Mostrando postagens com marcador O Deus da Máquina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O Deus da Máquina. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Deus da Máquina, para download

Está disponível para download o livro O Deus da Máquina, de Isabel Paterson, em português, em formato pdf. E também o original em inglês, The God of the Machine.





Prefácio

Que interesse pode despertar um livro escrito há mais de 70 anos, por uma autora pouco conhecida até nos Estados Unidos, que não teve educação formal e que usa metáforas difíceis, tiradas da engenharia mecânica, elétrica e da arquitetura? Quando vi este texto, fiquei fascinado. É uma afirmação apaixonada da liberdade. É também uma fundamentação teórica muito bem construída dos valores políticos em que acredito. Foi escrito num momento em que a liberdade estava em baixa em todo o mundo e muito poucas pessoas se dispunham a defendê-la.

Por isso, resolvi traduzir O Deus da Máquina para o português e tentar fazê-lo mais conhecido. Estão nesta edição todos os grifos e todas as notas de rodapé que Isabel Paterson colocou no original. Acrescentei notas explicativas sempre que achei necessário, para identificar figuras e fatos históricos, citações a outros textos e para esclarecer as metáforas muito particulares que a autora criou. Procurei ter o máximo respeito por seu estilo e sua linguagem. É claro que discordo dela em alguns pontos, mas não exprimi essas divergências em minhas notas de rodapé.

Para Isabel, são três as idéias sobre as quais foi construída a civilização ocidental: a ciência dos gregos, a lei dos romanos e a individualidade dos cristãos.

Os gregos perceberam que o conhecimento tinha valor por si mesmo. Não estavam preocupados com a aplicação da ciência. Entendiam que era possível utilizar o conhecimento obtido em uma área para resolver problemas encontrados em outras, que essa busca levava o homem na direção da verdade e que isso era um bem, independentemente da utilidade prática dessa verdade.

Politicamente, a democracia grega revelou-se extremamente instável, suscetível às arbitrariedades das maiorias de ocasião. A República Romana, por outro lado, estabeleceu uma legislação construída em bases racionais. Não era uma lei divina e imutável. Era uma lei humana, falível e passível de ser melhorada. Criou uma estrutura de Estado com um sofisticado mecanismo de freios e contrapesos. Essa legislação estava muito longe de ser perfeita e, em muitos casos, era quase bárbara. Porém, pelo simples fato de existir e se aplicar indistintamente a todos, criou um ambiente de confiança e estabilidade que fez com que Roma perdurasse por tantos e tantos séculos e dominasse o mundo.

O cristianismo tem como um de seus pilares a crença de que o ser humano possui uma alma individual e imortal. Um indivíduo não é responsável pelos atos de outro e não pode ser premiado ou punido por causa deles. O Império Romano foi a sociedade mais avançada da Antigüidade. Chegou perto de colocar essas três idéias em prática, juntas. Mas ruiu com o peso de seus domínios antes que isso se concretizasse. De qualquer maneira, essas idéias permeiam nossa cultura. A Humanidade teve de esperar muitos séculos até que fossem novamente reunidas e se transformassem numa experiência de liberdade e progresso.

A descoberta da América criou um laboratório de experiências sociais. Os europeus travaram contato com povos então desconhecidos, em diversos estágios de desenvolvimento social, e estabeleceram colônias que conviviam e interagiam com esses povos. As riquezas da América, despejadas sobre a sociedade rígida da Espanha, criaram um curto-circuito e esfacelaram o Império espanhol. A Inglaterra, que já era um país mais livre que as outras nações européias, desde a Magna Carta, permitiu que se criasse um ambiente de notável liberdade em suas colônias americanas. Seus habitantes, em grande parte refugiados de perseguições religiosas, políticas ou étnicas, viviam de maneira surpreendentemente harmoniosa. Os problemas que dividiam os diferentes grupos na Europa não foram resolvidos, simplesmente evaporaram.

Isso provocou estupefação no Velho Continente. Como era possível existirem selvagens, sem governo, que vivessem razoavelmente em paz? Como a liberdade podia funcionar nas colônias? A Europa era capaz de conceber que a sociedade pudesse funcionar minimamente sem um governo forte. Então, passou a acreditar que os selvagens do Novo Mundo eram seres humanos muito superiores aos que eles conheciam na Civilização. Surgiu assim a figura do Nobre Selvagem e a idéia européia de que a sociedade corrompe o ser humano, originalmente puro no estado de Natureza. Uma diferença marcante entre o pensamento americano e o europeu é que os americanos acreditam na liberdade do indivíduo, um direito nato e inalienável, enquanto os europeus acreditam em “liberdades”, ou seja, permissões dadas pelo governo em situações determinadas.

Sobre a função do governo, Isabel diz que ele é única e exclusivamente um freio à ação humana. Freios são necessários e extremamente importantes. Existem coisas que precisam ser proibidas. Para poder impor essas proibições, o governo evidentemente precisa de recursos. Mas, um governo não tem capacidade ou poder para criar alguma coisa. Quem cria qualquer coisa são os indivíduos. O governo pode estabelecer proibições e tomar dinheiro dos cidadãos, por meio de impostos, para se desempenhar suas atividades. Sempre que faz isso, a sociedade fica menor, menos livre e menos produtiva.

Um capítulo muito divertido é A Economia da Sociedade Livre, em que Isabel denuncia a falta de sentido do marxismo. A teoria do materialismo dialético é uma corrupção da linguagem semelhante a dizer que um triângulo isósceles é verde. Tolos podem argumentar que um triângulo isósceles não é verde, mas azul, ou que o triângulo isósceles verde produzirá um círculo azul e os dois se sintetizarão em um rombóide púrpura; ainda assim, essas afirmações serão vazias. Mas Marx era um tolo com um grande vocabulário de palavras longas. Sua teoria de luta de classes é um completo nonsense por sua própria definição. Uma vez que trata de capital e de trabalho, não faz referência nem à luta nem a classes. É impossível que o capital e o trabalho lutem entre si.

A Constituição dos Estados Unidos resolveu o problema que Roma não havia conseguido: como criar bases regionais para uma estrutura política sem recorrer a uma aristocracia. O federalismo é essa solução. Os Founding Fathers fizeram um trabalho admirável de arquitetura. Construíram um mecanismo político que funciona e que permite que a nação cresça, aumente sua população e a quantidade de energia envolvida no sistema como um todo, sem que se altere o design intrínseco. Isabel chama atenção para a cláusula de traição da Constituição dos Estados Unidos, uma instituição inédita e singular na história. Em primeiro lugar, essa cláusula define que não existe traição em tempos de paz. Apenas uma rebelião armada ou unir-se a uma nação inimiga constitui traição, e nações só são inimigas quando em guerra. Nenhum tipo de oposição pacífica ou pessoal é traição, e nem mesmo o ataque armado de uma única pessoa contra o governo americano. Na Europa, qualquer ataque à pessoa do rei, mesmo que não fosse por razões políticas, seria tratado como traição. Nos Estados Unidos, a pessoa e o cargo são conceitos separados. Mas existe outro detalhe relevante. A cláusula estabelece que os bens de alguém condenado por traição só podem ser confiscados se o réu estiver vivo. Se morrer, os bens passam para seus herdeiros legítimos. Ou seja, a culpa é pessoal e a propriedade pertence aos indivíduos. 

A escravidão foi o grande defeito na estrutura criada nos Estados Unidos. Em nome do federalismo, os constituintes admitiram uma desastrosa e imoral solução de compromisso, que manteve essa instituição abominável no sistema que estavam criando. As conseqüências disso foram uma instabilidade crescente na nação, que resultou na Guerra Civil. A Guerra ensejou emendas à Constituição que desfiguraram parte do projeto. A Emenda 14 faz uma referência confusa a “poderes implícitos”, que causa discussões judiciais perigosas até hoje. A Emenda 15 cancelou a soberania dos Estados, ao impedi-los de determinar as qualificações dos seus eleitores. A Emenda 17 criou uma nova distorção do projeto original, ao tirar a eleição dos senadores das legislaturas estaduais e passá-la para o voto popular. Os senadores deveriam ser representantes dos Estados, enquanto os deputados seriam os representantes do povo. Da maneira como ficou, os Estados perderam essa representação.

Isabel analisa e desmonta diversos absurdos, como as leis antitruste, a chamada propriedade pública, o dinheiro sem lastro (fiat money), as teorias educacionais progressistas e a filantropia profissional. O capítulo XX, O Humanitário com a Guilhotina, o melhor do livro, trata exatamente desse tipo distorcido de filantropia. Ela ainda aborda as causas das depressões econômicas e discute como maximizar o poder militar de um país livre quando em guerra. 

A conclusão do livro, com a qual concordo totalmente é que a liberdade é a maior herança de que o homem já desfrutou. É o resultado do esforço heróico de incontáveis pessoas, por muitos milhares de anos. Darmos meia volta e nos submetermos à escravidão seria uma traição inominável a todas essas pessoas e às gerações presentes e futuras. Mas temos a oportunidade grandiosa de justificar a fé depositada por aqueles que acreditaram e acreditam na liberdade. Não percamos essa oportunidade!

Marcelo Centenaro
27 de setembro de 2014



Sobre a autora

Isabel Mary Bowler nasceu em 22 de janeiro de 1886, na Ilha Manitoulin, no Canadá. Seus pais, Francis e Margaret Bowler, tiveram nove filhos e eram muito pobres. Mudaram-se para Michigan, Utah e Alberta, em busca de uma vida melhor. Isabel entrou em uma escola rural aos 11 anos e freqüentou as aulas de maneira irregular até os 14. Porém, lia muito em casa. Lia a Bíblia, Shakespeare, Dickens e Alexandre Dumas, por exemplo. Era uma leitora voraz e autodidata. Por volta dos 18 anos, resolveu sair da fazenda e mudou-se para a cidade de Calgary, onde trabalhou como garçonete, taquigrafista e auxiliar de contabilidade.

Aos 24 anos, casou-se com Kenneth Paterson. O casamento não foi feliz e eles se separaram depois de 8 anos. Nesse período, Isabel Paterson conseguiu um emprego no jornal americano Inland Herald, em Spokane, no estado de Washington. Foi o início de uma carreira jornalística. Aos 28 anos, havia escrito dois romances, The Magpie's Nest e The Shadow Riders, ambos publicados pela John Lane Company. Depois da Primeira Guerra Mundial e de sua separação, mudou-se para Nova York, onde trabalhou para o escultor Gutzon Borglum, autor do memorial do Monte Rushmore. De 1924 a 1949, escreveu uma coluna de crítica literária no New York Herald Tribune. Foi uma das mais influentes críticas de sua época. Em 1928, aos 42 anos, naturalizou-se americana.

No final dos anos 30, Isabel Paterson liderava um grupo de jovens escritores que tinham opiniões semelhantes às dela. Entre eles, Sam Welles, Ayn Rand e Rose Wilder Lane. Foi mentora de Ayn Rand, que era 19 anos mais nova que ela. Isabel manteve estreita colaboração e troca de idéias com esse grupo. Porém, acabou rompendo com Rose em 1946 e com Ayn Rand em 1948.

Depois do final da Segunda Guerra Mundial, Isabel Paterson contribuiu para o ressurgimento do conservadorismo, correspondendo-se com o jovem Russel Kirk nos anos 40 e com o jovem William F. Buckley, nos anos 50.

Morreu em 10 de janeiro de 1960. Foi enterrada no túmulo da família de Sam Welles, em Burlington, Nova Jersey.



Livros de Isabel Paterson

- The Shadow Riders (1916)
- The Magpie's Nest (1917)
- The Singing Season (1924)
- The Fourth Queen (1926)
- The Road of the Gods (1930)
- Never Ask the End (1933)
- The Golden Vanity (1934)
- If It Prove Fair Weather (1940)
- O Deus da Máquina (1943)
- Joyous Gard (não publicado; terminado em 1958)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Deus da Máquina, capítulo XXIII

Chegamos ao último capítulo de O Deus da Máquina, de Isabel Paterson: XXIII -  A Economia Dinâmica e o Futuro.

Isabel explica que é comum, em qualquer área do conhecimento, que um conceito seja utilizado mesmo que não tenha sido compreendido. Portanto, a humanidade colocou em prática os conceitos de sociedade de contrato, limitação do poder do Estado, respeito aos direitos individuais, utilização de dinheiro real. Produziu com isso uma economia dinâmica, extremamente próspera, mesmo sem compreender completamente como esses conceitos provocam esse efeito.

Existe a percepção de que essa economia dinâmica causou um problema novo, o problema trabalhista. Isabel Paterson considera essa percepção equivocada. “Como a economia dinâmica cria meios inéditos de mobilidade e uma perspectiva auspiciosa de encontrar sustento quase em qualquer lugar, a grande maioria das pessoas se esqueceu da necessidade de uma base física para ter segurança.” A legislação trabalhista, criada para dar uma resposta a essa questão, é sim a causa de problemas novos. Ao dar um instrumento de governo à massa deslocada dos trabalhadores, a legislação permite que esse instrumento saia completamente de controle, destruindo as instituições que mantêm a sociedade funcionando.

A coisa mais perigosa que pode acontecer no mundo é uma economia “planejada”, ou seja, uma economia escrava, ser abastecida de recursos e tecnologia pelas economias livres. Isso é especialmente pernicioso se esses recursos são injetados em troca de nada, por meio de doações ou de empréstimos não pagos. Essa energia vai se voltar em primeiro lugar contra os cidadãos desses países e, em seguida, contra o mundo. Os Estados Unidos emprestaram muito dinheiro à Alemanha, à Itália e à União Soviética a partir da Primeira Guerra Mundial. Esses empréstimos não foram pagos e resultaram na Segunda Guerra Mundial.

O surgimento dos Estados Unidos da América são um fato único na história humana. Pela primeira vez, uma nação foi fundada sobre princípios racionais, a partir do axioma de que os homens nascem com o direito natural à liberdade. É o único tipo de nação que pode ser recriada, caso fosse destruída. Seria necessário simplesmente aplicar os mesmos princípios.

A liberdade é a maior herança de que o homem já desfrutou. É o resultado do esforço heróico de incontáveis pessoas, por muitos milhares de anos. Darmos meia volta e nos submetermos à escravidão seria uma traição inominável a todas essas pessoas e às gerações presentes e futuras. Mas temos a oportunidade grandiosa de justificar a fé que depositaram aqueles que acreditaram e acreditam na liberdade. Não percamos essa oportunidade!

A Economia Dinâmica e o Futuro

O Deus da Máquina, capítulo XXIII
A Economia Dinâmica e o Futuro
Isabel Paterson, 1943

Os selvagens primitivos sabem como fazer fogo por fricção. Devem ter descoberto o processo há dezenas de milhares de anos. Porém, até a metade do século 18, os cientistas debatiam se o calor era ou não um elemento material (uma “substância indestrutível”), embora já estivessem testando máquinas a vapor. Assim, um princípio pode ser posto em prática muito antes de ser entendido ou definido. Portanto, não é estranho que o fato óbvio de que um sistema de alta produção funciona em um longo circuito de energia não tenha sido percebido e que as leis gerais que governam sua criação e manutenção não tenham sido formuladas. Mesmo a definição de energia atrapalhou o entendimento das condições de seu uso estendido pelos seres humanos para seu próprio benefício. A definição é confinada à medição por seus efeitos; e nenhum projeto viável de um aparato mecânico pode ser concebido exceto de acordo com essa medição. Contudo, isso obscurece o problema principal da utilização da energia através de um sistema de produção; porque o homem faz parte do circuito de energia que ele mesmo utiliza e, assim, introduz um fator que não responde à medição. Como o homem possui uma função tripla no circuito, sua intervenção é triplamente confusa. Parte da energia é convertida e transmitida literalmente por seu corpo físico, numa quantidade mensurável, como por exemplo quando um homem empurra um carrinho de mão; mas, no longo circuito, ou sistema de alta energia, essa parte é pequena comparada com a quantidade convertida e usada por meio de materiais inanimados. Outra função do homem no circuito de energia usa uma quantidade de energia extremamente variável e praticamente não-mensurável, no esforço intelectual de invenção ou descoberta de dispositivos para absorver a energia universal; o retorno desse esforço é incomensurável com qualquer estimativa possível da energia aplicada. Então, entra em cena a terceira função do homem em seu circuito de energia, causando ainda mais confusão de pensamento sobre o assunto. O que o homem faz em sua terceira relação com o circuito de energia é dirigir a energia que absorveu e controlou. O homem que empurra um carrinho de mão o dirige pela mesma ação. Sua mente envia o comando diretamente por meio de seus músculos junto com a força aplicada. Existe um imponderável, mas ele não pode ser separado da força ponderável direta. Quando a energia é dirigida no longo circuito, isso é feito por ações nas quais a força gasta não é simplesmente incomensurável com o resultado, mas absolutamente não entra na seqüência física específica da transmissão.

É o que acontece quando se usa dinheiro, crédito ou outros acordos contratuais. Existe uma seqüência real, material, ininterrupta de energia física transportada pelo longo circuito de produção, que é visível e facilmente rastreável. Um agricultor planta comida; vende a maior parte de sua produção e compra o que precisa; por exemplo, um trator. A comida fornece energia para que outros extraiam minério de uma mina, produzam aço, fabriquem motores, construam e operem ferrovias; inúmeros outros produtos entram na seqüência; mas é uma sucessão física de objetos materiais em movimento e em processo de conversão de energia, completando um circuito que traz de volta o trator ao agricultor, ou talvez café do Brasil ou chá da China ou gasolina de poços de petróleo do Texas. Não há interrupção na linha. Mas a continuidade do fluxo não é idêntica à de um curso d'água descendo a colina. Deixada a si mesma, a água nunca subiria a colina; só pode fluir para baixo. Porém, o homem pode interferir, com dispositivos de engenharia, pelos quais a força total do riacho é utilizada para mandar uma pequena parte da água para cima outra vez. Da mesma maneira, no circuito de produção, um trem carregado é puxado colina acima, contra a gravidade, pela energia que o homem controlou para esse fim. O trem pára nas estações, porque o homem corta o fluxo temporariamente. Essa energia jamais fluiria por esse canal específico “por si mesma”, nem seria capaz de retomar o movimento ou continuar na linha de produção sem que o homem estivesse no circuito.

Quando o agricultor vende sua produção ou compra um trator, usando dinheiro real, o imponderável é representado separadamente. O peso do ouro não corresponde ao peso do trator, nem a energia aplicada para manusear o ouro corresponde à energia do trator em movimento. Se o pagamento é em cheque, de maneira que a existência real do ouro pode ser ignorada, a natureza da transação é ainda mais obscurecida. Mas o que acontece é que a energia na seqüência física contínua é dirigida para uma direção especificada por uma ação paralela representativa. Talvez, a maneira mais fácil de compreender o processo seja assumindo que o circuito de produção seja muito menor e mais simples do que ele poderia ser de verdade. Imaginemos o agricultor, o mineiro, o fundidor de aço, o fabricante do trator, etc., formando um círculo, cada um passando seu próprio produto para quem está à sua direita; enquanto isso, o dinheiro é passado de volta à esquerda, fazendo um pagamento a cada transferência. A energia física que constitui o circuito nunca está no dinheiro; está nos bens e nos meios de transporte. Além disso, a interferência do homem no circuito introduz um fator pelo qual mais energia é produzida (ou tomada) no processo do que é consumida (perdida ou dissipada). Não é possível algo assim acontecer em nenhum fluxo de energia que não esteja sob controle humano; a natureza inanimada não contém nada que seja equivalente à ação da mente humana ou às ações paralelas pelas quais o homem dirige um fluxo assim. Essas funções também não podem ser embutidas em uma máquina. Exigirão, para sempre, a inteligência e a vontade humanas.

Embora sempre seja moralmente errada, a escravidão é possível em um sistema de baixa energia e impraticável em um sistema de alta energia. A razão fica evidente se compararmos os métodos de produção. Um escravo é tratado como uma máquina, dirigido pela força; não pode escolher seu emprego, nem abandoná-lo. Tomemos então um emprego com máquinas de alta potência, envolvendo extrema responsabilidade, no qual as conseqüências seriam desastrosas se o trabalhador o abandonasse na hora errada; esse emprego é exatamente aquele que mais precisa ser escolhido livremente pelo trabalhador e que mais precisa garantir que este seja livre para deixá-lo se e quando quiser. Para conduzir uma locomotiva, um homem precisa primeiro exercer a inteligência e a vontade para se qualificar. Então, é contratado pelo livre julgamento de outro homem, seu empregador. Depois disso, enquanto trabalha, o maquinista deve em todos os momentos agir por seu próprio julgamento. Ele não se demitirá com a locomotiva em movimento, mas, se seu julgamento falhar, não há como impedi-lo. Ao parar em uma estação, se o maquinista deixar a cabine e se recusar a completar a viagem, seria insano obrigá-lo a prosseguir. Sua decisão tem de ser aceita. Da mesma maneira, se o maquinista parecesse inadequado ao trabalho, o julgamento de seu empregador (por seus prepostos) teria de ser aceito como suficiente para tirá-lo da função. Essa é a natureza do contrato. O maquinista recebe uma tabela de horários, que segue como uma regra. Mas, se fosse absolutamente impossível para ele agir de outra maneira, não haveria outra ferrovia em operação em seis semanas. Exatamente porque a ação das máquinas inanimadas é predeterminada, os homens que as operam devem ser livres. Nenhum outro arranjo é viável para um circuito de alta energia, no qual tanto serviços como bens são comercializados; e o contrato é a única relação que admite esse arranjo. Esse é o significado da seqüência representativa de ações paralelas, seguindo na direção contrária do circuito de energia física; essas ações realizam a sucessão de acordos voluntários pelos quais a energia é dirigida. Daí vem o colapso inevitável do longo circuito em uma “economia planejada”, que necessariamente resulta em racionamento, restrições e coerção.

Um engenheiro não pode e não tenta alterar ou abolir as leis da Física ao utilizar a energia; trabalha com elas, para alcançar seu objetivo. E em seu projeto mecânico inanimado, só pode levar em consideração a função estritamente física do homem. Um carrinho de mão deve ser de forma e tamanho adequados para serem utilizáveis pela força muscular. Um automóvel deve ter o aparato necessário para dar partida, virar as rodas e parar. As outras funções exercidas por seres humanos que usam as máquinas na produção não afetam o projeto de máquinas específicas.

Mas as três funções devem ser levadas em conta na organização do longo circuito; e, uma vez que isso também é uma seqüência de energia em ação, constitui um problema de engenharia de um tipo especial. Seres humanos que entram nesse circuito para produção geral devem ser sustentados fisicamente por ele; caso contrário, o circuito vai parar. Se os homens tentassem viver sem comida, não seriam capazes de dedicar ao produto final a energia suprida pelo alimento; simplesmente, sairiam da produção. Por esse motivo, é absurdo supor que “sacrifício” seja equivalente a produção. O combate ao desperdício é outra questão. Mas, já que a função do homem no circuito não é simplesmente a de um corpo físico, a simples distribuição de uma quantidade de energia de subsistência a ser ingerida pelos trabalhadores em empregos obrigatórios também não é capaz de manter o circuito funcionando, porque não permite que a segunda e a terceira funções sejam executadas pelo homem — invenção ou descoberta, e direcionamento da energia.

Para o exercício da inteligência em invenções e descobertas, um homem precisa ter alguns materiais excedentes, tempo e energia à sua disposição pessoal, com liberdade para buscar o emprego que preferir, seja qual for.

Para o exercício da vontade, para dirigir a energia nos canais corretos para que a produção se sustente, todo intercâmbio de bens e de trabalho deve ser feito por livre contrato.

O problema de engenharia, então, é organizar o longo circuito para homens livres. As conexões devem ser tais que qualquer homem possa mudar de local e de ocupação como queira, dentro de toda a gama de escolhas possíveis, que é infinita. Isso exige a distribuição do produto por um método semelhante de intercâmbios acordados a cada transferência. Dadas essas condições, o pré-requisito para a função física do homem no circuito será atendido; os homens envolvidos conseguirão obter seu sustento do circuito pelo comércio livre.

O problema inteiro se resolve se o princípio do contrato for observado em todo o processo; e não é possível resolvê-lo de outra maneira. O contrato é o princípio da verdadeira economia dinâmica.

O único problema que podemos dizer que surgiu da economia dinâmica é o chamado problema trabalhista. Como a economia dinâmica cria meios inéditos de mobilidade e uma perspectiva auspiciosa de encontrar sustento quase em qualquer lugar, a grande maioria das pessoas se esqueceu da necessidade de uma base física para ter segurança. Não é apenas o “operário” que desconsidera essa relação primária e inalterável do homem com o solo, a função da propriedade privada da terra — que vem do simples fato de que um corpo humano é um objeto sólido — os técnicos, os trabalhadores administrativos, inúmeros empregadores urbanos e pessoas que vivem de receitas herdadas, estão na mesma situação e igualmente inconscientes dela. Pode ser que estes outros sejam mais numerosos que os operários; mas com grandes centros industriais, os operários compõem um grupo mais evidente, que pode ser mais facilmente diferenciado pela existência de sindicatos e pelo fato de que, quando a indústria diminui o ritmo, os operários são mais visivelmente afetados. São a massa deslocada. Mas deve ser entendido que um milionário poderia pertencer a essa categoria, se seus milhões estivessem completamente em títulos de papel; ele também não teria base. Não existe absolutamente nenhuma solução para isso, exceto a propriedade individual de terra por uma grande maioria, e o uso de dinheiro real. Não é necessário que todos possuam fazendas; mas uma quantidade suficiente de pessoas deve ser dona de sua própria casa e possuir uma reserva para “tempos difíceis”. Nos Estados Unidos, se se permitir que a indústria siga sua tendência natural de descentralização, será responsabilidade dos indivíduos ter ou não seguridade; mas, em qualquer caso, não existe outro caminho. Pode haver mérito em proposições de que os empregados da indústria deveriam ter alguma participação acionária; mas isso não resolve a necessidade de uma base; o moleiro não pode se situar em um rio que corre.

Seja com a intenção de favorecer os trabalhadores ou de restringi-los, a legislação trabalhista não é inútil. É pior que isso. O Wagner Act[1] não deu poder nenhum aos trabalhadores. Nenhuma lei pode dar poder a pessoas privadas; toda lei transfere poder das pessoas privadas para o governo.[2] Mas, além de um dado ponto, essa transferência de poder acaba na verdade tornando o governo impotente, fazendo-o assumir uma carga maior do que ele é capaz de carregar. Foi isso o que fez o Wagner Act e o que faz qualquer legislação que tente controlar o trabalho industrial. Amarrou um instrumento de governo à massa deslocada; e, sempre que a massa é perturbada, ela arranca esse instrumento para fora de controle e, assim, anula sua função. (Um exército fora de controle faz a mesma coisa; pode destruir todo o mecanismo de governo.) Massa deslocada não pode ser controlada, exceto pela oposição de uma força igual por todos os lados. Isso é absolutamente impossível com os trabalhadores industriais, a menos que fossem sempre confrontados com um exército de igual força. Isso reduziria a nação à escravidão.

Mas os trabalhadores podem ser colocados sob compulsão — que não é a mesma coisa que controle e vai apenas criar um novo risco — por restrições nominalmente impostas primeiro ao empregador, alcançando o empregado indiretamente. Se for proibido ao empregador contratar alguém que não tenha obtido permissão para deixar um emprego anterior, os movimentos do trabalhador serão restringidos exatamente como se ele tivesse sido proibido de deixar seu emprego. O efeito no circuito de energia é cortar a produção no mesmo grau.

A principal causa atual de confusão na teorização política também advém do fato de que a energia no longo circuito é dirigida pela ação paralela representativa. Votar é uma dessas ações; mas seu efeito é ainda mais difícil de discernir, porque é um sinal de transmissão. Quando um país possui uma organização política formal, a tributação já está autorizada; o canal está lá, para desviar energia da produção para os gastos governamentais. O canal é designado pelo costume ou por uma constituição. Teoricamente, uma constituição poderia especificar a soma ou a porcentagem a ser extraída em impostos; mas é improvável que um limite assim fosse mantido, menos ainda pelo governo central que necessariamente é responsável pela gestão da guerra. Enquanto a estrutura está sólida, as cláusulas serão obedecidas nos diversos campos de tributação, pelas autoridades federais, estaduais e locais. Os interesses regionais tenderão a preservar esse limite e manter a alíquota de tributação dentro do razoável, enquanto mantiverem a relação estrutural apropriada com o governo central. Mas os impostos serão recolhidos, independentemente de qual partido ou quais pessoas estejam no poder. Portanto, o voto do cidadão não dirige a energia. O que ele faz é designar autoridades que determinarão, pela ação representativa, a quantidade de energia a ser extraída em impostos e, então, distribuí-la e dirigi-la pelos vários canais políticos de gastos.

Como ocorrem duas ações representativas, não se percebe normalmente que elas dão o sinal para o represamento e a liberação de energia real; e, além disso, que essa energia pode se voltar contra o eleitor.

Sua única segurança é reter para si uma base fixa a partir da qual possa resistir firmemente; e essa base só pode ser a terra que ele possua. Caso contrário, seu voto acaba privando-o de seu poder natural, ao invés de permitir que ele o exerça. É o que acontece na democracia; ela libera força de tal maneira que não há como existir controle. Porque o governo também não tem o controle em uma democracia. A teoria de que todos “participam” do governo nas democracias, se todos votam, não leva em consideração a natureza da força física e a relação necessária entre qualquer massa física em movimento e uma base sólida. A maior parte das teorias abstratas de governo nos tempos modernos é completamente errônea porque ignora a realidade física. Provavelmente, a falácia se torna plausível porque o voto é apenas um pedaço de papel ou um toque em uma máquina de votar; nenhuma energia física é transferida no ato de votar; parece não ser mais que a expressão de uma opinião. Então, se o representante toma posse apenas pela expressão formal de opinião ou sinal, acredita-se que ele será suscetível às opiniões expressas a ele no futuro. Ao contrário, como o representante tem o poder de liberar energia física real, nenhum outro sinal será obedecido a menos que os eleitores retenham em seu controle privado um poder de resistência correspondente, mas preponderante, a qualquer má aplicação do poder delegado a seus representantes. As ações representativas paralelas sempre devem representar energia real.

Existe também uma falácia influente hoje, que é dita para negar a necessidade da ação livre individual para criar e manter um sistema de alta energia. Em algumas economias comparativamente livres, como a Dinamarca e a Suécia, grande parte da organização econômica consiste em associações cooperativas. Mas elas são marginais nas economias dinâmicas. Colônias semi-socialistas, como a Nova Zelândia e a Austrália, são ainda mais dependentes do individualismo em outros lugares. Não criaram nenhuma das máquinas pela quais obtém produção em um nível confortável; não contribuíram com invenções ou melhorias; vendem seu produto excedente no mercado livre. A ligação delas ao circuito dinâmico permite que consigam um padrão de vida moderadamente elevado, mas o nível é determinado pelo circuito. Observadores superficiais dizem que as associações cooperativas podem suprir a função dinâmica primária da alta produção. Não podem; são apenas suplementares. As condições locais vão indicar a extensão de sua utilidade prática; mas sempre será marginal.

Uma economia completamente “planejada” (ou seja, uma economia escrava) pode obter algum maquinário de alta performance e operá-lo com retorno decrescente por um tempo limitado para fazer a guerra. As economias escravas da Rússia Soviética e da Alemanha fizeram isso; mas nenhuma delas conseguirá dar manutenção a seu equipamento mecânico sem uma reposição contínua por parte das nações livres. Com uma fábrica completa para a produção de automóveis, com todas as peças manufaturadas nos Estados Unidos, embarcadas para a Rússia e montadas lá de maneira eficiente e ordenada por engenheiros americanos, a produtividade foi a de metade do obtido em uma instalação semelhante nos Estados Unidos. A Rússia, a Alemanha e as outras economias planejadas são estáticas. Quando a alta energia é jogada para dentro delas, só consegue provocar uma perturbação incalculável de maneiras imprevisíveis, como os tremores e deslocamentos de terra de uma falha geológica; mas o dano será muito menor, se a alta energia entrar apenas por trocas — ou seja, se o pagamento for devidamente cobrado pelas economias livres por empréstimos ou venda de bens às economias estáticas — do que é se o dinheiro ou maquinário ou outros bens forem obtidos pelas economias estáticas sem pagamento. Como, pela natureza da economia livre, seu produto está no mercado, é imperativo que as contas sejam pagas. Quando dinheiro, crédito e bens são entregues às economias estáticas em troca de nada, seja como um presente, seja aceitando uma moratória, o resultado é certo: uma guerra mundial em escala proporcional, com a opressão aumentada e sem esperanças do povo da economia estática. Não foi outra coisa o que tornou possível a eclosão da Alemanha. Nenhuma outra coisa poderia ter arruinado a Europa. Se as quantias de dinheiro emprestadas pela América à Europa desde 1914 e nunca devolvidas fossem somadas, o total resultaria na força da carga explosiva que foi detonada na guerra atual. Empréstimos de governos a governos[3] são particular e inevitavelmente destrutivos; mas empréstimos privados inadimplentes também são totalmente nocivos. Isso vale para os investimentos americanos no exterior que foram confiscados por governos estrangeiros. A força é então jogada de volta contra qualquer economia privada que a nação possuísse, para esmagá-la; o governo obteve recursos sobre os quais os produtores não têm controle. Apenas por essa fórmula, podem-se prever tumultos e devastações. Nações habitualmente em moratória são nações habitualmente em convulsão. O único serviço real que uma nação dinâmica pode prestar a uma nação estática é cobrar à vista qualquer centavo ou migalha de bens fornecidos. Se isso for feito, a nação estática pode avançar para a liberdade. Caso contrário — o resultado está diante de nossos olhos.

A teoria da “necessidade histórica”, na qual se baseia o argumento coletivista, não tem fundamento nem em fatos nem em princípios. A teoria diz que o desenvolvimento econômico ocorre em uma sucessão inevitável de fases, pela qual uma sociedade industrial, inventando máquinas num ambiente de propriedade privada, deve então passar ao comunismo, com propriedade pública, mantendo as máquinas para a produção. Então, profetizou-se que a Alemanha e a Inglaterra, sendo altamente industrializadas, deveriam ser as primeiras a se tornarem comunistas. Ao contrário, a nação mais atrasada da Europa, a Rússia, que jamais havia emergido completamente do comunismo, mergulhou de volta nele; enquanto isso, os Estados Unidos ultrapassavam industrialmente a Europa. Foi forjada uma desculpa medíocre, que não faz mais sentido que a teoria original.

Enquanto o universo existir, as condições pelas quais uma economia de máquinas pode ser criada e sustentada são imutáveis; e elas excluem o coletivismo. Uma variação da teoria da “necessidade histórica” diz que “a natureza humana pode ser alterada”. Se isso fosse verdade na característica vital, de maneira que os homens perdessem o direito à liberdade e o desejo por ela, esses ex-seres humanos “alterados” se tornariam, em conseqüência, incapazes de inventar e operar máquinas. As invenções humanas são do espírito, não do materialismo; e é um crime contra a humanidade tomar os produtos desse dom divino e jogá-los aos feitores de escravos do comunismo, para serem pisoteados na imundície de um barracão.

Como o homem não é determinístico, não pode haver ordem estabelecida para suas descobertas. O progresso sempre é possível, mas depende do uso imprevisível da inteligência. A partir do registro conhecido, não parece que os homens tenham alguma vez perdido completamente um conjunto de conhecimentos obtido; embora possa ficar sem ser utilizado por um tempo, até que os princípios morais sejam confirmados e isso permita que a ciência material seja aplicada de maneira benéfica. A precedência da ordem moral é clara, já que descobertas úteis ocorrem apenas quando os homens protegem a liberdade, restringindo o poder político. Essas descobertas foram feitas em diversas épocas e lugares, e reunidas; mas os princípios envolvidos são universais. Não mudam com a “história”. Funcionarão em qualquer tempo e lugar em que sejam entendidos e aplicados, sempre da mesma maneira. Se forem esquecidos ou ignorados, nada poderá ser obtido. Não existe “onda do futuro”; a humanidade molda seu futuro pelo objetivo moral e pelo uso da razão. A fé na onipotência benevolente do governo é pura superstição, um resíduo agregado de todas as práticas “mágicas” do homem primitivo. Como um selvagem na natureza não sabe o que faz um salmão subir o rio, ou porque a caça é mais rara em um ano que em outro, não é extraordinário que tente aplacar os poderes da natureza, esperando um resultado sem causa racional. Essa expectativa vaga de benefício obtido de um poder invisível convencido por palavras mágicas foi transferido para a idéia de uma agência abstrata colocada acima do indivíduo e suscetível a palavras para a concessão de benefícios materiais. Mas é, na verdade, um completo retrocesso, em um passo gigantesco, na direção das trevas e da extinção.

A pior das falácias é acreditar que nada pode ser feito, que devemos ser levados para o desastre e nos adaptarmos a ele. Se isso fosse verdade, deveríamos morrer aos montes, com alguns miseráveis remanescentes regredindo à selvageria; porque não existiria solução. Mas isso não é verdade.

Tudo pode ser feito por um futuro melhor, se os homens assumirem a postura pela qual o longo circuito de energia é criado. Nem mesmo um desastre causado pela negligência temporária precisa ser definitivo. Com o estabelecimento da República dos Estados Unidos da América, um grande marco da história secular foi erigido. O mais profundo estudioso do século passado, Lord Acton, que devotou a vida a estudar a história da liberdade humana, disse que ela “era o que não existia, até o último quarto do século dezoito na Pensilvânia”. O evento que ele assinala é ímpar, porque foi a primeira vez na história que uma nação foi fundada sobre princípios políticos racionais, originários do axioma de que o direito de nascença do ser humano é a liberdade. E, enquanto esses princípios foram mantidos, essa nação prosperou além de qualquer precedente. Até então, as nações eram formadas pelo acaso, pelas circunstâncias e por experimentos duvidosos; então, se uma nação soçobrasse, seria impossível reconstruí-la. Não importa quantas vezes a democracia seja tentada, ela sempre desmorona em despotismo em pouco tempo. Ou, se uma aristocracia ou monarquia surgia e, em seguida se desmanchava, não poderia ser criada outra para substituí-la, porque não seria possível voltar no tempo para garantir uma linha de descendência. Mas uma república federal sem o elemento hereditário na estrutura política sempre pode ser reconstituída por um projeto com os mesmos princípios e bases.

Quem quer que tenha a felicidade de ser um cidadão americano participa da maior herança de que o homem já desfrutou. Teve o benefício de todos os esforços heróicos e intelectuais que os homens fizeram por muitos milhares de anos, enfim concretizados. Se os americanos derem meia-volta e se submeterem outra vez à escravidão, isso será uma traição tão abjeta que talvez a raça humana preferisse perecer. A oportunidade é igualmente grandiosa para justificar a fé que animou o longo e penoso esforço e legou aos americanos uma herança tão nobre e feliz.



[1] Wagner Act: Ato Nacional de Relações Trabalhistas, legislação trabalhista americana, aprovada em 1935. Garante o direito dos trabalhadores se organizarem em sindicatos, participarem de negociações coletivas e tomarem ações coletivas, incluindo greves. (N. do T.)
[2] Líderes trabalhistas acreditaram erroneamente que conquistaram uma vitória quando o que eles chamam de “yellow dog contracts” [N. do T.: “Yellow dog contract”: contrato de trabalho que proíbe o empregado de pertencer a um sindicato.] foram proibidos. Não entenderam a natureza da lei. O “yellow dog contract” era um acordo entre empregadores para não negociar com sindicatos. Embora isso seja desagradável para os sindicalistas, esse acordo é exatamente do mesmo tipo que o “closed shop contract” [N. do T.: “Closed shop contract” acordo entre um empregador e um sindicato que obriga todos os empregados desse empregador a pertencerem a um sindicato.]; se a lei pode proibir aquele tipo de acordo, então o “closed shop contract” também pode ser proibido. Alguns contratos feitos entre sindicatos e empregadores já foram anulados por esse poder, contra a vontade tanto do sindicato como do empregador. (N. da A.)
[3] Empréstimos feitos por um governo a outro não atendem a nenhuma das condições adequadas de crédito. O dinheiro emprestado pertence ao povo da nação que concede o empréstimo, não às autoridades que o concedem; e tornam-se uma obrigação do povo da nação que toma o empréstimo, não das autoridades que o negociam e gastam o dinheiro. Não há garantias, nem meios de cobrança por ação civil. Se a dívida não for paga, a guerra ou a ameaça de guerra são os únicos recursos. Enquanto isso, a produção privada naufraga; a economia da nação que emprestou tem de cobrir a perda do capital; enquanto a economia da nação que tomou o empréstimo é oprimida pelo peso morto dos projetos governamentais (prédios, exércitos, etc.) nos quais o dinheiro foi gasto. É uma fórmula infalível para o desastre. (N. da A.)

domingo, 22 de junho de 2014

O Deus da Máquina, capítulo XXII

No penúltimo capítulo de "O Deus da Máquina", O Circuito de Energia em Tempos de Guerra, Isabel Paterson examina quais são as condições para que uma nação sustente uma força combatente. Ela conclui que a principal condição é que a nação continue sendo produtiva, para que o excedente de produção sustente o esforço militar. E que a única maneira para a nação continuar sendo produtiva é que a produção seja feita pela economia livre, com livre iniciativa e respeito à propriedade privada. Sem isso, a produção vai declinar, não haverá excedente para sustentar a força combatente e os recursos de capital da nação vão se exaurir.

Tudo isso foi escrito em 1943, quando a derrota da Alemanha e do Japão ainda não eram completamente evidentes.

O Circuito de Energia em Tempos de Guerra

O Deus da Máquina, capítulo XXII
O Circuito de Energia em Tempos de Guerra
Isabel Paterson, 1943

Bombardeiro B29
A guerra é uma demonstração em grande escala da natureza do governo como mecanismo e de sua relação com o fluxo de energia. A principal razão pela qual o governo é identificado com o poder é que a autorização e condução da guerra são prerrogativas da agência política; mas, se essa impressão for examinada como uma proposição da Física, descobriremos que a verdade é o contrário. O governo é estrutura repressiva e mecanismo expropriante, pelos quais, em tempos de paz, a energia dos cidadãos é protegida do canal guerreiro e represada, para ser liberada — não originada ou criada — quando a guerra começa. O poderio está antes da barragem. Não está no exército, mas na nação, uma vez que consiste em um excedente de produção, tanto em efetivo pessoal como em materiais. Um exército mobilizado é subtraído da produção e só pode funcionar se houver um suprimento contínuo fornecido pela vida civil da nação. É um produto acabado. Assim, nações e impérios de longa duração são sempre aqueles de caráter civil e sempre parecem estar despreparados para a guerra.

A ciência militar como tal considera apenas a ação do produto acabado e fica desorientada quando os exércitos se tornam ineficazes. A força de combate de uma nação é geralmente calculada em efetivos (pessoal) e armamentos, incluindo instalações estacionárias de defesa. É a partir desses cálculos que os projetos de conquista do mundo pela força das armas são empreendidos; e embora fracassem sempre, não se percebe a razão inerente porque fracassam.

Embora a produção seja a medida real do poder militar, uma estimativa bruta ou total pode ser ainda mais fatalmente enganosa. A produção é o fluxo de energia. Indica a força combatente disponível se a conexão entre a ordem civil e o exército estiver correta; caso contrário, revela apenas a extensão do desastre em potencial.

A relação correta depende do modo de conversão de energia em uso. Em uma economia primitiva, a força disponível é uma porcentagem simples. O produtor selvagem também é o combatente; é capaz de prover sua própria subsistência e regula a si mesmo, igualando-se nele o impulso beligerante e o controle. Não há organização externa ou comando. Isso vale também para a sociedade pastoril nômade; os combatentes precisam manter sua própria fonte de suprimentos e as linhas de suprimentos, porque também são os produtores. Nos dois casos, é óbvio que a tribo não pode dispor de seu efetivo em uma proporção além da reposição natural, por um dado período de anos, sem uma derrota absoluta por extinção.

Em comunidades agrícolas assentadas com uma cultura de artesanato, algum grau de organização militar específica passa a ser viável. Mas o tipo apropriado de organização é determinado pelo estágio de desenvolvimento do comércio. A esse respeito, a República Romana era uma economia mais avançada que o feudalismo estrito. A sociedade feudal era uma economia agrária plenamente organizada; e o limite estreito de sujeição ao serviço militar era determinado pela margem estreita de excedente de produção. Exigia-se de uma senhoria feudal que fornecesse apenas certo número de homens, que deveriam proteger o campo por apenas poucas semanas no ano. Seria inútil exigir mais; a economia não conseguiria equipá-los ou sustentá-los, com seu escasso suprimento de alimentos e seus meios de transporte de alcance limitado. Os combatentes, cavaleiros, escudeiros e cavalariços, não faziam muito trabalho produtivo, de maneira que podiam facilmente ficar à disposição, já que tinham de ser sustentados durante a paz da mesma maneira que durante a guerra. Os produtores eram praticamente isentos do serviço militar. Embora os combatentes feudais estivessem à disposição do suserano ou do rei, e sob seu comando nominal na guerra, o controle real era local; respondia aos suprimentos de seu local de origem. Assim, as regras da guerra eram feitas em conformidade com isso. Em seus recursos militares, a República Romana estava quinhentos anos à frente do feudalismo; havia comércio e dinheiro suficientes para permitir um comando centralizado e um raio de ação mais abrangente. Era possível engajar uma grande porcentagem da força de trabalho; portanto, todo cidadão fisicamente capaz estava sujeito a servir em caso de emergência. O recrutamento continuava sendo viável porque o raio ainda era limitado e também era coerente com o patria potestas[1] na ordem moral.

Quando a receita nacional provém principalmente do comércio, como era no Império Romano e no Império Britânico, o recrutamento militar deixa de ser viável. O exército é um coeficiente do sistema comercial; sua efetividade existe na proporção de sua mobilidade, velocidade, disciplina e constante prontidão, e não de seu tamanho. Isso exige um exército profissional, com um contingente mínimo sempre a serviço, em vez de um máximo convocado por um período curto em ocasiões especiais. O recrutamento militar foi abandonado, em Roma e na Inglaterra, exatamente quando essas nações se tornaram impérios. O dinheiro é o meio de uma sociedade de contrato; e ele necessita de uma relação compatível do exército com a nação.

As condições de funcionamento de um estado militar, organizado para a “guerra total”, foram perfeitamente exemplificadas uma única vez na história, e seus limites expostos, por Esparta. A produção era extorquida dos escravos, que mantinham a economia no mais baixo nível de subsistência. Todos os cidadãos do sexo masculino (não-escravos) eram soldados; mas não podiam ir lutar longe de casa, sem possuir recursos auxiliares — comércio, dinheiro, transportes. O modelo espartano era perfeito em sua categoria terrível. Sobreviveu por um período considerável em uma condição estática; mas, quando tentou se expandir, — sendo abastecido pelos estados mercantis gregos para poder combater em um raio ampliado — se desmantelou. Nenhum estado desse tipo consegue se beneficiar da conquista de uma nação de produção superior; será arruinado pela vitória se não for pela derrota. Qualquer estado militar que tente usar uma economia de máquinas sofrerá uma dissolução ainda mais rápida.

A teoria militar carece de sentido porque trabalha com a conduta dos exércitos existentes, sem levar em consideração a ordem civil de onde foram tirados. Mesmo que a estratégia, as táticas e a tecnologia sejam idênticas em teoria, um exército profissional, um exército mercenário e um exército cidadão lutam por princípios diferentes, de acordo com sua relação com a ordem civil.

O exército profissional, embora sinceramente leal a seu próprio país, tem de lutar por sua própria conservação como exército, tanto quanto pela vitória imediata. O objetivo intermitente é uma vitória em particular; o objetivo específico é vencer uma guerra; mas o objetivo constante é manter o exército existindo indefinidamente. Isso não significa que faltará coragem aos soldados em qualquer momento; ao contrário, sua determinação não deve falhar nunca e qualquer parte do exército pode ser obrigada a resistir a um ataque a qualquer momento, com custos extremos para o destacamento. A condição mais desmoralizante para um exército profissional é ser envolvido ou usado, ou acreditar que está sendo usado, por facções internas de seu próprio país. Um exército profissional é um instrumento da autoridade constituída: sua conexão de energia é com a linha central ou tronco; seu interesse normal é o do país inteiro, por meio do governo; e o interesse privado dos soldados fica confinado à sua profissão. Quando é usado por uma parte da nação contra outra parte da nação, acontece um curto-circuito; assim, mesmo o emprego do exército para tarefas extraordinárias de polícia é um expediente duvidoso.

Um exército mercenário luta por suas próprias mãos; seu interesse é na extorsão e só pode ser avaliado como uma série de objetivos imediatistas. Quando exércitos estritamente mercenários existiam, estavam abertos a ofertas de qualquer lado e não estavam dispostos a lutar mais do que o que compensasse. Geralmente, eram tão perigosos para seus empregadores quanto para o inimigo. É muito difícil desmoralizá-los além de sua condição ordinária; quando existiam, isso indicava a falta de uma ordem civil normal nas nações que os empregavam. Eram o resultado de uma economia comercial que não tinha estrutura política adequada, onde faltavam bases regionais.

Um exército cidadão luta pelo interesse dos soldados enquanto cidadãos, tendo em mente as conseqüências da guerra real em que estão engajados. O incentivo mais positivo para um exército cidadão lutar é o desejo de ir para casa; mas isso significa que o soldado deve esperar encontrar em casa o objetivo pelo qual está lutando. O interesse do soldado cidadão é o do produtor, um homem que deixou seu emprego e propriedade. A condição mais desmoralizante para um exército cidadão é o conhecimento ou suspeita de que os direitos dos soldados individuais como cidadãos estão sendo prejudicados a pretexto da guerra. O exército cidadão luta por uma causa definida, que se acredita que seja atingível pela guerra; e se a causa desaparecer, o exército se dissolve. O soldado cidadão é sustentado pela energia da linha de produção privada de sua vida civil, que é temporariamente desconectada e ligada à estrutura militar; a linha civil carrega a carga. Se o circuito de energia civil for rompido, a carga não poderá ser mantida. Daí vem o fato, registrado em toda a história, de que é sempre o maior exército que uma nação consegue reunir que subitamente se desfaz. Ele luta com uma energia incomparável enquanto lutar; e se desintegra completamente quanto se acaba, como ocorreu com os exércitos de Napoleão, do Czar, e da Alemanha ao fim da Primeira Guerra Mundial.

A fraqueza da teoria puramente militar fica evidente quando aplicada a qualquer guerra passada. Pelas regras formais, a Revolução Americana deveria ter fracassado antes de começar, e uma dúzia de vezes depois que começou. Confrontados com essas impossibilidades técnicas, os teóricos ficam furiosos e especulam sobre o que teria acontecido se Washington tivesse recebido um apoio mais adequado do Congresso; se os dois lados tivessem recorrido ao recrutamento militar; e assim por diante — considerando que, se os americanos ou os ingleses se sujeitassem ao recrutamento militar naquele momento, não poderia ter havido Guerra Revolucionária nenhuma; nem haveria tal guerra se um Congresso com autoridade federal definida já existisse previamente, porque esse governo necessariamente pertenceria a uma nação já independente. Outra vez, teóricos sugerem que a Guerra Civil poderia ter sido vencida pelo governo federal na primeira campanha se houvesse um exército permanente suficiente. Mas as forças confederadas eram comandadas por um soldado que renunciou ao seu comissionamento federal por causa da secessão; um grande exército permanente teria sido dividido em obediência a ele. As guerras têm de ser lutadas quaisquer que sejam as condições presentes na ocasião. Elas se originam dessas condições. Mas, em toda e qualquer circunstância, a condição indispensável para a vitória final é que os produtores mantenham o controle do sistema de produção, de maneira que apenas o produto acabado possa ser tomado para fins militares.

O motivo pelo qual essa condição não é entendida é que, ao avaliar a efetividade militar, não se considera o fator tempo; não se diferenciam os resultados de curto prazo e os de longo prazo. Napoleão é considerado um mestre na arte da guerra porque venceu numerosas batalhas e conquistou um vasto território em um período de menos de vinte anos; mas, ao final, a nação que comandava estava exaurida e ocupada por seus inimigos. Ele tinha o controle de todos os recursos da nação. Desde sua época, a França declinou continuamente em poder militar, enquanto manteve fielmente o sistema usado por Napoleão. Como essa seqüência específica aconteceu — uma explosão de energia avassaladora seguida por um longo declínio? Napoleão não apenas esvaziou o reservatório de energia excedente, mas deixou aberta a comporta, com o recrutamento militar geral em tempos de paz, de maneira que o pleno poderio nunca mais pôde se formar. Depois disso, a Alemanha seguiu o mesmo caminho, com os mesmos fenômenos resultantes, até o mesmo fim, num ritmo levemente acelerado. A França foi unificada por Luís XIV, que obteve numerosas vitórias e conquistou a Europa, para terminar derrotado; a bancarrota e o colapso se seguiram rapidamente; o processo foi repetido com a Revolução e o regime de Napoleão. Bismarck “unificou” os principados alemães e obteve vitórias; a Alemanha conquistou a Europa em 1914, foi derrotada, entrou em colapso; e repetiu o processo na guerra mundial atual. Esses “homens de poder” são na realidade meros destroços de naufrágio, resíduos flutuando em uma enchente, ilustres por sua falta de capacidade produtiva e de responsabilidade.

A miséria generalizada é fatalmente o resultado se um exército é abastecido por uma fonte — seja interna ou externa — sobre a qual os produtores não têm controle. É uma possibilidade recorrente; acontece quando a energia cinética minou as bases políticas. Causa guerras do tipo mais terrível, nas quais ninguém é capaz de fazer a paz. A Guerra dos Cem Anos[2], as Guerras das Rosas[3] e a Guerra dos Trinta Anos[4] foram desse tipo. A perda de controle é mais evidente na Guerra dos Trinta Anos. A autoridade do Sacro Imperador Romano-Germânico era nominalmente válida para recrutar um exército; mas as receitas diretas do imperador eram inadequadas para sustentar grandes forças em campo, por qualquer período de tempo. O imperador, portanto autorizou um soldado aristocrático de posses, o Conde Wallestein[5], a recrutar soldados e sustentá-los por pilhagem ou tributos forçados. Outros soberanos, por seus próprios objetivos, contribuíam com Wallenstein com subsídios em dinheiro de tempos em tempos. Como resultado, não havia controle efetivo sobre o exército de Wallenstein; o imperador não podia desmobilizá-lo quando quisesse; os soldados vagavam como bandos de lobos, devastando o país e cometendo atrocidades horripilantes. Quando veio a paz, foi a paz da desolação, com o exército desmobilizado pela fome e a zona rural quase despovoada. Foi praticamente o fim do Sacro Império Romano-Germânico. E o efeito teria sido exatamente o mesmo se o Imperador estivesse em posição de tomar todos os recursos de seus súditos para uso militar; nos dois casos, a situação é que a agência militar não está sob controle do elemento produtivo. A Europa, atualmente, está em uma guerra do mesmo tipo. Os governos tomaram o controle de todos os recursos de suas nações. Todos os exércitos estão lutando sustentados pelo retorno decrescente de seus recursos de capital e alguns subsídios da América. Não têm como esperar voltar à vida civil porque não existe vida civil; também não são soldados profissionais; portanto, lutam sem objetivo. O problema obscuro é escondido pelo problema aparente; o problema obscuro é que não há controle sobre os exércitos. (Quando um automóvel não pode ser parado pelas pessoas que estão dentro dele, está fora de controle.) Os comandantes nominais dos exércitos da Europa não ousam deixá-los ir para casa. Os exércitos são porções imensas de massa deslocada colidindo uns contra os outros pela energia cinética; e os soldados foram isolados tanto do passado como do futuro, porque o circuito de produção da Europa foi rompido e destruído. Para nações nessa situação, nem mesmo o fim dos combates pode trazer alívio, porque os governos não podem desmobilizar esses exércitos monstruosos em nenhum caso. Eles permanecerão em pé-de-guerra. O fato é reconhecido, já que a única solução proposta é um “armistício” por tempo indeterminado sob exércitos de ocupação.

A produção mecanizada não pode ser desenvolvida ou sustentada em nenhuma economia planejada, mesmo em tempo de paz, porque o gerador funciona em um circuito de energia muito longo, no qual as conexões são feitas pelo livre comércio. A primeira carga de qualquer circuito de energia é a manutenção e a reposição ao longo do circuito inteiro. Isso é óbvio em um circuito local de energia, no qual é um problema evidente do produtor conseguir comida, roupas e abrigo a partir de sua produção; mesmo que seja usado trabalho escravo, o senhor mais brutal não pode enganar a si mesmo acreditando que um escravo pode continuar trabalhando se sua ração for inadequada para sustentar a vida. Mas o longo circuito é uma economia financeira; e, aparentemente, muitos homens imaginam que podem subtrair mais e mais energia da linha de transmissão de dinheiro sem conseqüências para a continuidade do fluxo.

O estado militar é a forma final para a qual toda economia planejada tende rapidamente. Mas a força militar consiste em energia extraída da produção, sem dar retorno. Então, se o nível de produção geral é diminuído, o poderio militar deve ser prejudicado de maneira correspondente. A energia que flui pelos canais da vida civil privada é auto-sustentável, auto incrementável e auto renovável. A energia que flui pelo canal militar é totalmente gasta; não produz nada, nem mesmo a manutenção de suas linhas de transmissão. Um exército pode ocasionalmente tomar suprimentos do inimigo, em pilhagem ou indenizações, mas esses recursos são rapidamente consumidos.

Portanto, a efetividade militar de longo prazo, a sobrevivência de uma nação através dos riscos recorrentes de guerra, geração após geração — e é isso que uma nação tem de conseguir se quiser sobreviver — depende, de maneira absoluta, da preservação dos recursos de capital, usando apenas o excedente para fins militares como produto acabado. É duvidoso se existe alguma hipótese em que o capital possa ser consumido de maneira segura; não podemos confiar na aparência superficial, porque descobriremos, examinando o registro histórico, que nações de longa sobrevivência jamais permitiram que seu capital fosse comprometido, nem mesmo em seus maiores esforços militares. O que fizeram de fato foi aumentar a produção geral. Ao final das guerras napoleônicas, estima-se que a Grã-Bretanha tinha uma produção geral cinqüenta por cento superior à do início dos conflitos. Napoleão tentou embargar a Europa, enquanto os britânicos comerciavam com todos que desejassem, incluindo os próprios franceses. Na Guerra Civil Americana, o Norte certamente aumentou sua produção geral; enquanto o Sul, de maneira insana, começou a guerra declarando um embargo de seu próprio algodão, paralisando assim o seu crédito no exterior.

A teoria atual de que “sacrifícios” vencerão a guerra é o extremo da irracionalidade. Quando um caminhão é necessário, não é possível dirigir um sacrifício. O objeto tem de ser fabricado, e só pode ser fabricado no circuito completo, com homens livres usando a propriedade privada livremente. Se a guerra toma mais que o excedente de produção por um dado período de tempo, mesmo uma série ininterrupta de vitórias levará a nação cada vez mais perto da derrota irremediável, pela cessação completa de suprimentos.

O erro de uma nação que faz guerra gastando seu capital, pensando em vencer antes que as reservas se esgotem, é que ela assumiu um gasto incalculável sustentado por uma quantidade limitada. Cortou a alimentação e está funcionando a bateria; mas a energia em uma bateria é uma quantidade fixa, enquanto o tempo futuro que uma guerra vai durar e o consumo de energia resultante que será exigido ao longo do tempo jamais podem ser conhecidos previamente. A única certeza é que a relação que essas conjecturas ignoram — o fato de que se o capital está sendo exaurido; mais energia é tirada do circuito que o excedente provê — é uma fórmula para a derrota; a nação ficará cada vez mais fraca. Se a força militar não é mais que o que o excedente de energia provê, é pelo menos uma potência permanente, estendendo-se ao infinito e pode, portanto, manter-se esperando a vitória final por um período indeterminado.

O tempo está ao lado da nação que aumenta sua produção geral. O tempo é neutro para a nação que mantém a produção geral em seu nível anterior. O tempo é mortal para a nação que luta com seus recursos de capital.

Conseqüentemente, com um sistema de alta energia, a única coisa que torna a vitória final impossível é a organização da nação inteira como um estabelecimento militar, tirando recursos da produção. A manufatura de material bélico não constitui um circuito de produção; é apenas produto acabado. Em pouco tempo, uma organização militar desse tipo entrará em conflito consigo mesma internamente, discutindo de onde a energia deve ser expropriada do pessoal e dos materiais existentes quando ela assume o poder. O “problema obscuro” foi completamente ignorado; e o “problema aparente” se separa em uma dúzia de falsos problemas. Isso só pode ser entendido se o problema obscuro for definido, a necessidade militar real.[6]

O problema militar real de uma nação é encontrar de onde a energia para a guerra pode ser tirada do circuito para se obter a máxima força sustentável de combate na aplicação final. O gerador funciona em um sistema muito longo e complexo de linhas de transmissão, das fontes de matéria-prima aos pontos focais, tributários, alimentando linhas tronco, para que haja uma redistribuição em produtos-acabados. A energia se eleva gradativamente por toda a linha.

E não é simplesmente uma progressão geométrica, um múltiplo do efetivo pessoal, ao final; é um poder transcendente.

Para a conveniência de expressar o problema real, vamos assumir que cem homens[7] na produção geral produzem o suficiente para sua própria subsistência e, além disso, um excedente suficiente para sustentar outros cem homens com maquinário, materiais e tudo o que é necessário para produzir um avião de máxima velocidade e raio de ação, equipado com o máximo de armamento; e para manter esse avião no ar durante seu tempo efetivo de uso. Assim, há duzentos homens inteiramente ocupados tanto no circuito principal de produção como no circuito de produção final, ao fim do qual um avião é disponibilizado para uso militar. Mas, uma vez que o avião foi montado, equipado e posto em operação, todos os homens ocupados no processo, com a matéria-prima que usaram, ficariam completamente indefesos contra a arma que criaram, com sua pequena tripulação treinada. A máquina que produziram não é simplesmente um múltiplo de seu poder natural; ela transcende o poder que foi usado para criá-la. Toda a efetividade militar da guerra moderna foi colocada naquele avião, porque se trabalhou no longo circuito de energia de alto potencial.

A máxima força combatente sustentável por um sistema de alta energia, uma economia livre usando suas próprias armas, é infinitamente superior à simples soma de um múltiplo do efetivo pessoal de uma nação. Se os duzentos homens envolvidos no processo completo do qual o avião é um produto final fossem tirados da linha de produção e mandados para o front, a força de duzentos homens não seria somada ao exército. Ao contrário, a força combatente que eles forneceriam seria completamente perdida.

Assim, a razão ou porcentagem de homens úteis no exército de uma nação de alta energia, para se obter a máxima força combatente sustentável, é muito menor, na proporção do simples efetivo pessoal da nação, do que seria com um sistema de energia inferior. Quanto mais alto o potencial de energia usado no sistema de produção, menor deve ser o exército proporcionalmente ao simples efetivo pessoal da nação. Se são necessários duzentos homens para produzir o poder transcendente que dez homens usam na aplicação final na linha de combate, então apenas cinco por cento do efetivo pessoal da nação podem ser eficazes nas forças armadas. Usar mais que essa porcentagem é enfraquecer a força combatente na razão inversa.[8]

Mas é isso o que faz o recrutamento militar, absorvendo o simples efetivo pessoal em vastas quantidades, o que significa expropriar energia da nação exatamente no nível em que isso é ineficaz para a guerra, e desperdiçá-la numa extensão incalculável. A teoria de “guerra total”, que significa recrutamento militar geral e uma “economia planejada”, com toda a força de trabalho da nação submetida a restrições e proibições, presa a empregos designados ou deslocada arbitrariamente, corta a linha de produção na origem. O poder transcendente da produção geral só pode ser obtido por homens livres que escolhem seus empregos por sua vontade própria, em troca do pagamento que esse trabalho trará, qualquer que seja ele. O homem criativo deve encontrar o lugar e o emprego onde possa funcionar; deve ter uma liberdade de escolha contínua do que fará com sua capacidade, seu tempo e seus meios. Se um homem é colocado em um trabalho forçado, tudo o que pode ser obtido dele é sua força muscular. Se está preso a um emprego designado, tudo o que pode ser obtido dele é o que a tarefa prescrita permite. Quando trabalha conforme escolheu, encontrando para si o mercado para seu talento, é absolutamente impossível prever em que extensão ele vai aumentar a produção. Se Charles F. Kettering[9] ou Thomas Alva Edison ou Henry Ford tivessem sido obrigados a cavar trincheiras, seria possível calcular aproximadamente quanta energia ou trabalho poderiam ser extraídos deles. Deixados a seus próprios dispositivos, como aconteceu, é impossível dizer quanta energia eles acabaram liberando na produção. Da mesma maneira, o dinheiro que ganharam em salários ou lucros, que deu a eles uma chance maior de experimentar o que tinham em mente e que retornou à linha de produção por meio deles, tornou-se um poder transcendente ou infinito; enquanto a mesma soma dividida em salários diários pelo trabalho comum teria produzido apenas aquela soma em energia. (Se tomada em impostos e paga a funcionários públicos, teria apenas aumentado o peso morto.) Assim, a limitação proposta do salário dos homens produtivos seria uma grave restrição à alta produção; se o limite fosse suficientemente baixo, o efeito seria parar completamente a alta produção.

Agora, esta possibilidade incalculável ou infinita, o poder transcendente, é necessária de maneira ainda mais urgente na guerra que na paz; mas não pode existir a menos que os homens sejam livres para procurar seus próprios empregos, e tenham controle privado dos meios de produção. Apenas quando a liberdade pessoal e a propriedade privada são preservadas, a produção geral pode crescer em tempos de guerra, com um aumento concomitante do excedente disponível para uso militar.

A lição é que a energia para uso militar deve ser tirada do circuito apenas como produto acabado, para que se atinja a máxima força combatente sustentável. Além disso, um homem não é nem um meio nem um produto; sua competência em uma tecnologia avançada é desenvolvida por ele mesmo; portanto, só pode se tornar disponível efetivamente por sua própria vontade. É possível recrutar homens e ordenar que embarquem em aviões e pilotem? Não, isso é impossível. Um sistema de alta produção fornece, na vida civil, a maior parte do treinamento para o uso da tecnologia na guerra, da mesma maneira que cria as invenções, o material, o maquinário e a organização para fabricar armamento avançado, com o fluxo de energia que sustenta as forças militares; e esses recursos devem ser usados nos mesmos termos em que são criados, ou seja, por um efetivo voluntário, para que seja obtida a máxima força de combate. O erro mais abrangente e fatal que pode ser cometido na guerra é tirar a maior parte da energia da nação no nível de mão-de-obra simples e em dinheiro para ser gasto no mesmo nível para a subsistência de um exército massivo. Então, não sobra nada para ser extraído exceto uma pilha de matérias-primas, o maquinário que já existia e que deve se desgastar rapidamente, e um resto inadequado de pessoal de produção que só pode continuar trabalhando nesses bens de capital depreciados enquanto não se esgotarem. É o que a Europa fez.

Um sistema de produção não determina as relações morais da sociedade. As relações morais criam o sistema de produção. Homens livres criaram o dínamo; e ele não funciona exceto na sociedade de contrato, de propriedade privada, de livre iniciativa. Um exército não está em uma relação correta com a ordem civil a menos que seja organizado sobre os mesmos princípios morais. Não é verdade que “ninguém vence uma guerra”. Quando uma nação é atacada, embora o custo da guerra seja uma perda, se conseguir preservar a si mesma e às suas instituições da destruição, derrotando o inimigo, venceu a guerra. Uma economia livre invariavelmente vence uma economia fechada ou de status ou um “estado totalitário”. Mas tem de lutar como uma economia livre.

A destruição causada pelas nações ditatoriais da Europa na guerra atual provocou uma impressão completamente enganosa do problema real de guerrear utilizando o produto de um sistema de alta energia. Essas nações ditatoriais se prepararam para a guerra carregando suas baterias enquanto ainda estavam ligadas ao grande circuito mundial de energia, criado e mantido pelas economias livres. A Rússia não contribuiu criativamente em nada para esse sistema. Mas existem minas de ouro na Rússia; e a Rússia exportou ouro, vendeu ações no exterior, e também espremeu o que pôde de sua própria miserável economia de subsistência — ao custo da fome efetiva de sua população — para trocar por maquinário e contratar técnicos das economias livres. A Alemanha herdou uma tecnologia avançada, técnicos treinados, maquinário e uma organização industrial de sua condição anterior de comparativa liberdade. A Alemanha também usou todos os dispositivos fraudulentos de inflação da moeda, empréstimos elevados do exterior e crédito estrangeiro — desfalques deliberados durante vinte anos — para obter os bens produzidos pelas economias livres. O Japão vendeu ações no exterior para comprar armamento.[10] Confiando nessas baterias carregadas, a Rússia, a Alemanha e o Japão mergulharam na guerra, e conseguiram pilhar mais alguns suprimentos. Estão consumindo as reservas da Europa na luta, produzidas pela economia livre anterior, e o produto do circuito de energia americano. Viajando pelo mundo nas duas direções, a energia da América encontrou-se consigo mesma em Stalingrado, num curto-circuito. A energia americana ainda abastece a Rússia e é sua única força efetiva. Em menor quantidade, a energia americana também chegou à China, para encontrar a energia americana fornecida anteriormente ao Japão. A energia americana literalmente explodiu o mundo civilizado, porque foi jogada nos canais políticos da Alemanha, da Rússia e do Japão.

A relação histórica da Rússia com a Europa permanece, na guerra atual, a mesma que tem sido nos últimos trezentos anos. Na vida de uma nação, a descentralização é a fórmula da longevidade; mas isso pode acontecer por planejamento, com uma estrutura política sólida, ou por acaso, pela ausência total de estrutura. Dadas certas condições, nações de grande expansão podem existir de maneira continuada por inércia. Isso é verdade na China e na Rússia. Ambas consistem em vastas planícies, isoladas das nações adjacentes por barreiras naturais de montanhas, desertos, pântanos, lagos e geleiras. Ficam no final das rotas comerciais do velho mundo. Nenhuma delas chegou a ter estrutura política. Apenas a configuração física, a superfície plana, levou a população desses países a se agregar em monarquias, como objetos móveis se juntam rolando em uma tigela rasa. Suas economias são locais, com um comércio mínimo. Até a ascensão da monarquia moscovita, a Rússia era um agrupamento solto de comunidades inconstantes e desconectadas. As comunidades rurais eram democracias puras. Nas comunas das velhas aldeias, “cada questão devia ser decidida por unanimidade”; assim, os dissidentes eram “espancados até abandonarem sua oposição”. (Essa é a contradição inerente da teoria democrática.) A pressão de incursões bárbaras as consolidou sob um despotismo. Mas o despotismo central deixava as economias locais funcionarem de maneira autônoma, exceto pelos impostos.

Quando uma nação com um sistema de energia superior invade uma grande área que contém apenas economias rurais locais, encontra o problema da dissipação da alta energia no espaço. Enquanto Napoleão conquistava a Europa, podia alimentar seu exército com o circuito de energia das nações que ocupava, exigindo indenizações em dinheiro e usando esse dinheiro para obter o que precisasse do sistema de produção civil. Na Rússia, não havia como fazer isso. A população civil russa não poderia abastecê-lo, mesmo que quisesse; não tinham os transportes necessários, nem a organização geral. Portanto, o exército de Napoleão avançou rapidamente até o limite de sua própria linha de suprimentos, e então estacou, como uma bala disparada cai ao chão.

Na guerra atual, os alemães encontraram o mesmo problema de espaço e não há como resolvê-lo. Não tinham como levar suprimentos para seus exércitos avançarem indefinidamente, porque as necessidades de transporte crescem em progressão geométrica; e não tinham como obter suprimentos adequados dos territórios conquistados. Já foi dito, e é verdade, que o fracasso do Plano Qüinqüenal de Stalin arruinou Hitler. Da mesma maneira, o Japão invadiu a China com energia emprestada das economias livres, mas não conseguiu obter suprimentos adequados na China para sustentar seus exércitos mecanizados. Quando os suprimentos dos Estados Unidos foram suspensos pelo embargo, o Japão teve de escolher entre se retirar da China com prejuízo ou declarar guerra às potências ocidentais para tomar as estações de suprimentos fronteiriças do circuito de energia ocidental no Oriente, como os poços de petróleo e refinarias da Holanda nas Índias Orientais. Por quanto tempo o Japão vai conseguir manter seu equipamento militar de alta energia, enquanto está isolado do circuito de produção ocidental, é uma questão que só pode ser respondida com conhecimento específico de suas necessidades de reposição e das matérias-primas pilhadas. No longo prazo, o poder militar do Japão vai certamente entrar em colapso, assim como o equipamento da Alemanha e da Rússia vão se desgastar e se tornar inúteis se elas continuarem permanentemente sem contato com as economias livres. Se a liberdade fosse extinta em todo o mundo, todo o sistema de produção de alta energia se desmantelaria e pararia de funcionar. Nenhum despotismo consegue manter de maneira independente e indefinida uma economia de máquinas ou um exército mecanizado. Mas, até que as baterias estejam completamente descarregadas, um despotismo consegue causar danos gigantescos; e o Japão está em posição de provocar essa destruição no Oriente e, até certo ponto, no mundo ocidental com suas reservas atuais. Não é desprezível enquanto durar. Contudo, toda a força de combate do Japão foi tirada do Ocidente.

Então, se as economias livres interromperem seus próprios circuitos de energia internamente, impondo o poder político sobre a produção, de onde vão tirar a energia necessária para funcionarem e lutarem? Os Estados Unidos não podem emprestar, mendigar, copiar, fraudar ou pilhar qualquer outra nação no mundo, seja pela paz, seja pela guerra. Como pode então a América imitar as nações “totalitárias”? É impossível. A liberdade para os americanos não é um luxo da paz, que pode ser “sacrificado” em tempos de guerra. É uma necessidade em qualquer tempo, mas acima de tudo na guerra; nessa situação, torna-se uma questão imediata de vida ou morte.



[1] Patria potestas: instituição romana pela qual o homem mais velho de uma casa tinha completo controle sobre toda a família, até sua morte. (N. do T.)
[2] Guerra dos Cem Anos (1337 - 1453): guerra entre a Inglaterra e a França, que terminou com a derrota da Inglaterra. (N. do T.)
[3] Guerras das Rosas (1455 - 1487): série de guerras dinásticas pelo trono da Inglaterra, entre a Casa de Lancaster e a Casa de York. As guerras terminaram com a vitória de Henrique Tudor, da Casa de Lancaster, contra Ricardo III, da Casa de York. Ele foi coroado como Henrique VII e casou-se com Elizabeth de York, filha de Eduardo IV, unindo as duas Casas. (N. do T.)
[4] Guerra dos Trinta Anos (1618 - 1648): um dos maiores conflitos da história da Europa, lutado entre estados católicos e protestantes. (N. do T.)
[5] Conde Albrecht Wensel Eusebius Von Wallenstein (1583 – 1634): líder militar da Boêmia, ofereceu seu exército de mais de 30.000 homens ao Sacro Imperador Romano-Germânico Fernando II e tornou-se o supremo comandante dos exércitos da Monarquia de Habsburgo. Foi destituído pelo Imperador e pensou em se aliar aos protestantes, mas foi assassinado antes disso. (N. do T.)
[6] A distinção entre um “problema aparente”, ou seja, um sintoma ou efeito superficial enganoso, e o “problema obscuro” real, que é a verdadeira causa, foi feita por Charles F. Kettering. (N. da A.)
[7] A subsistência das pessoas que trabalham na produção tem de incluir a subsistência de todos de alguma maneira envolvidos por toda a economia, com suas famílias ou outros dependentes. Mas a subsistência para a alta produção também significa a manutenção, reposição e melhoria dos bens de capital da nação — maquinário, edificações, equipamento agrícola, gado e suprimentos de reserva de todos os tipos, suplementares ao sistema. (N. da A.)
[8] Não estou querendo dizer que aviões sozinhos constituem uma força militar eficaz para uma nação de alta energia. O gerador é o produto e o meio de produção da economia capitalista de livre iniciativa e propriedade privada. Ele torna possível o mais alto potencial e fluxo de energia conhecidos. Conseqüentemente, permitiu a invenção de encouraçados, tanques, artilharia, bombas, aviões — de força, velocidade e alcance inéditos. Condições e circunstâncias variáveis determinam a combinação, proporção e relação dominante ou auxiliar mais efetiva dessas diferentes formas de armamento, com o concomitante efetivo militar. Essa questão pertence necessariamente às autoridades políticas e militares. Elas não serão infalíveis, mas a autoridade tem de ser confiada a elas, porque é o único lugar onde pode residir. O avião mencionado aqui é o desenvolvimento mais recente do poder transcendente na guerra, mas não exclui o uso de outras armas. Assim, posso dizer apenas que o avião é indicado como particularmente adaptado, por sua velocidade, para proteger as linhas de um longo circuito de energia. Também é o armamento de uma nação pacífica, já que, sozinho, não é um meio de conquista, mas de defesa e retaliação adequada. (N. da A.)
[9] Charles F. Kettering (1876 – 1958): inventor, engenheiro e empresário americano, detentor de 186 patentes. Suas invenções mais utilizadas foram o motor elétrico de partida e o aditivo para gasolina chumbo tetraetila. Também inventou o freon, usado em refrigeradores e aparelhos de ar condicionado. (N. do T.)
[10] O falecido Dwight Morrow relatou complacentemente como tantas ações japonesas foram vendidas em uma cidade da Califórnia! A energia transferida por essas ações retornou como bombas em Pearl Harbor e Manila.