Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de junho de 2014

Sócrates, sobre uma briga entre irmãos

Em outra ocasião, Sócrates soube que dois irmãos, Querofonte e Querécrates, a quem ele conhecia bem, estavam brigados. Ao ver este último, chamou-o:

— Certamente, Querécrates, você não é um daqueles que acham que bens materiais valem mais que um irmão. Os bens são insensíveis e os irmãos têm sentimentos; precisamos cuidar dos bens, mas um irmão pode cuidar de nós; você possui muitos bens, mas só um irmão. Também é estranho que alguém se sinta prejudicado por seus irmãos por não possuir o que eles possuem, mas não sinta a mesma coisa em relação a seus compatriotas; neste caso, as pessoas percebem que é melhor pertencer a uma comunidade possuindo o suficiente que viver na solidão, com a posse precária da propriedade de todos. Porém, não percebem que o mesmo princípio se aplica aos irmãos. Muitos possuem meios para que seus servos façam o trabalho em seu lugar e fazem amigos porque sentem a necessidade de ajudar, mas não se preocupam com seus irmãos, como se a amizade pudesse existir entre compatriotas, mas não entre irmãos! Porém, ter o mesmo sangue e a mesma criação cria fortes laços de afeto. Até animais selvagens criados juntos sentem uma ternura natural uns pelos outros. Além disso, nossos compatriotas respeitam mais aqueles que têm irmãos que aqueles que são filhos únicos e são menos dispostos a se desentender com os primeiros.

— Se a diferença entre nós não fosse importante, Sócrates, — respondeu Querécrates —talvez fosse meu dever deixá-la de lado e não permitir que uma ninharia me separasse de meu irmão. Um irmão que se comporta como irmão, da maneira que você diz, é uma bênção; mas, se sua conduta não é essa, se é o inverso do que devia ser, qual o sentido de se tentar o impossível?

— Querécrates, todas as pessoas acham Querofonte tão desagradável quanto você acha, ou alguns o consideram muito agradável?

— Ah, Sócrates, — respondeu ele — essa é exatamente minha razão para odiá-lo: ele é muito bom para as outras pessoas, mas sempre que está próximo a mim, invariavelmente o que diz e faz é mais para me ferir que para me ajudar.

— Bem, — disse Sócrates — se você tentar montar um cavalo sem saber a maneira correta, ele vai feri-lo. É assim com seu irmão? Será que o fere porque você tenta lidar com ele sem saber a maneira correta?

— Não! — exclamou Querécrates. — Como eu não sei como lidar com um irmão, se eu retribuo qualquer palavra bondosa, qualquer ato generoso? Mas não tenho como falar ou agir gentilmente com alguém que me agride com suas palavras e ações. Mais que isso, não quero tentar.

— Querécrates, o que você diz é espantoso! Se você tivesse um cachorro que fosse amistoso com os rebanhos e os pastores, mas rosnasse quando você se aproximasse, você não ficaria com raiva dele, mas tentaria tratá-lo bem para amansá-lo. Você diz que, se seu irmão tratasse você como a um irmão, seria uma grande bênção, e confessa que sabe falar e agir gentilmente: porém, não se propõe a agir para que ele se torne a maior bênção possível para você.

— Receio, Sócrates, que me falte sabedoria para fazer Querofonte me tratar como deveria.

— Porém, — disse Sócrates — não é necessário, a meu ver, nenhum esforço sutil ou estranho da sua parte: acredito que você sabe qual é a maneira de cativá-lo e fazer com que ele tenha boa opinião sobre você.

— Se você observou que conheço algum encantamento para isso, sem que esteja consciente desse conhecimento, peço que me diga agora.

— Então, diga-me: se você quisesse ser convidado para jantar com um amigo quando ele oferece sacrifício, o que você faria?
— É claro que eu deveria começar convidando-o quando eu oferecesse sacrifício.

— E suponha que você quisesse que um amigo seu cuidasse das suas coisas enquanto você estivesse ausente, o que você faria?

— É claro que eu deveria primeiro assumir a responsabilidade de cuidar das suas coisas na ausência dele.

— E suponha que você quisesse que um estranho apresentasse a você a cidade dele, quando você a visitasse, o que você faria?

— Obviamente, eu deveria primeiro apresentar-lhe Atenas quando ele viesse para cá. Sim, e se eu quisesse que ele me ajudasse com os negócios que me levaram à sua cidade, é evidente que eu deveria primeiro fazer o mesmo por ele.

— Parece que você esconde há muito tempo o conhecimento de todos os encantamentos que já foram descobertos. Ou será que você hesita em tomar a iniciativa, por medo de se desonrar, ao ser o primeiro a demonstrar boa vontade com seu irmão? Porém, geralmente se considera digno dos maiores elogios aquele que se antecipa à malevolência do inimigo e à benevolência do amigo. Assim, se eu achasse Querofonte mais capaz que você de trilhar o caminho para essa amizade, tentaria convencê-lo a dar o primeiro passo para um entendimento. Mas, da maneira como as coisas se apresentam, acho mais provável que esse entendimento seja bem-sucedido pela sua iniciativa.

— É estranho isso, Sócrates. É um fato incomum que você peça a mim, que sou o mais novo, que conduza a questão! E não é verdade que qualquer outra pessoa terá a opinião contrária, ou seja, que o mais velho sempre deveria falar e agir primeiro?

— Como assim? — disse Sócrates. — Não é a opinião geral que um jovem sempre deve dar passagem para o mais velho quando se encontram, oferecer seu assento a ele, dar-lhe um leito confortável, dar-lhe a precedência da palavra? Meu bom amigo, não hesite, mas assuma a tarefa de pacificar seu irmão e, imediatamente, ele responderá às suas atitudes. Você não percebe como ele é inteligente e franco? Pessoas baixas, é verdade, reagem prontamente a presentes, mas a bondade é a arma mais eficaz para convencer um homem de valor.

— Mas e se todos os meus esforços não levarem a nenhum resultado? — perguntou Querécrates.

— Bem, nesse caso, presumo que você terá provado que é honesto e fraterno e que ele é egoísta e não merece sua amizade. Mas tenho confiança de que as coisas não vão terminar assim; acho que, assim que perceber que você o desafia a ser seu amigo, ele se empenhará ao máximo em superar suas boas palavras e ações. O que aconteceria se um par de mãos recusasse a tarefa de ajuda mútua para a qual Deus as fez e cada mão tentasse contrariar a outra? Ou se um par de pés desprezasse seu dever de trabalharem juntos, para o qual foram feitos, e cada pé resolvesse criar problemas para o outro? É assim que vocês estão se comportando agora. Não seria o mais desastroso contra-senso usar como obstáculos instrumentos que foram feitos para o auxílio? E, além disso, os pares de irmãos, em minha opinião, foram criados por Deus para se ajudarem de maneira mais efetiva que um par de mãos, ou de pés ou de olhos, ou de qualquer instrumento que Ele tenha criado para ser usado em conjunto. Porque as mãos não conseguem lidar ao mesmo tempo com coisas que estão a mais de dois metros de distância. Os pés não alcançam em um passo coisas que estão separadas por dois metros. E os olhos, embora pareçam ter maior alcance, não conseguem ver, no mesmo instante, coisas que estejam até mais próximas, se algumas estão na frente e outras atrás. Mas dois irmãos, quando são amigos, agem ao mesmo tempo, pelo benefício mútuo, independentemente da distância que exista entre eles.



Narrado por Xenofonte, em Memorabilia. Traduzido por Marcelo Centenaro, a partir das traduções de E. M. Marchant, do grego para o inglês, e de Ana Elias Pinheiro, do grego para o português de Portugal.

O grifo é meu.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sócrates conversa com seu filho Lâmprocles

Tendo percebido, certo dia, que Lâmprocles, o seu filho mais velho, andava indisposto com a mãe, chamou-o:

— Diz-me lá, meu filho, sabes que há certos homens a quem chamam ingratos?

— Sei, pois — respondeu o rapaz.

— E já reparaste bem no que fazem esses a quem dão tal nome?

— Sim, são aqueles que, tendo sido bem tratados e podendo devolver esse favor, não o fazem, a esses chama-se ingratos.

— Ora, então, e não te parece que podemos contar os ingratos no rol dos injustos?

— Claro.

— E já ponderaste alguma vez se, porventura, tal como não parece justo escravizar os amigos enquanto é justo fazê-lo com os inimigos, também não será injusto ser ingrato com os amigos mas justo se for com os inimigos?

— Já e parece-me que alguém que tenha sido bem tratado por outro, seja amigo, seja inimigo, e não tenha intenção de retribuir o favor, esse é injusto.

— Ora, se as coisas são assim, a ingratidão deve ser tida como uma total injustiça, não?

O filho concordou.

— Então, e quantos mais favores sem troca alguém tiver recebido, mais injusto será, não é?

Mais uma vez, o rapaz disse que sim.

— Então — continuou Sócrates —, será possível encontrarmos quem tenha sido mais beneficiado por alguém do que são os filhos pelos pais? Filhos que não existiam e a quem os pais deram o ser, a quem providenciaram ver tudo quanto existe de belo e participar em tudo quanto existe de bom, de entre os dons que os deuses concederam aos homens, dons que nos parecem de tal modo valiosos que, mais do que a qualquer outra coisa, todos recusamos deixá-los. Até as cidades instituíram a pena de morte para os crimes mais graves pensando que não poderias travar a injustiça senão com o medo de um mal maior. E certamente que não é pelo prazer do sexo que os homens geram filhos, porque para saciá-lo estão as ruas cheias e cheias as casas. Pelo contrário, é evidente que ponderamos a escolha da mulher de que poderemos ter melhores filhos e é a essa que nos unimos para procriar. Assim, claro, é o homem que sustenta aquela que juntamente com ele gera os filhos que espera ter e providencia, com a abundância possível, tudo quanto pensa que lhes irá ser necessário ao longo das suas vidas. E a mulher, ao aceitá-lo, carrega então esse fardo, grávida, pondo em risco a sua vida, partilhando o seu alimento com aquele que carrega no ventre e, depois de ter chegado ao fim do tempo, com grande esforço, e de ter dado à luz, alimenta-o e cuida dele, sem receber nada de bom em troca, sem que o seu bebé saiba quem o trata assim tão bem e sem que possa dar sinais do que precisa. É ela, então, que tentando adivinhar o que é bom para ele e o que o fará feliz, procura satisfazê-lo e cria-o, durante muito tempo, de dia e de noite, suportando com paciência o cansaço, sem saber se virá a receber por esse cuidado algum agradecimento.

E não chega apenas criá-las; além disso, quando as crianças parecem ser capazes de aprender alguma coisa, daquilo que os pais, eles próprios, têm como bom para a vida, então ensinam-lho. E para coisas em que acham que há outro que é mais capaz de os ensinar, enviam-no para junto desse, sem olhar a gastos, investindo tudo quanto podem para que os filhos se tornem o melhor possíveis.

Depois de ouvir o pai, o rapaz respondeu:

— Mesmo que assim seja e tenha feito tudo isto e muito mais ainda, ninguém poderia suportar o seu mau feitio.

— E achas que é mais gravosa a ferocidade de um animal ou a de uma mãe?

— A mim parece-me que a de uma mãe, sobretudo se for como a minha.

— Sim? Por acaso alguma vez te fez algum mal, mordendo-te ou dando-te um coice, como já aconteceu a muitos com animais?

— Ora, por Zeus, ela diz coisas que ninguém gostaria de ouvir em toda a vida.

— E tu — respondeu Sócrates — quantas vezes achas que, com palavras e actos, enquanto eras pequeno a aborreceste e lhe causaste incómodos de noite e de dia e quanto a afligiste por estares doente?

— Mas em momento nenhum lhe disse nem lhe fiz nada de que se envergonhe.

— Não? Achas que é mais difícil para ti ouvires o que ela te diz do que para os actores, quando nas tragédias se dizem uns aos outros as últimas?

— Só que esses — acho eu —, enquanto falam, não pensam que aquele que insulta está a insultar para causar danos, nem que aquele que ameaça está a ameaçar para fazer algum mal, e assim é fácil de aguentar.

— Então, e tu, sabendo que o que a tua mãe te diz não o diz com qualquer má intenção, mas porque quer que tenhas tudo melhor do que qualquer outro, ficas irritado? Ou julgas que a tua mãe tem para contigo alguma má intenção?

— Não, claro que não me parece nada disso.

Sócrates continuou:

— Ora, então tu, dessa que é tua amiga e que se preocupa quanto pode para que fiques bom, quando estás doente, e para que não te falte nada do que te faz falta, e que pede o melhor para ti aos deuses e lhes paga promessas, dessa, dizes que tem mau feitio? Olha que eu acho que se não podes suportar semelhante mãe, não podes suportar nada de bom. Ora diz-me lá, achas que há alguma outra pessoa com quem te devas preocupar ou não tencionas agradar nem obedecer nem a general, nem a qualquer outro governante?

— Por Zeus, claro que sim.

— Pois bem, — continuou Sócrates — e hás de querer ser agradável ao teu vizinho para que ele te empreste fogo, quando precisares dele, para que se torne teu companheiro das horas boas, para que se te acontecer algum acidente se prontifique logo a auxiliar-te de boa vontade.

— Claro — respondeu ele.

— Ah, sim?! E se encontrares um companheiro de viagem ou de navegação, ou de qualquer outra situação, ia fazer-te alguma diferença que fosse um amigo ou um inimigo ou achas que deverias preocupar-te com qualquer um deles com a mesma boa vontade?

— Acho que sim.

— Então, estás disposto a te preocupares com eles, mas achas que não deves respeitar a tua mãe que é a pessoa que é mais tua amiga? Não sabes, pois, que a cidade não se preocupa nem castiga nenhuma outra ingratidão, até fecham os olhos àqueles que tendo sido bem tratados não retribuem esse favor, mas, se, por acaso, alguém não respeitar os pais, levam-no a tribunal e rejeitam-no impedindo-lhe o acesso às magistraturas porque nem os sacrifícios oferecidos por ele à cidade poderiam ser oferecidos piedosamente, nem qualquer outra acção bela ou justa que praticasse. E, por Zeus, se alguém não cuidar do túmulo dos pais falecidos, também essa atitude a cidade examina ao confirmar as magistraturas. Ora tu, meu filho, se fores sensato, pedirás aos deuses que sejam indulgentes contigo, caso tenhas faltado à tua mãe nalguma coisa, para que estes não julguem que és um ingrato e não queiram negar-te benefícios. E, quanto aos homens, deverás manter-te alerta para que não percebam que não dás atenção aos teus pais e te desprezem todos e depois se veja que ficaste isolado dos teus amigos.

Porque se suspeitarem que és ingrato com os teus pais, ninguém acreditará que, tratando-te bem, possa vir a receber o teu agradecimento.


In Memorabilia, de Xenofonte. Traduzido do grego para o português de Portugal por Ana Elias Pinheiro.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Preconceito, segundo João Pereira Coutinho

Trecho de As Idéias Conservadoras, de João Pereira Coutinho:

«O tempo atual não foi brando com certos termos da gramática conservadora — e “preconceito” é um deles. Ter “preconceitos” é hoje o supremo crime, sobretudo quando a “filosofia da vaidade” — o epíteto com que Burke brinda o sentimentalismo de Rousseau — aconselha os homens a se apresentarem sem preconceitos, num estado de pureza original que provavelmente só existiria no tempo das cavernas. Ironicamente, essa é uma hipótese que coloca os mais radicais progressistas no mesmo patamar a-histórico dos mais radicais reacionários.

Acontece que os “preconceitos” que interessam a um conservador não podem ser entendidos, ou confundidos, com meras idéias irracionais sobre determinados comportamentos, minorias ou indivíduos — o sentido atual e rasteiro do termo. Se todas as palavras também têm uma tradição, importa recordar que “preconceito” deve ser entendido no sentido clássico, ou seja como praejudicium — um precedente ou um julgamento baseado em decisões ou experiências passadas que, pela sua validade comprovada, informam decisões ou experiências presentes e futuras. Será essa dimensão de “preconceito” que interessa a um conservador: o tempo trouxe até ele princípios ou instituições que sobreviveram aos “testes do tempo”; essa sobrevivência cria uma razão favorável à manutenção e conservação de tais princípios ou instituições. E será a eles que devemos recorrer como se recorre a ensinamentos válidos e testados. Ou, melhor dizendo, válidos porque testados.»

domingo, 25 de maio de 2014

As Idéias Conservadoras, de João Pereira Coutinho

Mais uma obra imperdível de João Pereira Coutinho está nas livrarias: As Idéias Conservadoras - Explicadas a Revolucionários e Reacionários.

O fio condutor do livro é o pensamento de Edmund Burke (1729-1797), referência maior do conservadorismo britânico. Burke publicou, ainda em 1790, Reflexões sobre a Revolução na França, uma análise que previu boa parte das catástrofes que a Revolução Francesa acabou realizando, e que envolve todos os aspectos mais importantes do pensamento conservador.

Coutinho afirma que todos somos conservadores, pelo menos em relação ao que estimamos. Portanto, existe uma disposição conservadora, que não está relacionada com a política, de “usar e desfrutar aquilo que está disponível, em vez de procurar ou desejar outra coisa”, segundo Michael Oakeshott. É possível que essa disposição conservadora e o conservadorismo político não coexistam no mesmo indivíduo.

A disposição conservadora política não recusa apenas as ambições utópicas futuras dos revolucionários. Rejeita também uma suposta felicidade utópica passada dos reacionários. Coutinho afirma que qualquer outra ideologia diferente do conservadorismo elegerá valores que são desejáveis em qualquer circunstância. Para um liberal, a liberdade. Para um socialista democrático, a igualdade. Para um conservador, isso não existe. Cada valor será benéfico ou prejudicial conforme as circunstâncias. Ou seja, o conservadorismo é uma ideologia, porém diferente de todas as outras. Não é uma ideologia ideacional e ativa, mas posicional e reativa.

Um ponto fundamental do conservadorismo é a consciência da imperfeição humana, que convida o agente conservador a uma conduta humilde e prudente, que recusa a política utópica. Outro ponto básico é valorizar aquilo que sobreviveu aos testes do tempo. O fato de uma tradição existir há muito tempo é um indicativo da possibilidade de que essa tradição seja benéfica. Disse possibilidade, não certeza. Qualquer tradição pode e deve ser questionada.

Há um capítulo dedicado à relação entre conservadorismo e capitalismo. Coutinho chama o capitalismo pelo nome dado por Adam Smith: sociedade comercial. Existem conservadores que são adversários do capitalismo, o exemplo máximo seria Justus Möser (1720-1794). Coutinho diz que um conservador deve valorizar a sociedade comercial não por motivos transcendentes, mas por motivos empíricos e imanentes. A sociedade comercial funciona duplamente: na criação e distribuição de riqueza e como expressão das livres aspirações humanas.

Ao ler o livro, fiquei me perguntando o tempo todo até que ponto concordo com João Pereira Coutinho. Acho que tenho uma grande disposição conservadora pessoal. Concordo com os raciocínios de Coutinho, muito bem fundamentados. Mas discordo de alguns pontos de seu conservadorismo político. Acho que a liberdade é um valor extremamente importante e que a idéia de igualdade tem servido a todo tipo de manipulação. Ele defende alguns tipos de assistência aos desfavorecidos, sobre os quais tenho grande desconfiança. Vou continuar pensando nessas questões por mais tempo. Talvez Coutinho acabe me tornando mais conservador do que sou.

sábado, 3 de maio de 2014

Ayn Rand sobre o racismo

«O racismo é a mais baixa, a mais cruelmente primitiva forma de coletivismo. É a noção de atribuir um significado moral, social ou político à linhagem genética de uma pessoa — a noção de que os traços intelectuais e de caráter de um indivíduo são produzidos e transmitidos pela química interna de seu corpo. O que quer dizer, na prática, que uma pessoa não deve ser julgada por seu próprio caráter e suas próprias ações, mas pelo caráter e pelas ações de uma coletividade de ancestrais.

O racismo alega que o conteúdo de uma mente humana (não seu aparato cognitivo, mas seu conteúdo) é herdado; que as convicções, valores e caráter são determinados antes que a pessoa nasça, por fatores físicos além do seu controle. Essa é a versão do homem das cavernas para a doutrina das idéias inatas — ou do conhecimento herdado — que foi completamente refutada pela filosofia e pela ciência. O racismo é uma doutrina de brutos, por brutos e para brutos. É uma versão de celeiro ou de fazenda de gado do coletivismo, apropriada para uma mentalidade que sabe a diferença entre as várias raças de animais, mas não a diferença entre animais e seres humanos.

Como todas as formas de determinismo, o racismo invalida o atributo específico que distingue o ser humano de todas as outras espécies vivas: sua capacidade racional. O racismo nega dois aspectos da vida humana: a razão e a escolha, ou a mente e a moralidade, substituindo-os pela predestinação química.»
Ayn Rand
Racism
1963

«Um gênio é um gênio, independentemente da quantidade de idiotas que pertençam à mesma raça — e um idiota é um idiota, independentemente da quantidade de gênios que compartilham com ele a mesma origem racial.»
Ayn Rand
Racism
1963

«Como qualquer outra forma de coletivismo, o racismo é uma busca pelo imerecido. É uma busca por um conhecimento automático — por uma avaliação automática do caráter das pessoas que ignora a responsabilidade de exercer um julgamento racional e moral — e, acima de tudo, a busca por uma auto-estima automática (ou pseudo-auto-estima).»
Ayn Rand
Racism
1963

«Hoje, o racismo é considerado crime se praticado por uma maioria — mas um direito inalienável se praticado por uma minoria. A noção de que a cultura de alguém é superior a todas as outras porque representa as tradições de seus ancestrais é considerada chauvinismo se adotada por uma maioria — mas será chamada de orgulho “étnico” se adotada por uma minoria. A resistência à mudança e ao progresso é considerada reacionária se manifestada por uma maioria — mas regredir a uma aldeia dos Bálcãs, a uma tenda indígena ou à selva é aclamado se isso é expresso por uma minoria.»
Ayn Rand
The Age of Envy
1971

terça-feira, 8 de abril de 2014

A Anábase, de Xenofonte

Acabei de ler a Anábase, de Xenofonte. É uma história de aventura sensacional, muito bem escrita, sobre um fato verídico e épico. Um exército grego de dez mil homens, encurralado na Mesopotâmia, tentando voltar para a Grécia e enfrentando inimigos em cada lugar por onde passou, além de todo tipo de dificuldades.

No ano 401 AC, o rei da Pérsia era Artaxerxes. Seu irmão Ciro desejava tomar o trono e juntou um exército de centenas de milhares de soldados, incluindo cerca de dez mil mercenários gregos. Xenofonte, que não era soldado, resolveu acompanhar a missão, convidado por um dos generais. Na primeira batalha entre as tropas de Ciro e de Artaxerxes, ao lado do Rio Tigre, Ciro é morto. Os gregos, perseguidos pelos persas, marcham para o norte e conseguem sair dos domínios de Artaxerxes. Porém, em quase todos os lugares por onde passam, o povo local tenta se defender do exército invasor. Para conseguir provisões, os gregos em geral tem de pilhar o que conseguem. Em alguns lugares, os habitantes negociam com os gregos e vendem ou cedem provisões em troca de não serem atacados.

A cada momento surge um problema diferente, que precisa ser resolvido com inteligência. Os gregos também vão aprendendo com seus erros, mas cada erro custa muito caro. Xenofonte narra a história em terceira pessoa e se descreve como um líder natural, o grande herói que propõe as melhores ideias e age sempre com grande virtude. Algumas vezes, é incompreendido ou tem de enfrentar a ingratidão dos soldados. Não sabemos se foi assim mesmo que aconteceu, mas a narrativa é empolgante.

Comprei as obras completas de Xenofonte por menos de R$7,00, em inglês e em grego aqui. Não encontrei nenhuma tradução para o português do Brasil. Fiquei tentado a fazer a minha.

Conforme ia lendo, contava partes da história para minha filha, de 8 anos, e meu filho, de 5. Ele disse que os persas se chamavam assim porque perseguiam os gregos. Quando viu o busto de Xenofonte na capa do livro, perguntou se o Xenofonte era uma pedra. Depois, disse que iria desenhar a Anábase. Comprei um caderno de desenho para cada um de nós três. Minha filha desenhou a batalha entre os gregos e os carduquianos. Essas coisas não têm preço.

domingo, 6 de abril de 2014

Mentiram (e muito) para mim, de Flavio Quintela

Neste ano de 2014, está acontecendo uma onda de lançamentos de livros interessantes. Acabou de sair Mentiram (e muito) para mim, de Flavio Quintela. É um inventário das principais mentiras influentes que nos são apresentadas continuamente como se fossem as mais evidentes e indiscutíveis verdades.
O livro é pequeno, 168 páginas. A análise que ele faz sobre o quadro partidário brasileiro entre o impeachment de Collor e os preparativos para a eleição de 2014 é primorosa. Também achei muito relevante a afirmação de que, na América escravagista, menos de cinco por cento dos brancos foram proprietários de escravos, e mais de vinte por cento dos negros livres possuíam pelo menos um escravo. Pena que ele não explicite qual a fonte dessa informação.
Um detalhe agradável é que ele usa a ortografia de antes da última reforma. Também preciso adotar essa prática.
Ao final do livro, há uma bibliografia recomendada muito boa. Gostei especialmente das indicações de “Eles Mudaram a Imprensa”, de Alzira Alves de Abreu (2003) e de “The naked communist”, de Cleon W. Skousen e Arnold Friberg (2011).
O prefácio é de Paulo Eduardo Martins e a orelha do livro, de Rodrigo Constantino. Esses textos podem ser lidos aqui, no blog do autor.
Aqui vai a lista de capítulos:
I. Começam a mentir desde muito cedo para nós: a mais-valia
II. A mentira mais voraz: a de que a própria verdade não existe
III. Mentiram de novo: a festa da democracia brasileira
IV. Mentindo sobre ideologia: não existe mais direita ou esquerda
V. Mentirinha: o PSDB é um partido de direita
VI. Amplas mentiras: a maldade da Direita
VII. Mentindo sobre Hitler: o nazismo é de extrema direita
VIII. Mentira de lobo mau: nem toda esquerda quer o comunismo
IX. Cínicos mentirosos: o comunismo ainda não existiu na Terra
X. A mentira do bonzinho: o esquerdista se preocupa com os pobres e oprimidos
XI. Mentira que ninguém mais agüenta: bandido é vítima da sociedade
XII. Nem o diabo acredita nesta mentira: sou um cristão socialista
XIII. A mentira mais contada de todas: o golpe militar de 1964
XIV. Auto-engano ou mentira proposital: a mídia é direitista
XV. Algo que exala mentira: o sistema educacional brasileiro
XVI. Mentira em letras góticas sobre pele de carneiro: diploma
XVII. Mentiras que atravessam gerações: dívida histórica
XVIII. Mentira tripla: o bolsa-família foi criado pelo PT, é bom e tira as pessoas da miséria
XIX. Mentira boba? Nem tanto: Deus é brasileiro
XX. Verdades

Como disse Edmund Burke, “Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados.”

domingo, 16 de março de 2014

Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão, de Arthur Schopenhauer

Acabei de ler Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão Em 38 Estratagemas (Dialética Erística), de Arthur Schopenhauer, com comentários de Olavo de Carvalho. Schopenhauer deixou essa curta obra inacabada. Foi publicada depois de sua morte. A edição brasileira traz longos comentários de Olavo de Carvalho. A quantidade de texto de Olavo e de Schopenhauer na edição é praticamente a mesma.

Esse catálogo de trapaças em debates é bastante útil e interessante. A ideia não é ensinar o leitor a trapacear, mas prepará-lo para se defender das argumentações desonestas de seus adversários em debates. Cito alguns Estratagemas de que gostei mais. O Estratagema 38 é o Argumentum ad Personam, ou seja, xingar o adversário quando não se tem mais o que dizer. O Estratagema 36 é o Discurso Incompreensível, muito popular. O Estratagema 32, Rótulo Odioso, é aquele que chama de “fascistas” (ou “racistas”, ou “homofóbicos”, ou “elite”, dependendo do caso) todas as pessoas que discordam do debatedor. O 14, a Falsa Proclamação de Vitória, também é bastante usado quando os argumentos acabam. Outro Estratagema curioso é o 2, a Homonímia Sutil, em que se usa a mesma palavra que o adversário usou, mas com um sentido diferente do pretendido por ele, para contestar algo que ele não disse.

Comprei o livro em 2006 e comecei a ler pela parte que mais interessava, os estratagemas. Enrosquei no Estratagema 4 e larguei. Resolvi ler de novo recentemente e, para não enroscar novamente, comecei pelo Estratagema 38 e vim voltando até o Estratagema 1. Quando terminei essa parte, li os comentários finais do Olavo e depois os do Schopenhauer, para depois ler a introdução do Olavo e a do Schopenhauer.

Segundo Olavo, Schopenhauer pretendia fazer uma crítica a Hegel. Com a morte de Hegel, o filósofo deve ter perdido a motivação para concluir o livro e abandonou o texto.

Embora Olavo reconheça o valor do texto em si e das teorias de Schopenhauer sobre debates, ele curiosamente o critica o tempo todo. Segundo Olavo, Schopenhauer não entendeu o que Aristóteles quis dizer com Dialética, que não é o mesmo que Schopenhauer chama por esse nome. Também sobram críticas à filosofia de Schopenhauer em geral, que é, segundo Olavo, um desdobramento levado às últimas consequências das ideias de Kant.

Recomendo o livro a qualquer pessoa que goste de discutir ideias.

Segue uma lista de todos os estratagemas. Os nomes foram dados pelo Olavo de Carvalho. O que está entre aspas são citações do texto de Schopenhauer, exceto quando indicada outra fonte.

1) Ampliação indevida
“Levar a afirmação do adversário para além de seus limites naturais, interpretá-la do modo mais geral possível, tomá-la no sentido mais amplo possível e exagerá-la. Restringir, em contrapartida, a própria afirmação ao sentido mais estrito e ao limite mais estreito possíveis. Pois quanto mais geral uma afirmação se torna, tanto mais ataques se podem dirigir a ela.”
2) Homonímia sutil
“Usar a homonímia para tornar a afirmação apresentada extensiva também àquilo que, fora a identidade de nome, pouco ou nada tem em comum com a coisa de que se trata; depois refutar com ênfase esta afirmação e dar a impressão de ter refutado a primeira.”
3) Mudança de modo
“A afirmação que foi apresentada em modo relativo […] é tomada como se tivesse sido apresentada em modo absoluto, universalmente […], ou pelo menos é compreendida em um sentido totalmente diferente, e assim refutada com base neste segundo contexto.” Nesses três primeiros estratagemas, “o adversário, na realidade, fala de uma coisa distinta daquela que se havia colocado. Quando nos deixamos levar por este estratagema, cometemos, então, uma ignoratio elenchi (ignorância do contra-argumento).” “O que o adversário diz é verdadeiro, mas não está em contradição real com nossa tese.”
4) Pré-silogismos
“Se queremos chegar a uma certa conclusão, devemos evitar que esta seja prevista, e atuar de modo que o adversário, sem percebê-lo, admita as premissas uma de cada vez e dispersas sem ordem na conversação”. Segundo Olavo de Carvalho: “Esta técnica, das mais requintadas e complexas, pode ser usada não só no debate face a face, mas em todo o processo de manipulação da opinião pública. Aceitando premissas parciais espalhadas aqui e ali pela propaganda, pelos espetáculos de teatro, pelos indivíduos famosos, aparentemente desconectadas entre si e sem qualquer intenção unitária subjacente, o público é levado, sem perceber, à conclusão desejada pelo manipulador. Se a conclusão não for declarada explicitamente em parte alguma, ela terá ainda mais força persuasiva, por que a vítima, ao tirá-la, acreditará que está raciocinando livremente e assumirá responsabilidade pela crença que lhe foi incutida, passando mesmo a defendê-la como expressão pura de sua opinião espontânea. Esse processo é usado sistematicamente pela "revolução cultural" gramsciana, que descrevo em A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. A maioria das técnicas de manipulação de opinião em uso hoje em dia se constitui de adaptações e formidáveis ampliações de técnicas retórico-dialéticas.”
5) Uso intencional de premissas falsas
“Podemos também, para comprovar nossas proposições, fazer antes uso de proposições falsas, se o adversário não quiser aceitar as verdadeiras, seja porque percebe que delas a tese será deduzida como consequência imediata. Então adotaremos proposições que são falsas em si mesmas mas verdadeiras ad hominem, e argumentaremos ex concessis, a partir do modo de pensar do adversário.”
6) Petição de princípio oculta
“Ocultamos uma petitio principii, ao postular o que desejamos provar: 1) usando um nome distinto […] ou ainda usando conceitos intercambiáveis […]; 2) fazendo com que se aceite de um modo geral aquilo que é controvertido num caso particular […]; 3) se, em contrapartida, duas coisas são consequência uma da outra, demonstraremos uma postulando a outra; 4) se precisamos demonstrar uma verdade geral e fazemos que se admitam todas as particulares (o contrário do número 2).”
7) Perguntas em desordem
“Quando a disputa é conduzida de modo rigoroso e formal e queremos fazer com que nos entendam com perfeita clareza, então aquele que apresentou a afirmação e deve prová-la procede contra o adversário fazendo perguntas para concluir a verdade a partir das próprias concessões do adversário.” E: “Fazer de uma só vez muitas perguntas pormenorizadas, e assim ocultar o que, na realidade, queremos que seja admitido”.
8) Encolerizar o adversário
“Provoca-se a cólera do adversário, para que, em sua fúria, ele não seja capaz de raciocinar corretamente e perceber sua própria vantagem.”
9) Perguntas em ordem alterada
“Fazer as perguntas numa ordem distinta da exigida pela conclusão que dela pretendemos, com mudanças de todo gênero; assim, o adversário não conseguirá saber aonde queremos chegar e não poderá prevenir-se.”
10) Pista falsa
“Se percebemos que o adversário, intencionalmente, responde pela negativa às perguntas cuja resposta afirmativa poderia confirmar nossas proposições, então devemos perguntar o contrário da proposição que queremos usar, como se quiséssemos que fosse aprovada, ou então, pelo menos, por as duas à escolha, de modo que não se perceba qual delas queremos afirmar.”
11) Salto indutivo
Se o adversário já aceitar casos particulares, não “perguntar-lhe se admite também a verdade geral” derivada dos casos particulares; introduzi-la “como se estivesse estabelecida e aceita”.
12) Manipulação semântica
Chamar as coisas por um nome que já contenha o juízo de valor que queremos que seja aceito. “O nome protestantes foi escolhido por eles mesmos, assim como o de evangélicos. O nome hereges, em contrapartida, foi escolhido pelos católicos.” Segundo Olavo de Carvalho: “A manipulação semântica e o mais seguro indício de que o debatedor tem o intuito de vencer a qualquer preço, com solene desprezo pela verdade. Em épocas de radicalização política, ela se torna uso corrente. Nos regimes totalitários — uma invenção do século XX que Schopenhauer não poderia prever —, a manipulação semântica passou a ser usada já não no confronto polêmico, mas como instrumento de um discurso monológico destinado a bloquear, primeiro, a expressão de ideias antagônicas e, depois, a mera possibilidade de pensá-las. […] George Orwell satirizou esse fenômeno no romance 1984, onde o totalitarismo perfeito implanta oficialmente a "Novilíngua" (Newspeak), toda composta de conotações alteradas. Na vida real, as coisas são piores: a Novílingua é imposta de facto, sem declaração oficial. Isto torna muito mais difícil combatê-la e sobretudo identificar seus responsáveis: eles permanecem anônimos por trás de um abstrato sujeito coletivo, até que este acabe por se identificar com a própria natureza impessoal das coisas, com a "História", com Deus ou com o povo inteiro, de modo a que enfim a vítima venha a assumir a responsabilidade pelo crime. No Brasil, porém, o emprego da manipulação semântica adquiriu, nas últimas duas décadas, contornos peculiares, talvez jamais observados no mundo: o domínio totalitário da linguagem monológica por uma casta de manipuladores convive pacificamente com a democracia formal, defendida, paradoxalmente, pela mesma casta. O emprego do termo conservador enquanto oposto a progressista (e não a radical, por exemplo), foi originariamente um truque semântico da esquerda, compensado pelo giro oposto empregado pela direita (autodenominada, por exemplo, democrática em oposição a bolchevista, ou cristã em oposição a materialista). No Brasil, a acepção esquerdista dos dois termos se tornou unânime e institucional, sem que uma única voz de direita procure bani-la ou neutralizá-la. […] No Brasil, a identificação do nazismo com a direita tornou-se um dado do vocabulário corrente, que ninguém pensa em contestar. […] O domínio esquerdista do vocabulário é total e irrestrito, o que faz com que cada cidadão brasileiro, ao discordar da esquerda, se veja desprovido de meios de expressão que não estejam sobrecarregados de um temível potencial de mal-entendidos; aos poucos, a dificuldade de falar se torna dificuldade de pensar.”
13) Alternativa forçada
“Para que o adversário aceite uma tese, devemos apresentar-lhe também a contrária e deixar que ele escolha, ressaltando essa oposição com estridência, de modo que ele, se não quiser ser contraditório, tenha de se decidir pela nossa tese que, em comparação à outra, se mostra muito mais provável.”
14) Falsa proclamação de vitória
“Declaramos e proclamamos triunfalmente demonstrada a conclusão que pretendíamos, ainda que de fato não se siga das respostas do adversário.” Segundo Olavo de Carvalho: “Aproveitar-se da confusão do leitor (ou ouvinte, ou espectador) para proclamar que está provado o que não foi provado de maneira alguma é o procedimento mais regular e constante da retórica política e dos meios de comunicação no Brasil.”
15) Anulação do paradoxo
“Se apresentamos uma proposição paradoxal e temos dificuldade para prová-la, proporemos ao adversário, para que a aceite ou recuse, uma proposição correta, mas cuja exatidão não seja totalmente evidente, como se dela quiséssemos construir a demonstração.” Se ele a recusar, provaremos que é verdade. Se aceitar, teremos dito alguma coisa razoável e adiaremos a conclusão. Segundo Olavo de Carvalho, nos dois casos, apenas mudamos de assunto, desviando a atenção do ouvinte do rumo desastroso que nossa argumentação tinha tomado.
16) Várias modalidades do argumentum ad hominem
“Perguntar se a afirmação do adversário não está em contradição com algo que ele disse ou aceitou anteriormente, ou com os princípios de uma escola ou seita que ele elogie ou aprove, ou com o comportamento de membros dessa seita, ou com a conduta do adversário mesmo.”
17) Distinção de emergência
Salvar-se “mediante alguma distinção sutil, na qual não havíamos pensado anteriormente, caso a questão admita algum tipo de dupla interpretação ou dois casos diferentes.”
18) Uso intencional da mutatio controversiae
Estratagema que consiste em “interromper o debate a tempo” quando se está ameaçado de ser abatido, sair do debate “ou desviá-lo e levá-lo para outra questão”.
19) Fuga do específico para o universal
“Se o adversário solicita expressamente que apresentemos alguma objeção contra um ponto concreto de sua tese, mas não encontramos nada de apropriado, devemos enfocar o aspecto geral do tema e atacá-lo assim.”
20) Uso da premissa falsa previamente aceita pelo adversário
Se o adversário concordou com algumas de nossas premissas, saltamos para a conclusão, como se estivesse provada, mesmo que não esteja.
21) Preferir o argumento sofístico
Muitas vezes, é mais fácil e rápido vencer com um argumento falso que com um verdadeiro.
22) Falsa alegação de petitio principii
Alegar que o adversário está fazendo uma petitio principii quando ele quer que admitamos algo que leve à formulação do problema.
23) Impelir o adversário ao exagero
No calor do debate, levar o adversário a exagerar suas posições. Como o exagero costuma levar a contradições, podemos refutar essas contradições como se estivéssemos refutando o argumento original.
24) Falsa reductio ad absurdum
Tirar falsas conclusões absurdas dos argumentos do adversário. Com isso, refutam-se essas conclusões, fazendo parecer que a tese foi refutada.
25) Falsa instância
Apresentar um suposto contraexemplo da tese do adversário que não seja de fato classificável como uma instância dessa tese.
26) Retorsio argumenti
Usar o argumento do adversário contra ele próprio, quando isso for possível. Este é um dos poucos estratagemas que não é desonesto em si.
27) Usar a raiva
Quando o adversário fica irritado com algum argumento nosso, devemos insistir nesse ponto, porque provavelmente ali há uma inconsistência.
28) Argumentum ad auditores
Argumento aos ouvintes. “Formulamos uma objeção inválida, mas cuja invalidade só um conhecedor do assunto pode captar. E, ainda que o adversário seja um conhecedor do assunto, não o são os ouvintes.”
29) Desvio
Mudar de assunto fingindo que ainda se está rebatendo a questão do adversário. Ou mesmo, de modo insolente, atacar o adversário pessoalmente.
30) Argumentum ad verecundiam
Argumento dirigido ao sentimento de honra. Citar autoridades no assunto para refutar uma tese. Este estratagema funciona tanto melhor quanto menores forem os conhecimentos do adversário a respeito do que disse a autoridade invocada e quanto maior for a veneração dele diante de tal autoridade.
31) Incompetência irônica
Fingir que não entendeu o que o adversário disse e declarar isso ironicamente. Nas circunstâncias certas, isso faz o adversário parecer um idiota que não sabe organizar o raciocínio ou que está simplesmente declarando algo patentemente falso.
32) Rótulo odioso
“Um modo rápido de eliminar ou, ao menos, de tornar suspeita uma afirmação do adversário é reduzi-la a uma categoria geralmente detestada, ainda que a relação seja pouco rigorosa e tão só de vaga semelhança.”
33) Negação da teoria na prática
Aceitar os fundamentos de um argumento, mas negar suas consequências.
34) Resposta ao meneio de esquiva
“Se o adversário não dá uma informação ou resposta direta a uma questão ou a um argumento, e se esquiva com uma contrapergunta ou uma resposta indireta, refugiando-se numa proposição que não tem a ver com o tema e indo para qualquer outro lugar, isto é um sinal claro de que nós encontramos um ponto fraco. Devemos portanto persistir no ponto e não deixar o adversário sair do lugar.” Este estratagema também não é desonesto em si.
35) Persuasão pela vontade
“Em vez de fornecer razões ao entendimento, influi-se com motivações na vontade, e o adversário, do mesmo modo que os ouvintes quando têm um interesse em comum com ele, são subitamente ganhos para nossa opinião, mesmo que esta tenha sido tomada de empréstimo num manicômio.”
36) Discurso incompreensível
“Desconcertar, aturdir o adversário com um caudal de palavras sem sentido. Isto baseia-se em que, ‘normalmente o homem, ao escutar apenas palavras, acredita que também deve haver nelas algo para pensar’ (Goethe, Fausto).”
37) Tomar a prova pela tese
“Se o adversário tem de fato razão e felizmente escolheu, para defender-se, uma prova ruim, será fácil refutarmos essa prova, e daremos isto como uma refutação da tese mesma.”
38) Último estratagema: Argumentum ad Personam
“Quando percebemos que o adversário é superior e que acabará por não nos dar razão, então nos tornamos pessoalmente ofensivos, insultuosos, grosseiros. […] O objeto é deixado completamente de lado e concentramos o ataque na pessoa do adversário, e a objeção se torna insolente, maldosa, ultrajante, grosseira. Essa regra é muito popular, pois todo mundo é capaz de aplicá-la e, por isto, é usada com frequência.”

sábado, 8 de março de 2014

Leituras recentes

Não estou tendo tempo para escrever sobre os livros que li ultimamente. Terminei O Caminho de Guermantes, terceiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Quero fazer um post com trechos do final do livro, mas não sei quando vou conseguir.

Li Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão em 38 Estratagemas (Dialética Erística), de Arthur Schopenhauer, comentado por Olavo de Carvalho. Também merece um bom post.

E o melhor livro que li no ano passado, Less Than One, de Joseph Brodsky, merece alguns posts.

Enquanto nada disso sai, vou publicar um trecho de Sodoma e Gomorra, quarto volume de Em Busca do Tempo Perdido.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Proust, sobre a amizade

Achei curioso este trecho de O Caminho de Guermantes, em que Proust fala mal da amizade. Não publico por concordar com ele, mas pelo estranhamento que provocou em mim.

É interessante que ele cite Nietzsche, que é a base filosófica de grande parte de sua obra. Também chama a atenção que Proust enuncie expressamente um dos temas obsessivos de Em Busca do Tempo Perdido: a incomunicabilidade do que existe de mais importante no ser humano, incomunicabilidade essa que só pode ser vencida por meio da arte. O último ponto a ressaltar é que Proust certamente se via como (e era de fato) o artista que traz dentro de si uma obra-prima e cujo dever seria viver para trabalhar. Mesmo assim, adiou por anos o início de seu trabalho e de fato morreu antes de lhe dar a forma final.

Aqui vai o trecho:

«Já disse (e precisamente fora, em Balbec, Robert de Saint-Loup quem me ajudara, a seu pesar, a tomar consciência disso) o que penso da amizade, a saber: que vale tão pouco, que me custa compreender que homens de certo talento, como Nietzsche, por exemplo, tenham tido a ingenuidade de lhe atribuir um certo valor intelectual e, em conseqüência, recusar-se às amizades a que não estivesse ligada a estima intelectual. Sim, espantou-me sempre ver que um homem que levava a sinceridade consigo mesmo a ponto de se afastar, por escrúpulo de consciência, da música de Wagner, imaginasse que a verdade pode cumprir-se nesse modo de expressão, confuso e inadequado por natureza, que são em geral as ações e, em particular, as amizades, e que possa haver um sentido qualquer no fato de alguém deixar o trabalho para ir visitar um amigo e juntos chorarem ao saber da falsa notícia do incêndio do Louvre. Em Balbec, eu chegara a considerar o prazer de jogar com as moças menos funesto à vida espiritual, à qual pelo menos ele permanece alheio, do que a amizade, cujo esforço inteiro consiste em nos fazer sacrificar a única parte real e incomunicável de nós próprios (a não ser por meio da arte) a um eu superficial que não encontra, como o outro, alegria em si mesmo e sim o enternecimento confuso de se sentir sustentado por estacas externas, hospitalizado numa individualidade estranha, onde, feliz com a proteção que lhe é dada, faz reluzir seu bem-estar aprobativo e se maravilha com qualidades a que chamaria defeitos e buscaria corrigir em si mesmo. Além do mais, os difamadores da amizade podem, sem ilusões e não sem remorsos, ser os melhores amigos do mundo, da mesma forma que um artista que traz dentro de si uma obra-prima e que sente que o seu dever seria viver para trabalhar, apesar disso, para não parecer ou arriscar-se a ser egoísta, dá sua vida por uma causa inútil, e a concede com bravura tanto maior quanto mais desinteressadas fossem as razões pelas quais preferiria não concedê-la. Mas, seja qual for minha opinião acerca da amizade, até para só falar do prazer que ela me proporcionava, de qualidade tão medíocre que me parecia algo intermediário entre o cansaço e o tédio, não há beberagem tão funesta que não possa, em determinados momentos, tornar-se preciosa e reconfortante, dando-nos a excitação necessária, o calor que não conseguíamos encontrar em nós mesmos.»

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um gosto depravado pela igualdade

«Existe de fato uma paixão valorosa e legítima por igualdade, que estimula os homens a desejar que todos sejam poderosos e estimados. Essa paixão tende a elevar os menores ao nível dos maiores. Mas também existe no coração humano um gosto depravado pela igualdade, que leva os fracos a querem rebaixar os fortes ao seu nível, e que degrada os homens, levando-os a preferir a igualdade na escravidão à desigualdade na liberdade.»
Alexis de Tocqueville
Da Democracia na América
Capítulo III, Parte I
1835

sábado, 6 de abril de 2013

Less than One, de Joseph Brodsky


Estou lendo Less than One, coletânea de ensaios de Joseph Brodsky. Comprei o livro por causa de um texto maravilhoso, A Commencement Address, cuja tradução publiquei aqui.

No primeiro ensaio, que dá título à coletânea, podemos ler este parágrafo, que traduzo a seguir:

I guess there was always some “me” inside that small and, later, somewhat bigger shell around which “everything” was happening. Inside that shell the entity which one calls “I” never changed and never stopped watching what was going on outside. I am not trying to hint at pearls inside. What I am saying is that the passage of time does not much affect that entity. To get a low grade, to operate a milling machine, to be beaten up at an interrogation, or to lecture on Callimachus in a classroom is essentially the same. This is what makes one feel a bit astonished when one grows up and finds oneself tackling the tasks that are supposed to be handled by grownups. The dissatisfaction of a child with his parents’ control over him and the panic of an adult confronting a responsibility are of the same nature. One is neither of these figures; one is perhaps less than “one”.

Acho que sempre existe alguma parte de “mim” dentro daquela concha pequena e, mais tarde, um pouco maior, em volta da qual “tudo” acontecia. Dentro daquela concha, a entidade que se chama de “eu” nunca mudou e nunca parou de observar o que acontecia do lado de fora. Não estou tentando sugerir que haja pérolas do lado de dentro. O que estou dizendo é que a passagem do tempo não afeta muito aquela entidade. Tirar uma nota baixa, trabalhar com uma fresadora, ser espancado num interrogatório ou dar uma aula sobre Calímaco é essencialmente a mesma coisa. É isso que faz com que as pessoas se sintam um pouco espantadas quando se tornam adultos e se percebem enfrentando tarefas que supostamente são tratadas por adultos. O descontentamento de uma criança com o controle de seus pais e o pânico de um adulto diante de uma responsabilidade são da mesma natureza. Cada um de nós não é nenhuma dessas figuras; cada um é talvez menos que “um”.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Que É Filosofar?, de Josef Pieper


Li, de ontem para hoje, um pequeno livro que encontrei num sebo, Que É Filosofar?, de Josef Pieper.

Pieper começa afirmando que filosofar é transcender o cotidiano, ultrapassar o mundo do trabalho e olhar para as coisas de uma maneira mais profunda, perguntando-se por quê, em vez de como. Assim, a filosofia se parece com a poesia, com a religião, com o arrebatamento erótico e com a experiência extrema da proximidade da morte.

Ele diz que uma característica distintiva do ser humano é o fato de se relacionar com a totalidade do ser, ao contrário dos animais, que só se relacionam com seu meio ambiente imediato. O homem é capaz de olhar para as coisas do cotidiano e enxergar o não-cotidiano, ou seja, admirar-se. Essa admiração é o princípio da filosofia.

Ao final, Pieper discute a relação entre filosofia e teologia. Aqui, encontro a mesma dificuldade que vi ao ler Crise e Utopia, de Martim Vasques da Cunha. Os dois autores possuem uma visão religiosa da filosofia. Tenho a impressão de que essa visão impõe pressupostos que dificultam o diálogo com quem não concorda com eles.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Um Discurso Inaugural, de Joseph Brodsky

Senhoras e senhores da Turma de 1984:
Por mais ousados ou cautelosos que vocês decidam ser, no decorrer de suas vidas estão destinados a entrar em contato físico direto com aquilo que é conhecido como o Mal. Não estou me referindo aqui a um elemento do romance gótico, mas, para dizer o mínimo, a uma realidade social palpável que vocês não têm como controlar. Por mais que sejam pessoas de boa índole ou lancem mão de cálculos precisos, não há como evitar este encontro. De fato, quanto mais calculistas e cuidadosos formos, maior será a probabilidade deste encontro, e mais forte seu impacto. A estrutura da vida é tal que aquilo que vemos como o Mal é capaz de uma presença bastante difundida, mesmo porque tem a tendência de aparecer sob o disfarce do bem. Vocês nunca irão vê-lo atravessando a soleira de suas portas e se anunciando: “Olá, eu sou o Mal!”. Isto, é claro, indica sua natureza secundária, mas o consolo que poderíamos extrair desta observação é obliterado pela frequência com que se manifesta.



Uma medida prudente a tomar, portanto, seria submeter suas noções de bem ao escrutínio mais meticuloso possível, percorrendo, por assim dizer, todo o seu guarda-roupa, verificando quais dos seus trajes poderiam caber num estranho. É claro que isso pode se transformar em uma ocupação em tempo integral, e talvez devesse mesmo. Vocês ficariam surpreendidos com a quantidade de coisas que consideram suas e boas, mas que poderiam ser facilmente usadas, sem muitos ajustes, por seus inimigos. Podem até começar a se perguntar se ele não seria as suas próprias imagens no espelho, pois o mais interessante a respeito do Mal é ele ser inteiramente humano. Para colocar o problema em termos amenos, posso dizer que nada pode ser virado e usado do avesso com mais facilidade do que nossas noções de justiça social, consciência cívica, um futuro melhor, etc. Um dos sinais mais seguros de perigo neste caso é o número daqueles que compartilham suas opiniões, não tanto porque a unanimidade tem o hábito de degenerar em uniformidade, mas devido à probabilidade – implícita nos grandes números – de que os sentimentos nobres sejam falsos.

Da mesma forma, a defesa mais segura contra o Mal é o extremo individualismo, a originalidade de pensamento, a singularidade, e até mesmo – se quiserem – a excentricidade. Ou seja, algo que não possa ser fingido, falsificado, imitado; algo que nem mesmo um impostor experiente seja capaz de copiar. Alguma coisa, em outras palavras, que não possa ser compartilhada, como, por exemplo, sua própria pele: nem mesmo por uma minoria. O Mal tem loucura pela solidez. Ele sempre procura os grandes números, o granito confiante, a pureza ideológica, os exércitos bem treinados e os orçamentos bem equilibrados. Presumivelmente, sua atração por essas coisas tem a ver com sua insegurança inata, mas, de novo, esta compreensão nos vale pouco como consolo quando o Mal triunfa.

E ele triunfa: em muitas partes do mundo, e dentro de nós mesmos. Dados seu volume e intensidade, dado em especial o cansaço daqueles que a ele se opõem, hoje o Mal pode ser encarado não como uma categoria ética, mas como um fenômeno físico que não se mede mais em partículas, mas na escala dos mapas geográficos. Assim, a razão pela qual estou falando com vocês a respeito disso não tem nada a ver com o fato de que são jovens, em pleno frescor, e estão diante de uma folha em branco. Não, a folha está escura de sujeira, e é difícil acreditar seja na capacidade ou na disposição que terão para limpá-la. Meu objetivo é apenas sugerir a vocês um modo de resistência que pode lhes ser útil algum dia; um modo que pode ajudá-los a emergir do confronto com o Mal talvez menos manchados, se não necessariamente mais triunfantes do que seus precursores. Estou pensando, é claro, no famoso expediente de oferecer a outra face.

Estou supondo que, de um modo ou de outro, vocês já ouviram falar nas interpretações desse versículo do Sermão da Montanha feitas por Leon Tolstoi, Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr. e muitos outros. Em outras palavras, estou supondo que vocês conhecem o conceito de resistência não violenta, ou passiva, cujo princípio fundamental é retribuir o mal com o bem, ou seja, de não responder na mesma moeda. O fato de o mundo de hoje ser como é sugere, no mínimo, que este conceito está longe de ser universalmente aceito. Há duas razões para esta impopularidade. Primeiro, para que seja posto em ação é necessária certa margem de democracia. E é precisamente disto que carecem 86% do globo. Segundo, o senso comum diz às vítimas que a única coisa que podem ganhar ao oferecer a outra face e não responder na mesma moeda é, no máximo, uma vitória moral, isto é, algo de muito imaterial. A relutância natural em expor mais uma parte de seus corpos a um golpe é justificada pela suspeita de que este tipo de conduta só faz provocar e fortalecer o Mal; de que a vitória moral pode ser confundida com impunidade pelo adversário.

Mas há outras razões, mais graves, para ficarmos desconfiados. Se o primeiro golpe recebido não deixar a vítima nocauteada, ela pode perceber que oferecer a outra face equivale a manipular o sentimento de culpa do ofensor, para não falar de seu carma. A própria vitória moral pode não ser tão moral assim, não só porque o sofrimento muitas vezes tem um aspecto narcisista, mas também porque torna a vítima superior, isto é, melhor que seu inimigo. No entanto, por pior que seja seu inimigo, o fato crucial é que ele é humano, e embora sejamos incapazes de amar o próximo como a nós mesmos, ainda assim sabemos que o Mal cria raízes quando um homem começa a pensar que é melhor que outro. (E é por isso que vocês são atingidos primeiro na face direita.) Na melhor das hipóteses, portanto, o que se pode ganhar oferecendo a outra face para o inimigo é a satisfação de chamar a atenção deste último para a futilidade de seu gesto. “Veja bem”, diz a outra face, “o que você está golpeando é apenas a carne. Não sou eu. Você não pode esmagar minha alma.” O problema desse tipo de atitude é que o inimigo pode resolver aceitar o desafio.



Vinte anos atrás, a seguinte cena ocorreu num dos inúmeros pátios de prisão do norte da Rússia. Às sete horas da manhã, a porta de uma das celas foi escancarada e, na soleira, apareceu um guarda, que disse a seus prisioneiros: “Cidadãos! O coletivo dos guardas desta prisão desafia vocês, os prisioneiros, para uma competição socialista para ver quem racha mais toras da lenha acumulada um nosso pátio”. Nessas regiões, não existe aquecimento central, e a polícia local, digamos assim, impõe a todas as madeireiras da região uma taxa equivalente a 10% de sua produção. No momento que estou descrevendo, o pátio da prisão parecia uma verdadeira serraria: as pilhas tinham de dois a três andares de altura, reduzindo a proporções diminutas o quadrilátero da própria prisão, que tinha apenas um andar. A necessidade de começar a rachar aquela lenha era evidente, embora competições socialistas desse tipo já tivessem ocorrido antes. “E se eu me recusar a tomar parte?”, perguntou um dos prisioneiros. “Bem, neste caso fica sem as refeições”, respondeu o guarda.

Machados foram entregues aos prisioneiros, e começou a atividade. Tanto prisioneiros quanto guardas se aplicavam seriamente ao trabalho, e ao meio-dia todos eles, sobretudo os prisioneiros, sempre subnutridos, estavam exaustos. Anunciou-se uma pausa e todos se sentaram para comer: menos o sujeito que tinha feito a pergunta. Ele continuou a brandir seu machado. Tanto os prisioneiros como os guardas trocaram piadas a respeito dele, algo sobre os judeus sempre terem sido considerados espertos, mas aquele… e assim por diante. Depois da pausa, reiniciaram o trabalho, embora com um pouco menos de energia, Às quatro horas, os guardas foram embora, porque seu turno acabava ali; um pouco depois, os prisioneiros também pararam de trabalhar. Mas o machado daquele homem continuava subindo e descendo. Várias vezes lhe disseram que parasse, mas ele não atendia. Parecia que tinha adquirido certo ritmo que não queria interromper; ou seria o ritmo que tinha se apossado dele?

Aos outros, ele dava a impressão de um autômato. Às cinco horas, às seis, o machado continuava subindo e descendo. Tanto os guardas quanto os prisioneiros o observavam agora atentamente, e a expressão sardônica em seus rostos foi aos poucos sendo substituída primeiro pelo espanto, e depois pelo horror. Às sete e meia o homem parou, voltou cambaleando para sua cela e caiu adormecido. Durante o resto de sua estada naquela prisão, nunca mais se formulou um desafio de competição socialista entre guardas e prisioneiros, embora a lenha continuasse a se acumular em pilhas no pátio.


Acho que aquele sujeito só foi capaz de passar doze horas seguidas rachando lenha porque naquela época era bastante jovem. Tinha apenas 24 anos. Era só um pouco mais velho do que vocês são agora. No entanto, acho que pode ter havido outra razão para seu comportamento daquele dia. É bem possível que aquele jovem – justamente por ser jovem – tenha se lembrado do texto do Sermão da Montanha melhor do que Gandhi ou Tolstoi. O Filho do Homem tinha o hábito de falar em tríades, e o jovem pode ter-se lembrado de que aquele importante versículo não acaba em:

            mas se alguém te ferir na tua face direita, oferece-lhe também a outra

mas continua, sem ponto e nem vírgula:

            e ao que quer demandar-te em juízo, e tirar-te a tua túnica, larga-lhe também a capa. E se qualquer te obrigar a ir carregado mil passos, vai com ele ainda mais outros dois mil.

Citados na íntegra, estes versículos têm na verdade muito pouco a ver com a resistência não violenta ou passiva, com os princípios de não responder na mesma moeda e de retribuir ao mal com o bem. O significado dessas linhas é tudo menos passivo, porque sugere que o mal pode acabar ficando absurdo pelo excesso; sugere que devemos tornar o mal absurdo, fazendo com que suas exigências se tornem minúsculas diante do volume de nossa obediência a elas, depreciando o sofrimento que nos causam. Este tipo de atitude deixa a vítima numa posição muito ativa, a posição de agressor mental. E a vitória que se pode conquistar neste caso não é moral, mas existencial. A outra face não se limita a manipular o sentimento de culpa do inimigo (sentimento que ele é perfeitamente capaz de aplacar), mas submete seus sentidos e suas faculdades à falta de sentido de todo o empreendimento: do mesmo modo como toda forma de produção em massa.

Quero lembrar que não estamos tratando aqui de uma situação que envolva uma luta justa, em condições de igualdade. Estamos falando de situações nas quais nos encontramos desde o início em uma posição inevitavelmente inferior, em que não temos a possibilidade de reagir lutando, em que as chances nos são esmagadoramente desfavoráveis. Em outras palavras, estamos falando das horas escuras de nossas vidas, nas quais nosso sentimento de superioridade moral em relação ao inimigo não nos dá alívio, nas quais este inimigo já foi longe demais para ainda se envergonhar ou sentir saudades dos escrúpulos que abandonou, nas quais só temos à nossa disposição nossa face, nossa túnica, nossa capa e um par de pés que ainda é capaz de caminhar mil ou dois mil passos.

Numa situação desse tipo, há pouco espaço para manobras táticas. Assim, virar a outra face deve ser uma decisão consciente, fria, deliberada. Suas possibilidades de vitória, por mais escassas que sejam, dependem totalmente da consciência que vocês tenham ou não do que estão fazendo. Ao avançarem o rosto com a face voltada para o inimigo, vocês devem saber que isto é apenas o início de sua provação, bem como do versículo – e devem ser capazes de se ver durante toda a sequência, através de todos os três versículos do Sermão da Montanha. De outro modo, uma frase entendida fora do contexto pode deixá-los inutilizados.


Basear nossa ética num versículo citado incorretamente equivale a cortejar o fracasso, ou então a nos transformar em burgueses mentais que decidiram entregar-se ao supremo conforto: o conforto de suas convicções. Nos dois casos (dos quais o último, culminando na filiação a movimentos marcados pelas boas intenções e a organizações sem fins lucrativos, é o menos palatável), isto resulta em ceder terreno ao Mal, em retardar a compreensão de suas fraquezas. Porque o Mal, volto a lembrar, é apenas humano.

A ética baseada neste versículo mal citado não mudou nada na Índia pós-Gandhi, exceto a cor de seus governantes. Do ponto de vista do homem faminto, porém, pouco importa quem provoque a sua fome. Admito que ele possa até preferir que seja um homem branco o responsável por seu triste estado, mesmo por que deste modo pode parecer que o mal social vem de outro lugar, e é menos eficiente, talvez, do que um sofrimento que lhe fosse infligido por seus semelhantes. Com um estrangeiro no poder, ainda sobra lugar para a esperança, para a fantasia.

Da mesma forma, na Rússia pós-Tolstoi, a ética baseada neste versículo mal citado minou boa parte da vontade da nação em seu confronto com um Estado policial. O que aconteceu já é muito bem conhecido: seis décadas virando a outra face transformaram a nação num imenso hematoma, e hoje o Estado, cansado de sua violência, limita-se a cuspir nesta face. Bem como na face de todo o mundo. Em outras palavras, se vocês quiserem secularizar o cristianismo, se quiserem traduzir os ensinamentos de Cristo em termos políticos, precisam de algo mais do que o palavrório moderno da política: precisam do texto original – pelo menos em suas mentes, se não houver lugar para ele em seus corações. Já que Ele era menos um homem bom do que um espírito divino, é fatal insistir em Sua bondade em detrimento de Sua metafísica.

Devo admitir que às vezes me sinto um tanto mal quando falo sobre essas coisas: porque virar ou não virar a outra face é, afinal, uma questão de foro íntimo. O confronto sempre ocorre em termos individuais, de um contra um. É sempre a sua pele, a sua túnica e a sua capa, e suas pernas, que terão que sofrer as consequências. Aconselhar, quanto mais insistir, sobre a maneira como cada um deve usar essas propriedades é, se não inteiramente errado, pelo menos indecente. Tudo o que pretendo fazer aqui, assim, é apagar de suas mentes um clichê que tanto mal fez a tantos e rendeu tão pouco. Também gostaria de instilar em vocês a ideia de que, enquanto continuarem tendo suas peles, suas túnicas, suas capas e seus pés, ainda não foram derrotados, por menores que sejam suas possibilidades.

Existe, porém, uma razão maior para sentirmos certo constrangimento em discutir essas questões em público, e não é apenas a relutância natural que vocês possam sentir em considerar a si mesmos, tão jovens, como vítimas em potencial. Não, na verdade é apenas a sobriedade, que nos faz antecipar que também entre vocês surgirão alguns vilões – e é má estratégia divulgar os segredos da resistência diante do inimigo em potencial. O que talvez nos livre da acusação de traição ou, pior ainda, de projetar o status quo tático para o futuro, é a esperança de que a vítima sempre será mais inventiva, mais original em seu pensamento, mais empreendedora que o vilão. Daí a possibilidade de que a vítima venha a triunfar.

(Williams College, 1984)

Tradução: Sergio FlaksmanO original pode ser encontrado aqui: http://www.nybooks.com/articles/archives/1984/aug/16/a-commencement-address/