sábado, 7 de setembro de 2013

Uma visita a minha mãe

Minha esposa e meus filhos foram comigo hoje à casa da minha mãe. É a primeira vez que eles vão lá desde que meu pai sofreu o acidente. Nesse meio tempo, estive lá muitas vezes e minha mãe também veio muitas vezes à nossa casa. Mas irmos lá juntos, como fazíamos sempre, é a primeira vez.

De manhã, estávamos nos arrumando para sair. Meu filho colocou um tênis novo, de dinossauro. Ele disse: "Vou mostrar pra vovó e pro vovô. Na verdade, só pra vovó." As crianças dizem isso naturalmente, sem passar por nenhuma emoção forte. Fui pensando nisso o caminho todo.

Andei com as crianças na mata atrás da casa, como fazíamos com meu pai. Separamos alguns livros e ferramentas. Minha mãe se desfez de algumas coisas, ainda vai se desfazer de outras.

Revirando coisas, ela encontrou no sótão alguns discos de vinil de quando eu era criança. Um toca-discos que foi da minha tia está agora com minha mãe e funcionando. Toquei para as crianças um disquinho que ela ganhou quando eu nasci, ou quando minha irmã nasceu. "Acalanto", com uma música de ninar cantada como se fosse por uma mãe índia:

"A rede vai,
A rede vem.
A noite cai.
Dorme neném."

Lembro da minha infância e choro com minha filha no meu colo.

Toquei para eles também um disquinho com a narração de um gol de Jairzinho, provavelmente na Copa de 70. Do outro lado, o hino da seleção: "Noventa milhões em ação..." Essas lembranças só significam alguma coisa para mim. Talvez, também para minha irmã. Acho que ninguém mais ouviu esse disco. Se ouviu, não deve ter sido na vitrola azul da Philips que a gente tinha. Mesmo que tivesse sido, não foi na casa em que morávamos, no quarto em que eu espalhava meus carrinhos.

A casa está lá, mas não vai estar por muito mais tempo. Coisas de infância perdidas há muito tempo reaparecem. Uma coleção de moedas, uma coleção de chaveiros, minha carteirinha de escola da sexta série. E coisas presentes, com as quais estamos tão acostumados, estão indo embora a cada dia.

Posso compreender racionalmente as mudanças que acontecem na vida e me esforçar por reagir com serenidade. Mas meus sentimentos não conseguem aceitar de fato que meu pai não está mais aqui.

domingo, 1 de setembro de 2013

O Deus da Máquina, capítulo VIII

Grupo de Dukhobors canadenses, fotografados em 2001.
No capítulo 8 de O Deus da Máquina (A Falácia do Anarquismo), Isabel Paterson afirma que somente sociedades primitivas podem funcionar sem governo.

A partir do momento em que uma sociedade chega ao estágio de possuir agricultura ou pecuária, as relações entre seus membros passam a depender do espaço e do tempo. Seus acordos e suas regras precisam funcionar por longos períodos e à distância. Isso não é viável se não existir um governo que garanta o cumprimento desses acordos e dessas regras.

Isabel nega que o governo possa ser baseado na força. Numa tribo, ou em qualquer tipo de sociedade, o mais forte dos homens não é mais poderoso que qualquer pequeno grupo que decida se opor a ele. Não é possível se impor pela força física, somente pela força moral.

A Falácia do Anarquismo


O Deus da Máquina, capítulo VIII
A Falácia do Anarquismo
Isabel Paterson

Grupo de Dukhobors canadenses, fotografados em 2001.
Depois de ter afirmado que os selvagens não tinham governo, chamar o anarquismo de falácia parece uma clara inconsistência. Mas devemos ter em mente que o modo de conversão de energia deve corresponder ao modo de associação. A anarquia é viável apenas entre os selvagens. Tentou-se adotar a anarquia numa economia agrícola, que é mais avançada, e o resultado é altamente instrutivo. A seita religiosa dos Dukhobors1 repetiu essa experiência exaustivamente. Dentro de seus limites, sua argumentação era completamente consistente. Estavam determinados a não ter nenhum tipo de governo, nem mesmo autogoverno, como o termo é entendido para descrever uma organização formal. Um jornalista2 que estudou uma colônia Dukhobor no Canadá pediu que um membro da colônia prometesse não queimar algumas anotações manuscritas, se elas fossem largadas por ali. Seria o tipo de promessa mais fácil de ser cumprida, consistindo simplesmente em se abster de um ato que nenhuma circunstância imaginável poderia tornar necessário. O Dukhobor respondeu que “não desejaria queimar aquelas anotações”. O jornalista reconheceu que, sem dúvida, o Dukhobor naquele momento acreditava que não o faria, mas e se mudasse de ideia depois? Nesse caso, disse o Dukhobor, “se o Espírito me induzisse a fazê-lo, então eu teria de queimá-las”.

A essência do autogoverno consiste em manter promessas; a organização formal é instituída por acordo e seu poder é delegado com o objetivo de sustentar o contrato que se estabeleceu pela livre vontade das partes — o contrato encarnado na Constituição e os contratos privados entre indivíduos. Os Dukhobors eram completamente lógicos em evitar o primeiro passo na direção do autogoverno, uma vez que não desejavam ter nenhum tipo de governo. Mas a seita, durante sua existência, alternou-se entre disputas que paralisavam a produção e lideranças autocráticas que tomavam arbitrariamente para si uma grande parcela do que era produzido. Esse é o resultado inevitável da tentativa mais cuidadosa de permanecer numa condição de anarquia depois que a relação moral entre os membros da comunidade se estendeu no espaço e no tempo de maneira a permitir uma economia mais desenvolvida que a dos selvagens. Muito trabalho é perdido; e os membros da comunidade são submetidos a infortúnios, pobreza e ignorância.

É fácil descobrir o estágio de desenvolvimento a partir do qual o governo se torna necessário; e sua correspondência ao modo de conversão de energia pode ser claramente percebida, ou a não-correspondência quando a sincronização não está correta. O que ainda não foi elucidado é a relação específica entre o mecanismo de governo e a ordem produtiva. Isso levou a várias conjecturas conflitantes sobre a origem e a natureza do governo. Uma teoria da história afirma que o governo surge da guerra e, portanto, é a força em si. Isso é duplamente falso, uma vez que é o oposto da relação real. Essa teoria foi adotada por filósofos comprometidos com a doutrina do Estado Absoluto, porque é o único argumento possível que parece dar a eles uma base factual; mas ela reside unicamente no erro de post hoc, ergo propter hoc3.

Governo pela força é uma contradição em termos e uma impossibilidade física. A força é o que é governado. O governo se origina na faculdade moral.

A relação de subordinação da força à faculdade moral é autoevidente se considerarmos a localização da fonte da energia aplicada nos assuntos humanos; e essa relação pode ser demonstrada pelo mecanismo de todos os modos conhecidos ou imagináveis de associação humana. A forma mais antiga de sociedade, que se alimentava da extração direta da natureza e se mantinha unida pelo instinto de espécie, é a sociedade dos selvagens. Acredita-se que os esquimós apresentem uma cultura da Idade da Pedra sobrevivendo até hoje, muito pouco modificada até tempos recentes. Seu habitat não permite a acumulação de posses além de objetos transportáveis e pequenas provisões de alimento; eles não podem ter esperanças de melhorias em sua sorte além de uma margem obviamente estreita. A velhice é curta; incompetência, doença ou incapacidade grave significam a morte. O casamento é uma parceria de trabalho facilmente dissolvida; e o comportamento sexual é correspondentemente lasso. O processo de conversão de energia tem o menor circuito possível, com o homem como caçador trazendo matérias-primas e a mulher imediatamente transformando-os em bens de consumo; esse é o circuito de manutenção, e os filhos são o de reposição. O grupo não pode crescer demais; precisa se dispersar e vagar, e não pode estabelecer um local regular de assembleia. Portanto, não possui um chefe secular. Nenhum esquimó tem autoridade sobre outro; mas Stefansson4 observa que, sem buscar essa posição, os homens mais capazes possuem influência sem terem privilégios. Sob necessidade extrema, que é o molde do simples costume, os esquimós realmente não têm governo, nem estrutura política, nem qualquer tipo de agência.

Os esquimós não guerreiam. Sua energia é absorvida na luta imediata pela existência; e seu ambiente, a desolação branca do Ártico, elimina o possível aspecto da guerra como esporte, que consiste em surpresa, fuga e perseguição.

Em regiões temperadas, os selvagens guerreiam; e ainda assim não têm governo formal. Mas a guerra e a liderança, com um conselho informal, parecem ser criações síncronas. É o que dá plausibilidade à teoria de que o governo se origina na guerra e, portanto, o governo em si é força. O erro só pode permanecer se rejeitarmos tanto os fatos do comportamento selvagem como os testemunhos específicos de selvagens inteligentes sobre o significado e o objetivo do que se chama de conselho de guerra. O ponto significativo é que, no início, nem o chefe nem o conselho tinham poder algum. Exerciam apenas influência reconhecida. O chefe não tinha continuidade de mandato nem autoridade positiva. O conselho e o chefe debatiam quando a havia probabilidade de guerra; mas a razão manifesta de suas exortações era sugerir prudência, ou seja, falar pela paz. Isso foi registrado por um chefe famoso, o velho Seattle5, que foi fundamental para unir diversas tribos da costa do Pacífico. Quando os homens brancos chegaram, ele percebeu que seu povo estava liquidado. Num discurso de despedida, ao concordar com um tratado, explicou, recapitulando a função do chefe simplesmente como uma questão de fato:

A juventude é impulsiva. Quando nossos jovens se enfurecem com alguma injustiça real ou imaginária, e desfiguram seus rostos com pintura negra, isso indica que seu coração está negro, e então eles costumam ser cruéis e implacáveis, e nossos velhos e mulheres são incapazes de contê-los. Assim sempre foi. A vingança, para os jovens, é considerada um benefício, mesmo à custa de sua própria vida, mas os velhos, que ficam em casa em tempos de guerra, e as mães, que podem perder seus filhos, não se enganam dessa maneira.”6,7

O chefe Seattle descreveu um fenômeno físico incontestável, um desvio do excedente de energia. Obviamente, a guerra primitiva pode ser iniciada e realizada por impulso da parte dos combatentes. Nessas condições, não poderia ser conduzida por nenhum outro meio. Se os jovens estivessem com disposição militante, nada poderia contê-los, exceto a persuasão. Eles são a força. Assim, o conselho podia ou impedir a guerra por influência moral, ou aprová-la, ou admitir sua incapacidade de proibi-la, preparando-se para fazer a paz depois. Em nenhuma hipótese o conselho, os velhos, poderia aplicar a força, nem para impedir nem para provocar a guerra. O conselho simplesmente não tinha a força. Da mesma maneira, nessas hostilidades primitivas, nenhum comando oficial é possível; cada homem deve lutar por si mesmo. O chefe poderia oferecer conselhos sobre estratégia pura e dar exemplo de bravura e habilidade. Isso era tudo. Consequentemente, era escolhido tanto pela sabedoria como pela coragem. Portanto, sua posição não dependia da força contra seu próprio povo. Isso seria impossível. Bravura pessoal não é mais que a força de um único homem, enquanto a tribo é composta por muitos. Onde a liberdade de movimento é necessária para a sobrevivência, um homem forte não tem como dominar um único inferior por intimidação; ele obviamente não consegue subjugar muitos. O chefe e o conselho não davam ordens positivas porque não tinham meios de obrigar a obediência. Crimes contra pessoas estavam sujeitos à retaliação pessoal; infrações graves aos costumes podiam ser punidas por um comitê de todos, que fariam o infrator passar por um corredor polonês, ou o expulsariam da tribo.

Poder-se-ia sugerir que pelo menos uma minoria composta pelos mais fortes poderia comandar pela força os membros mais fracos da tribo; mas até para tentar isso, seria necessária uma base de concordância adotada pela junta. A expectativa de pilhagem ou tributo requer um acordo sobre a divisão do espólio. “Honra entre ladrões” revela que uma base moral continua sendo indispensável.

Para análise, é necessário separar os sucessivos estágios culturais que utilizam diferentes modos de conversão de energia. É conveniente chamar o passo imediatamente acima da selvageria de barbarismo. A cultura bárbara, embora ainda nômade, possui rebanhos. É nesse estágio que surge a necessidade de algum tipo de governo, com a extensão das relações humanas no tempo e no espaço. Quando o problema é colocado nestes termos, podemos pensar que os hábitos errantes dos selvagens levam a uma relação espacial. Ao contrário, esses hábitos evidenciam a falta dessa relação, porque nada é deixado para trás. As relações morais entre indivíduos adultos e as relações de grupo dadas pela economia são resolvidas imediatamente. Dois homens que desejam brigar podem lutar ali mesmo; o espaço entra na questão apenas como uma possibilidade de fuga. Maridos e mulheres que não conseguem concordar podem se separar e tomar novos parceiros. Não há como conservar os alimentos, então estes devem ser consumidos de uma vez e, portanto, serão divididos. Não se conhece o tipo de acordo que precisaria ser executado à distância. A relação moral dos selvagens se estende de fato no tempo, como a que afeta pais e filhos; mas o instinto governa essa relação, exceto em casos extremos. Quando o ônus dos idosos se torna impossível de administrar em bases naturais, os velhos são abandonados para morrer. Portanto, a ideia de posse, na vida selvagem, é vaga e pragmática. Artigos pessoais estão de posse de quem os usa. O uso do território é elástico. Em outros casos, “quem chega primeiro é atendido primeiro” e “achado não é roubado” funcionam como regras. Na caçada, quem vê a caça tem o direito de matá-la. Quem está ausente não pode reclamar.

Mas a pecuária, mesmo que não seja mais que tanger os animais em pastos selvagens, envolve uma relação de espaço-tempo entre seres humanos. Toda propriedade é um direito que se estende no tempo. É necessário vigiar os animais; eles não podem ser mortos nem o produto consumido, exceto por seu dono. O fator espaço-tempo é, da mesma maneira, introduzido pela agricultura primitiva, entre o plantio e a colheita, impondo um direito sobre lotes de terra e sementes a serem conservadas. Portanto, os bárbaros concedem poder positivo a seu chefe; sua palavra tinha de ser imposta, não imediatamente, mas à distância, enquanto estivesse de acordo com os costumes e os direitos de propriedade.

Para evitar uma quebra de autoridade, ou seja, na relação temporal, surgiu o princípio hereditário. Suas variações curiosas, como sucessão matrilinear e, em alguns lugares, legado ao filho mais novo em vez do mais velho (“borough English”), são o que pode ser chamado de dispositivos de engenharia para engrenar o sistema no menor espaço e distância pela conexão física obviamente existente. O parentesco de uma criança com sua mãe é incontestável; e o filho mais novo ainda estaria em casa quando os mais velhos saíssem e se tornassem independentes. Em qualquer dos casos, a força obedece à sanção moral.

Entretanto, o sistema hereditário não pode ser invariável; a natureza outra vez proíbe essa determinação.8 A sucessão pode falhar ou, se recair em um infante, torna-se temporariamente ineficaz e sujeita a ser questionada. Para essas emergências, algum recurso que lembre a escolha eletiva deve ser postulado. Mesmo com a dinastia “divina” do Japão medieval, embora o trono fosse reservado para uma linha de descendência, o princípio foi obscurecido porque a monogamia era costume; e por costume o imperador abdicava depois de um reinado curto e nominal, quando um novo monarca era escolhido pelos grandes nobres dentre alguns candidatos de sangue real. No Império Otomano, a morte do Sultão significava uma súbita tomada de poder por qualquer de seus descendentes ou parentes que tivesse apoio suficiente; então, o novo Sultão prontamente exterminava todos os outros pretendentes, assassinando seus irmãos, sobrinhos e tios imediatamente. Não há nada de novo nos “expurgos de sangue” dos rivais pelos ditadores modernos. Sempre que não se tem meios legítimos de sucessão política, esses expurgos acabam ocorrendo. E a forma do voto não é suficiente; se a energia da nação foi corrompida de maneira que as eleições são controladas de cima, compradas com o dinheiro dos impostos, esse recurso à violência logo será adotado.

Uma vez que o princípio eletivo existe na natureza das coisas, sendo a base da monarquia, sempre que a monarquia se torna opressiva demais, o princípio eletivo é evocado. O que quer que seja que faz os reis pode desfazê-los. Na Europa, embora a monarquia feudal fosse o costume prevalecente por mil anos e tivesse o suporte triplo do costume consolidado, do comando militar e do padrão da sociedade baseada na família, ainda assim a pretensão dos reis de governar por direito divino e exercer o poder absoluto nunca foi admitida em teoria por nenhuma nação, nem tolerada de fato por muito tempo sem franca rebelião. A resistência era constante e, como último recurso, a resposta era o assassinato. E este é uma refutação genuína à transgressão real em seus próprios termos, não menos lógico que o regicídio por deliberação legal que indicia o rei por traição. Em teoria, o nobre (como chefe de família) era nobre por status, tendo nascido nessa condição; o rei era rei apenas por contrato, “o primeiro entre seus pares”. O juramento de fidelidade, renovado para cada rei, é um contrato. O gravame da acusação de traição contra um rei é que ele ultrapassou sua atribuição ou justa autoridade por força usurpada. E, em termos de físicos, um homem é aproximadamente tão forte quanto qualquer outro. Assim, a verdade inicial é novamente exposta sempre que um cidadão ou súdito é suficientemente resoluto; a força não pode impor a obediência na ordem social. O que ela pode provocar é a morte, seja do súdito, seja do rei.

Quando o assassino é mentalmente sadio e age por causa de um descontentamento estritamente político, o assassinato é um sintoma de um grave defeito no mecanismo, uma conexão relativamente fraca, ou um ponto de pressão desproporcional, onde ocorre uma ruptura. Em termos de mecanismo, ele para a máquina até que a peça quebrada seja substituída; mas não institui e não pode instituir um tipo melhor de mecanismo. Num dado momento, o governo deixa de existir e tem de ser retomado por um ato moral, a aceitação do novo governante. Tais quebras repetidas naturalmente enfraquecem a sanção moral. Mas, também nisso, evidenciam a relação do governo com a força. Um súdito morto deixa de ser súdito; e um rei morto deixa de ser rei. Quando a força é o árbitro, o governo cessa.

É assim por causa da natureza intrínseca do mecanismo político, que é e deve ser o mesmo, seja qual for a forma. O governo é um instrumento de negação, e nada mais. Quando o governo começa a depender da força ou da intimidação, se os vários fatores envolvidos puderem ser conhecidos com exatidão e expressos numa equação matemática relacionada com o aumento da força, a soma informaria o tempo restante antes que o governo ou a nação ou ambos ruíssem. O evento dependerá do volume de energia em uso para produção e do tipo de governo imposto, no que se refere à estrutura, mecanismo e peso morto. Se a energia é suficiente para esmagar a estrutura e o mecanismo, isso acontecerá (por meio de guerra, guerra civil, revolução). A menos que a liberdade seja recuperada, o modo de conversão de energia decairá para um nível mais baixo e a população, pela guerra e pela fome, será reduzida a uma quantidade menor, que pode subsistir naquele nível. Esse processo está ocorrendo agora na Europa. A causa primária foi a introdução de um alto potencial de energia — o desenvolvimento industrial — na Alemanha, quando a forma política não podia acomodá-lo. Enquanto a indústria ganhava velocidade, durante o século dezenove, as mudanças políticas foram na direção contrária, mais e mais poder se acumulando no governo sob medidas “socializantes”. A explosão presente é o resultado.

Uma tentativa de retornar a um tipo de associação adequado a um potencial mais baixo de energia vai resultar nisso. O método de aconselhamento informal é adequado a uma sociedade nômade selvagem. Em tais condições, a falta de estabilidade do chefe é salutar. Uma escolha infeliz tem conserto rapidamente. A liderança é obrigada a se justificar diariamente. Numa sociedade assentada e produtiva, a liderança é completamente impraticável, porque a continuidade é necessária, com o fator espaço-tempo na economia. Os dois não podem existir juntos, porque foi perdida a característica essencial da liderança, a deposição sem derramamento de sangue do líder pelo abandono de seus seguidores. Com instituições permanentes, a forma de governo deve incluir mandatos estáveis; isso não significa pessoas irremovíveis, mas o contrário; significa a mudança legítima das pessoas em cargos com poderes definidos. Quando se experimenta a “liderança”, em vez disso, o que pode ocorrer é uma manifestação degenerada e temporária, o governo da popularidade, pelo qual as instituições permanentes são subvertidas para tornar o líder irremovível. As características de ambos são assim negadas, cancelando-se o elemento moral, como se evidencia pelo fato de o líder negar suas próprias credenciais por meio do recurso imediato à força e à intimidação.

Em termos de mecanismo, o controle é desconectado com o motor ainda funcionando. A consequência é a colisão externa e o rompimento interno, mais ou menos simultaneamente. Um regime de popularidade é eficaz para começar uma guerra; e tem de fazer isso. Se a energia e o mecanismo engatado são os de uma sociedade produtiva com uma capacidade excedente considerável, o regime provavelmente parecerá inicialmente estar tendo um enorme sucesso na agressão, a marcha de um Alexandre ou de um Napoleão, para terminar se desintegrando em guerra civil e possivelmente com a sujeição a uma potência estrangeira. As duas coisas são diferentes aspectos do mesmo fenômeno físico, da massa deslocada se espatifando pela quantidade de movimento, esmagando qualquer coisa que esteja em seu caminho enquanto se despedaça por causa de seu próprio peso e impacto. O império napoleônico foi essa trilha de destruição.9 Um século antes, Luís XIV preparou o rastilho de pólvora para ela. Seu ministro Colbert estimulou a indústria sob monopólio, o que permitiu que Luís reduzisse a ordem aristocrática à impotência e transferisse o mecanismo de governo a uma burocracia. Assim, a antiga estrutura da França foi tornada obsoleta, mas continuou como um peso morto e manteve a nação mais ou menos estacionária, frustrando os esforços de Luís de colocar a massa em movimento por meio de suas guerras. Em seguida, quando o peso morto (que infelizmente não tinha outro objetivo) foi jogado fora — ou seja, a aristocracia foi formalmente despojada de seus privilégios — a energia acumulada foi liberada e intensificada pela proclamação de liberdade e igualdade. Mas essa energia torrencial foi jogada numa sociedade que não entendeu a relação entre o mecanismo e a base. O próprio Napoleão era pouco mais que um testa-de-ferro lançado na frente da massa em movimento. A energia dilacerou a nação, arremessou fragmentos dela em cada canto da Europa na forma de exércitos e só se apaziguou por desintegração e inércia. Napoleão foi o primeiro dos “líderes” modernos. O que um potencial realmente elevado pode fazer nessa linha é dolorosamente evidente.

Quando a palavra líder10, ou liderança, retorna ao uso corrente, ela implica em uma recaída no barbarismo. Para um povo civilizado, é a palavra mais agourenta em qualquer idioma.


1 Grupo religioso de origem russa, que surgiu provavelmente no século XVII. Eles rejeitam o governo secular, os sacerdotes ortodoxos russos, os ícones, a liturgia, a Bíblia como fonte suprema da revelação divina e a divindade de Jesus. Por suas crenças pacifistas e pelo desejo de evitarem a interferência governamental em suas vidas, a quase totalidade do grupo emigrou do Império Russo para o Canadá no final do século XIX. Hoje, a população estimada de Dukhobors é de 40.000 pessoas no Canadá e 5.000 nos Estados Unidos. (N. do T.)

2 SLAVA BOHU: The story of the Dukhobors. J. F. C. Wright. (N. da A.)

3 Expressão latina que significa “depois disto, portanto em consequência disto”. Falácia lógica que consiste na ideia de que dois eventos que ocorrem em sequência cronológica estão necessariamente ligados por uma relação de causa e efeito. (N. do T.)

4 STEFANSSON, Vilhjalmur. My life with the Eskimo; The Macmillan Company, New York, 1912. (N. do T.)

5 Seattle foi um chefe dos índios Duwamish, também conhecido como Sealth, Seathle, Seathl e See-ahth. Buscou formas de acomodação entre os índios e os colonos brancos. A cidade de Seattle, no estado de Washington, tem esse nome em homenagem a ele. (N. do T.)

6 GATEWAY OF THE NORTH. De Archie Binns. (N. da A.)

7 O discurso que Isabel Paterson cita teria ocorrido em 11 de março de 1854, numa reunião convocada pelo governador Isaac Ingalls Stevens, para discutir a venda de terra dos nativos para colonos brancos. Seattle falou na língua lushootseed. Alguém traduziu o que ele disse para a língua chinook e uma terceira pessoa traduziu dessa língua para o inglês. Trinta e três anos depois, Henry A. Smith publicou esse texto, observando-se que se tratava de um fragmento do discurso. Pode ser encontrado em http://www.chiefseattle.com/history/chiefseattle/speech/speech.htm. Não é possível se saber realmente o que dizia o discurso original. (N. do T.)

8 Quando se argumentou que o bem do reinado exigia que Henrique VIII se desfizesse de sua rainha e se casasse novamente para gerar um filho que herdasse o trono, um opositor perguntou: “Quem prometeu a ele um filho?” (N. da A.)

9 Como parte dessa destruição foi de instituições obstrutivas e obsoletas, não se percebia que ela era aleatória, embora certamente fosse. Milhões de pessoas também foram destruídas, em pilhas dilaceradas. (N. da A.)

10 Em alemão, Führer. Em italiano, duce. (N. do T.)

O Deus da Máquina, capítulo VII

No capítulo VII de O Deus da Máquina (O Nobre Selvagem), Isabel Paterson ressalta o assombro que tomou a Europa quando se descobriu que algumas tribos de índios americanos não tinham governo. Mesmo assim, viviam em relativa paz. Os europeus acreditavam que a ausência de governo representaria fatalmente a guerra de todos contra todos. Se não era assim na América, os índios americanos deveriam ser essencialmente bons. Essa é a origem do mito do Nobre Selvagem.

Para os colonos americanos, o índio era um inimigo presente e cruel. Essa diferença de percepção talvez seja a origem do cisma entre as ideias europeias e americanas. Os americanos, em contato direto com a vida selvagem, não tinham porque idealizá-la. Mas podiam notar que a necessidade de governo era relativa. Como diz Isabel: “Se, em certas condições, o governo pode ser completamente dispensável, por que e até que ponto ele é realmente necessário em qualquer condição?” Os americanos observavam a sociedade de status funcionando na Europa. Viam as sociedades selvagens dos nativos americanos. E viam, principalmente, a sociedade que construíram, na qual pessoas das mais diferentes origens e crenças conviviam em paz e prosperavam num ambiente de grande liberdade. Além de tudo isso, viam a grande aberração da sociedade americana, a escravidão. A maioria dos problemas sociais trazidos da Europa não foi resolvida, simplesmente evaporou.

Os americanos procuraram criar um tipo de governo que permitisse a paz e a liberdade. Sabiam que o governo era um mal necessário, que devia ser mantido tão pequeno quando possível e agir somente quando provocado. Esse governo deveria reconhecer o direito dos indivíduos à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Postularam que a fonte da autoridade secular era o indivíduo.

Nessa visão, o homem não é totalmente nobre nem incorrigivelmente mau. É uma criatura imperfeita, dotada da fagulha divina e, portanto, capaz de progredir. Isso é uma aplicação secular da doutrina cristã do livre-arbítrio, que permite o pecado e o erro, mas possibilita a salvação. Isabel Paterson considera que é impossível reescrever a Declaração de Independência dos Estados Unidos sem a referência à fonte divina dos direitos humanos.

O Nobre Selvagem


O Deus da Máquina, capítulo VII
O Nobre Selvagem
Isabel Paterson

A primeira generalização abstrata feita pelos europeus sobre os aborígenes americanos foi que as tribos menos civilizadas não tinham governo.1 A Europa estava tão distante dessa condição que foi tomada de assombro. O fato deu origem ao mito do Nobre Selvagem. Hoje, esse conceito parece uma fabricação gratuita, porque foi traduzido em forma poética e pictórica. O Nobre Selvagem era originalmente um silogismo, uma construção lógica a partir das premissas da teoria europeia de governo. A autoridade secular residia na sociedade, que era uma entidade; e os homens nasciam submetidos a ela. Imaginava-se que, sem governo, a mão de cada homem se levantaria contra seu próximo e todo tipo de crime seria cometido por todos. Possivelmente, a memória das invasões bárbaras contribuiu para essa crença; ao mesmo tempo, a doutrina do pecado original pode ser interpretada de maneira a confirmá-la. E, uma vez que certamente havia crimes sendo cometidos em profusão, parecia razoável supor que mais crimes haveria se os indivíduos tivessem mais liberdade de ação. Como ou por que uma sociedade composta de indivíduos ávidos por assassinar restringiria seus membros pela força pode parecer incompreensível, especialmente quando a Igreja exercia uma autoridade superior à da organização secular, porque apelava à consciência individual, intervindo em disputas armadas com prescrições morais. Mas, para explicar essa inconsistência, apelava-se à missão divina confiada à Igreja. A ordem da sociedade secular fazia necessário prender os homens a uma dada localidade e a uma dada classe e, portanto, determinar o que eles deviam ou não fazer, dizer, escrever ou pensar. Tanto o exílio como a “prisão preventiva”, encarceramento sem julgamento (como por lettre de cachet2) são consequências extremas dessa teoria.

Assim, foi um choque profundo descobrir que havia menos crime entre selvagens sem governo que numa sociedade com um governo autoritário que regulava detalhes da vida dos súditos. Os selvagens praticavam a maioria das virtudes seculares: coragem, hospitalidade, sinceridade, lealdade, talvez até a castidade. É verdade que guerreavam e eram às vezes cruéis, mas os europeus guerreavam e haviam legalizado a tortura.

Porém, os homens não abandonam facilmente uma opinião por meio da qual justificaram suas instituições. Portanto, só se podia concluir que os selvagens eram peculiarmente nobres por natureza; ou, pelo menos, assim eram os selvagens americanos.3 O Nobre Selvagem não era uma criação inteiramente nova; Tácito havia idealizado os bárbaros da mesma maneira, enquanto os bárbaros permaneciam a uma distância segura. Só a racionalização era nova. Mas o Nobre Selvagem passou para a mitologia europeia sem ter obtido crédito na América. Os primeiros colonos brancos, para quem o selvagem era um inimigo presente e sanguinário, podiam não tomar conhecimento de suas virtudes. Exatamente nesse ponto começou o cisma ou a divisão entre as ideias políticas americanas e europeias.

O impacto de um sistema de alta energia em outro de energia menor tem um efeito interno sobre este último que é muito mais desagregador e conclusivo que as consequências diretas da guerra. Por exemplo, se os índios norte-americanos recebessem armas de fogo e munição para seu próprio uso, mantendo todo o restante como era antes, seu modo de vida seria gravemente perturbado. A população ideal que uma economia caçadora consegue sustentar é bastante limitada. Passam-se anos seguidos em que a caça é escassa de qualquer maneira; nesses períodos, os membros mais fracos das tribos selvagens perecem; e em qualquer o tempo, as dificuldades para sobreviver são muito grandes. Com armas de fogo, seria possível aos caçadores matar mais animais, de maneira que a população tenderia a crescer por certo tempo, à custa do suprimento futuro de comida conforme a caça rareasse, até que um ano excepcionalmente ruim trouxesse uma fome em grande escala. Na verdade, algo semelhante foi acontecendo gradualmente. Não houve grandes quantidades de índios norte-americanos massacrados por homens brancos na guerra. Ao contrário, a economia dos índios foi suplantada; e aqueles em contato com o homem branco se perverteram muito antes da ocupação total do continente pelos brancos.

O desvio do Nobre Selvagem de sua virtude imaculada original não pôde deixar de ser observado. O mito permaneceu no pensamento europeu, mas teve de ser modificado para uma hipótese provisória de que talvez todos os homens fossem igualmente nobres até que se corrompessem por — por quê? Pela “sociedade”, pelo menos a partir do momento em que ela se organizou, especialmente em sua forma política. Aproximando-se da lei da física que diz que ação e reação são iguais e opostas, as mentes europeias começaram a balançar para este extremo, a partir de sua teoria anterior de status.

Emigrantes para a América já haviam feito o movimento físico. Portanto, seu pensamento tendia a procurar um equilíbrio. Na opinião dos homens da fronteira, o único índio bom era o índio morto. Mas o homem da fronteira também não tinha uma ligação excessiva com o governo. Americanos informados e ponderados permaneceram conscientes do fato de que o selvagem, em sua condição original, realmente obedecia a um código moral, embora não tivesse governo. Tendo contato direto com as limitações da cultura primitiva, esses homens de intelecto não tinham nenhum desejo de regredir para a selvageria em busca de uma ilusão sentimental; o que os interessava era a questão racional: se o governo não impediu o crime e impôs a virtude, o que foi que o fez? Se, em certas condições, o governo pode ser completamente dispensável, por que e até que ponto ele é realmente necessário em qualquer condição?

As colônias americanas forneceram outro exemplo prático e campo de provas. Nominalmente, estavam sob o mesmo tipo de autoridade que as nações europeias das quais saíram; mas especialmente as colônias inglesas, por razões históricas, tendiam fortemente ao autogoverno, no qual o elemento estritamente tradicional ficava diluído ou era eliminado e a liberdade do indivíduo era considerada um fato. Mesmo assim, elas prosperavam; as pessoas conviviam umas com as outras e, com muito menos governo que na Europa, a criminalidade não era maior. A existência da escravidão ao mesmo tempo só pode ser entendida se compreendermos as duas teorias de sociedade. A escravidão ocorre no que foi depois chamado de “economia mista”. O contrato havia se tornado a relação predominante, mas a teoria do status não havia sido explicitamente rejeitada pela limitação do escopo do governo. O suposto valor moral do status é que ele dá “segurança” a todos, um lugar na sociedade do qual ninguém pode ser tirado e do qual, reciprocamente, ninguém pode sair. Se existia algum benefício no status, o servo desfrutava dele tanto quanto seu senhor.4 Pela teoria de status completa e absoluta, a terra não podia ser vendida em nenhuma hipótese, apenas herdada; e devia ser mantida em arrendamento perpétuo; não podia ser transferida do cultivador hereditário para outra pessoa. Isso parece tão admirável que, ultimamente, foram feitas algumas tentativas de reinstituir a posse irrevogável, por esquemas gradativos como antiguidade no emprego (começando pelo serviço público) e “colônias de subsistência” estabelecidas pelo governo. Essas tentativas são aceitas sem que se dê conta da consequência inevitável: é o retorno da servidão. Se a relação de trabalho não pode ser encerrada pelo empregador de acordo com o contrato, ou o inquilinato não pode ser encerrado pelo proprietário quando o período de aluguel terminar, o empregado ou o inquilino também devem perder o direito de sair do emprego ou da locação. Submetidos ao “estado”, não terão nem mesmo o caráter humano que o servo possuía no feudalismo, tão opressivo quanto fosse. Não serão nada exceto peças em uma máquina.

Mas a escravidão era uma combinação monstruosa de status e contrato, a epítome da “economia mista”. A condição desigual do escravo é status, mas ele é comprado e vendido por contrato. Em teoria, o servo ainda era um homem, enquanto o escravo era um objeto.

Essa anomalia fatalmente perturbaria a consciência dos proprietários de escravos exatamente porque eles eram homens livres. Ela deixava a liberdade dependente de uma condição acidental. O argumento fácil de que o negro era escravo pela maldição de Cam não explicava o fato de que homens brancos também eram condenados e embarcados para a América para serem vendidos como escravos por crimes políticos. Assim, todo o curso da história se repetia, era encenado outra vez, diante dos olhos dos americanos. Um homem, durante seu tempo de vida, o assistiria inteiro, se se preocupasse em contemplar o que estava à vista; as teorias e os argumentos foram colocados em teste por demonstração. Voltando a olhar para a Europa, podia ver o sistema de status ainda em vigência ou gerando várias modificações. Podia distinguir a posição extrema dos homens como súditos daquele estado absoluto; eram escravos. Podia estudar a realidade da vida selvagem em seu melhor e em seu pior, contrastada com as dificuldades, dores e recompensas da civilização. Podia ver homens que haviam renunciado à civilização para adotar a selvageria, afundando no pior, em vez de alcançar o melhor. Podia ver outros que se embrenharam na natureza com a inocência de um cervo ou de um falcão, mas cujos recursos foram suficientes apenas para uma geração.

Podia também ver homens livres em livre associação, produzindo e construindo, trabalhando sem mestre e, mesmo assim, diligentemente, e relacionando-se com outros homens aproximadamente como iguais sem desordem. Surpreendentemente, a maioria dos problemas sociais trazidos da Europa não chegou a ser resolvida nem apaziguada; os problemas simplesmente evaporaram. As guerras de religião minguaram para pequenas perseguições locais. As barreiras de classe se dissolveram; e onde pessoas de várias nacionalidades se misturaram em uma comunidade, conviveram amigavelmente. Porém, como indivíduos, eles não sofreram nenhuma transformação observável; continuavam sendo seres humanos.

Evidentemente, seu comportamento e modo de associação eram viáveis e deviam ter princípios deduzíveis, intrinsecamente diferentes daqueles da Europa. A presença de escravos deu a resposta; as outras diferenças estavam tão apagadas que as duas condições possíveis ficaram completamente evidentes. Ou um homem era livre ou não era livre. E onde se havia assumido anteriormente que os homens não se adequavam à liberdade, agora se podia supor que somente a liberdade era adequada ao homem.

Durante os séculos anteriores, na Europa, várias “liberdades” foram arrancadas ou compradas da autoridade, mas tais concessões sempre foram expressas como outorgas vindas de cima, não direitos, mas privilégios. Quando a soma delas se tornava considerável, a Sociedade do Contrato podia ao menos ser imaginada. Foi imaginada e projetada no Novo Mundo. No Novo Mundo, tornou-se um fato. Finalmente, a ocasião estava madura para afirmá-la como um conceito político, sem restrições.

Os termos foram encontrados: todos os homens são dotados por seu Criador com um direito inalienável à vida, à liberdade e à busca da felicidade.

A liberdade era indivisível, era uma pré-condição. Falar em diversas “liberdades” é usar a linguagem da Europa, não da América; é abandonar o princípio básico sobre o qual foram fundados os Estados Unidos.

Mas, para o conceito de liberdade, a forma apropriada de governo ainda precisava ser criada. A falácia do anarquismo ainda não havia sido cogitada. Embora não fosse completamente claro por que algum governo era inevitável, sentia-se que era uma necessidade. O enigma dos selvagens — por que eles não tinham governo embora fossem sujeitos à fraqueza humana — teve de ser deixado sem solução, embora não tenha sido esquecido e tenha tido grande influência para confirmar a teoria da liberdade. A mudança da base europeia de governo para outra base foi feita postulando-se que os homens nascem livres. Uma vez que começam sem governo, devem, portanto, institui-lo por acordo voluntário. Assim, o governo deve ser um agente deles, não um superior. A vontade é uma função do indivíduo, logo o indivíduo tem o direito prioritário. Então, mesmo que se presuma que o governo resolve parcialmente as deficiências morais da humanidade, ainda assim ele deve ser limitado e subordinado. Se todos fossem invariavelmente honestos, capazes, sábios e bons, não haveria lugar para o governo. Todos entenderiam prontamente o que é desejável e o que é possível em determinadas circunstâncias, todos contribuiriam com os melhores meios para seu objetivo e pela participação equitativa nos benefícios resultantes e agiriam sem coação ou omissão. A máxima produção seria certamente obtida dessa ação voluntária originada da iniciativa pessoal. Mas, como os seres humanos algumas vezes mentirão, quebrarão promessas, deixarão de desenvolver suas capacidades, agirão de maneira imprudente, tomarão pela violência os bens dos outros e até mesmo matarão uns aos outros por fúria ou ganância, um governo precisa ser definido como a organização policial. Nesse caso, ele pode ser descrito como um mal necessário. Não existiria como entidade separada e não teria autoridade intrínseca; não poderia ser habilitado a agir exceto se um indivíduo infringisse o direito de outro, quando imporia as penalidades previstas. Geralmente, permaneceria como uma testemunha contratual, mantendo um penhor das partes. Como tal, a menor quantidade de governo seria a melhor. Qualquer coisa além do mínimo seria opressão.

Dessa perspectiva, os homens não são nem totalmente “nobres” nem incorrigivelmente maus, mas sim criaturas imperfeitas dotadas da fagulha divina e assim capazes de progredir, talvez no longo curso da “perfectibilidade”. Isso é essencialmente uma aplicação secular da doutrina cristã da alma individual, nascida para a imortalidade, com a faculdade do livre-arbítrio, que inclui a possibilidade do pecado e do erro, mas permite igualmente que o homem se empenhe por sua salvação, sua herança. Qualquer pessoa que não reconheça a ligação entre esses princípios deve tentar reescrever a Declaração da Independência sem referência à fonte divina dos direitos humanos. Não é possível fazer isso; fica faltando o axioma. A filosofia do materialismo não admite nenhum tipo de direito; logo, o mais opressivo despotismo jamais conhecido foi o resultado imediato do “experimento” do comunismo marxista, que postulava unicamente um processo mecanicista para sua validação.

A ideia cristã foi necessária para o conceito de liberdade. A ideia romana foi indispensável para a forma — um governo de leis e não de homens.

A questão colocada pela ausência de governo na sociedade selvagem teve de ser deixada de lado naquela ocasião, porque ninguém a reconhecia como um problema de engenharia; e ela não pode ser expressa de outra maneira. É evidentemente um problema moral, uma vez que trata da relação entre seres humanos; mas as relações específicas envolvidas são aquelas que incluem tempo e espaço. A organização de ações no tempo e no espaço constitui a ciência da engenharia.

De qualquer maneira, a tarefa imediata era determinar o modo de um governo mínimo, examinando-se e comparando-se exemplos históricos, avaliando-se o desempenho de intenções e dispositivos. Tendo-se postulado que a fonte da autoridade secular reside no indivíduo, a questão então era impedir que essa autoridade fosse usurpada por seu agente. Entretanto, um fator de engenharia foi certamente entendido — a função da propriedade privada como a base exclusiva da liberdade. Não é por acaso que o rascunho original da Declaração da Independência listava a propriedade privada como um direito inalienável do indivíduo.


1 A palavra governo, como usada aqui, significa uma organização política formal de pessoas nomeadas com funções definidas e autoridade para impor suas decisões. (N. da A.)

2 Lettres de cachet eram cartas assinadas pelo Rei da França, contendo ordens diretas, frequentemente para impor ações arbitrárias e decisões judiciais contra os quais não havia apelo. As mais conhecidas são as que condenavam um súdito à prisão, deportação ou banimento, sem julgamento ou oportunidade de defesa. (N. do T.)

3 Os teóricos ignoraram os caraíbas, cujas práticas canibais são indescritíveis. E os apaches ainda não eram conhecidos. As pessoas simplesmente estavam enjoadas de governo demais. (N. da A.)

4 O servo não era livre para passar fome. Ele tinha de passar fome preso e passava fome com frequência. Fomes eram recorrentes até em regiões férteis. Os Estados Unidos são o único país da história onde nunca houve fome desde que se tornaram uma nação. (N. da A.)

O Deus da Máquina, capítulo VI


No sexto capítulo de O Deus da Máquina (Liberdade, Cristianismo e o Novo Mundo), Isabel Paterson nos diz que os europeus sempre imaginaram um lugar feliz a oeste do Oceano Atlântico. Essa tradição começa com Platão e a lenda de Atlântida e passa pelas Ilhas Afortunadas, a Ilha de São Brandão, Avalon, Hy-Brasil e Tir-Nan-Og.

Para que um lugar fosse feliz, era necessário que fosse livre. Os europeus criaram a ideia de um mundo mítico de liberdade e depois foram buscá-lo. Os primeiros a fazer isso foram os vikings. Procurando liberdade, Leif Ericsson chegou à América por volta do ano 1000 e estabeleceu uma colônia, que teve curta duração.

Isabel Paterson mostra que, em grande parte, a expedição de Colombo foi resultado da iniciativa privada. E que a riqueza gerada pela descoberta da América, ao inundar um país rigidamente governado e absolutamente homogêneo, acabou por arruinar o Império Espanhol. A Inglaterra acabou dominando o mundo porque era o país com o governo mais limitado.

Liberdade, Cristianismo e o Novo Mundo


O Deus da Máquina, capítulo VI
Liberdade, Cristianismo e o Novo Mundo
Isabel Paterson
As ideias vêm antes da realização. Raça é um fato, até o ponto em que isso existe. Nações e culturas são ideias. A linhagem racial, que aparentemente preserva uma identidade, só o faz por meio de uma ideia. Se uma ideia contiver um princípio universal, fará com que as raças se mesclem; se contradisser uma ideia anteriormente aceita, dividirá as nações numa discórdia fatal. Cada realização é prenunciada pela fantasia; cada grande desastre é resultado de falta de adequação, de erro ou de perversão da inteligência. Uma ideia pode ser concebida originalmente como mito. A Europa foi um mito antes de se tornar uma civilização rica e complexa; e é chamada de continente em contradição com a geografia, porque a divisão entre Europa e Ásia foi criada pela mente dos homens.

A América era um mito séculos antes de sua realidade física ser verificada. Se Platão inventou a Atlântida Perdida ou se a construiu a partir de fragmentos de folclore, sua criação é igualmente inexplicável. Lendas europeias posteriores das Ilhas Afortunadas a oeste, onde não havia morte, da Ilha de São Brandão e de Avalon e Hy-Brasil e Tir-n’an-Og poderiam ser explicadas por uma pequena hipótese factual nas Canárias ou por um vislumbre dos Açores; sua felicidade poderia consistir em serem inatingíveis. Até o final do século dezoito, era possível dizer (como disse Babeuf1) que a felicidade na Europa era uma ideia nova.

Como pré-requisito para a felicidade, a esperança de liberdade foi colocada desde o início na América. De maneira apropriada, a descoberta preliminar foi feita numa busca por liberdade. Durante o século X de nossa era, alguns homens intratáveis de sangue viking se exilaram de sua terra natal para não se submeterem à imposição de uma monarquia feudal. Os marinheiros errantes escandinavos resumiram, em seu desenvolvimento nacional, a história da Europa. Eram praticamente os últimos piratas bárbaros; mas se alfabetizaram antes de pararem de viver de saques e tinham a clareza e o tipo de mente pragmática dos romanos. Conheciam bem o mundo civilizado e forneceram um regimento mercenário ao Império do Oriente. Migraram da pirataria para o comércio ao mesmo tempo em que adotaram a sociedade estratificada de status que o comércio tende a dissolver. Em sua condição semibárbara, a igualdade entre seus combatentes os obrigou a desenvolver um tipo de lei contratual e um governo deliberativo local; mas quando conquistaram a Normandia e depois a Inglaterra, estabeleceram um detalhado sistema feudal. Nessa forma, novamente sua tradição anterior de igualdade independente no topo os incitou a resistir contra pretensões de absolutismo real fazendo uma rebelião bem organizada; e voltaram à lei contratual para incorporar a capitulação em um documento escrito, no qual o conceito de homem livre estava outra vez implícito, para ser desdobrado no futuro. Desenharam um círculo intelectual completo. Perto do fim, o pequeno grupo inconciliável que resistiu para manter sua condição original fugiu para o fim do mundo, Ultima Thule, e ocupou a Islândia, de onde os mais corajosos seguiram para a Groenlândia. Navegando diretamente da Noruega para a colônia na Groenlândia no ano 1000 DC, Leif Ericsson foi desviado para sul do seu curso por tempestades e neblina, para uma estranha terra, a Costa Maravilhosa do novo mundo. É notável que a perspectiva de Vinland, a Boa Terra2 tenha sido abandonada depois da menor das tentativas de colonização. Isso não ocorreu por desânimo. Os noruegueses foram puxados de volta para a Europa por sua aceitação tardia do cristianismo. O próprio Leif Ericsson se converteu pouco depois de sua viagem de descobrimento. Foi como se o equipamento para a América fosse incompleto sem essa fé; o que era verdade se eles buscavam a liberdade como uma condição geral, não um privilégio de classe estabelecido por braço forte; é fato que tinham escravos. A objeção que pode ser levantada é que a Europa cristã usava a coleira de ferro da servidão, e tolerava a escravidão aberta. Mesmo assim, o axioma da liberdade só pode ser postulado se tomarmos por base o que a filosofia cristã afirma. Para sua realização, os princípios seculares revelados pela Grécia e por Roma são igualmente indispensáveis. Mas considera-se a América como sua terra natal.

Por volta de 1560 ou 1570, Étienne de La Boétie3, o amigo de Montaigne, cheio de desespero por causa das guerras de religião, escreveu:

O que vocês pensam da sorte terrível que nos levou a nascer nestes tempos? E o que vocês pensam em fazer? De minha parte, não vejo outro caminho senão emigrar, abandonar meu lar e ir para qualquer lugar aonde o acaso me carregue. Faz muito tempo que a ira dos deuses me alertou para fugir — mostrando-me aquelas terras vastas e abertas além do oceano. Quando, na virada do século, um novo mundo emergiu das ondas, os deuses — bem podemos crer — o destinaram ao refúgio, onde homens cultivarão campos livres sob um céu mais claro, enquanto a cruel espada e a vergonhosa peste condenarão a ruína da Europa. Lá há férteis prados esperando o arado, uma terra sem rios intermitentes nem senhores — é para lá que irei.”4

A vida, a liberdade e a busca da felicidade — o que os homens encontraram na América foi o desejo que haviam mandado antecipadamente. Trouxeram com eles o conhecimento efetivo para torná-lo realidade. Portanto, a associação de ideias permaneceu, apesar da contradição imediata e atroz representada pelo tratamento dos índios e pela rápida importação de escravos africanos. Montaigne mesmo, cuja franqueza sutil desestabilizava a autoridade assim como as intempéries derrubam uma parede de pedra, comentou: “Se alguma coisa poderia ter tentado minha juventude, seria a ambição de participar dos perigos dessa nova empreitada.” Mas Montaigne, assim como o seu amigo, não era um servo, mas um lorde, desfrutando dos privilégios de classe e de um bom patrimônio. Era sua mente que estava tentada a explorar o estrangeiro. Ele foi a epítome de sua época, transformando sua torre medieval num estúdio no qual ponderava tranquilamente sobre as ideias que destruiriam toda a estrutura.

A descoberta efetiva da América foi feita pelo capitalismo empreendedor. Colombo foi um organizador de empresa com um plano. Os navios eram propriedade privada, um deles fretado. Gerentes capacitados (capitães) foram contratados. Algum capital em dinheiro foi subscrito. A tripulação era assalariada. Tal organização hoje poderia empreender qualquer negócio legítimo. Mas a maior parte do dinheiro foi adiantada pela Rainha da Espanha; dois dos navios foram confiscados pelo governo como multa; e a expedição navegou com um comissionamento oficial. Condicionada ao sucesso de sua viagem, Colombo recebeu a promessa do título hereditário de Almirante do Oceano (Atlântico), e uma porcentagem de todo o comércio a ser aberto por sua rota, para ele e para seus herdeiros. Seu objetivo era o Japão e a China; mas mesmo que aportasse lá, a cláusula jamais poderia ser cumprida. Um oceano não tolera o monopólio. O empreendimento, assim, carregou consigo os dois sistemas conflitantes de status e de contrato que estavam competindo na Europa. O continente havia sido primeiramente civilizado e organizado pela energia fluindo por meio do contrato; com o colapso do mecanismo, havia decaído para o status; o contrato estava emergindo outra vez com o aumento do comércio. Mas a Espanha estava retrocedendo, apanhada por certa onda contrária nos Estreitos, na direção do absolutismo, exatamente quando a localização geográfica favorável deu à Península Ibérica a primeira ligação com o novo mundo. Obviamente, a menor distância entre a África e a América do Sul é menor que a metade do trajeto que Colombo percorreu da Espanha às Índias Ocidentais; mas não havia excedente de energia nem na África nem na América do Sul. A Europa estava gerando energia; sua rota por terra para o Oriente havia sido bloqueada. A viagem de Colombo foi como o salto de uma faísca elétrica num arco voltaico.

A conquista dos povos americanos nativos foi uma consequência determinada a priori, porque a Europa usava um potencial de energia muito superior. A mais avançada cultura americana não empregava nem mesmo a tração animal, não tinha ainda inventado a roda, muito menos a roda-d'água, nem chegado à idade do ferro. Viajavam a pé e eram suas próprias bestas de carga. Seu modo de conversão de energia era o corpo humano e os utensílios manuais. Seu terror diante dos invasores europeus com cavalos e armas de fogo é normalmente atribuído à estupefação com a simples esquisitice do fenômeno. Ao contrário, foi o entendimento inteligente de um poder maior que eles não teriam como igualar. A ignorância primitiva não se assusta com a novidade. As tribos selvagens eram menos submissas que as mais civilizadas, porque não tinham noção do domínio da energia, embora estivessem igualmente condenadas pelo potencial superior.

Pode ser estabelecido como axioma que num conflito entre duas nações ou culturas, se uma delas usa um potencial superior de energia, deve vencer. O diferencial está na equação espaço-temporal, que compensa qualquer inferioridade numérica original. Cem homens podem se mover tão rápido quanto cinquenta e são, portanto, duas vezes mais efetivos; mas nenhuma quantidade de homens pode se mover tão rápido como uma bala e as quantidades são anuladas pela razão inversa de velocidade e raio de ação.

Já entre duas nações usando o mesmo modo de conversão de energia, alguém poderia supor que a superioridade numérica e a disponibilidade de matérias-primas deveriam determinar a questão. Mas não é assim que acontece; como mostrado, os resultados são tão variáveis que nenhuma resposta apresentada até aqui serve para explicar dois casos diferentes como uma conjectura posterior.

Se alguma vez uma nação e uma dinastia tiveram os componentes físicos de um império atirados em seu colo por pura sorte e de uma vez, essa nação é a Espanha. O método pacífico de ampliação de território no feudalismo era por casamentos que combinavam as heranças. Na Europa, a dinastia de Habsburgo, por um golpe de sorte, tornou-se a legatária universal do sistema. Depois da união entre Castela e Aragão, a Espanha se uniu ao conglomerado de nações austríaco, incluindo a Holanda e boa parte da Itália. Ao mesmo tempo, toda a Península Ibérica foi gradativamente incorporada, incluindo depois Portugal por um tempo. O governante desses vastos domínios teve sua primazia sobre a Europa formalmente reconhecida, por sua posição eletiva como chefe do Sacro Império Romano. Presumivelmente, essa glorificação também aconteceria se a América não tivesse sido descoberta. Por quanto tempo teria se mantido coesa é matéria de conjecturas; mas pelo menos sua estabilidade seria tão segura quanto a de qualquer arranjo político contemporâneo. Assim, a Espanha controlava a parte mais rica da Europa, com as minas espanholas e austríacas, as cidades industriais holandesas e uma variedade de outros recursos nesse território tão extenso. A posição dominante sobre o Mediterrâneo também é significativa. E então toda a riqueza da América foi despejada na Espanha.

Em comparação, a força humana e material à disposição da Inglaterra era ridiculamente pequena; e o território inglês consistia apenas em metade de uma pequena ilha nebulosa e uma base incerta na Irlanda. A Inglaterra tinha o porto de Calais, mas o perdeu antes de entrar em combate com a Espanha.

Finalmente, deve ser observado que, dentro de suas fronteiras nacionais, a Espanha havia conseguido a unidade perfeita. Nunca um povo havia sido tão unânime em sentimento, em pensamento, em costumes e em moral e religião e lealdade política, como a Espanha após a expulsão dos mouros e dos judeus. Era sólida como uma barra de ferro.

E esse era justamente o problema. Num organismo vivo, tal condição é mais parecida com o rigor da epilepsia; se passa a ser permanente, é a morte. Num mecanismo, que funciona pela oposição de suas peças, é equivalente ao empenamento. Mesmo que uma nação pareça agir quando está assim solidificada, o movimento é o de uma massa deslocada, um corpo em queda livre. Não tem direção inteligente nem objetivo definido.

A Espanha foi eletrocutada, consumida, ao receber uma alta voltagem em sua estrutura política e mecanismo sem linhas de transmissão adequadas, saídas e isolação. Ao fazer contato com a América, a Espanha coletou uma vasta carga de energia armazenada na forma de metais preciosos que eram conversíveis em moeda europeia. Depois disso, o país foi palco de um espetáculo quase incrível, com navios do tesouro descarregando lingotes de ouro ano após ano em quantidades inéditas e o povo se empobrecendo cada vez mais, na razão inversa, até que estavam reduzidos à fome e à miséria. Todas as receitas recomendadas e aplicadas hoje em nome de uma economia planejada foram experimentadas na Espanha nesse período com o mesmo pretexto da necessidade pública, com a consequência inevitável de parar a produção. Negócios só podiam ser feitos com autorização; manufaturas e comércio foram restringidos; minas na Espanha foram lacradas por decreto; dinheiro real foi tomado dos proprietários privados, que foram obrigados a aceitar papéis do governo em troca e presos ou executados se tentaram se recusar a aceitá-los. Impostos e tarifas se multiplicaram. Tudo foi absorvido pelo governo; e o governo estava sempre falido. E as funções de governo, que eram o pretexto para tais medidas, eram executadas com grotesca ineficiência. Os maiores esforços militares resultaram nas mais desastrosas derrotas e quando a Espanha foi vitoriosa, não conseguiu paz. A Holanda se revoltou e não se pacificou mais. A Inglaterra também lutou um bocado no mesmo período e nem sempre foi vitoriosa; comparado à proporção da população e à riqueza disponível, o esforço da Inglaterra foi maior. Mas as perdas inglesas foram repostas rapidamente e seu poder aumentado, enquanto a Espanha passou para a infeliz posição de campo de batalha da Europa. A condição da Espanha enquanto ainda de posse de seu império no Novo Mundo (por volta de 1700) foi descrita assim: “Um país sem exército, justiça ou polícia e absolutamente sem liberdade.”5 “Os nobres são desdenhosos e desprezíveis. Não têm nada exceto orgulho, pobreza, preguiça e varíola. Não têm educação e nenhum tipo de conhecimento.”6 O comércio e a indústria estavam paralisados, a agricultura em decadência; e embora ainda houvesse uma receita considerável vinda da América, não havia dinheiro em circulação.

Durante o século dezessete, o declínio da Espanha permitiu que a França tentasse alcançar a primazia. Luís XIV conseguiu tornar sua monarquia absoluta e assim jogou toda a energia da nação na guerra. Conseguiu unidade expulsando os huguenotes. Para não ser incomodado com números, “o estúpido símbolo do dólar”, conferiu a um homem, Chamillart, os ministérios da guerra e da fazenda. Um observador de primeira mão disse, sem esperança: “Não haverá tesouro que chegue para um governo descontrolado.” Quando os impostos de Luís lançaram seus súditos na fome, adiantando vários anos de receita, desvalorizando a moeda e deixando-o sem um centavo do mesmo jeito, o rei sentiu uma dor na consciência e se perguntou se tinha o direito moral de extorquir mais. Chamou um grupo seleto de professores da grande Universidade, a Sorbonne; e eles servilmente o informaram de que, como rei, ele era dono de toda a propriedade do reino; seus súditos eram meros ocupantes; e se permitisse que eles retivessem qualquer parte de suas posses ou do produto de seu trabalho, estaria fazendo um favor. Então ele extorquiu mais impostos. Com unidade e controle total, quando envelheceu foi obrigado a implorar por paz em quaisquer termos; e, antes de sua morte, franceses inteligentes, como Catinat7, previram com pavor a Revolução Francesa. Sabiam que a estrutura política e econômica estava fatalmente desequilibrada. A unidade orgânica da família como padrão de sociedade resistiu à tensão por cem anos, mas não poderia aguentar para sempre. Nesse meio tempo, a Inglaterra sobreviveu a uma guerra civil e, sem nenhuma ambição particular por um império, alcançou a posição dominante pela qual a Espanha e a França se esgotaram em vão. A energia em assuntos humanos tende a fluir pelas leis naturais com o vento e a água, seguindo a linha de menor resistência, mas com pontos intermediários determinados por matérias-primas em quantidade. Das viagens de descobrimento, entre 1492 e 1611, apenas quatro saíram da Inglaterra e nenhuma delas a tornou rica. Mesmo assim, o mapa-múndi mostra que outro fator positivo interveio em seguida, direcionando o fluxo entre a Europa e a América um pouco ao norte de seu curso natural, ou seja, da Inglaterra para a comparativamente pobre costa norte-americana da Nova Inglaterra até a Virgínia. Estas, outra vez se tornaram radiais.

A cadeia de eventos correspondeu, ponto por ponto, aos desdobramentos políticos internos da Inglaterra, da Espanha e da França. O âmbito e as pretensões do governo na Espanha e na França cresceram continuamente. As pretensões do governo na Inglaterra foram persistentemente repelidas, diminuídas e condicionadas. Impérios são construídos pela iniciativa privada.

Esta é a regra que determina a vitória entre nações rivais usando o mesmo modo tecnológico de conversão de energia: aquela cujo governo é mais limitado vencerá. Uma maior extensão territorial e recursos concomitantes podem acabar se mostrando uma desvantagem para uma nação com um governo absoluto, porque essas condições farão o governo irresponsavelmente exorbitante contra seus próprios cidadãos, e também fornecerão lances de sorte inesperada à nação livre inimiga, que será capaz de colocar eventuais recursos que conquiste em uso efetivo. A maior parte da energia que a Espanha extraiu do Novo Mundo serviu apenas para fundi-la numa rigidez agonizante, mas uma parte teve de passar por ela e foi, assim, devolvida aos canais produtivos em outros lugares da Europa. O dinheiro circulou e estimulou as nações rivais e as províncias rebeldes a quebrar o monopólio espanhol, fazendo comércio por conta própria. A energia teve um efeito duplo na Europa como um todo, rompendo o compromisso feudal exatamente nas mais antigas linhas de rachaduras e ao mesmo tempo integrando pequenas principalidades e cidades livres em formas nacionais.

O equilíbrio de poder pendeu para a Inglaterra porque esta permitiu que a energia fluísse de maneira mais livre, o que significa dizer que a Inglaterra cedia a maior liberdade ao indivíduo, respeitando a propriedade privada e abandonando gradativamente a prática de monopólios comerciais políticos. É claro que a Inglaterra não desistiu de uma vez de conceder esses monopólios e foi exatamente o que restou deles que precipitou a Revolução Americana; mas a livre empresa tinha margem de manobra suficiente para suplantar a Espanha e a França.

O teste crucial da propriedade privada é a atitude do governo em relação ao dinheiro. Desvalorização da moeda é expropriação pura e simples. O Império Britânico foi fundado quando o sistema monetário, que estava depreciado, foi restaurado para um padrão durante os primeiros anos do reinado de Elizabeth, seguindo os conselhos de Gresham8. Naquele momento, o comércio inglês estava em situação difícil, o tesouro nacional vazio, o crédito nacional acabado e o crédito mercantil trôpego, a guerra ameaçava e a rebelião era uma possibilidade real. Nessas circunstâncias, os governos normalmente recorrem à moratória, ao confisco e ao “Faça-se o dinheiro”. Em vez disso, a Inglaterra tomou o caminho contrário. O mundo ficou sob seu domínio. O Império Britânico terminou trezentos e cinquenta anos depois, quando a Inglaterra outra vez desvalorizou sua moeda, declarou moratória de suas dívidas, confiscou a propriedade privada e aboliu a liberdade pessoal.

Estas considerações não são sentimentalistas; constituem o mecanismo de produção e, portanto, de poder. A liberdade pessoal é a pré-condição para a liberação de energia. A propriedade privada é o indutor que inicia o fluxo. O dinheiro real é a linha de transmissão; e o pagamento das dívidas completa o circuito. Um império é simplesmente um sistema de energia de longo circuito. A possibilidade de um curto-circuito, que resulte em vazamento e colapso ou explosão, ocorre na conexão da organização política aos processos produtivos. Não é uma figura de linguagem ou analogia, mas uma descrição física exata do que acontece.


1 François-Noël Babeuf (1760 – 1797), conhecido como Graco Babeuf, foi um agitador político francês. Foi guilhotinado por sua participação na Conspiração dos Iguais. (N. do T.)

2 Colônia viking na América, estabelecida por Leif Ericsson por volta do ano 1000, onde hoje é a província canadense de Terra Nova e Labrador. (N. do T.)

3 Étienne de La Boétie (1530 - 1563), jurista e escritor francês, é um dos fundadores da filosofia política moderna na França. (N. do T.)

4 THE AUTOBIOGRAPHY OF MONTAIGNE, de Marvin Lowenthal. (N. da A.)

5 MÉMOIRES SECRÉTS SUR L'ÉTABLISSEMENT DE LA MAISON DE BOURBON EN ESPAGNE, de Charles Auguste d'Allonville, Marquês de Louville. (N. do T.)

6 Carta do Duque de Saint-Simon a Michel Chamillart, datada de 23 de agosto de 1703. (N. do T.)

7 Nicolas Catinat (1637 – 1712), militar francês.

8 Sir Thomas Gresham (1579 – 1579), mercador e financista inglês, criador da Lei de Gresham: “Quando um governo sobrevaloriza um tipo de moeda e desvaloriza outro, a moeda desvalorizada deixará o país ou desaparecerá em reservas escondidas, enquanto a moeda sobrevalorizada inundará a circulação.” Costuma ser resumida assim: “A moeda ruim tende a expulsar do mercado a moeda boa.”