviou contraproposta para um pacto quadripartite, adocicada pela garantia de amplos fornecimentos soviéticos de matérias-primas e alimentos. Stalin queria que as tropas alemãs se retirassem da Finlândia e pedia a inclusão da Bulgária e dos estreitos turcos na sua esfera de influência.

A contraproposta soviética jamais recebeu resposta, apesar de nervosas e insistentes cobranças de Molotov em dezembro e janeiro. A 5 de dezembro Hitler confirmou os planos de invasão da URSS, prevista inicialmente para maio. A 18 de dezembro a projetada invasão ganhou o nome codificado de Operação Barbarossa. Por decisão de Berlim, Moscou não ingressou no Pacto do Eixo.



Stalin, entre Ribbentrop e Molotov, em Moscou, na conclusão do Pacto Germano-Soviético de 1939. No dia seguinte, como por encanto, os partidos comunistas cessaram a crítica à Alemanha, girando as baterias contra os liberais e os social-democratas. Durante mais de um ano, em toda a etapa inicial da guerra, a URSS forneceria as matérias-primas para o esforço militar nazista.

sábado, 3 de novembro de 2012

O Mito da Revolução Industrial


A Revolução Industrial, iniciada por volta de 1750 na Inglaterra, provocou um imenso avanço tecnológico e econômico no mundo. Ninguém discute isso. Porém, existe um mito sobre seus efeitos sobre a população mais pobre.

Há uma crença generalizada de que o preço desse progresso foi a opressão das classes trabalhadoras pelos capitalistas. Sem restrições governamentais, as grandes corporações teriam tido liberdade de arrochar os salários, cortar custos negligenciando a segurança do ambiente de trabalho e multiplicar suas já imensas fortunas às custas da miséria da classe trabalhadora, que foi reduzida a uma virtual escravidão.

Friedrich Engels escreveu que o trabalhador típico do período pré-industrial vivia "uma vida justa e pacífica em toda piedade e probidade e sua posição material era muito melhor que a dos trabalhadores que o sucederam".

No início do século XX, seria clara a necessidade de salvar a classe trabalhadora da vitimização inerente ao sistema capitalista. O movimento de reforma social teria conseguido que fossem estabelecidos programas para proteger os desfavorecidos, impostas regulações mais rígidas sobre as empresas, dadas chances de que os trabalhadores se sindicalizassem e impedida a tendência natural à criação de monopólios que seria inerente ao capitalismo. A luta em defesa do homem comum continuaria até hoje, liderada pelos partidos progressistas, com o objetivo de, um dia, atingirmos a igualdade ecônomica que uma sociedade livre deseja.

É uma história convincente, que apela aos instintos humanos de proteger os oprimidos e lutar contra a injustiça. Os princípios básicos deste mito inspiraram grandes obras de literatura, desde Charles Dickens, com Um Conto de Natal e Oliver Twist. É extremamente popular em todo o mundo e é a crença política e econômica básica da maioria dos atores e jornalistas. Mais importante, esse mito norteia todas as políticas públicas no Brasil, pelo menos desde Getúlio Vargas. O problema é que nada disso é verdade.

A qualidade de vida dos trabalhadores melhorou drasticamente e continuamente com a Revolução Industrial. Durante todo o Feudalismo, da queda do Império Romano até o final do século XVI, era comum que pessoas fossem vendidas em leilões, submetidas a todo tipo de trabalho penoso e degradante, praticamente sem remuneração. Às vésperas da Revolução Industrial, entre 1730 e 1749, 75% das crianças inglesas morriam antes de completar 5 anos de idade. Entre 1750 e 1850, a população da Grã-Bretanha triplicou. A expectativa de vida aumentou tremendamente, mas houve também uma migração em massa do continente para as Ilhas Britânicas, de trabalhadores buscando condições melhores.

O advento da produção em massa fez com que, pela primeira vez na história, o alvo dos produtores de bens não fosse a camada mais rica da população, mas o homem comum. A explosão da produção provocou uma queda generalizada de preços. Uma miríade de produtos baratos se tornou disponível: sabão, roupas de baixo, chá, café, açúcar, chapéus, tecidos. As pequenas lojas se espalharam por toda parte e surgiram empregos no comércio. Os assalariados da indústria e do comércio passaram a ser consumidores. A dieta de uma família pobre deixou de ser uma tigela de farinha com batatas e passou a incluir carne fresca, bacon, pão de trigo, manteiga, chá.

Os trabalhadores trocaram péssimos empregos na agricultura por péssimos empregos na indústria. Porém, passaram a comer melhor, vestir-se melhor, ter mais saúde e produzir mais.

A inovação tecnológica era feita por pessoas que tivessem capacidade intelectual de criá-la, independentemente de sua origem. George Stephenson, criador da locomotiva a vapor, havia sido vaqueiro. O engenheiro Telford, que construiu 1200 pontes e mais de 1500 quilômetros de estradas, era filho de um pastor de ovelhas e começou como aprendiz de pedreiro. Joseph Bramah, inventor da prensa hidráulica, foi aprendiz de carpinteiro. Frederich König, imigrante alemão, inventor de uma impressora de alta velocidade, era filho de um camponês e foi aprendiz numa gráfica. Como estes, há incontáveis outros exemplos.

Friedrich Hayek disse que o Mito da Revolução Industrial sobrevive porque os historiadores estão contaminados pelo marxismo. Como acreditam que o capitalismo produz miséria, procuram e encontram supostas provas dessa crença. Antes da Revolução Industrial, a miséria dos pobres era considerada um fato imutável da vida. Com o progresso, as pessoas passaram a tolerar cada vez menos a pobreza que restou. Isso fez com que aumentassem as críticas à situação dos mais pobres e não o fato de essa situação estar piorando.

Ludwig von Mises argumentou que os donos das fábricas não tinham nenhum poder de obrigar alguém a se tornar operário contra sua vontade. Só podiam contratar quem aceitasse o emprego voluntariamente, nas condições oferecidas e pelo salário tratado. Os salários eram muito, muito baixos e as condições de vida eram muito, muito ruins. Mas eram melhores que a alternativa. Fora das fábricas, as mulheres mal tinham o que dar de comida a seus filhos. As fábricas literalmente os salvaram da fome. Portanto, é verdade que o capitalismo criou o proletariado. Não no sentido de Marx e Engels, mas no sentido de que esse enorme contingente de pessoas não teria sobrevivido se não houvesse surgido o capitalismo. Von Mises escreveu: "O que há de notável na Revolução Industrial é que ela iniciou uma era de produção em massa para atender as necessidades das massas. Os assalariados não são mais pessoas que trabalham exaustivamente apenas pelo bem-estar de outras pessoas. Eles próprios são os principais consumidores dos produtos saídos das fábricas. Não existe, nos Estados Unidos de hoje, nenhum ramo de grandes empresas que não tente satisfazer as necessidades das massas. O princípio essencial do empreendedorismo capitalista é fornecer produtos ao homem comum. [...] Não há outra maneira, numa economia de mercado, de se adquirir e preservar riqueza, exceto suprir as massas, da maneira melhor e mais barata, de todos os bens que elas pedirem."

A Revolução Industrial foi um processo evolutivo, realizado por tentativa e erro. Para haver um avanço em uma área era necessário que houvesse outro avanço paralelo em outras áreas. O processo que resultou nas grandes invenções aconteceu sem nenhum planejamento central. Aconteceu com cada pessoa buscando seus próprios interesses particulares. Aconteceu porque as pessoas eram motivadas pelo lucro. Não poderia ter ocorrido por meio de uma mente humana tentando planejá-lo. Não aconteceria se as pessoas fossem movidas por razões altruísticas. Também não aconteceria se as pessoas não vislumbrassem a perspectiva de vantagens pessoais como resultado de suas ações.

Um ponto essencial do Mito da Revolução Industrial diz respeito ao trabalho infantil. Em primeiro lugar, é necessário dizer que o trabalho infantil sempre existiu. As condições de trabalho para crianças também eram muito ruins, o trabalho era pesado, perigoso e insalubre. Um dos estímulos para os pais buscarem trabalhos em fábricas é que o trabalho para seus filhos era mais leve e menos perigoso. Com a melhoria do padrão de vida, os pais puderam prescindir da renda resultante do trabalho infantil, e as crianças passaram a ficar em casa. Não foi a Revolução Industrial que criou o trabalho infantil, ele sempre existiu antes. Foi a Revolução Industrial que acabou com o trabalho infantil.

Também é importante diferenciar o que se chamava, na Inglaterra, de "free-labour children" e "parish-apprentice children". "Free-labour children" eram crianças que tinham uma família e trabalhavam junto com seus pais em uma fábrica. Um dono de empresa não tinha como subjugar uma dessas crianças e obrigá-la a trabalhar em condições com as quais seus pais não concordassem. "Parish-apprentice children" eram crianças órfãs ou abandonadas (como Oliver Twist), submetidas à autoridade e supervisão de funcionários do Estado. Quando os historiadores narram casos de crianças submetidas aos tipos mais cruéis de trabalhos, quase sempre as situações envolvem exclusivamente essas crianças.

Sobre os monopólios, só existe uma maneira de manter um monopólio numa economia de mercado: ter um produto tão melhor que o da concorrência, a um preço tão baixo, que todos os consumidores escolham comprá-lo. Se, em virtude dessa posição de monopólio, a empresa resolver subir os preços ou descuidar da qualidade, os concorrentes vão fatalmente aparecer e ocupar uma fatia cada vez maior do mercado. Numa economia livre, a competição nunca é eliminada. Não tem como ser eliminada.

Outra coisa completamente diferente é o monopólio estatal. Se o governo impede a competição, a empresa ou as empresas monopolistas podem cobrar preços absurdos e entregar produtos e serviços ruins. Se alguém quiser trabalhar (ou continuar trabalhando) nesse específico ramo de atividade, terá de se sujeitar às condições de trabalho que essas empresas impuserem. Existem dois tipos de monopólio estatal. O monopólio clássico é aquele em que leis proíbem que existam competidores. O outro tipo, mais comum atualmente, é aquele em que o governo impede que surjam novos competidores por meio do excesso de regulação. Poucas grandes empresas dominam o mercado. Elas competem entre si, mas são protegidas de concorrentes inovadores porque o custo de adequar-se às regras é proibitivo.

O padrão de vida das pessoas só se eleva e as condições de trabalho só melhoram por meio de investimentos de capital e da produção de mais bens, de melhor qualidade. É exatamente isso que foi a Revolução Industrial. E é exatamente disso que os países mais pobres e anticapitalistas do mundo precisam para prosperarem.

Este texto é um pastiche traduzido dos artigos abaixo. Recomendo a leitura dos originais.




domingo, 19 de agosto de 2012

A Soma e o Resto


Terminei de ler "A Soma e o Resto", depoimento de Fernando Henrique Cardoso ao jornalista Miguel Darcy de Oliveira, por ocasião dos 80 anos do ex-presidente.

Fiquei surpreso com as discordâncias que tenho com suas ideias.

Tenho grande admiração pela pessoa e pela trajetória de Fernando Henrique. Não conheço o suficiente os presidentes da República Velha. De Getúlio em diante, não tenho a menor dúvida de que ele foi o melhor presidente que tivemos. Ajudou tremendamente a consolidar nossa frágil democracia e teve iniciativas corajosas em diversas frentes, que fizeram o Brasil avançar muito. A estabilidade econômica e a privatização da telefonia sozinhas já seriam o suficiente para considerar seu governo uma revolução.

Dito isso, vamos às divergências. Fernando Henrique é um homem de esquerda. Acredita que os mercados precisam ser controlados. Acha que é função do Estado promover a igualdade. Lá pelas tantas, ele diz: "Toda a América Latina continua a ter uma espécie de preito de gratidão a Cuba como símbolo da resistência aos americanos, ao imperialismo. Cuba representa algo relevante para todos nós, mas isso pertence à história. O mundo mudou."

Penso que, se algum mercado precisa ser controlado, isso é um caso excepcional. Na maioria das situações, os consumidores e a concorrência controlam os mercados de maneira mais eficiente e efetiva que qualquer forma de ingerência governamental.

Acho que a igualdade não deve ser um objetivo nem do governo nem da sociedade. Deve haver igualdade de oportunidades e eliminação da miséria. Não me faz nenhuma diferença se o Bill Gates é 500.000 vezes mais rico que eu ou 500.000.000 de vezes. O que faz diferença é se consigo viver em condições dignas e se tenho oportunidades concretas de melhorar minha situação significativamente. E o capitalismo faz exatamente isso, ao contrário do que pensa a esquerda.

Cuba, para mim, é simplesmente uma tirania. Desde a revolução e até que essa ditadura caia. Falar em preito de gratidão ou resistência é um acinte.

De qualquer maneira, gostei muito do livro. Posso discordar de muito do que pensa Fernando Henrique, mas vejo grande honestidade intelectual no que ele diz, e acho que ele fez um grande trabalho colocando suas ideias em prática.

sábado, 14 de julho de 2012

Liberty Classroom

Já tinha gostado muito do curso do Cato Institute sobre ideias liberais (de graça). Agora estes cursos de história parecem muito legais. Mais de 150 aulas de meia hora cada! Custa cem dólares.

The Mind and the Market, de Jerry Z. Muller

Mais um livro fantástico recomendado pelo João Pereira Coutinho: The Mind and the Market - Capitalism in Western Thought, de Jerry Z. Muller.

O livro trata das ideias de diversos pensadores ocidentais sobre a atividade comercial e financeira, o livre mercado, o capitalismo e, quando pertinente, os judeus.

Os pensadores analisados são: Voltaire, Adam Smith, Justus Möser, Edmund Burke, Hegel, Marx, Matthew Arnold, Max Weber, Georg Simmel, Werner Sombart, Georg Lukács, Hans Freyer, Schumpeter, Keynes, Herbert Marcuse e Hayek.

Os principais livros analisados são: “Cartas Filosóficas”, de Voltaire, “A Riqueza das Nações”, de Smith, vários de Burke, especialmente “Reflexões sobre a Revolução na França”, “A Filosofia do Direito”, de Hegel, o “Manifesto Comunista” e “O Capital”, de Marx, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Weber, “A Filosofia do Dinheiro”, de Simmel, “História e Consciência de Classe”, de Lukács, “Capitalismo, Socialismo e Democracia”, de Schumpeter, “Eros e Civilização”, de Marcuse, e “A Constituição da Liberdade” e “O Caminho da Servidão”, de Hayek.

Dá muita vontade de ler os de Voltaire, Adam Smith, Simmel, Schumpeter e Hayek.

No primeiro capítulo, Muller explica que a tradição cristã e a tradição civil republicana condenam o egoísmo, a ganância, e a usura e, portanto, veem com desconfiança o comércio, o lucro, a atividade financeira e a prosperidade material.

No segundo, ele nos conta que Voltaire via com simpatia o mercado e as atividades financeiras. Porém, ele tinha considerava os judeus desonestos e, ele próprio, esteve envolvido em mais de uma ocasião em negócios suspeitos ou escusos.

Sobre Voltaire, Adam Smith disse que estava entre os homens de “esplêndido talento e virtudes”, que “se destacam, com frequência, pelo mais impróprio e até insolente desprezo por todo o decoro comum da vida e da conversação. Eles, portanto, estabelecem o exemplo mais pernicioso para aqueles que desejam imitá-los, e que normalmente se contentam em copiar suas besteiras, sem nunca tentar alcançar suas perfeições”.

No terceiro capítulo, sobre Adam Smith, o que chama a atenção é que Smith acreditava na necessidade de um Estado forte para proteger o livre mercado. “Porque Smith argumentou de maneira tão persuasiva contra o envolvimento direto do governo na economia, a importância crucial do estado em seu pensamento é normalmente negligenciada. [...] Para Smith, o estado era a instituição mais importante da qual a sociedade comercial dependia; a autoridade e segurança do governo civil, ele escreveu, é uma condição necessária para o florescimento da liberdade, razão e felicidade da humanidade.”

O quarto capítulo, sobre Justus Möser, me intrigou bastante. Möser é completamente conservador, defensor do governo local e descentralizado, e das tradições de sua província, de seu país e de sua cultura, e é completamente anticapitalista. Ele vê o livre mercado como uma grave ameaça a essa cultura. Ele é de direita? É de esquerda?

É interessante que ele é completamente conservador, não é fascista absolutamente. Eu posso concordar com parte significativa de seu pensamento político. E discordo completamente de seu pensamento econômico.

Depois de Möser, vem um longo e agradável capítulo sobre Edmund Burke. Burke é o principal expoente do pensamento conservador. Mas, enquanto Möser queria conservar uma sociedade pré-capitalista, a sociedade que Burke quer conservar é altamente comercial. Há um longo relato da disputa entre Burke e a Companhia Britânica das Índias Orientais e uma longa análise da principal obra dele, “Reflexões sobre a Revolução na França”.

O livro foi publicado em novembro de 1790, ainda no início do processo revolucionário. Previu que o que estava em curso resultaria em instabilidade continuada e ameaça de anarquia, que seria controlada apenas com o uso massivo da força e, finalmente, com um governo militar. Ele escreveu tudo isso muito antes da execução de Luís XVI, do Terror, do massacre de milhares de civis em Vendée e da ascensão de Napoleão.

Encontro, então, um surpreendente capítulo sobre Hegel. Ele afirma que a Dialética não é o mais importante na obra de Hegel. Na verdade, seria algo que Hegel escreveu jovem, e que não reflete seu pensamento mais maduro. Diz também que Hegel dava tanta importância ao Estado porque, na situação social e política em que ele viveu, o Estado era uma força progressista, que tentou modernizar um país atrasado e feudal, tendo como oposição as pequenas autoridades locais. E o ponto mais importante é que, para Hegel, o mercado era a característica mais importante do mundo moderno, um mundo que ele defendia e tentou explicar a seus contemporâneos. 

Sobre Marx, há a informação de que seus pais abandonaram o judaísmo antes dele nascer. Marx foi batizado na Igreja Luterana e, segundo Muller, não saberia dizer qual o lado de cima de uma página do Talmude. Sua filosofia se baseia em algumas falácias, especialmente a Teoria do valor-trabalho. Marx simplesmente não levou em consideração as grandes melhorias no padrão de vida dos operários na Inglaterra ou na Alemanha, ocorridas durante o período em que ele viveu. E escreveu ataques violentos aos judeus, que foram usados depois por antissemitas.

Há um filósofo muito interessante, que eu não conhecia, chamado Georg Simmel. Ele publicou “A Filosofia do Dinheiro” em 1900. Nessa obra, ele explica como o desenvolvimento da economia de mercado criou novas possibilidades para a individualidade. Chama a atenção para os efeitos psicológicos de se viver numa economia em que mais e mais áreas da vida podem ser medidas em dinheiro. Essa economia criaria um estado de espírito mais abstrato, porque os meios de troca se tornariam cada vez mais abstratos. As pessoas ficariam mais habituadas a pensar sobre o mundo de maneira mais abstrata. Também ficariam mais acostumadas a calcular e pesar os diversos fatores para tomar uma decisão. Simmel é muito mais moderno que Sombart, Lukács e Freyer, que vieram depois dele.

O capítulo sobre Schumpeter também é muito agradável. Seus livros adotam um tom irônico, afirmando que o socialismo é inevitável, que as decisões que os políticos estavam tomando na época levariam a desastres, mas o fato de Schumpeter alertar para os desastres não impediria que eles acontecessem.

Achei fraco o capítulo sobre Keynes. Gostaria de ter entendido suas motivações e raciocínios, como senti que entendi os outros pensadores analisados, mas Keynes continua nebuloso para mim. E o último capítulo, sobre Hayek, vem como um alívio depois de ler sobre as baboseiras de Marcuse. No final, o autor questiona alguns posicionamentos de Hayek e, principalmente, seu radicalismo.

Recomendo muito o livro, para quem tenha paciência de ler sobre esse assunto tão árido.