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sábado, 4 de maio de 2013

O Deus da Máquina, capítulo III


O Apóstolo Paulo Explica os Princípios da Fé na Presença do Rei Agripa, de Sua Irmã Berenice e do Procônsul Festo, pintado por Vassili Surikov, em 1875.
O terceiro capítulo de O Deus da Máquina (Roma Descobre a Estrutura Política), de Isabel Paterson, começa enfatizando os defeitos da Lei Romana. Ela era frequentemente cruel e previa, por exemplo, a escravidão por dívidas. Aplicava-se apenas aos poucos homens que eram cidadãos. A principal virtude da Lei Romana era o simples fato de que ela existia e não era arbitrária.

Por causa da familiaridade com a lei, os romanos pensavam de maneira diferente dos outros povos. Portanto, eram mais confiáveis quando estabeleciam um tratado com outros povos. A cidadania podia ser concedida a um povo conquistado e as autoridades locais poderiam ser mantidas, desde que subordinados a Roma, e os costumes não precisavam ser alterados. Com isso, o risco de revolta era minimizado.

O melhor exemplo de como isso funcionava é a história do Apóstolo Paulo. Durante uma revolta local, Paulo foi preso por soldados romanos. Quando ia ser açoitado, apresentou-se como cidadão. O centurião, o comandante e o governador ficaram com medo.

A Lei Romana foi o principal fator de coesão da nação. Quando os domínios da República Romana cresceram demais, as forças acumuladas nas províncias colidiram contra o centro e a República foi derrubada. Mas surgiu o Império e a nação se manteve porque, de alguma maneira, a Lei continuou funcionando. O Imperador fazia o papel de um fusível no sistema. Se necessário, ele seria eliminado e substituído, mas a nação permanecia estável. Isabel Paterson ressalta que Roma não era um império militar. Num império militar, a autoridade civil seria subordinada à militar. Porém, no embate entre o cidadão Paulo e as autoridades militares romanas, as autoridades é que ficaram com medo.

É curioso que Paulo expressa sua visão religiosa por analogia à cidadania romana e expressa o conceito cívico romano do homem como entidade. Paulo representa a terceira ideia fundadora da Europa e do Novo Mundo: a de que o homem possui uma alma individual e imortal.

Roma Descobre a Estrutura Política

O Deus da Máquina, capítulo III
Roma Descobre a Estrutura Política
Isabel Paterson

O Julgamento de Paulo, pintado por Nikolai Bodarevski, em 1875.
Não é necessário dizer que a realidade ficava muito aquém do ideal. As punições da lei romana eram excessivas e cruéis. A escravidão e os privilégios de classe eram instituições legais; se não fossem, não poderiam existir. A igualdade perante a lei era exclusividade dos cidadãos, ou seja, apenas dos homens livres; e um devedor corria o risco de ser escravizado. Essa visão brutal e irracional da dívida, uma equação falsa, algumas vezes causou perturbações sociais alarmantes; em momentos de pressão política, um perdão de dívidas poderia ser declarado por uma legislação ex post facto, um remédio que em certas ocasiões era quase tão injusto quanto o problema que tentava resolver e só um pouco menos perigoso. Sentimentalizar a lei romana e encobrir seus aspectos cruéis e defeituosos é deixar escapar o essencial. Sua virtude incontestável era a sua mera existência, uma vez que, no pior dos casos, era melhor que a vontade imprevisível do rei ou do povo. Em sua conduta ordinária, os atenienses eram provavelmente mais humanos ou tranquilos que os romanos; mas a qualidade da lei romana era ser confiável. A anedota, que conta que um ateniense votou pelo banimento de Aristides porque estava cansado de ouvir Aristides ser chamado de o Justo, pode ter sido inventada como piada. Mas não é impossível que algo assim ocorresse no sistema democrático. Na lei romana, para que uma sentença fosse aplicada, um homem precisava ser acusado de um ato específico, com penas conhecidas, e condenado por algo mais concreto que a opinião. Ninguém poderia ser considerado culpado sem uma causa. Um simples exemplo, expresso na mais famosa conversa secular da história, mostra como a lei romana criou um império, o manteve unido, tornou-o viável e o fez funcionar.

Por ocasião de uma revolta popular, o Apóstolo Paulo foi preso por guardas romanos. Quando estava para ser açoitado, “Paulo disse ao centurião que ali estava: ‘É correto açoitar um cidadão romano sem que ele tenha sido condenado?’”1 (Escravos eram açoitados quando depunham como meras testemunhas; e, aparentemente, esse procedimento era admissível, da mesma maneira, com estrangeiros.) O centurião informou imediatamente seu superior sobre o protesto de Paulo. “Então, o comandante dirigiu-se a Paulo e perguntou: ‘Diga-me, você é cidadão romano?’ Ele respondeu: ‘Sim, sou’. Então o comandante disse: ‘Eu precisei pagar um elevado preço por minha cidadania’. Respondeu Paulo: ‘Mas eu nasci livre.’ […] E o próprio comandante ficou com medo.”2 Uma vez que Paulo estava em perigo por causa de opositores fanáticos, recebeu proteção e foi depois levado diante do governador Pórcio Festo. Seus inimigos então tentaram, por influências, conseguir uma condenação sumária ou que Paulo fosse entregue a eles. Festo disse “Não é costume dos romanos entregar um homem à morte, sem que seus acusadores estejam presentes e ele possa se defender da acusação.”3 Foi apresentada uma acusação de sedição, mas não foi possível acrescentar mais nada que a lei romana definisse como esse crime. O caso era exatamente do tipo mais desagradável para uma autoridade romana num posto provincial; mas as razões que o faziam desagradável ao governador eram precisamente aquelas que tornavam impossível evitá-lo ou tratá-lo arbitrariamente. Aparentemente, Festo tentou convencer Paulo, como judeu, a se submeter à jurisdição local sob a lei judaica. Evidentemente, o tribunal judeu não poderia julgar Paulo por sedição; mas alguma outra acusação poderia ter sido feita, dentro de sua competência legal, que não precisava ser assunto do governador romano. Presumivelmente, se não encontrasse uma acusação válida, Festo poderia simplesmente absolver o prisioneiro. Mas então, se Paulo fosse preso pelas autoridades locais sob outra acusação, poderia exigir ser julgado pela lei romana da mesma forma; e Festo teria o caso de volta a suas mãos, certamente com complicações novas. Ou, se Paulo fosse tirado do caminho clandestinamente, Festo seria suspeito de conivência com uma perturbação política local em que um cidadão romano foi sacrificado.

Paulo não cedeu: “Eu apelo a César.”

“Então Festo, tendo falado com o conselho, respondeu: ‘Apelaste a César? Para César irás.’”4

O xis da questão é que um pobre pregador de rua — da classe trabalhadora, preso e com inimigos em altas posições — teve apenas de reclamar seus direitos civis para que esses direitos não pudessem ser negados em nenhuma circunstância. Aqui, todo o processo histórico se torna evidente em sua imperial realização.

É evidente o valor primário da ideia do direito, de estruturar a legislação. Ela determina sanções morais que valem mais que a força e, ao mesmo tempo, reconhece a falibilidade humana. Homens criaram os estatutos; e entende-se que um estatuto pode ser injusto ou imprudente, mas uma lei ruim é responsabilidade dos legisladores; os estatutos poderiam ser mudados, sem prejudicar a majestade da lei em princípio. Os meios de revogação ou alteração eram previstos, sem que se fosse necessário recorrer à violência. Assim, a ideia de lei atendia à razão, e era superior à simples conveniência. Finalmente, a ideia de lei pressupõe que um homem tem direitos que devem ser respeitados, e que ele só pode perder por seus próprios atos. Embora nem todos os homens fossem livres, a condição de um homem livre tinha sido definida. E, uma vez que se descobrisse que a liberdade é inerente à ordem do universo, a lógica acabaria por perguntar por que nem todos os homens eram livres.

O uso prático do conceito de lei na fundação do império começou com as relações internacionais. Os hábitos mentais dos romanos faziam com que eles fossem mais confiáveis na manutenção de tratados e mais constantes contra revogações unilaterais. Portanto, era desejável aliar-se a eles. Da mesma maneira, a clareza legal ajudava a especificar condições que podiam ser aceitas. Sendo a cidadania formulada como uma condição legal, e não um acidente de nascimento, Roma podia concedê-la a um povo de outra nação. Esse tipo de concessão geral tinha efeito sobre os indivíduos; a atração orbital, exercida primeiramente sobre a massa, agia igualmente sobre as partículas separadas. O resultado era uma verdadeira fusão ou solda, um composto químico, no lugar de uma simples mistura ou encaixe. Era possível permitir que os governantes locais anteriores mantivessem uma autoridade subsidiária; nenhuma mudança de costumes era forçada sobre o povo; e o risco de revolta era minimizado. Em situações de tensão, os cidadãos individualmente buscariam proteção contra a tirania local agarrando-se a Roma — como fez Paulo, já que a lei romana era supraterritorial, da mesma maneira que a lei canônica na Idade Média.

Depois que as partículas formavam uma substância homogênea, essa substância era firme o suficiente para constituir uma estrutura duradoura. Ao analisar ou descrever os sucessivos estágios e formas de associação que os homens desenvolveram, é correto e consistente referir-se à ordem representacional como arquitetura e à agência política em ação como mecanismo. A estrutura deve acomodar o mecanismo; e cada um deve corresponder respectivamente ao tipo de cultura e ao modo de conversão de energia. Essas formas e mecanismos não ocorrem nem são montados de maneira fortuita por um determinismo material. São criados pela inteligência consciente, à luz da experiência. O progresso natural tende a ser desigual; a incapacidade, por longo tempo, de fazer com que os vários desenvolvimentos estejam em estágios compatíveis é a causa do declínio e decadência das nações. Mas os métodos de produção não vão ficar para trás das ideias políticas avançadas; mas, se uma avançada economia física se desenvolve numa estrutura política que não consegue acomodá-la, ou a produção é sufocada novamente ou destruirá a entidade política, sendo subvertida pelos fins errados. Os gregos de fato inventaram uma máquina a vapor rudimentar, mas foram incapazes de aperfeiçoá-la e colocá-la em uso, por falta de uma organização política que permitisse um potencial tão elevado. Nem o sistema romano poderia comportá-la. A organização necessária não foi desenvolvida por quase dois mil anos. Mas Roma sozinha, no mundo antigo, encontrou o princípio político que acomodaria o potencial de energia já liberado.

Pedra angular
Como arquitetura, a forma da República Romana utilizava os grandes princípios da construção em pedra: o arco, por meio do qual a pressão das partes opostas contribui para a coesão do peso superposto; a cantaria5, em que unidades se sobrepõem em fileiras de tijolos; e o arcobotante6, que dá estabilidade. As tribos cívicas, as famílias patrícias e os membros do Senado eram os arcos e as pedras angulares7. A dupla lealdade do cidadão, à família e ao estado, dava a sobreposição da cantaria. A composição do exército republicano, uma milícia com cotas fornecidas pelas tribos e oficiais do mais alto escalão pertencendo por regra a famílias senatoriais, era idêntica, em sua estrutura vertical, ao estado e à sociedade; assim, quando o exército era chamado a serviço, permanecia como um arcobotante em relação ao todo.

Cantaria
A organização política da Roma republicana funcionava como a sequência mecânica de uma polia móvel8, com a linha de força subindo uma estrutura vertical a partir de uma base fixa, para acionar um braço extensor. Com a ascensão do Império, essa organização se tornou inadequada ao campo de ação. O Império usava um sistema de fluxo de gravidade com o aparato efetivo para desviar uma parte da energia para manter o canal funcionando.

Arcobotante
Tempo e distância são os dois fatores que necessitam de governo formal. Por que e como necessitam? Devemos tratar disso mais tarde. Cada tipo de governo é adequado a certas relações espaço-temporais dos indivíduos entre si e destes com seu ambiente. O âmbito ou dimensão apropriados se tornam evidentes na extensão territorial estimada com o coeficiente da velocidade dos transportes e das comunicações.

Polia móvel
Enquanto estava confinada a uma área apropriada, a estrutura política da República Romana era a mais poderosa que já havia sido reunida. Essa proporção entre forma e espaço foi bem ajustada um pouco antes e durante as Guerras Púnicas. Ainda era possível uma extensão gradual sobre áreas imediatamente adjacentes, não muito distantes, admitindo-se cuidadosamente a cidadania de alguns povos conquistados e fazendo-se alianças auxiliares; mas era necessário certo tempo para a assimilação e certamente havia um limite territorial além do qual o sistema se tornaria ineficaz. A força militar de Roma derivava da completa subordinação do exército à autoridade civil; mas isso não acontece simplesmente por se dizer que será assim. Um exército é um desvio de energia da vida produtiva de uma nação. Modernos exércitos de massa são abastecidos por uma única passagem de energia, mas com um longo e complexo sistema de transmissão para a obtenção e novamente para a distribuição, o que faz com que uma grande quantidade de energia seja usada nesse trânsito. E, se houver uma quebra ou uma sobrecarga ou uma corrente inadequada na linha principal, tudo vai ruir. Na República Romana, o controle do exército era garantido pelas múltiplas conexões diretas no controle local do recrutamento. A recompensa dos soldados por uma campanha vitoriosa era voltar para casa. Sua lealdade ao comandante era restrita às ordens militares dadas por delegação do Senado. Se um comandante fosse afastado, seus soldados obedeceriam ao Senado; era um exército cidadão. Um comandante tinha muito pouca chance de estacionar suas tropas e estabelecer um regime independente em uma região estrangeira.

A aquisição permanente de províncias conquistadas mudou todo o arranjo. Os exércitos foram engordados enormemente por mercenários e aliados duvidosos. As despesas tinham de ser cobertas pelos impostos. Grandes riquezas estavam à disposição de um general vitorioso numa província distante; e se seu pagamento atrasava, os soldados olhavam imediatamente para seu comandante. Também havia chances para negociatas de civis com contatos políticos e sem escrúpulos. Era uma aposta tentadora para um financista romano apoiar um general com empréstimos pessoais para serem pagos com favores. César devia milhões antes de conseguir seu cargo. O Senado se dividiu em interesses de facções.

Como visto, o exército da República funcionava espacialmente como um instrumento lateral da autoridade civil, um extensor pendurado a uma junta cardã9. O extensor se enfraquecia conforme se estendia, enquanto a carga que ele sustentava era muito maior. Quando os diversos exércitos ocuparam as províncias, os pesos das pontas de fora, que não podiam ser soltos nem controlados, os arrancaram das juntas e os impeliram novamente contra o centro como gigantescos aríetes. O “exército da lei” não era proporcional ao alcance e à ação retrativa exigidos por essa expansão inédita de seu campo de ação.

Portanto, a súbita ascensão ao poder mundial literalmente fez Roma em pedaços, nas guerras civis do Triunvirato. O estado não teria sobrevivido se o princípio coesivo não tivesse continuado a agir sobre as partículas.

A República pereceu. O que houve foi que a direção primária da corrente de energia foi revertida e, com ela, a incidência de força física também se inverteu. A República foi formada por uma comunidade que produzia seu próprio sustento, incluindo o fornecimento de soldados e a manutenção do exército; a energia se originava dentro do estado. Conseguia sustentar eventuais demandas extraordinárias de guerra porque as despesas normais do estado não eram excessivas; e as agências de autoridade direta eram organizadas de tal maneira que a coleta de impostos era bastante moderada. Quando um estado depende de um exército cidadão para defesa, a dificuldade intrínseca é encontrar uma maneira de mobilizar e desmobilizar o indivíduo para tarefas militares intermitentes com a mínima despesa e com o menor prejuízo para a economia civil. O problema foi muito bem resolvido pela República, com um mecanismo centrífugo conforme a fonte de energia exigia. Esse mecanismo não tinha a capacidade de funcionar de maneira reversa.

Com o mundo dominado, um fluxo incalculável de energia foi despejado sobre Roma vindo de fontes externas, uma força centrípeta, carregada pelo dinheiro das províncias. O dinheiro é indispensável para um sistema de energia de alta carga e de grande extensão. Deve ser usado quando um excedente suficientemente grande está sendo produzido, que permita uma margem para troca e que cubra o custo do transporte a distâncias consideráveis. O dinheiro representa uma bateria carregada quando ocioso e um modo generalizado de conversão de energia quando em movimento, com a função de equiparar espaço e tempo.

Para adaptar o mecanismo quebrado de Roma ao novo potencial de energia que vinha de fora, as peças tinham que ser novamente intertravadas ou deslocadas por um nexo indivisível e um distribuidor semiautomático. O melhor que se pôde conseguir numa tentativa improvisada e desesperada foi um tipo de mastro-de-emergência.10,11 Um homem era usado como se fosse um objeto separado e quebrável, mas substituível. Sua nova posição não tinha relação com seu lugar anterior no organismo social. Ele era algo como um fusível grosseiro, que pode ser queimado; mas devemos ter em mente que a queima de um fusível é uma medida de segurança em certas contingências. Praticamente, qualquer homem que aceitasse o trabalho serviria; e, se um falhasse, outro deveria ser jogado em seu lugar pela sequência dos acontecimentos. Ele era o imperador, enquanto durasse. Devia receber a corrente que entrava e redistribuí-la para fora. Portanto, não devia ter nenhuma outra função social em particular. Na primeira vez em que um homem assumiu essa tarefa, isso aconteceu principalmente por causa daquela qualificação negativa: ele não era um grande soldado, nem um orador eloquente, nem uma figura popular. Os diversos homens que tinham esses dons — Júlio César, Cícero, Marco Antônio — morreram de maneira violenta. Esse era seu fim natural, uma vez que representavam os instrumentos em colisão: o exército, o Senado e o populacho romano. Acabaram recebendo o impacto que Augusto anulou, por não representar nenhuma parte separada. Ele não tinha um partido visível; mas usou os novos homens ricos, ou foi usado por eles. Augusto quebrou os patrícios por banimento, reduzindo assim o Senado à impotência (embora mantendo sua casca); profissionalizou o exército; comprou os plebeus com donativos; e organizou uma burocracia que forneceu ocupações e privilégios às classes alta e média.

Há dois mil anos, o exemplo de Roma vem sendo citado erroneamente, para a confusão das nações, como se fosse um império militar. Não era. Nunca houve um império militar, nem pode haver. É impossível, segundo a natureza das coisas. Quando Augusto se tornou imperador, sua primeira medida para consolidar o domínio romano foi reduzir o tamanho do exército. A seguir, quando Roma incluiu em suas fronteiras a maior parte da Europa, o Oriente próximo e o norte da África, a tarefa foi executada com menos de quatrocentos mil soldados, dos quais a metade era de auxiliares, ou seja, regimentos fornecidos pelas nações submetidas e comandados por romanos. A comparação com a quantidade de homens em armas na Europa durante as recentes guerras mundiais é prova suficiente de que os exércitos romanos seriam ridiculamente inadequados para manter um território tão vasto por seis meses por pura força. Em sua estrita competência militar, o exército defendia as fronteiras. Sua tarefa interna era principalmente suprimir disputas de facções, ou seja, trabalho de polícia. Havia poucos levantes genuinamente populares. O homem comum desejava viver sob a lei romana. As Legiões vitoriosas eram consequência e não causa.

O teste para dizer se uma sociedade é militar consiste em definir qual autoridade é reconhecida como superior, a civil ou a militar. A autoridade civil romana era suprema, como mostra a história de Paulo, quando o homem da espada estava “com medo” diante de seu prisioneiro. Um império só pode existir se oferecer ao mundo algum benefício negociável em troca do tributo. A lei romana era a commodity de exportação de Roma. Por “um preço elevado”, as nações obtinham a lei, mas comparando-a com os poderes arbitrários, acreditavam que valia o que custava. É isso o que os cartagineses não tinham para oferecer e não entenderam quando viram; nunca souberam o que os atingiu.

A evidente corrupção da Roma imperial e o poder aparentemente despótico do imperador parecem negar a premissa básica de que a autoridade moral consiste no conceito de lei. Uma vez que o poder do imperador não tinha restrições expressas, podia ser chamado de absoluto; mas não é ser minucioso demais perguntar se era assim em teoria ou na falta de teoria. A República previa a nomeação de um ditador temporário; mas esse cargo é mal compreendido, a menos que todo o sistema civil seja levado em consideração. O ditador era nomeado pelo consulado, que era autoeternizável. O cargo do ditador expirava automaticamente depois de um mandato fixo e curto. Ele não tinha poder para conceder cargos e, assim, barganhar apoios no Senado. Suas ordens, portanto, tinham de ser cumpridas por uma organização preexistente, de caráter complexo e vital, que não devia nada a ele e não esperava nada dele. Ele devia exigir serviços e privações de todos, o que não o tornaria popular. Finalmente, o que é peculiar à ditadura da República Romana é que ela era simplesmente a posição do comandante-em-chefe militar; e isso mostra que a República não tinha tal funcionário em tempos normais. E o ditador não tinha acesso direto ao tesouro público.

O imperador, evidentemente, tinha pleno comando do exército, controle do tesouro e cargos incalculáveis à disposição para distribuir. Além disso, ele era a Suprema Corte em pessoa. Tal concentração de poderes sob uma única cabeça é certamente tão próxima do absoluto quanto é possível imaginar. Como então pode ser dito que Roma não era um império militar? Ou como poderia a lei ainda ser respeitada? O comportamento de Festo indica a resposta. O próprio imperador ficava numa situação precária em meio às forças que nominalmente comandava. Se o exército fugisse ao controle, poderia — e algumas vezes fez mesmo isso — depor ou assassinar um imperador e nomear outro por aclamação. Além disso, o exército tinha de ser pago com impostos recolhidos das províncias; enquanto as províncias constituíam uma ameaça contínua de insurreições separatistas. Mas esta contingência tornava perigosa a posição dos governadores provinciais. Festo não ousaria tratar arbitrariamente um humilde cidadão envolvido em um distúrbio porque poderia ser denunciado ao imperador como patrocinador de um golpe. Seu emprego estava em jogo e, talvez, sua vida também; seu dever era manter a província em paz. Da mesma maneira, o imperador tinha de manter a disciplina de um exército permanente. As províncias e o exército eram forças “puras” agindo por freios e contrapesos, que o imperador precisava medir com precisão para conseguir equilibrá-las. A necessidade de que o imperador fosse substituível se falhasse é, evidentemente, parte do mecanismo. A prova é que o intervalo de séculos não estabeleceu o princípio de sucessão hereditária. Da mesma maneira que Festo tinha menos chance de ter um julgamento justo que Paulo, o fabricante de tendas, o imperador estava menos seguro que o menor de seus súditos. Sempre que faltasse inteligência a um imperador para compreender a realidade de sua situação, as forças puras se desprendiam e o esmagavam; em outras palavras, ele era morto. Assassinatos domésticos e políticos eram os tutores imperiais, instruindo o imperador sobre onde estavam exatamente os limites de seu poder.

Os terríveis abusos inerentes a tal compromisso — corrupção política, desvirtuamento dos donativos do Estado aos pobres, degradação dos padrões pessoais por causa da coleta de impostos para Roma e o aumento do trabalho escravo originado de guerras punitivas de fronteira, que também privavam o cidadão de responsabilidade política — indicam que o cidadão comum deve ter tido um motivo compensador para convencê-lo a tolerar tais males. De fato, qualquer outro sistema conhecido de mesmo nível econômico provocava os mesmos abusos, ou piores, com menos esperança de remédio em qualquer situação em particular. Mas a razão positiva por que o mundo aceitou Roma foi que, sob o domínio romano, a energia produtiva já liberada podia fluir continuamente.

Roma se destacava pela construção de estradas, pontes e aquedutos. São as características visíveis de um sistema adaptado ao modo de conversão de energia que combina tração animal, a roda d'água, um artesanato evoluído até o estágio da forja e da fundição e agricultura especializada. O fluxo é o comércio, o intercâmbio de produtos excedentes, especialmente a troca de bens acabados por matérias-primas. Roma não erigiu barreiras de exclusividade e se absteve de decretar monopólios formais. A lei romana assegurava a propriedade privada e, nas circunstâncias da época, comprometia-se a ter o máximo de cuidado com os direitos do cidadão; tudo isso levava ao individualismo.

A grande torrente de comércio era incessante. O sistema administrativo tomava sua parcela regularmente, para fazer a máquina funcionar, mas deixava o canal aberto. A lei era o meio isolante da corrente viva. Se a linha caísse em algum lugar, as autoridades mais próximas teriam problemas; enquanto o homem no centro, o imperador, enfrentava uma parcela líquida do risco de todos os lados. A parte que cabia ao governo se resumia aos impostos.

Obviamente, o produtor pagava os impostos e sentia o ônus. Como todas as nações submetidas tinham a mesma queixa, seria de se esperar que rejeitassem a autoridade central, se houvesse uma alternativa melhor. Mas não havia. No conjunto, a vida e a propriedade estavam seguras sob a lei romana; e a cidadania era um sólido ativo, mesmo para um homem pobre.

Podemos questionar se é possível conseguir e preservar a lealdade em troca de vantagens materiais, simplesmente; provavelmente, o fator decisivo era imponderável. O senso de expansão e elevação de personalidade indicado por Paulo ao descrever sua conversão e sua crença de ter renascido na liberdade são expressos em frases que podiam ser compreendidas pela analogia secular a seus direitos de cidadania. A explicação de Paulo sobre a lei e a nova revelação, sua opinião de que os costumes eram questão de observância local e seu apostolado aos Gentios estão impregnados do conceito cívico romano do homem como uma entidade. Paulo devotou sua vida à tarefa de afirmar a terceira ideia nova, e a mais importante das três: a ideia da alma individual e imortal. A fé como sinal de coisas não vistas pode muito bem ser compreendida quando alguém diz: “Sou romano”, embora nunca tenha visto Roma. Mas Paulo proclamou algo maior, a Cidade de Deus.





1 Atos dos Apóstolos 22:25. (N. do T.)
2 Atos dos Apóstolos 22:27-29. (N. do T.)
3 Atos dos Apóstolos 25:16. (N. do T.)
4 Atos dos Apóstolos 25:11-12. (N. do T.)
5 Cantaria: técnica de construção que consiste em sobrepor fileiras de pedras cortadas que se encaixam. (N. do T.)
6 Arcobotante: construção em forma de meio arco, erguida na parte exterior dos edifícios românicos e góticos, para apoiar as paredes e repartir o peso. Com ele foi possível aumentar as alturas das edificações. (N. do T.)
7 Pedra angular: pedra central de um arco. Segura todas as outras pedras no lugar e, se for removida, o arco desmorona. (N. do T.)
8 Polia móvel: Dispositivo que facilita a tarefa de levantar um objeto pesado. A cada polia móvel colocada no sistema, a força necessária para erguer a carga é dividida por dois. (N. do T.)
9 Junta cardã: junção de acoplamento de um eixo que transfere o movimento em outra direção sem modificar o sentido de giro. O nome vem do matemático italiano Girolamo Cardano, que foi o primeiro a sugerir o seu uso para transmitir potência motora, em 1545. (N. do T.)
10 Os romanos do Império mantiveram por séculos uma vaga esperança de restaurar a República. (N. da A.)
11 Mastro-de-emergência: em inglês, jury rig. Termo náutico que significa um mastro de substituição provisório num veleiro, no caso de perda do mastro original. A expressão é usada para qualquer conserto improvisado ou artifício temporário, feito com as ferramentas e materiais que estiverem à mão no momento.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Deus da Máquina, capítulo II


No segundo capítulo de O Deus da Máquina, O Poder das Ideias, Isabel Paterson questiona por que sentimos que os fenícios, que foram tão poderosos e importantes em seu tempo, não nos legaram nada. Entendemos que somos herdeiros dos gregos e dos romanos, mas não dos fenícios. Ocorre que a estrutura da Europa e depois a do Novo Mundo se originaram de três ideias: uma grega, uma romana e a terceira, que será tratada no próximo capítulo.

Costumamos pensar no valor da arte e da literatura da Grécia. Mas as artes gregas são estáticas. A arquitetura é extremamente simples e inorgânica. Politicamente, os gregos usaram a lógica para superar a tradição, mas não encontraram um princípio. Como resultado, não conseguiram um sistema estável. A ideia revolucionária dos gregos, encarnada em Pítias, é a Ciência.

Os gregos entenderam que o conhecimento tem valor em si mesmo e que é possível relacionar o conhecimento de áreas diversas, sistematizá-lo e ampliá-lo indefinidamente. Porém, desprezavam as aplicações práticas do que descobriram. Acreditavam que o objetivo de sua pesquisa devia ser unicamente o prazer intelectual de conhecer a verdade.

Subitamente, foram conquistados pelos romanos, que haviam tido outra ideia revolucionária: a Lei. Povos primitivos acreditam que suas leis são imutáveis, baseiam-se no costume. Porém, quando as condições mudam de maneira muito abrupta, o costume não é suficiente para lidar com a nova situação. Surge a necessidade de haver uma liderança que decida o que fazer. Isso resolve o problema por algum tempo, até que a sociedade se torne mais complexa. Quando são necessárias instituições mais permanentes e organizadas, a liderança não dá conta disso e aparece a monarquia. É fácil a monarquia se converter em despotismo.

Talvez Roma nunca tenha sido uma comunidade bárbara. Sabemos que, desde cedo, usava-se dinheiro em Roma e as terras eram propriedade privada. São elementos de uma civilização avançada. Roma também concedia asilo a estrangeiros. Era necessário nascer grego, mas era possível tornar-se romano. Com esse contexto, Roma procurou resolver o problema da estrutura de governo em bases racionais e criou a República. A base da sociedade era a família. Havia os clãs, que eram uma aristocracia sem a hierarquia do feudalismo posterior. Havia os plebeus, que eram a massa da população, mas não necessariamente os pobre. E um dos pilares do sistema que construíram eram as tribos, uma divisão territorial, não ligada à ancestralidade.

Havia diversos mecanismos para proteger a sociedade de tentativas de usurpação: dualidade nos cargos, mandatos fixos e curtos, controle civil sobre os militares, igualdade entre os senadores, liberdade de expressão. E um mecanismo de obstrução: os tribunos da plebe. Esse sistema funcionou por séculos.

O Poder das Ideias

O Deus da Máquina
O Poder das Ideias
Isabel Paterson



Na perspectiva histórica, os fenícios são únicos; embora tenham tido uma participação ativa e extraordinária nos eventos de seu tempo, foi no papel de antagonistas. No instante em que desapareceram, desvaneceram-se em irrealidade, sem deixar resíduo. Não sentimos que tenham nos legado nada de substancial, nada que tenha se incorporado a nossos ossos, se entrelaçado na textura de nossa vida. É extremamente paradoxal, uma vez que nossa herança da Grécia e de Roma consiste em abstrações, enquanto os fenícios eram práticos e tiveram sucesso com um tipo de organização internacional. Acima de tudo, tocaram os pontos em que nossas ideias vitais se originaram. Sua atividade estimulou a Grécia a especular e forçou Roma a se expandir; erigiram o Templo de Jerusalém e receberam como garantia as humildes aldeias da Galileia. Foram transportadores e catalisadores. Porém, parece que começamos novamente com a Grécia e com Roma. Racionalmente, não pode ser verdade; mas a ilusão deve ter uma razão. É que os fenícios eram intrinsecamente um fenômeno físico. Conectaram-se a um circuito de energia ao qual seu mecanismo político não podia se ajustar. Nos assuntos humanos, o que dura é apenas o que está no pensamento dos homens. A humanidade como tal é um conceito intelectual. Como nação, os fenícios se desintegraram pelo impacto de uma nova ideia. Mas três novas ideias já estavam nascendo, que formariam a estrutura da Europa e, mais tarde, recombinando-se, criariam o Novo Mundo. Essas ideias complementares precisam ser relembradas.

A fama da Grécia é normalmente identificada com a arte e as letras; mas a influência duradoura da Grécia não deriva de nenhuma das duas. A arquitetura grega é do mais simples design, inorgânica como um cristal, famosa pela proporção delicada e pela refinada ornamentação, mas sem indicar nenhum desenvolvimento posterior. A escultura grega fixava um tipo escolhido em perfeição imutável. A arte da Grécia era autocontida e estática. Escapa dos limites pela qualidade atemporal de um momento de beleza salvo e preservado, desafiando o fluxo eterno. Da mesma maneira, os gregos estavam num beco sem saída em seu sistema social. Suas divindades não possuíam ordem moral, representando, em vez disso, o capricho indiferente da natureza em relação ao homem. Além disso, os deuses tornaram-se distantes; para os homens educados, a fé era diluída numa fantasia poética. Como consequência, os gregos tendiam a considerar o universo como fenômeno puro. Os costumes domésticos gregos não faziam do lar um centro de forte envolvimento emocional. O companheirismo mental era procurado em outro lugar; restrições normais foram afrouxadas a um grau sem precedentes. O método político grego era análogo a tudo isso, como é de se esperar num lugar em que a lógica suplantou a tradição e, mesmo assim, não encontrou um princípio. A democracia é puro processo, consistindo em uma série de expedientes pragmáticos, aos quais se chegava pelo voto da maioria, pelo veredito dos números. Seus resultados são aleatórios e não há continuidade, exceto nas pessoas envolvidas. Na verdade, funciona pela força do costume e é, portanto, irrealizável exceto com uma pequena comunidade de uma cultura completamente homogênea. Mesmo assim, pelo hábito grego de pensamento, que era a livre investigação, o costume já estava desacreditado. A democracia inevitavelmente descamba em tirania; mas enquanto está instável, pode deixar temporariamente uma larga margem de conduta e pensamento não regulados. Não se presume que seja assim por direito; isso ocorre porque o poder do todo (o povo) é teoricamente um poder plenário indiferenciado em suas partes ou agências. O que é problema de todos não é problema de ninguém. O poder pleno só pode ser exercido em uma economia fechada, como a que havia em Esparta, onde realmente não havia nenhuma margem para nada. Os atenienses, estando abertos ao comércio, por algum tempo tomaram a liberdade de pensar. O comércio e as viagens permitiram que fizessem observações comparativas; eram ávidos por ouvir coisas novas. A ideia que desenvolveram, tomada por si mesma, corroeu as instituições que possuíam; agravou o perigo em que estavam ao enfraquecer o tecido social. Ainda assim, eles a formularam corajosamente; e foi sua contribuição para o futuro. Pítias a encarnou. Os gregos tiveram a ideia da ciência.

Os selvagens adquirem informações sem classificá-las em categorias conforme os atributos ou qualidades das coisas. Sociedades mais avançadas, mas ainda estabelecidas sobre a tradição, possuem ramos separados de conhecimento que são basicamente considerados como dados pela divindade. Assim, uma investigação mais aprofundada de certas questões pode ser proibida como ímpia. Os gregos tinham as fábulas premonitórias de Prometeu e de Ícaro. Entretanto, perceberam que todo conhecimento poderia ser interconectado e que seria possível ampliá-lo indefinidamente por meio da pesquisa racional. Examinaram os processos do intelecto, aguçaram e testaram suas mentes para se concentrarem em generalizações e na busca por axiomas. De maneira inconsistente, desprezaram a aplicação prática. Ciência, diziam, deve ser buscada pelo prazer intelectual de se conhecer a verdade. Essa atitude singular surgiu das condições políticas adversas. A aplicação da ciência à produção necessita de respeito à propriedade privada, de trabalho livre e de tempo suficiente para que os benefícios oriundos do esforço e do capital despendidos possam retornar. No caso dos gregos, a instabilidade inescapável da democracia não dava nenhuma segurança ao indivíduo contra a massa, nem à nação contra um ataque externo. Porém, enquanto as ideias de um homem permanecerem puramente especulativas e o usufruto confinado ao prazer intelectual, ele não poderá ser privado dessas coisas enquanto viver e é assim que ele vai deixar que as coisas fiquem. Um homem só pode pensar e trabalhar efetivamente se for por seu próprio benefício.

Ainda assim, essa negação extraordinária pode ter tido alguma utilidade naquelas circunstâncias, ao enfatizar o valor intrínseco do pensamento. E é verdade que, quando os homens ficam absorvidos em dispositivos práticos, correm o risco de estreitar seu campo de visão e perder de vista a interconexão entre os vários ramos do conhecimento. Mais que isso, como é o caso em questão, irão até se esquecer dos princípios mais amplos que aplicaram e dos quais depende seu bem-estar.

Mas a implicação que os gregos deixaram de lado era, no fim das contas, inescapável. A ciência é o governo da razão. Em vez de se resignar ao destino inexorável do cego acaso, poderia ser possível, discernindo-se as causas dos eventos, ordená-los segundo a vontade e realizar o que os homens desejam. Uma abstração moverá uma montanha; nada pode resistir a uma ideia. Os gregos encontraram a alavanca.

Aparentemente, os eventos zombaram deles. Enquanto filosofavam, a montanha se moveu numa avalanche; Roma os conquistou. A julgar pela aparência, dir-se-ia que foi uma vitória da substância bruta, uma refutação da premissa oculta de superioridade da mente sobre a matéria. Não foi; ao contrário, mesmo em sua ocorrência imediata, foi uma vitória do intelecto. Roma também desenvolveu uma abstração, um conceito político, que estava entre os universais. Roma teve a ideia da lei.

Todas as nações possuem leis; os mais primitivos selvagens estão obrigados por costumes e um costume que obriga é uma lei. Um tabu é uma lei petrificada. Povos primitivos acreditam que suas leis são permanentes, mesmo que arbitrárias, como "a lei dos medas e persas, que não pode ser alterada".1 O significado efetivo é que o costume pode se alterar somente por graus imperceptíveis, se deve se manter válido. Um costume não pode ser novo. A consequente desvantagem é que, se um costume reinante é subitamente quebrado, não há um substituto imediato. O que pode acontecer, por causa de guerra, peste, migração, ou até por inovações que seriam benéficas, é um período de confusão, em que o hábito é interrompido e são tentados expedientes; mas as instituições resultantes não podem durar a menos que estejam imbuídas de sentimentos tradicionais. É claro que o tecido da tradição nunca é completamente destruído. Entretanto, uma vez que o costume não pode se alterar rapidamente e, acima de um nível elementar de cultura, haverá a necessidade ocasional de decidir um curso de ação que pode afetar o grupo, um conselho informal e um líder são a evolução óbvia. Parece ser suficiente para um bando de caçadores nômades. O próximo passo, seja um grupo de pastores nômades ou agricultores primitivos, pede uma organização mais definida de caráter permanente; para garantir a continuidade, a posição do chefe acabava se tornando mais ou menos hereditária, com o sistema patriarcal de clãs. O clã era uma família permanente; muitos idiomas ainda comprovam desse conceito. Se for necessária uma distinção entre um chefe e um rei, no uso moderno é no grau de organização formal, marcado pela nomeação ou reconhecimento de autoridades com cargo fixo e deveres específicos. A evolução simultânea, junto com o governo secular, de um clero com autoridade moral é significativa. Teve seu sentido próprio. A "divisão de poderes" – ou seja, a existência de agências opostas de autoridade moral e poder físico – é uma característica natural da sociedade; portanto, também é necessária na forma de governo para garantir a estabilidade.

Mas todas essas formas de associação são efetivas apenas em condições apropriadas e têm seus defeitos inatos. O costume não é capaz de lidar com o inesperado. A liderança não funciona com instituições organizadas. A monarquia torna-se despótica. Cada tipo de associação é adequado a um determinado modo de conversão de energia e vai entrar em colapso ou se fundir em rigidez se for obrigada a receber um potencial maior do que pode acomodar.

Quando uma nação passa por condições em que o costume se mostra perecível, a liderança desastrosa e a monarquia opressiva, a razão deve definir a fonte primária de autoridade, para investi-la em uma forma viável.

Por essa sequência, provavelmente encurtada, Roma tornou-se um laboratório político. O que entrou no cadinho precisa ser deduzido a partir dos mitos, lendas, tradições e instituições que se formaram nos obscuros séculos da história inicial da cidade. Não parece que Roma tenha sido nunca primitivamente bárbara, se a cidade teve seu princípio no comércio, usando dinheiro2 e tornando as terras propriedade privada; são elementos de uma civilização avançada. E as fábulas são frequentemente inconsistentes, como seria o caso se fossem parcialmente importadas e misturadas. Histórias como a de Rômulo e Remo e do estupro das Sabinas não podem ser aceitas literalmente; nem precisam ser de origem local. O roubo de noivas faz parte de uma cultura bárbara, na qual não há desonra. A crença de que uma loba amamentou Roma deve ser ainda mais antiga e pode ser derivada de um totem selvagem; mas não necessariamente, porque quando a Europa era bárbara, um proscrito era uma "cabeça de lobo", uma antiquíssima figura de linguagem. A sugestão nas três histórias é de que Roma sempre foi mais ou menos uma cidade aberta, admitindo refugiados, exilados ou imigrantes. Eles trariam costumes variados que deveriam ser harmonizados segundo regras gerais.

De toda forma, a figura do asilo certamente se incorporou ao sistema social e legal romano e, por fim, criou o caráter especial da cidadania romana. Caracteristicamente, era necessário nascer grego, mas era possível se tornar romano.

Outra vez, podemos suspeitar de um resquício de antigas dificuldades em encontrar um modo avançado de associação que funcionasse, por causa de uma instituição peculiar a Roma. É uma instituição altamente extraordinária num povo civilizado, porque existia completamente fora da ordem social. Ninguém sabia exatamente qual a sua função, no sentido em que todos sabiam o que significavam as Virgens Vestais. Esse cargo realizou seu objetivo de maneira tão completa que o objetivo foi esquecido. Embora famosos por sua coragem militar, os romanos não praticavam duelos, nem toleravam a vingança privada informal. Porém, existia um homem, que devia ser um criminoso, dedicado a uma ocupação que tinha de ser conquistada e mantida por assassinato. Esse homem era o Sacerdote de Nemi, “beneath Aricia's trees”.

Those trees in whose dim shadow
The ghastly priest doth reign,
The priest who slew the slayer,
And shall himself be slain.3

Quem estava incumbido desse posto sanguinário havia obtido essa função matando o ocupante anterior. Ele nunca poderia deixar o abrigo do bosque sagrado e estava permanentemente sujeito a ser atacado por outro fora-da-lei que conseguisse alcançar esse santuário da morte. O Sacerdote do Ramo Sagrado foi explicado com referências eruditas a ritos de sacrifício, o bode expiatório que carrega os pecados do povo ou o deus-rei que morreu e foi ressuscitado, como o sol, para garantir a fertilidade dos campos e da tribo. Esses rituais mágicos podem ter sido incorporados pelo sacerdócio de Nemi. Mas os romanos eram solidamente prosaicos até em suas superstições. Suas divindades eram principalmente úteis, com funções práticas definidas. Bem, em sua origem, havia um uso prático para o sacerdócio de Nemi. Era desestimular atentados contra a liderança. Não se pode imaginar uma medida mais ironicamente efetiva para desencorajar tais ambições que a determinação de um ponto em que os aspirantes devem enfrentar contendores e onde o vencedor deve continuar, para sempre, sujeito ao mesmo desafio. Que ele tenha o que pediu e fique satisfeito – o recurso à força. Obviamente, apenas homens já banidos procurariam o santuário terrível. São esses os termos sob os quais o homem deve existir quando não há lei. Estando já muito avançados, tendo superado os estágios do costume e da liderança, e sendo conscientes da ineficácia da democracia, os romanos foram obrigados a resolver o problema do governo em termos racionais, trabalhando com o que tinham. Tinham a família como a unidade social, compensada pela lei contratual sobre a propriedade, o que fazia do indivíduo a unidade política. Assim, a família não podia se dividir numa forma realmente feudal. Tinham clãs (gentes), de antiga linhagem local, que podiam ser reconhecidos como uma aristocracia, mas não em ordem hierárquica feudal. Tinham uma população grande e variada, os plebeus, palavra que significa apenas multidão, as massas; mas não necessariamente os pobres. O elemento mais importante eram as tribos, ou seja, a divisão da cidade em áreas específicas, que supostamente restaram da união prévia de três comunidades. Essas divisões eram estritamente territoriais e políticas, com fronteiras fixas; as pessoas eram incluídas nelas por local de residência, não por descendência. Essas tribos tinham igual representação por direito a partir da propriedade de terras, moradia; e tinham a obrigação de suprir contribuições iguais para a defesa militar. Representação vinculada à área. Mudanças subsequentes – áreas adicionais, divisões novas ou subdivisões por razões políticas – mantiveram essa forma; havia fronteiras regionais e representação.

Roma nunca foi um “todo” indiferenciado, uma simples agregação de partículas, como postula a teoria da democracia. Desde o início, a cidade de Roma foi uma federação, com a forma federal, que engloba bases permanentes e estrutura, os elementos da arquitetura. Tanto os elementos como a forma precisam de um sistema eletivo; e os romanos primeiro tentaram um mandato vitalício para um executivo eleito. Foi completamente insatisfatório, porque não é possível haver controle confiável ou limitação dos poderes executivos nesse caso.4 Tendo-se livrado de seus presidentes vitalícios (reis), os romanos tomaram rigorosas precauções contra seu retorno por usurpação. Eles não teriam só um executivo chefe; e, mesmo em posições mais baixas, inclinavam-se por ter dualidade de cargos, o que funcionava muito bem no conjunto. Os cargos políticos também eram restritos a mandatos fixos e curtos, com rotatividade de exercício e intervalos em que um candidato não poderia ser reeleito. Essa última disposição é correta, já que a única razão para determinar um tempo de mandato é poder tirar o ocupante. O principal objeto de votações, em qualquer caso, era o voto contra pessoas ou medidas. Os romanos também suspeitavam continuamente de seus generais, proibindo até um comandante vitorioso de reentrar na cidade sem permissão formal. Estavam determinados a impedir a tomada militar da autoridade civil. E foram assombrosamente bem-sucedidos, considerando sua posição, que necessitava de uma boa porção de defesa e constante prontidão militar. Nenhuma outra nação antiga manteve esse controle civil sobre o exército por centenas de anos.

Os cargos políticos eram ocupados principalmente pela aristocracia e eram em parte eletivos, em parte sujeitos a nomeação ou preenchidos por cooptação; os diferentes métodos, com mandato vitalício apenas para senadores, impediam a rigidez excessiva ao mesmo tempo em que preservavam a continuidade. Também era possível que homens de talento excepcional subissem a partir dos escalões inferiores. Nada era absolutamente petrificado em status. A igualdade dos senadores (diferente do que ocorre em uma aristocracia hierárquica) e a eleição de outras autoridades não apenas permitia, mas exigia o debate público no corpo de governo e a livre expressão de opiniões pelos cidadãos. Como tanto os eleitores como os ocupantes de cargos públicos possuíam propriedades, tinham um interesse sólido em manter a nação funcionando, com a concomitante obrigação de defesa militar.

Mas o golpe inigualado de gênio político foi que o estado romano previa não apenas o adiamento, mas o impasse concreto. O poder dos plebeus, por meio de seus tribunos, era de obstrução manifesta. Os tribunos da plebe não podiam propor nenhuma medida, mas podiam parar os trabalhos; e suas pessoas eram invioláveis. Nada é mais essencial ao bem-estar de uma nação que a restrição ao governo, por meios legítimos. Um mecanismo sem freios, um motor sem dispositivo de corte, foi construído para a autodestruição. O sistema romano era durável porque era organizado de tal maneira que as tensões se transformavam em força e o controle era assegurado pela separação entre a agência executiva e o dispositivo de corte. Essa realização se tornou possível pela definição da fonte de autoridade. “Os romanos possuíam, desde os tempos mais antigos o conceito de jus, que é mais amplo que o de direito positivo declarado por uma autoridade, e denota uma ordem que obriga moralmente os membros da comunidade, tanto humanos quanto divinos.”5

Essa ideia de direito como um conceito abstrato não é dada pelo costume, pela liderança, por um conselho ou um rei; tampouco é compatível com a democracia. Em todos esses casos, a autoridade é arbitrária, tendo sido dada ou num costume particular, ou depositada em pessoas por precedência (ancestralidade ou antiguidade) ou determinada pelo número. Os romanos afirmaram que há uma ordem moral no universo.


  1. O Ciclo de Energia no Mundo Clássico
  2. O Poder das Ideias
  3. Roma Descobre a Estrutura Política
  4. Roma como uma Demonstração da Natureza do Governo
  5. A Sociedade do Status e a Sociedade do Contrato
  6. Liberdade, Cristianismo e o Novo Mundo
  7. O Nobre Selvagem
  8. A Falácia do Anarquismo
  9. A Função do Governo
  10. A Economia da Sociedade Livre
  11. O Significado da Magna Carta
  12. A Estrutura dos Estados Unidos
  13. Escravidão, o Defeito na Estrutura
  14. A Virgem e o Dínamo
  15. As Emendas Fatais
  16. As Corporações e a Lei do Status
  17. A Ficção da Propriedade Pública
  18. Por que Dinheiro Real É Indispensável
  19. Crédito e Depressões
  20. O Humanitário com a Guilhotina
  21. Nosso Sistema Educacional Niponizado
  22. O Circuito de Energia em Tempos de Guerra
  23. A Economia Dinâmica do Futuro

1 Daniel 6:8 (N. do T.)
2 A familiaridade com a função do dinheiro permitiu a Roma governar um império no devido tempo. Diz-se que os espartanos, não sendo acostumados ao dinheiro, eram rapidamente pervertidos quando abandonavam sua modesta economia de subsistência. Não conseguiam manter o mínimo de honestidade em relações contratuais, tendo sido criados no comunismo. No nível mais baixo, não eram capazes nem mesmo de entender os limites da corrupção. (N. da A.)
3 "Além das árvores de Arícia / Aquelas árvores em cuja sombra escura / O sacerdote espectral impera / O sacerdote que assassinou o assassino / E será ele mesmo assassinado." Do poema The Battle of the Lake Regillus (A Batalha do Lago Regilo), escrito por Lord Thomas Babington Macaulay em 1842. (N. do T.)
4 Uma monarquia constitucional hereditária só é possível como um desenvolvimento a partir do verdadeiro feudalismo. A condição necessária é a sobrevivência de uma aristocracia fundiária com herança inalienável. Quando isso desaparece, a monarquia afunda em seguida. (N. da A.)
5 CAMBRIDGE ANCIENT HISTORY: The Primitive Institutions of Rome. H. Stuart Jackson. Macmillan. (N. da A.)