domingo, 2 de fevereiro de 2014

Duas citações curiosas de O Caminho de Guermantes

Achei curiosas estas duas citações que encontrei em O Caminho de Guermantes, de Marcel Proust.
"As pessoas da sociedade ficavam estupefatas com aquilo [a duquesa de Guermantes ter abdicado da temporada de jantares do ano para visitar os fiordes da Noruega] e, sem se preocuparem em imitar a duquesa, sentiam no entanto, com o seu ato, a espécie de alívio que se tem em Kant quando, após a mais rigorosa demonstração do determinismo, descobre-se que acima do mundo da necessidade existe o da liberdade."
Sem dúvida, bem poucas pessoas passaram pela experiência desse alívio.
"Dentre os elementos que, ausentes dos outros dois ou três salões mais ou menos equivalentes que estavam à frente do faubourg Saint-Germain, diferenciavam destes o salão da duquesa de Guermantes, como Leibnitz admite que cada mônada, refletindo todo o universo, acrescenta-lhe algo particular, um dos menos simpáticos era habitualmente fornecido por uma ou duas mulheres muito belas que ali só se achavam por sua beleza, pelo uso que dela fizera o Sr. de Guermantes, e cuja presença revelava logo, como em outros salões, certos quadros inesperados, que, neste, o marido era um ardente apreciador das graças femininas. Todas se pareciam um pouco, pois o duque possuía o gosto das mulheres altas, a um tempo desenvoltas e majestosas, de um gênero intermediário entre a Vênus de Milo e a Vitória da Samotrácia, freqüentemente louras, raramente morenas, às vezes ruivas[...]"
Acho que a intenção de Proust não é explicar melhor as situações narradas, comparando-as com o pensamento de Kant e Leibnitz e com as estátuas gregas, mas, pelo contrário, chamar atenção para a filosofia e a escultura, usando como metáforas as situações que cria.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Proust, sobre a amizade

Achei curioso este trecho de O Caminho de Guermantes, em que Proust fala mal da amizade. Não publico por concordar com ele, mas pelo estranhamento que provocou em mim.

É interessante que ele cite Nietzsche, que é a base filosófica de grande parte de sua obra. Também chama a atenção que Proust enuncie expressamente um dos temas obsessivos de Em Busca do Tempo Perdido: a incomunicabilidade do que existe de mais importante no ser humano, incomunicabilidade essa que só pode ser vencida por meio da arte. O último ponto a ressaltar é que Proust certamente se via como (e era de fato) o artista que traz dentro de si uma obra-prima e cujo dever seria viver para trabalhar. Mesmo assim, adiou por anos o início de seu trabalho e de fato morreu antes de lhe dar a forma final.

Aqui vai o trecho:

«Já disse (e precisamente fora, em Balbec, Robert de Saint-Loup quem me ajudara, a seu pesar, a tomar consciência disso) o que penso da amizade, a saber: que vale tão pouco, que me custa compreender que homens de certo talento, como Nietzsche, por exemplo, tenham tido a ingenuidade de lhe atribuir um certo valor intelectual e, em conseqüência, recusar-se às amizades a que não estivesse ligada a estima intelectual. Sim, espantou-me sempre ver que um homem que levava a sinceridade consigo mesmo a ponto de se afastar, por escrúpulo de consciência, da música de Wagner, imaginasse que a verdade pode cumprir-se nesse modo de expressão, confuso e inadequado por natureza, que são em geral as ações e, em particular, as amizades, e que possa haver um sentido qualquer no fato de alguém deixar o trabalho para ir visitar um amigo e juntos chorarem ao saber da falsa notícia do incêndio do Louvre. Em Balbec, eu chegara a considerar o prazer de jogar com as moças menos funesto à vida espiritual, à qual pelo menos ele permanece alheio, do que a amizade, cujo esforço inteiro consiste em nos fazer sacrificar a única parte real e incomunicável de nós próprios (a não ser por meio da arte) a um eu superficial que não encontra, como o outro, alegria em si mesmo e sim o enternecimento confuso de se sentir sustentado por estacas externas, hospitalizado numa individualidade estranha, onde, feliz com a proteção que lhe é dada, faz reluzir seu bem-estar aprobativo e se maravilha com qualidades a que chamaria defeitos e buscaria corrigir em si mesmo. Além do mais, os difamadores da amizade podem, sem ilusões e não sem remorsos, ser os melhores amigos do mundo, da mesma forma que um artista que traz dentro de si uma obra-prima e que sente que o seu dever seria viver para trabalhar, apesar disso, para não parecer ou arriscar-se a ser egoísta, dá sua vida por uma causa inútil, e a concede com bravura tanto maior quanto mais desinteressadas fossem as razões pelas quais preferiria não concedê-la. Mas, seja qual for minha opinião acerca da amizade, até para só falar do prazer que ela me proporcionava, de qualidade tão medíocre que me parecia algo intermediário entre o cansaço e o tédio, não há beberagem tão funesta que não possa, em determinados momentos, tornar-se preciosa e reconfortante, dando-nos a excitação necessária, o calor que não conseguíamos encontrar em nós mesmos.»

Ainda as bibliotecas paulistanas

Levei meus filhos hoje outra vez à biblioteca municipal perto da minha casa. Havia dito que iria fotografar o formulário em que perguntam a cor da pele dos usuários.

Aqui está o comunicado:



E este é o formulário preenchido:



Como se pode ver, as opções de "raça" são: Amarela, Branca, Indígena, Parda, Preta e Não Declarada. A intenção expressada pela Prefeitura é "oferecer serviços e desenvolver políticas públicas mais próximas das necessidades do cidadão". Pretende-se fazer isso usando um conceito sem base na ciência ou na realidade, e que causou e ainda causa grandes males à humanidade.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Década Perdida, um saudável exercício de masoquismo

Década Perdida - Dez anos de PT no poder, de Marco Antonio Villa, faz uma recapitulação dos principais acontecimentos políticos no Brasil entre 2003 e 2012. Ler esse livro foi realmente um exercício de masoquismo.

De alguns fatos, tenho uma lembrança muito vívida. De outros, já havia esquecido e o livro me fez relembrar. Em praticamente todos, uma certa alegria por reviver cada sofrimento.

Em primeiro lugar, a decepção. Não votei em Lula em 2002, mas acreditava que ele pudesse fazer um bom governo. Começaram as bobagens do Fome Zero, mas eu pensava que qualquer governo pode fazer um pouco de jogo de cena, por bons propósitos. O PT tenta algumas reformas, a oposição vota a favor e a base aliada vota contra. OK, era assim no governo Erundina em São Paulo.

O divisor de águas, para mim, foi o caso do INCA, o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2003. O órgão foi loteado politicamente e o atendimento praticamente entrou em colapso. A partir daí, passei a me considerar em oposição ao governo.

E vamos lembrando, por exemplo, da vergonha alheia sentida quando Lula visitou a Namíbia e disse que a capital do país nem parecia uma cidade africana, era bonita e limpa. Vem o escândalo de Waldomiro Diniz, uma prévia do que seria o Mensalão. A tentativa de Lula de expulsar do país o repórter americano que escreveu que o presidente abusava da bebida. A tentativa de amordaçar a imprensa, com o famigerado Conselho Federal de Jornalismo.

Chegamos a 2005 com o Mensalão ocupando toda a atenção do país. Revejo José Genoino chorando no Roda Viva, ao dizer que os empréstimos ao PT eram legítimos. Lembro de que eu ia encontrar minha esposa para uma consulta pré-natal quando ouvi a notícia de que José Dirceu tinha deixado de ser ministro. O depoimento de Duda Mendonça, quando pareceu que o governo e o PT iam acabar. E a imensa, imperdoável, incompreensível pusilanimidade da oposição, que resolveu deixar para lá e esperar a eleição de 2006.

José Serra tinha nessa ocasião muito mais votos que Lula. Mas o esporte predileto da oposição sempre foi se autodestruir. Alckmin é o candidato. Acontece o escândalo dos aloprados. A oposição não sabe o que fazer e Alckmin aparece com aquela roupa ridícula, cheia de logotipos de estatais. Lula é reeleito.

Revivemos os escândalos de Renan Calheiros e José Sarney, Marta Suplicy, Ministra do Turismo, dizendo "Relaxa e goza" para os turistas que enfrentam dificuldades no Brasil. O caos aéreo de 2007 e o trágico acidente da TAM, em 17 de julho. Um amigo meu não pegou aquele voo porque se atrasou. Um funcionário da empresa em que trabalho esteve no prédio da TAM pouco antes de o avião colidir com ele. Um dos atos mais covardes e odiosos foi a repatriação forçada dos boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que tentaram desertar da delegação dos Jogos Panamericanos.

Temos então o surgimento de Dilma Roussef como candidata, o poste de Lula, a "mãe do PAC", seja lá o que isso signifique. E mais escândalos envolvendo Erenice Guerra. Mais brigas internas da oposição. Dilma, que mal sabe falar, é eleita com alguma facilidade. Temos aquele período em que caía um ministro por mês, quase todos por corrupção. E a imprensa e a oposição poupando o governo de si mesmo, evitando criticar os problemas com medo da popularidade da soberana.

Em 2012, temos pelo menos uma boa notícia, mesmo que incompleta, o julgamento do Mensalão.

Na conclusão, Marco Antonio Villa escreve:
"Não será tarefa fácil retirar o PT do poder. Foi criado um sólido bloco de sustentação que — enquanto a economia permitir — satisfaz o topo e a base da pirâmide. Na base, com os programas assistenciais que petrificam a miséria, mas garantem apoio político e algum tipo de satisfação econômica aos que vivem na pobreza absoluta. No topo, atendendo ao grande capital, com uma política de cofres abertos, em que tudo pode, bastando ser amigo do rei."

Lembrar cada um desses fatos é necessário. Precisamos trabalhar para que, em 2023, Marco Antonio Villa não tenha de escrever "Outra Década Perdida".

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bibliotecas paulistanas perguntam a cor da pele dos usuários

Costumo levar meus filhos à biblioteca municipal do bairro, mas fazia alguns meses que não íamos lá. Voltamos a visitá-la neste sábado.

Existe um formulário que todos os usuários preenchem na entrada, informando nome, faixa de idade, escolaridade, bairro em que moram. Agora, mais duas informações são solicitadas: profissão e "raça".

Escrevo "raça" entre aspas porque não existem raças de pessoas. Quem tem raça é cachorro, cavalo, boi. E as raças animais são o resultado do trabalho humano, que as produziu por meio da seleção artificial de espécimes e cruzamentos sucessivos. Os seres humanos são misturados, felizmente.

O que a biblioteca chama de "raça" é a cor da pele. Não me lembro exatamente de quais eram as opções. Quando formos lá de novo, vou tentar fotografar o formulário.

Não sei qual é a intenção da Secretaria Municipal de Cultura em levantar essa informação. Não consigo imaginar utilidade para ela. Não acho que seja saudável classificar as pessoas pela cor da pele, seja na biblioteca ou em qualquer outro lugar. Existe racismo na nossa sociedade e o racismo deve ser combatido. A única forma que vejo para acabar com o racismo é convencer as pessoas de que as "raças" são uma ficção, sem base na realidade, e que todas as pessoas, independentemente da cor da sua pele, pertencem à raça humana. A iniciativa da Secretaria vai no sentido contrário.

Escrevi no formulário: "Essa pergunta é nazista!" Estou preparando algumas respostas para as próximas vezes:
- Zebu, Manga Larga, Chihuahua.
- Perguntem ao Conde de Gobineau.
- Perguntem a Josef Mengele.
- "Sonho com um mundo em que meus filhos sejam julgados por seu caráter, não pela cor de sua pele." Martin Luther King Jr.

Aceito sugestões para outras respostas.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges

Estou tentando ler em 2014 o que não consegui em 2013. Neste final de semana, li O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges.

Aprecio muito os contos de Borges. Ele cria atmosferas opressivas e ficamos felizes porque não são reais. São frequentes os desfechos surpreendentes, a violência repentina, as referências à arte, especialmente literatura.

O conto de que mais gostei foi "O Suborno", que conta a história de um conflito entre dois professores de inglês antigo em uma universidade americana. "Avelino Arredondo" também é muito bom. Narra, de maneira romanceada, extremamente sutil e original, um fato da história do Uruguai. E "A Noite das Dádivas" é uma história intensa de passagem do mundo da infância para o mundo adulto. De todos, o que menos me agradou foi aquele que Borges mais apreciava, "O Congresso". Talvez não o tenha entendido bem.

sábado, 4 de janeiro de 2014

O Deus da Máquina, capítulo XVI


No capítulo XVI de O Deus da Máquina (As Grandes Empresas e a Lei de Status), Isabel Paterson resume as origens da legislação antitruste e analisa sua lógica e suas consequências para a economia e a sociedade.

Após a Guerra Civil, o governo federal americano incentivou as ferrovias a se expandirem para o oeste, com o objetivo de integrar melhor o país. Isso foi feito por meio de subsídios e concessões de terra. Embora a ferrovia fosse um meio de transporte tremendamente mais barato e rápido que as alternativas anteriores, o resultado do auxílio governamental foi a criação de um monopólio. As ferrovias eram odiadas pelos fazendeiros do oeste porque constituíam um monopólio. Se houvesse qualquer tipo de problema, os usuários não tinham nenhuma outra opção.

Depois das ferrovias, houve o caso da Standard Oil Company. Essa grande empresa pioneira usou de meios políticos para conseguir benefícios fiscais nos fretes ferroviários. Ao fazer isso, tornou-se objeto de execração pela opinião pública americana.

O único remédio possível para o abuso de poder político é limitar o poder político. Foi feito o inverso. Houve um movimento para "regular" as grandes empresas. Criou-se uma legislação aberrante, sob a qual ninguém sabe exatamente o que é proibido. Se uma empresa vender seus produtos mais caro que seus concorrentes, pode ser acusada de "cobrar demais". Se vender mais barato, pode ser acusada de "vender a preços inferiores". Se vender pelo mesmo preço que eles, pode ser acusada de "combinação de preços".

A legislação abusiva começou enquadrando grandes empresas, mas afeta cada cidadão. O primeiro sintoma de um governo totalitário é o controle político da vida econômica. O ato de trabalhar passa a ser criminalizado e o ser humano precisa de permissão para produzir. A consequência lógica desse processo é que o indivíduo precise de permissão para existir.