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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Coragem!


O segredo da motivação é bastante simples. Para estar motivada, uma pessoa precisa acreditar em três coisas. A primeira é que, se ela fizer um esforço maior, o resultado do seu trabalho será maior. A segunda é que esse resultado fará diferença. E a terceira é que essa diferença vai ajudá-la a alcançar seus objetivos pessoais.

Acreditem, se cada um dos meus leitores fizer o esforço de ir às manifestações de domingo, de levar amigos e familiares, as manifestações serão um pouco maiores do que seriam se isso não acontecesse. Precisamos de manifestações grandes, significativas, que digam um sonoro “Fora PT” neste domingo. Isso fará diferença e tirará de cima do muro os políticos bananas que deveriam estar na oposição. Quando os políticos resolverem destituir o atual governo, ele cairá de uma vez, como um edifício implodido. Não sobrará nada para sustentá-lo.

Todos temos razões para nos desmotivarmos. A Operação Lava-Jato vem sendo atacada em várias frentes. As supostas lideranças da oposição não se posicionam. A imprensa também não faz seu papel e trata os maiores crimes como se fossem atos normais, além de minimizar ou ridicularizar tantas vezes as manifestações ou seus organizadores. Ouvimos muita gente dizer que derrubar o governo é impossível ou inútil.

Não é inútil, nem impossível. Na verdade, nem se pode dizer que o governo ainda existe. Dilma não governa mais, nada do que ela propõe prospera. Já são seis ministros demitidos em pouco mais de três meses. E o Brasil não pode continuar acéfalo por muito mais tempo. Precisamos de alguma coisa melhor que esse bando de trapalhões e precisamos agora, não depois.

Pode não parecer, mas os políticos são muito sensíveis ao sentimento da população. Eles sabem o quanto dependem de estar em paz com a opinião pública. Precisamos pressioná-los com muita clareza e com muita firmeza. Precisamos apoiar quem tem postura e coragem e apontar o caminho a quem não tem.

Nesta sexta-feira, a Operação Lava-Jato deu mais um passo importante, prendendo o ex-deputado André Vargas por crimes cometidos não na Petrobras, mas na Caixa Econômica Federal. É necessário que o povo expresse seu apoio aos procuradores e ao juiz Sérgio Moro, que estão fazendo um trabalho heróico de defesa do país.

Não vamos esperar que alguém nos salve. Quem tem de nos salvar somos nós mesmos. Vamos liderar a marcha e os políticos nos seguirão. Existe uma frase atribuída a Thomas Paine, que diz: “Either lead, follow or get out of the way!” Ou lidere, ou siga, ou saia do meio do caminho! É essa a mensagem aos políticos da oposição. Eles poderiam liderar o movimento se quisessem. Cada um deles ainda pode nos seguir. Quem não quiser fazer parte, por favor, saia da frente.

Hoje, na Venezuela, a carne é racionada. Papel higiênico é um luxo que os venezuelanos não têm há muito tempo. Alguém quer isso para o Brasil? É o que teremos, se este governo não cair. Quero continuar morando no Brasil. Gosto de falar português, quero que meus filhos e netos vivam aqui. Você também quer isso? Então, vamos fazer do Brasil um lugar mais habitável.

Collor demorou seis meses para ser afastado. Mas seu final foi como uma avalanche. Este governo só se sustenta se o povo se acomodar. Ninguém está pedindo sangue, suor e lágrimas. Apenas que as pessoas compreendam a gravidade do momento histórico e manifestem isso de uma maneira muito simples: ocupando as ruas no dia 12 de abril.

Precisamos de paciência, perseverança e coragem. Coragem!

domingo, 28 de dezembro de 2014

Um País Partido, de Marco Antonio Villa

Marco Antonio Villa tem uma impressionante capacidade de escrever muitos livros bons em pouco tempo. Depois de Mensalão, Década Perdida e Ditadura à Brasileira, o mais recente é Um País Partido - 2014: A Eleição Mais Suja da História.

Villa começa relatando brevemente todas as vinte e nove eleições da República antes de 2014. Dessas, oito foram indiretas: a primeira, de Deodoro da Fonseca, em 1891, a de Getúlio Vargas, em 1934, e as seis da ditadura militar. Certamente, nenhuma das vinte e nove foi tão disputada como a de 2014.

A narrativa da eleição atual começa em fevereiro, com o início do ano legislativo e do ano judiciário. Dilma trocou alguns ministros por causa das eleições. Em março, foi divulgado o escândalo da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras. Em 30 de abril, a presidente ocupou uma rede nacional de rádio e televisão, por ocasião da véspera do Dia do Trabalho, para fazer propaganda de seu governo. Anunciou um aumento de 10% nos valores do Bolsa Família e a correção da tabela do imposto de renda. A Justiça Eleitoral não se incomodou com isso.  

Em julho, o Banco Santander divulgou a uma parcela de seus clientes uma avaliação pessimista da conjuntura econômica do Brasil relacionada à perspectiva de vitória de Dilma. Lula e o PT exigiram a demissão dos autores dessa avaliação. O Santander cedeu. Em seguida, o PT reclamou ao Tribunal Superior Eleitoral contra textos de propaganda da consultoria Empiricus, com o mesmo tipo de opiniões. Conseguiu proibir a divulgação dos anúncios.

Os escândalos não paravam. A revista Época mostrou que uma nora de Lula e a esposa do deputado cassado e condenado pelo mensalão João Paulo Cunha eram funcionárias fantasmas do SESI. A Veja divulgou que as perguntas feitas aos diretores da Petrobras na CPI, incluindo a presidente Graça Foster, foram combinadas previamente. Num movimento inédito de uso da máquina pública a serviço de interesses particulares, o Advogado Geral da União, Luís Inácio Adams, foi ao Tribunal de Contas da União fazer uma defesa da presidente da Petrobras.

Villa narra detalhadamente as entrevistas de Aécio Neves e Eduardo Campos ao Jornal Nacional, com grande pressão dos entrevistadores sobre os candidatos.

Voltando da entrevista, aconteceu a grande tragédia da eleição, o acidente fatal com o avião de Eduardo Campos. Marina Silva é escolhida a nova candidata do PSB. Em vez de Dilma ir ao Jornal Nacional, o Jornal Nacional vai até ela, entrevistando-a no Palácio do Alvorada, em condições vantajosas em relação a seus adversários. 

Com o início do horário eleitoral gratuito, Marina disparou nas pesquisas. Aproveitando-se do bom momento, a candidata do PSB fez várias exigências e entrou em polêmicas com membros históricos do partido. Vários deles abandonaram sua campanha. Descobriu-se que a situação do avião que transportava Eduardo Campos era completamente irregular. Marina foi bastante questionada por isso, especialmente em sua entrevista ao Jornal Nacional, e sempre se esquivou do assunto.

Como Villa conta cada lance da eleição em ordem cronológica, intercalando com os resultados de cada pesquisa eleitoral, estamos sempre acompanhando a evolução do processo. Vêm os rumores da delação premiada de Paulo Roberto Costa, depois as notícias, depois a delação de Alberto Youssef. Villa fala sobre cada debate do primeiro turno, com a participação preponderante dos candidatos nanicos.

A campanha do PT faz acusações violentas e infundadas contra Marina Silva. Isso dá resultado. Dilma começa a se recuperar e Marina a cair. Aécio tem uma recuperação lenta, mas contínua.

Dilma defendeu o diálogo com o Estado Islâmico, que decapita, estupra e fuzila em massa suas vítimas. Foi criticada por isso, mas a maior parte da população desconhece totalmente esse assunto. Marina, por sua vez, elogiou o impopular prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, como um exemplo de nova liderança.

Acontece o primeiro turno e, contrariando as pesquisas, Aécio tem grande vantagem sobre Marina e passa para o segundo turno. Consegue os apoios do PSB, de Renata Campos, viúva de Eduardo Campos, e de Marina Silva. Nas primeiras pesquisas, está à frente de Dilma. Com os ataques contínuos do PT, cai um pouco e Dilma passa à frente.

Villa narra cada um dos debates e publica na íntegra o último, na Globo. É muito interessante ter esse documento. Não nos esqueceremos de Dilma recomendando que uma economista desempregada fizesse um curso técnico no Pronatec. Nem da fala de Aécio: “Existe uma medida que está acima de todas as outras e não depende do Congresso Nacional. Para acabarmos com a corrupção no Brasil, vamos tirar o PT do governo.”

Villa relata o resultado final da eleição e acrescenta alguns comentários. Este trecho vale o livro:
«E mais uma vez, caso único na nossa história, tivemos como protagonista de uma eleição presidencial — pela sétima vez consecutiva — Luiz Inácio Lula da Silva. Ele representa o que há de mais atrasado na política brasileira. Tem uma personalidade que oscila entre Mussum e Stálin. Atacou as elites — sem defini-las — e apoiou José Sarney, Jader Barbalho e Renan Calheiros. Falou em poder popular e transferiu bilhões de reais dos bancos públicos para empresários aventureiros. Fez de tudo para que esta eleição fosse a mais suja da nossa história. E conseguiu. 
Sob o seu domínio — mais que liderança — o PT desmoralizou as instituições. A compra de maioria na Câmara dos Deputados, que deu origem ao processo do mensalão, foi apenas o primeiro passo. Tivemos a transformação do STF em um puxadinho do Palácio do Planalto. O Executivo virou um grande balcão de negócios e passou a ter controle dos outros dois poderes. Tudo isso foi realizado às claras, sem nenhum pudor. E teve influência direta no resultado da eleição de 2014.»
Quando Villa diz que esta foi a eleição mais suja da história, não posso deixar de me lembrar de que quase todas as eleições indiretas foram completamente manipuladas. Mas acho que ele se refere ao nível de ataques infundados contra adversários e de transgressões impunes à legislação eleitoral. É curioso que ele não diga nada sobre o uso político dos Correios na eleição que, se comprovado, resultaria na cassação dos mandatos de Dilma e de Michel Temer. Também não diz nada sobre as suspeitas contra as urnas eletrônicas e os relatos de problemas com elas, no primeiro e no segundo turnos.

Independentemente disso, Um País Partido é um grande livro, para ler e guardar.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O direito de expressar indignação

Desde a abertura da Copa do Mundo, algumas pessoas vem se pronunciando contra a atitude do público. A presidente Dilma Roussef foi vaiada e xingada repetidas vezes durante o jogo Brasil x Croácia.

Em primeiro lugar, quero dizer que planejava vaiar Dilma do sofá da minha casa, quando ela aparecesse. E vaiar também pelo Twitter e pelo Facebook. Ainda guardo com carinho as camisetas que fiz em 2007, para mim e para minha filha, com a inscrição “Eu vaiei o Lula no Pan!”. Foi só pela televisão, mas foi muito bom. Fiquei frustrado porque, na hora em que o locutor anunciou Blatter e Dilma no estádio, todas as emissoras estavam passando comerciais. Depois dizem que “a mídia é golpista e direitista”. Os órgãos de imprensa todos protegem este governo até onde é possível.

As pessoas estão fartas de áulicos. Vemos, por toda parte, gente bajulando o governo. Alguns sendo bem remunerados por isso, com patrocínios do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras, Correios, BNDES, a lista não tem fim. Até a oposição bajula o governo na maior parte do tempo. De vez em quando, eles se lembram de se opor a alguma coisa. Quando é possível acontecer uma manifestação espontânea, como a da abertura da Copa, isso é uma verdadeira catarse, tanto para quem está lá como para quem gostaria de estar.

Às pessoas que reclamaram da falta de educação, pergunto: Já foram a um estádio de futebol alguma vez na vida? Já assistiram a um jogo pela televisão, que seja? Um estádio não é, de forma alguma, um lugar solene. Não é uma sessão do Congresso, não é um convento. O linguajar usado contra Dilma, rude, grosseiro, é o linguajar típico do ambiente em que ela estava. Quem decidiu trazer a Copa do Mundo para o Brasil e tentou capitalizar eleitoralmente o evento foi o governo do PT. Não deu certo; é hora de enfrentar as conseqüências.

Vi gente perguntando por que não vaiam o Alckmin. Céus! Cada vez que alguém critica o PT, é fatal vir esse coro: “Mas e o PSDB”? Gente, o PSDB resolveu trazer a Copa para o Brasil? Alguém viu o secretário estadual dos Esportes falar sobre a “aproximação da idéia da possibilidade” de os estádios ficarem prontos até dezembro de 2013? O Alckmin, por acaso, ocupou uma cadeia de TV para tentar faturar popularidade com a Copa? Foi ele quem disse que ir ao estádio de Metrô é babaquice e que as pessoas iriam até de jumento?

Pelo contrário. O governo do estado foi firme com a absurda greve do Metrô, conseguiu que tudo funcionasse normalmente no dia do jogo e a PM ainda teve de controlar um grupo de visigodos que tentou interromper a Radial Leste. O povo queria vaiar a Dilma mesmo.

Os piores são os que dizem que a manifestação das arquibancadas é ilegítima porque os torcedores são brancos, são paulistas, têm dinheiro para comprar ingressos. Para esses, paulista não tem liberdade de expressão. Branco não é cidadão. Só quem recebe Bolsa-Família deveria ter o direito de ter opinião, quiçá o de votar. Esse argumento é profundamente autoritário.

O governo federal paga, com o nosso dinheiro, uma rede de blogueiros progressistas e militantes do ambiente virtual (MAV), para inundar a Internet de xingamentos e acusações falsas contra os adversários do petismo. E a presidente vem posar de ofendida e relacionar a atitude da torcida à tortura da ditadura militar. Quem a xingou foi o povo, não os torturadores. E se Dilma foi torturada por uma ditadura, e todas as ditaduras são execráveis, isso aconteceu quando ela tentava implantar no Brasil uma ditadura muito pior.

Estamos cansados de mentiras. Estamos cansados do aparelhamento do Estado. Estamos cansados de ver e baderneiros sendo recebidos no palácio. Temos o direito de expressar nossa indignação. O grito contra Dilma e o PT estava entalado na nossa garganta. Viva a vaia!


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ainda as bibliotecas paulistanas

Levei meus filhos hoje outra vez à biblioteca municipal perto da minha casa. Havia dito que iria fotografar o formulário em que perguntam a cor da pele dos usuários.

Aqui está o comunicado:



E este é o formulário preenchido:



Como se pode ver, as opções de "raça" são: Amarela, Branca, Indígena, Parda, Preta e Não Declarada. A intenção expressada pela Prefeitura é "oferecer serviços e desenvolver políticas públicas mais próximas das necessidades do cidadão". Pretende-se fazer isso usando um conceito sem base na ciência ou na realidade, e que causou e ainda causa grandes males à humanidade.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Década Perdida, um saudável exercício de masoquismo

Década Perdida - Dez anos de PT no poder, de Marco Antonio Villa, faz uma recapitulação dos principais acontecimentos políticos no Brasil entre 2003 e 2012. Ler esse livro foi realmente um exercício de masoquismo.

De alguns fatos, tenho uma lembrança muito vívida. De outros, já havia esquecido e o livro me fez relembrar. Em praticamente todos, uma certa alegria por reviver cada sofrimento.

Em primeiro lugar, a decepção. Não votei em Lula em 2002, mas acreditava que ele pudesse fazer um bom governo. Começaram as bobagens do Fome Zero, mas eu pensava que qualquer governo pode fazer um pouco de jogo de cena, por bons propósitos. O PT tenta algumas reformas, a oposição vota a favor e a base aliada vota contra. OK, era assim no governo Erundina em São Paulo.

O divisor de águas, para mim, foi o caso do INCA, o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2003. O órgão foi loteado politicamente e o atendimento praticamente entrou em colapso. A partir daí, passei a me considerar em oposição ao governo.

E vamos lembrando, por exemplo, da vergonha alheia sentida quando Lula visitou a Namíbia e disse que a capital do país nem parecia uma cidade africana, era bonita e limpa. Vem o escândalo de Waldomiro Diniz, uma prévia do que seria o Mensalão. A tentativa de Lula de expulsar do país o repórter americano que escreveu que o presidente abusava da bebida. A tentativa de amordaçar a imprensa, com o famigerado Conselho Federal de Jornalismo.

Chegamos a 2005 com o Mensalão ocupando toda a atenção do país. Revejo José Genoino chorando no Roda Viva, ao dizer que os empréstimos ao PT eram legítimos. Lembro de que eu ia encontrar minha esposa para uma consulta pré-natal quando ouvi a notícia de que José Dirceu tinha deixado de ser ministro. O depoimento de Duda Mendonça, quando pareceu que o governo e o PT iam acabar. E a imensa, imperdoável, incompreensível pusilanimidade da oposição, que resolveu deixar para lá e esperar a eleição de 2006.

José Serra tinha nessa ocasião muito mais votos que Lula. Mas o esporte predileto da oposição sempre foi se autodestruir. Alckmin é o candidato. Acontece o escândalo dos aloprados. A oposição não sabe o que fazer e Alckmin aparece com aquela roupa ridícula, cheia de logotipos de estatais. Lula é reeleito.

Revivemos os escândalos de Renan Calheiros e José Sarney, Marta Suplicy, Ministra do Turismo, dizendo "Relaxa e goza" para os turistas que enfrentam dificuldades no Brasil. O caos aéreo de 2007 e o trágico acidente da TAM, em 17 de julho. Um amigo meu não pegou aquele voo porque se atrasou. Um funcionário da empresa em que trabalho esteve no prédio da TAM pouco antes de o avião colidir com ele. Um dos atos mais covardes e odiosos foi a repatriação forçada dos boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que tentaram desertar da delegação dos Jogos Panamericanos.

Temos então o surgimento de Dilma Roussef como candidata, o poste de Lula, a "mãe do PAC", seja lá o que isso signifique. E mais escândalos envolvendo Erenice Guerra. Mais brigas internas da oposição. Dilma, que mal sabe falar, é eleita com alguma facilidade. Temos aquele período em que caía um ministro por mês, quase todos por corrupção. E a imprensa e a oposição poupando o governo de si mesmo, evitando criticar os problemas com medo da popularidade da soberana.

Em 2012, temos pelo menos uma boa notícia, mesmo que incompleta, o julgamento do Mensalão.

Na conclusão, Marco Antonio Villa escreve:
"Não será tarefa fácil retirar o PT do poder. Foi criado um sólido bloco de sustentação que — enquanto a economia permitir — satisfaz o topo e a base da pirâmide. Na base, com os programas assistenciais que petrificam a miséria, mas garantem apoio político e algum tipo de satisfação econômica aos que vivem na pobreza absoluta. No topo, atendendo ao grande capital, com uma política de cofres abertos, em que tudo pode, bastando ser amigo do rei."

Lembrar cada um desses fatos é necessário. Precisamos trabalhar para que, em 2023, Marco Antonio Villa não tenha de escrever "Outra Década Perdida".

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bibliotecas paulistanas perguntam a cor da pele dos usuários

Costumo levar meus filhos à biblioteca municipal do bairro, mas fazia alguns meses que não íamos lá. Voltamos a visitá-la neste sábado.

Existe um formulário que todos os usuários preenchem na entrada, informando nome, faixa de idade, escolaridade, bairro em que moram. Agora, mais duas informações são solicitadas: profissão e "raça".

Escrevo "raça" entre aspas porque não existem raças de pessoas. Quem tem raça é cachorro, cavalo, boi. E as raças animais são o resultado do trabalho humano, que as produziu por meio da seleção artificial de espécimes e cruzamentos sucessivos. Os seres humanos são misturados, felizmente.

O que a biblioteca chama de "raça" é a cor da pele. Não me lembro exatamente de quais eram as opções. Quando formos lá de novo, vou tentar fotografar o formulário.

Não sei qual é a intenção da Secretaria Municipal de Cultura em levantar essa informação. Não consigo imaginar utilidade para ela. Não acho que seja saudável classificar as pessoas pela cor da pele, seja na biblioteca ou em qualquer outro lugar. Existe racismo na nossa sociedade e o racismo deve ser combatido. A única forma que vejo para acabar com o racismo é convencer as pessoas de que as "raças" são uma ficção, sem base na realidade, e que todas as pessoas, independentemente da cor da sua pele, pertencem à raça humana. A iniciativa da Secretaria vai no sentido contrário.

Escrevi no formulário: "Essa pergunta é nazista!" Estou preparando algumas respostas para as próximas vezes:
- Zebu, Manga Larga, Chihuahua.
- Perguntem ao Conde de Gobineau.
- Perguntem a Josef Mengele.
- "Sonho com um mundo em que meus filhos sejam julgados por seu caráter, não pela cor de sua pele." Martin Luther King Jr.

Aceito sugestões para outras respostas.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mais Médicos: Carta renúncia do presidente do CRM-PR

Curitiba, 23 de setembro de 2013.

A covardia coloca a questão: É seguro?
O comodismo coloca a questão: É popular?
A etiqueta coloca a questão: É elegante?
Mas a consciência coloca a questão: É correto?
E chega uma altura em que temos de tomar uma posição que não
é segura, não é elegante, não é popular, mas o temos de fazer
porque a nossa consciência nos diz que é essa a atitude correta.

Martin Luther King



Caros colegas Conselheiros,

Há 10 anos iniciei minha vida dentro do Conselho Regional de Medicina do Paraná. Confesso que foi nesse ambiente que aprendi o real significado da palavra ÉTICA. Um conceito que possibilita o convívio entre as pessoas e traduz o conjunto de valores morais e princípios de uma sociedade. Portanto é plural, mas auxilia cada um nas decisões cotidianas do que queremos, podemos e/ou devemos fazer. Da mesma forma as leis norteiam o cidadão no caminho da justiça, o que a princípio seria eticamente aceito. O grande problema é quando a lei se dissocia da ética.

No momento em que o governo federal emitiu a Medida Provisória 621/13, que instituiu o Programa Mais Médicos, criou-se um “arcabouço legal” para que o programa existisse, inclusive passando por cima de leis já consagradas. Já se passaram 70 dias, após a exposição de inúmeras incongruências da medida, modificações foram propostas e dois decretos foram emitidos na tentativa de legitimar a ação do governo. Portanto as “leis” estão postas, mas será que todo esse processo é ético? Aos meus olhos não.

O diagnóstico feito pelo governo de que o Brasil necessita de um maior número de médicos no sistema público é correto, para não dizer óbvio, mas desde o início os Conselhos de Medicina, criados legalmente para proteção da sociedade, tem alertado que a causa apontada e o tratamento instituído são absolutamente incorretos. A MP 621/13 passa ao largo da solução definitiva de um acesso à saúde tanto em quantidade, quanto em qualidade, condizentes com as demandas do povo. Já de muito tempo se denuncia o subfinanciamento da saúde e a má gestão, porém, como de praxe, o governo federal varre para baixo do tapete sua própria sujeira, tentando se eximir da responsabilidade que lhe cabe e colocando a culpa em toda a classe médica.

A vinda de profissionais formados no exterior rende manchetes diariamente, seja pela nacionalidade ou agora pelos documentos de inscrição. O vergonhoso envio de dinheiro público para a ilha de Cuba, através da contratação de profissionais subjugados expõe a moral deste governo. Na mesma linha a forma autoritária e açodada com que os registros provisórios nos conselhos estão sendo tratados, demonstra a falta de zelo com a segurança da saúde do povo. Inúmeros problemas foram encontrados e já noticiados, como documentos trocados, falta de autenticações, falta de diplomas, falta do local de trabalho, nome do supervisor responsável, entre outros. Após ampla celeuma, a advocacia geral da união admitiu em ação civil pública proposta pelo Cremers, que os requisitos dispostos na MP 621/13 podem e devem ser observados, porém o governo não tem como atendê-los agora. Tal situação ensejou o CFM a “liberar” os CRMs da exigência de ter o nome dos supervisores, tutores e locais de trabalho, concedendo o registro e dando um prazo de 15 dias para regularização. Penso que é uma atitude no mínimo temerária, pois uma vez liberado o registro, como voltar atrás? Aguardar esses poucos dias para, de posse de todos os documentos, proceder o registro seria o mais sensato, como noticiamos abertamente para toda a nação durante vários dias. Lembro que há exatos 56 anos os Conselhos de Medicina foram criados e se tornaram responsáveis pela inscrição dos médicos, habilitando o exercício profissional seja definitivo ou provisório, o que possibilita a fiscalização e o julgamento dos possíveis desvios éticos cometidos. A mesma medida é tomada para qualquer médico que vem se inscrever, seja brasileiro ou estrangeiro, formado no exterior ou não. Tudo isso com o intuito de levar segurança à população, logo penso que não podemos e não temos o direito de abrir mão do nosso dever legal.

Entretanto a pressão do governo sobre os Conselhos, já passou o campo da argumentação e de forma clara passou à intimidação, colocando em risco a existência destas instituições, bem como a moral dos conselheiros que procuram contribuir para a representação de nossa instituição. Por isso entendo que a medida tomada na plenária, de inscrever esses profissionais e aguardar o restante dos documentos, conforme orientação do CFM, pode ter sido a forma mais sensata para se evitar um mal maior. Não tenho dúvida de que sem a presença do Conselho a sociedade ficará mais desprotegida. Entretanto essa obrigatoriedade de inscrição, ao arrepio da lei, do próprio contexto da MP 621 e da ética me incomoda e me faz tomar uma atitude. A luta é árdua, pois a força governamental é infinitamente superior e a preservação da instituição tem que ser priorizada. As pessoas passam, mas as instituições devem ficar.


Todos sabem que ao longo de minha gestão primei pela retidão de conduta e me expus demasiadamente na defesa do que entendemos ser o correto para a saúde. Devido a grande visibilidade não me sinto nenhum pouco confortável em assinar uma carteira de habilitação sem que TUDO esteja na mais absoluta correção, conforme o zelo e a isenção que sempre norteou as ações do CRM. Caros colegas, não se trata de intransigência de minha parte, mas sim de coerência. O governo de forma unilateral me diz que eu devo fazer, porém não posso, pois minha consciência e minha história não permitem.

A decisão que estou tomando está sendo muito dolorosa, pois sei das implicações que traz. Pensei e pesei a minha atitude, abri mão da vaidade e me despi de qualquer apego a cargo ou status. Gostaria de pedir desculpas a vocês, meus colegas de conselho, aos funcionários, a classe médica e ao povo do Paraná, mas a situação está insustentável para a minha pessoa.

Diante do exposto, renuncio ao posto de presidente do CRM-PR, mas não da luta pela definição de políticas de estado para que o acesso à saúde saia do patamar vexatório em que se encontra e faça jus ao que a Constituição Brasileira traz em seu texto, qual seja um real direito de cada cidadão. Saio da representação e retorno para junto dos milhares de médicos que jamais se furtaram de participar desse debate, pois somos forjados nos bancos da escola para, acima de tudo, salvaguardar a vida das pessoas.

Confesso a todos que prefiro a vergonha da renúncia a ter que conviver com a vergonha de ter traído a minha consciência, pois quando um indivíduo abre mão de suas convicções, perde sua identidade e o significado de sua existência.

Atenciosamente e com profundo respeito,

Alexandre Gustavo Bley

Notícia do CRM-PR sobre a renúncia
Documento original

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Comentário a um texto de Cláudio Couto

Um amigo publicou este texto de Cláudio Couto no Facebook e resolvi comentá-lo. Ele toca em diversas questões que considero importantes para entendermos a política no Brasil atualmente. Vamos lá, Cláudio Couto em vermelho e eu em azul.

Recebi de uma amiga querida um questionamento sobre minhas posições políticas recentes. Ao responder-lhe, notei que talvez tenha tido a oportunidade de explicitar alguns pontos que gostaria de tornar públicos. Assim, reproduzo aqui, sem revisar e sem lhe nominar, o que escrevi a essa querida amiga.

Minha cara,
Eu não me considero petista, mas de esquerda.

Sendo petista ou não, a opinião que ele expressa é exatamente aquela que interessa ao PT que seja divulgada.

Acho que o PT cometeu erros sérios e os que erraram devem pagar com isto. Contudo, não aceito essa generalização que tem sido feita, como se todo petista fosse um criminoso, somente por ser petista. Como se bastasse o partido ganhar um governo para a corrupção se alastrar. E, como se não bastasse isto, como se os que lhe detratam fossem os baluartes da pureza e da honestidade. Pior ainda, quando sabemos que esses outros cometeram exatamente os mesmos erros que o PT cometeu.

Existem duas diferenças fundamentais entre os crimes cometidos pelos petistas e os crimes cometidos por políticos de outras legendas. A primeira é que, no PT, existe o chamado centralismo democrático. Todas as decisões importantes são tomadas pela cúpula do partido. O “mensalão” é um crime cometido pelo partido como instituição, não por seus membros à revelia. A segunda é que a compra de votos de deputados, ou a compra de apoio de partidos inteiros, é um crime contra a democracia. Como disse o presidente do STF, é uma tentativa de golpe. Seu efeito é tornar o Congresso irrelevante, as eleições irrelevantes. Espero que Eduardo Azeredo seja julgado e condenado, mas a única coisa em comum entre seu caso e o dos petistas é que ambos simularam empréstimos com ajuda de Marcos Valério.

O que não aceito é essa tentativa maniqueísta de tornar o PT algo equivalente a um câncer da política nacional e da república, o mal a ser evitado, sendo que a alternativa a esse mal seria o PSDB, repositório do que existiria de valores republicanos no país.

O PT é exatamente um câncer da política nacional e da república, um mal a ser evitado, como já foi no passado a ARENA. O PT vem trabalhando contra a democracia desde antes de ela se consolidar no Brasil. O PT expulsou três deputados que votaram em Tancredo Neves em 1985. O PT recusou-se a subscrever a Constituição de 1988. O PT foi contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Proer e o Plano Real. O PT, uma vez no poder, tentou criar um Congresso paralelo (alguém se lembra do Conselhão?), tenta reiteradamente encabrestar a imprensa e tentou comprar o Congresso. Isso não significa que os adversários do PT sejam perfeitos. Existe corrupção em todos os partidos e ela deve ser combatida. Aquela clássica roubalheira comum, em que um político procura beneficiar a si mesmo. Qualquer corrupção é nefasta, mas a corrupção da democracia é mais grave que as outras.

A coisa fica pior quando quem vocaliza essa posição é um político como José Serra. Um político que nada mais fez nos últimos 12 anos de sua vida que não manobrar politicamente para se tornar presidente da República. Até aí, nada de mais. O problema é que, para fazer isto, colocou as instituições em que atuou a seu serviço.
Fez isto com seu partido, que servilmente se curvou a ele; fez isto na prefeitura, voltou a fazer no Estado e voltou a fazer com seu partido.

Parece que é crime disputar a presidência da República. Até hoje não entendo como o PSDB não tentou viabilizar qualquer outro candidato a prefeito em 2004. Por que queimar o candidato mais preparado à presidência ou ao governo do Estado para eleger o prefeito de São Paulo. José Serra poderia ter se guardado para uma eleição mais importante, mas curvou-se ao partido e submeteu-se a essa candidatura. Enquanto, segundo Cláudio Couto, Serra nada mais fazia a não ser manobrar politicamente, ele saneou as finanças da prefeitura. Alguém se lembra da fila de credores na prefeitura, em janeiro de 2005? Enquanto “manobrava politicamente”, foi construído um longo trecho do Rodoanel, foi duplicada a Marginal Tietê, foram feitas diversas estações de Metrô, escolas, hospitais, presídios. A Nossa Caixa foi vendida ao Banco do Brasil e o dinheiro resultante foi investido no Estado de São Paulo. Isso deve ser colocar as instituições em que Serra atuou a seu serviço.


Não bastasse, abriu a caixa de pandora da religião na política, disseminando todo tipo de preconceito e hipocrisia. Apresenta-se como um homem que defende valores, mas mente descaradamente. Apresenta-se como o defensor da democracia, mas telefona nas redações dos órgãos de imprensa pedindo a cabeça de jornalistas que lhe tenham feito perguntas incômodas, ou escrito algo que lhe desagradou.

Religião é um tema legítimo de debate. Os religiosos têm o mesmo direito à liberdade de expressão dos agnósticos. Gostaria que fosse verdade que Serra tivesse abordado temas religiosos em 2010. Infelizmente, não é. Pessoas religiosas que votariam em Serra tentaram levantar esses temas. E foram perseguidas por isso. Gostaria de saber quais são os casos em que Serra mentiu descaradamente ou qual o nome de pelo menos um jornalista que tenha sido perseguido por ele.

Nesse cenário maniqueísta que se montou, para piorar, Serra e, neste caso, o PSDB, têm implantado políticas anti-pobre. O higienismo na cidade de São Paulo e do governo do Estado têm esse condão: o tratamento dispensado à cracolândia, a truculência do Pinheirinho, a política de segurança homicida ("quem não reagiu sobreviveu"), a omissão nos incêndios em favelas, as obras malufistas das marginais etc.

A truculência do Pinheirinho foi 100% feita pelo PSTU, que manipulava os moradores. Não há nenhum caso verdadeiro de violência por parte da polícia nessa operação. Quem é anti-pobre é o crack, não a tentativa de combatê-lo. As taxas de homicídios em São Paulo caem sistematicamente há 16 anos. A polícia de São Paulo mata muito menos que a do Rio de Janeiro ou da maioria dos outros estados. A quantidade de incêndios em favelas atualmente é muito, muito menor que na administração Marta Suplicy. A Favela do Moinho só não foi removida antes deste último incêndio porque os petistas não permitiram. Hoje, são licenciados 800 carros por dia na cidade. Pessoas de menor poder aquisitivo estão adquirindo automóveis. Se não forem feitas obras viárias, a cidade não comporta esse aumento de frota. Moro num extremo da cidade e trabalho no outro. Atravesso a Marginal Tietê inteira todos os dias. O trânsito hoje é muito, muito melhor que o que existia em 2009. E é melhor que o que existia em 2002 também.

Diante disto, prefiro mesmo os governos do PT. Considero um imenso avanço as políticas sociais do governo federal nos últimos anos, a política de educação que o Haddad implementou quando ministro da Educação, o Bolsa Família, a redução da desigualdade de renda e a ascensão econômica de uma imensa parcela da população - que, a meu ver, é erradamente chamada de "classe média".

A política de educação que o Haddad implementou pode ser vista no desastre que é o Enem. Qual a diferença entre os programas de transferência de renda do PT e do PSDB, exceto o nome? Parte da ascensão econômica dessa população ainda é efeito do Plano Real, que o PT teve a grande virtude de não destruir.

Ou seja, como o PT e seus governos são muito mais do que apenas mensalão, eu, mesmo sem me considerar petista, prefiro essa alternativa na eleição. É só isto.
E, como consequência, vejo-me na obrigação de apontar o dedo e combater uma tentativa hipócrita e autoritária de transformar esse partido e seus membros numa cambada de bandidos. Não só porque há muita gente correta no PT (assim como em outros partidos, e no PSDB em particular), mas porque ao se fazer isto, joga-se por terra a necessidade de diferenciarem-se as políticas e suas consequências para o país, em particular para os mais pobres.

O ponto é que as políticas são as mesmas. Qual política do PT é diferente da política anterior do PSDB? Nenhuma. As pessoas que tinham vergonha no PT saíram há muito tempo. Fernando Gabeira, Helio Bicudo, Cristovam Buarque, Soninha Francine não suportaram o ambiente. José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, Paulo Paim, Tarso Genro, Ideli Salvatti, Eduardo Suplicy, Marta Suplicy estão lá firmes e fortes.

Noto que essa tentativa de desqualificação hipócrita (ingenuidade não se aplica aqui) é mais frequente entre as camadas médias escolarizadas e de rendas mais altas. Eu me incluo nesse segmento, convivo com ele e noto como procede. Na realidade, noto que simplesmente usa o pretexto do mensalão para fazer o que realmente quer fazer, sem ter de admiti-lo: derivar à direita e optar por políticas antipobre.
Contra as cotas, defende-se o "mérito", como se o "mérito" emergisse no vácuo, sem que importassem as diferenças sociais de oportunidade. Contra o Bolsa Família, defende-se o "trabalho", como se pobres não trabalhassem e, ainda assim, sem obter o mínimo para uma vida decente.

As cotas mereceriam um texto bem mais longo. Convivo com muita gente pobre. Moro em bairros pobres há mais de vinte anos. Existe muita gente pobre que dá imenso valor ao trabalho e à educação. Que quer que as leis sejam respeitadas. Que investe nos filhos. E progride na vida.
Infelizmente, a direita não tem representação política no Brasil. Aqui, é necessário dizer que, quando digo direita, não estou me referindo aos militares, muito menos ao fascismo. Pelo contrário. Tanto os militares no Brasil como os fascistas na Europa agigantaram o Estado, suprimiram a liberdade individual e rasgaram as leis. Direita significa diminuir o tamanho do Estado, defesa radical da liberdade individual, respeito às leis. Nada disso é “antipobre”. Se existisse um partido de direita no Brasil, ele defenderia acabar com o Bolsa Família e acabar com a COFINS, que é um dos impostos mais perversos com os mais pobres. Quem disse que, por causa do Bolsa Escola os pobres perdiam a vontade de trabalhar foi Lula.

Eu não me coloco entre aqueles que vêem no julgamento do mensalão uma conspiração das elites. Considero que o STF cumpre seu papel, a despeito do que possam ser certos excessos retóricos deste o daquele juiz. Não vejo isto como um grande problema, pois creio que faz parte do processo de amadurecimento institucional, que de resto vem acontecendo. Como outros, considero que o julgamento é um potencial avanço institucional, mas apenas terei certeza disto se o mesmo critério por parte do STF for seguido no julgamento do mensalão tucano, aquele de Minas Gerais. Afinal, parece-me que as leis devem valer igualmente para todos. Da mesma forma, espero que a vigilância dos órgãos de imprensa seja a mesma no próximo julgamento. Quanto às nossas classes médias escolarizadas de altas rendas, eu não tenho a ilusão de que ela se comportará diante do julgamento do mensalão tucano da mesma forma que vem se comportando em relação ao mensalão petista. E isto porque o que realmente sensibiliza a muitos e aproveitar a oportunidade de, justamente, condenar quem cometeu crimes para, injustamente, utilizar as condenações como forma de desqualificar posições políticas, políticas públicas e pessoas.

Espero que os crimes do PSDB de Minas sejam julgados e os responsáveis condenados. Isso não significa que sejam crimes iguais aos do PT.

Estas são as razões que me levam a tomar partido da forma como estou tomando nos últimos tempos. A razão, parece-me, é que é necessário desta vez defender a democracia. Não da forma como o fizeram os neoudenistas hipócritas à época da eleição de 2010, bradando contra o falacioso risco de "mexicanização", ou contra o populismo inexistente. O risco à democracia agora é o de pintar um mundo em branco e preto, em que tudo de mal se imputa a um partido, do qual nada de bom se pode tirar.
Para finalizar, é isto que leva certos intelectuais a posições de lastimável empáfia, como a de se sentirem no direito de conclamar a um líder político que se aposente da vida pública. Como se fosse lícito conclamar qualquer cidadão a abdicar de sua legítima condição de partícipe de seu tempo. Mais ainda de um cidadão que, mesmo tendo cometido erros, construiu instituições, melhorou a vida dos mais pobres e jamais ligou em redações para pedir a cabeça de jornalistas.

Acho que não entendi o final do texto. Sei que Lula chamou Serra de velho muitas vezes, embora seja apenas três anos mais novo, e disse que ele devia se aposentar. Mas acho que Cláudio Couto não chamaria Lula de intelectual.