sábado, 28 de março de 2015

Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire

No final de 2014, conversei sobre Paulo Freire com uma pessoa de quem gosto muito e que tem opiniões opostas às minhas. Ela perguntou se eu tinha lido algum dos livros dele. Só A Importância do Ato de Ler, mas há tanto tempo que não me lembro de quase nada, respondi. Nunca li Pedagogia do Oprimido, confessei. Você não pode criticar o que não conhece, acusou ela. Prometi que leria Pedagogia do Oprimido e escreveria uma resenha. Aqui está.

Não é uma leitura fácil. Embora o livro não seja extenso, com pouco mais de 100 páginas, levei dois meses para terminar. Achei a linguagem confusa, com termos inventados ou palavras às quais o autor atribui um sentido peculiar, sem contudo definir claramente esse sentido. Muitas vezes, não há um encadeamento lógico entre um parágrafo e o seguinte, entre uma frase e a próxima, entre uma idéia e outra. Nesse aspecto, lembra muito o estilo do Alcorão. Paulo Freire tem um cacoete de separar os prefixos dos radicais das palavras (co-laboração, ad-mirar, re-criar), como se isso significasse alguma coisa. Há muitas passagens com sentido obscuro (vejam algumas abaixo), muitas repetições, citações de supostas autoridades em educação (como Mao, Lênin, Che, Fidel e Frantz Fanon) e menções freqüentes a que se vai voltar ao assunto depois ou a que já se tratou dele antes.

Logo na introdução, somos brindados com esta afirmação: “Se a sectarização, como afirmamos, é o próprio do reacionário, a radicalização é o próprio do revolucionário. Dai que a pedagogia do oprimido, que implica numa tarefa radical cujas linhas introdutórias pretendemos apresentar neste ensaio e a própria leitura deste texto não possam ser realizadas por sectários.” Minha leitura deste trecho é: “Só quem já concorda comigo pode ler o que escrevo.”

Vou apresentar a seguir o que entendi do livro, procurando ao máximo omitir minhas opiniões, que guardarei para o final da resenha.

Paulo Freire descreve dois tipos de educação, uma característica de uma sociedade opressora, outra característica de uma sociedade livre, ou que luta para se libertar. A educação da sociedade opressora é chamada de “bancária”, sempre entre aspas, porque ela deposita conhecimentos nos alunos. Ou seja, ela reduz o aluno a um objeto passivo do processo educacional, no qual são jogadas informações sobre Português, Matemática, História, Geografia, Inglês, Física, Química, Biologia, Filosofia. Já a educação libertadora é chamada de dialógica, porque se baseia no diálogo entre professores e alunos (educadores e educandos, na linguagem do livro). É um processo do qual todos são sujeitos ativos e cuja finalidade é ampliar a consciência social de todos, especialmente dos alunos, para que se viabilize a revolução que acabará com a opressão. O livro não detalha o que a educação libertadora fará depois dessa libertação. Imaginamos que mantenha os educandos conscientes e imunes a movimentos reacionários e contra-revolucionários.

A educação dialógica se baseia no diálogo e o diálogo começa com a busca do conteúdo programático. Na parte do livro em que há mais orientações práticas, Paulo Freire recomenda que seja formado um grupo de educadores pesquisadores que observará os educandos e conversará com eles, em situações diversas, para conhecer sua realidade e identificar o que ele chama de temas geradores, que possibilitarão a tomada de consciência dos indivíduos. Haverá reuniões com a comunidade, identificação de voluntários, conversas e visitas para compreender a realidade, observações e anotações. Os investigadores farão um diagnóstico da situação. Então discutirão esse diagnóstico com membros da comunidade para avaliar o grau de consciência deles. Constatando que esse nível é baixo, vão apresentar as situações identificadas aos alunos, para discussão e reflexão, com o objetivo de despertar sua consciência para sua situação de opressão. Se o pensamento do povo é mágico (religioso) ou ingênuo (acredita nos valores de direita), isso será superado pelo processo, conforme o povo pensar sobre a maneira que pensa, e conforme agir para mudar sua situação de opressão.

Paulo Freire enfatiza que o revolucionário não pode manipular os educandos. Todo o processo tem de ser construído baseado no diálogo e no respeito entre os líderes e o povo. Porém, os líderes devem ter a prudência de não confiar no povo, porque as pessoas oprimidas têm a opressão inculcada no seu ser. Como exemplo de um líder que jamais permitiu que seu povo fosse manipulado, Paulo Freire apresenta Fidel Castro.

A palavra é o resultado da soma de ação e reflexão. Se nos baseamos apenas na reflexão, temos um “verbalismo” estéril. Se nos baseamos apenas na ação, temos um “ativismo” inepto. Os líderes revolucionários e os educadores devem compreender que a ação e a reflexão caminham juntas de maneira indissociável, ou não se atingem os objetivos da educação e da revolução.

As características da opressão são a conquista dos mais fracos, a criação de divisões artificiais entre os oprimidos para enfraquecê-los, a manipulação das massas e a invasão cultural. Os opressores se impõem em primeiro lugar pela força. Depois, jogam os oprimidos uns contra os outros, para mantê-los subjugados. As pessoas são manipuladas para acreditarem em falsos valores que lhes são prejudiciais, embora elas não percebam isso. Sua cultura de raiz é esquecida e trocada por símbolos vazios importados de fora, num processo que esmaga a identidade do povo.

As características da libertação são a colaboração (que Paulo Freire grafa co-laboração), a união, a organização e a síntese cultural. A colaboração está contida em tudo o que foi dito sobre educação dialógica, que é feita em conjunto pelos educadores e educandos. A união entre os oprimidos é fundamental para que tenham força para resistir contra o opressor. No trecho em que explica a organização, é citado o médico Dr. Orlando Aguirre, diretor da Faculdade de Medicina de uma universidade cubana, que afirmou que a revolução implica em três P: palavra, povo e pólvora. Disse o Dr. Aguirre: “A explosão da pólvora aclara a visualização que tem o povo de sua situação concreta, em busca, na ação, de sua libertação.” E Paulo Freire complementa: “O fato de não ter a liderança o direito de impor arbitrariamente sua palavra não significa dever assumir uma posição liberalista, que levaria as massas à licenciosidade.” Ele afirma que não existe liberdade sem autoridade. Sobre a síntese cultural, diz que a visão de mundo do povo precisa ser valorizada.

Agora, o que penso sobre o texto. O próprio Paulo Freire deixa claro em vários momentos, que seu livro não é sobre educação. Ensinar, transmitir conhecimentos, é uma preocupação da educação “bancária” opressora. Não é essa a função de um educador libertador. Não, sua função é criar os meios para uma revolução libertadora, como foram libertadoras as revoluções promovidas pelos educadores citados: Mao, Lênin, Fidel. Ou seja, a única preocupação do livro é com os meios para viabilizar uma revolução marxista. Se você, meu leitor, é professor e acha que essa é a sua função, talvez encontre conhecimentos úteis no livro. Caso contrário, não há mais nada nele.

Fiz uma coletânea de palavras utilizadas por Paulo Freire que poderiam ter saído de um discurso de Odorico Paraguaçu: “involucra”, em lugar de envolve, “implicitados”, em lugar de implícitos, “gregarizadas”, deve ser um derivado de gregário, “unidade epocal”, em lugar de unidade de tempo, “fatalistamente”, por fatalisticamente, “insertado”, por inserido. Dois erros divertidos: chamar Régis Debray de Régis Debret e achar que o nome do padre Marie-Dominique Chenu OP (onde OP significa Ordo Praedicatorum, Ordem dos Pregadores, sigla que designa a Ordem dos Dominicanos) é O. P. Chenu. É sintomático que alguém com tantas dificuldades com a Língua Portuguesa seja o Patrono da Educação Brasileira, considerado nossa maior autoridade em alfabetização.

Desafio os bravos leitores a encontrar o sentido dos trechos a seguir. A melhor interpretação ganhará um pão com mortadela. Os grifos são de Paulo Freire.

1) «Na verdade, não há eu que se constitua sem um não-eu. Por sua vez, o não-eu constituinte do eu se constitui na constituição do eu constituído. Desta forma, o mundo constituinte da consciência se torna mundo da consciência, um percebido objetivo seu, ao qual se intenciona. Daí, a afirmação de Sartre, anteriormente citada: “consciência e mundo se dão ao mesmo tempo”.»

2) «O ponto de partida deste movimento está nos homens mesmos. Mas, como não há homens sem mundo, sem realidade, o movimento parte das relações homens-mundo. Dai que este ponto de partida esteja sempre nos homens no seu aqui e no seu agora que constituem a situação em que se encontram ora imersos, ora emersos, ora insertados.»

3) «Sem ele [o diálogo], não há comunicação e sem esta não há verdadeira educação. A que, operando a superação da contradição educador-educandos, se instaura como situação gnosiológica, em que os sujeitos incidem seu ato cognoscente sobre o objeto cognoscível que os mediatiza.»

4) «Esta é a razão pela qual o animal não animaliza seu contorno para animalizar-se, nem tampouco se desanimaliza.»

5) «Somente na medida em que os produtos que resultam da atividade do ser “não pertençam a seus corpos físicos”, ainda que recebam o seu selo, darão surgimento à dimensão significativa do contexto que, assim, se faz mundo.»

6) «Porque, ao contrário do animal, os homens podem tridimensionalizar o tempo (passado-presente-futuro) que, contudo, não são departamentos estanques.» Alguém pode me dizer como é possível tridimensionalizar o tempo?

7) «Uma unidade epocal se caracteriza pelo conjunto de idéias, de concepções, esperanças, dúvidas, valores, desafios, em interação dialética com seus contrários, buscando plenitude. A representação concreta de muitas destas idéias, destes valores, destas concepções e esperanças, como também os obstáculos ao ser mais dos homens, constituem os temas da época.»

Outra característica curiosa são as citações em idiomas diversos. Há citações de Hegel e Karl Jaspers em inglês, de Marx e Erich Fromm em espanhol e de Lukács em francês. Todos esses autores escreveram em alemão. Frantz Fanon, que escreveu em francês, é citado em espanhol. Albert Memmi, que também escreveu em francês, é citado em inglês, e se menciona que há uma edição brasileira de seu livro. Mao é citado em francês. Porque todas essas citações não foram simplesmente traduzidas para o português? E por que Paulo Freire gosta tanto de ditadores, torturadores e assassinos?

Ele afirma que vender seu trabalho é sempre o mesmo que escravizar-se. Porém, desejar não ser mais empregado e tornar-se patrão é escravizar a um outro, tornar-se opressor. Qualquer tipo de contratação de um indivíduo por outro é maligna, é opressão, é escravidão. Só teremos liberdade quando a nenhum indivíduo for permitido contratar ou ser contratado por outro indivíduo. Faz sentido para vocês?

Paulo Freire afirma que os oprimidos devem ser reconhecidos como Pedro, Antônio, Josefa, mas os chama o tempo todo de “massas”. Diz que valoriza a visão de mundo do povo, enquanto não perde uma oportunidade de desdenhar das crenças religiosas desse mesmo povo, chamando-as de mágicas, sincréticas ou mistificações. E ele se dizia católico. 

Como a opressão é uma violência, qualquer violência cometida pelos oprimidos contra os opressores é sempre uma reação justificada. É um raciocínio assustador. Nas palavras dele: “Quem inaugura a tirania não são os tiranizados, mas os tiranos. Quem inaugura o ódio não são os odiados, mas os que primeiro odiaram. Quem inaugura a negação dos homens não são os que tiveram a sua humanidade negada, mas as que a negaram, negando também a sua.” Paulo Freire considera justificados a tirania como resposta a uma tirania anterior e o ódio como resposta a um ódio anterior. E nega a humanidade de quem ele resolver chamar de opressores.

Mais um trecho escabroso: «Mas, o que ocorre, ainda quando a superação da contradição se faça em termos autênticos, com a instalação de uma nova situação concreta, de uma nova realidade inaugurada pelos oprimidos que se libertam, é que os opressores de ontem não se reconheçam em libertação. Pelo contrário, vão sentir-se como se realmente estivessem sendo oprimidos. É que, para eles, “formados” na experiência de opressores, tudo o que não seja o seu direito antigo de oprimir, significa opressão a eles. Vão sentir-se, agora, na nova situação, como oprimidos porque, se antes podiam comer, vestir, calçar, educar-se, passear, ouvir Beethoven, enquanto milhões não comiam, não calçavam, não vestiam, não estudavam nem tampouco passeavam, quanto mais podiam ouvir Beethoven, qualquer restrição a tudo isto, em nome do direito de todos, lhes parece uma profunda violência a seu direito de pessoa. Direito de pessoa que, na situação anterior, não respeitavam nos milhões de pessoas que sofriam e morriam de fome, de dor, de tristeza, de desesperança.»

O fato é que ninguém pode proibir ninguém de comer, vestir, calçar, educar-se, passear ou ouvir Beethoven. E ninguém pode exigir comer, vestir, calçar, educar-se, passear ou ouvir Beethoven às custas dos outros.

Uma última citação abjeta: “Mesmo que haja – e explicavelmente – por parte dos oprimidos, que sempre estiveram submetidos a um regime de espoliação, na luta revolucionária, uma dimensão revanchista, isto não significa que a revolução deva esgotar-se nela.” A revolução não deve se esgotar no revanchismo, mas o revanchismo é parte natural dela. Como alguém que escreveu essas monstruosidades nunca foi processado por incitação à violência e apologia do crime? Como alguém com um pensamento tão anti-social pode ser sequer ouvido, quanto mais cultuado como Patrono da Educação Brasileira?

Chega de doutrinação marxista! Fora Paulo Freire!

domingo, 22 de março de 2015

Lançamento de Contra a Maré Vermelha

Na esteira das manifestações de 15 de março, tivemos em São Paulo, no dia 18, o evento de lançamento do livro Contra a Maré Vermelha, de Rodrigo Constantino. Antes dos autógrafos, houve um bate-papo com os leitores.

Cheguei cedo, assim como muitas outras pessoas. Enquanto esperávamos, conversávamos sobre as notícias do dia: a demissão de Cid Gomes, as denúncias da Operação Lava-Jato cada vez mais próximas de Lula e Dilma, a iniciativa de Olavo de Carvalho de convidar cada cidadão brasileiro a apresentar petições à Justiça solicitando o impeachment da presidente e a cassação do registro do PT. Não poderia ser diferente. As pessoas estão muito mobilizadas com a grave situação do Brasil.

Rodrigo Constantino chegou um pouco antes do horário. Foi vivamente aplaudido. Esperou alguns minutos e começou o evento precisamente no horário marcado. O bate-papo foi gravado e está disponível aqui.

O livro é uma coletânea de 80 textos publicados em sua coluna no jornal O Globo, para comemorar seus cinco anos de colunista. Ele procurou escolher textos mais atemporais, que continuarão atuais independentemente do que acontece no dia-a-dia. 

Rodrigo disse que é possível e desejável debater com a “esquerda que pensa”, com aquela parcela de pessoas de centro-esquerda que aceitam as regras da democracia e podem contribuir com suas opiniões e questionamentos. Isso ajuda, segundo ele, a isolar ou afastar aqueles que pregam a violência, a ditadura, o totalitarismo.

Foi aberto o debate e fiz esta pergunta:

— Rodrigo, você concorda que a esquerda só existe porque existiu um sujeito chamado Rousseau e outro chamado Marx, que falaram uma monte de abobrinhas e escreveram um monte de falácias, de non sequiturs, de coisas que não correspondem absolutamente à realidade? E que, se tudo isso for refutado, não sobra nada da esquerda? Então a gente estaria discutindo as virtudes do federalismo contra uma maior centralização do Estado, estaria discutindo entre libertários e conservadores, coisas que têm sentido.

Ele concordou dizendo que, em vez de discutirmos se a Terra é redonda ou quadrada, estaríamos discutindo as nuances de a Terra ser redonda. Lembrou que Lula já defendeu que haveria vantagens se a Terra fosse quadrada. Eu acrescentaria que poderíamos ir além. Aproveitando que sabemos que a Terra é redonda, que tal construir um sistema de GPS? Rodrigo enfatizou que é pragmático trazer uma parcela da esquerda para o nosso lado do debate, para a defesa da democracia.

Bene Barbosa, do Movimento Viva Brasil, entrou no auditório e também foi muito aplaudido.

Foi feita uma pergunta sobre a Polícia, sobre como defendê-la de iniciativas que a desmoralizam. Rodrigo respondeu que quem demoniza a polícia é a esquerda radical, o PSOL, por exemplo. A segurança pública é, no entender dos liberais, a função primordial do Estado. Sendo assim, a polícia precisa ser defendida e valorizada.

Perguntaram sobre políticos que eram oposição ao PT e acabaram aderindo, como Gilberto Kassab. Isso seria um problema ideológico ou moral? Rodrigo respondeu que, em primeiro lugar, existe uma esquerda moderada que propõe as mesmas coisas que o PT (cotas, por exemplo) e que foi aderindo, já que o PSDB adotou uma postura covarde, pusilânime. Sobre supostos liberais que aderiram, como Kassab e Guilherme Afif Domingos, nunca foram de fato liberais. Pragmatismo em excesso é prostituição. Esse processo acaba criando uma direita mais consistente, depurada desses falsos apoiadores.

Quem são nossos líderes de oposição? Rodrigo responde: “Não sei. Um dos artigos do livro é justamente Procura-se líder de oposição. No Brasil, defender o bom senso é uma postura radical.” Elogiou Ronaldo Caiado. É difícil se assumir como direita no Brasil, pois se é instantaneamente acusado de apoiador do regime militar e de nazista. Se alguém ler os 25 pontos do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, encontrará uns 20 que o PT subscreveria.

A população começou a mudar de postura? Dizer que não concorda com cotas e que quer meritocracia? Essa discussão tomou corpo na sociedade? Sim, diz Rodrigo, e a Internet ajudou muito a colocar essas questões. Reinaldo Azevedo foi um pioneiro. Hoje, muitos DCEs, que sempre foram redutos comunistas, tem sido tomados por liberais. Começamos a fazer a luta cultural, que é a mais importante de todas. Precisamos quebrar o “monopólio da virtude” da esquerda. Esquerda Caviar foi muito importante nesse sentido. Não podemos aceitar os termos que a esquerda usa para desvirtuar o debate.

Como a esquerda é, há muito tempo, o mainstream intelectual, quem é mainstream fica mais preguiçoso. Por outro lado, quem é dissidente sempre precisa estudar mais, para poder confrontar o mainstream com mais argumentos. Isso fez com que a direita se preparasse melhor. — Não consigo mais debater com um esquerdista, porque vão colocar o Vladimir Safatle na minha frente e eu vou pedir licença, chamar minha filha de 13 anos e ela vai asfaltá-lo em todos os argumentos.

Na hora dos autógrafos, Rodrigo fez questão de tirar fotos especiais com Leandro Narloch, Bene Barbosa e Gil Diniz.

Em breve, escreverei uma resenha sobre o livro, que é muito bom.


Bene Barbosa Leandro Narloch

Gil Diniz

segunda-feira, 16 de março de 2015

Uma elite moral de todas as cores

Também vou fazer meu relato da manifestação de 15 de março, esse dia do qual não vamos nos esquecer.

Vesti a camiseta que minha esposa estampou para a manifestação e fui de metrô para a Paulista. A quantidade de gente vestida com as cores da bandeira brasileira era impressionante. Acabei chegando meio tarde à avenida, junto com alguns amigos, quando a multidão já tinha ocupado quase todo o espaço.

Meu celular logo ficou sem sinal e eu consegui procurar nenhum dos muitos amigos que estariam na manifestação. Fotografo muito mal, tirei poucas fotos, não consegui registrar várias coisas interessantes que vi. Foi pena não ter registrado um catador de latinhas todo adesivado de “Fora Dilma”.

Avançávamos cada vez mais devagar na direção do Masp. Fomos perdendo algumas pessoas do grupo, sem conseguir encontrá-las novamente. Cantamos o Hino Nacional, gritamos: “Eu vim de graça!” e “Ei, Dilma, vai…” Um grito de guerra sensacional era: “O povo paulista jamais será petista!”

A elite branca e eu
Paramos numa rua lateral ao lado do Masp. Não dava para continuar. Um amigo meu encontrou amigos dele, que são bombeiros. Estavam com a família. Víamos muitas famílias, crianças de todas as idades, bebês em carrinhos, idosos. Um grupo de maçons, um casal muçulmano, alguns travestis, cadeirantes, indivíduos dos tipos mais diversos, todos gritando “Fora PT”. As lanchonetes e as lojas estavam abertas, funcionando normalmente. Chovia, mas não muito forte. Ninguém ligava para a chuva.

De repente, vi um pessoal gritando “Eu vim de graça!” e “Fora PT” para alguém que estava no meio da multidão. Era Lucas Salles, do CQC. Não assisto TV, não sabia quem era. Ele ofereceu a quem quisesse a oportunidade de dizer o que quisesse no microfone. E as pessoas conversaram com ele. Também pedi para falar e ele me entrevistou. Perguntou porque eu estava lá, o que eu pretendia, como funcionava um impeachment. Parece que ele precisa estudar mais o assunto. Mas não passou no programa.

A Maçonaria encontra a Reaçonaria
Ainda era cedo, mas a quantidade de pessoas diminuiu um pouco e consegui chegar até a frente do Masp. Lá, encontrei o pessoal da Reaçonaria em peso. Ouvi alguns discursos do Movimento Brasil Livre. Assinei o pedido de abertura do processo de impeachment. Pulamos dizendo "Quem não pula é comunista", satirizando os palhaços do PC do B que impediram Yoani Sánchez de falar em São Paulo em 2013.

O MBL anunciou que Dilma provavelmente faria um pronunciamento às 18h30. Ficamos na expectativa, mas não aconteceu nada. Os celulares funcionavam muito mal, quando funcionavam. A rede não é feita para essa concentração de pessoas.

Como nos jogos do Japão na Copa do Mundo, passaram algumas pessoas recolhendo o lixo da rua. Ajudamos.

Já estava anoitecendo e as pessoas iam se dispersando. Saímos da Paulista por uma rua lateral. Estavam parados vários carros de polícia e caminhões do Batalhão de Choque. Por sugestão do Flávio Morgenstern, passamos por eles aplaudindo.

Um sanduíche de mortadela opressor
Fomos comer alguma coisa. Não perdi a oportunidade de pedir um sanduíche de mortadela especial, em homenagem ao MST. Meu sanduíche foi pago meu dinheiro. Os do MST também. Na TV da padaria, os dois patetas que a presidente escalou para aparecer no lugar dela falavam groselhas. Não fomos à rua pedir aumento de pena para os corruptos, nem reforma política. Ouvimos barulho de panelas.

Era tarde para mim e fui embora. A Paulista estava absolutamente normal. Nada indicava que mais de um milhão de pessoas havia acabado de sair dali. 

Vamos nos encontrar de novo na quarta, no lançamento do livro do Rodrigo Constantino, Contra a Maré Vermelha, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. E, se o governo não cair antes, dia 12 de abril tem mais.

Muitas pessoas ficaram com receio de ir às manifestações. É compreensível, não sabíamos o que o outro lado da força poderia preparar. Agora sabemos, fiquem tranqüilos. Quem está com medo são eles e é assim que deve ser. Em manifestações de gente honesta e trabalhadora, não há espaço para black blocs. A próxima tem de ser maior que esta.

Quero expressar meu imenso orgulho de ter participado desse evento único na história do Brasil ao lado de tanta gente decente. São de fato uma elite. Uma elite moral de todas as cores.

Fora PT! Fora Foro de São Paulo!

Art. 85, inciso V

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O Compasso de Schwencke

O “Compasso de Schwencke”
Acredito que na trilha sonora do Céu toque muito Bach. Meu filho nasceu ao som do Concerto nº III de Brandemburgo. Considero o Cravo Bem Temperado uma obra monumental, sobre-humana, com seus dois Prelúdios e duas Fugas para cada um 24 tons da escala (os 12 maiores e os 12 menores).

Assim como muita gente, sou fascinado pelo Prelúdio nº 1 em Dó Maior. Por causa da estrutura fixa dos compassos, não é tão difícil de aprender. Sou um aluno medíocre de teclado e estou tentando tocá-lo sem errar muito. Peguei a partitura na Internet e alguns vídeos no YouTube, como este.

Para minha surpresa, entre os compassos 22 e 23, a pianista toca um compasso que não está na partitura. Algumas pessoas reclamaram desse compasso extra nos comentários e a pianista respondeu que essa era a versão mais aceita da peça. Pesquisei um pouco e descobri que esse é o “Compasso de Schwencke”.

Christian Friedrich
Gottlieb Schwencke
Christian Friedrich Gottlieb Schwencke (1767 - 1822) foi um compositor, pianista e editor de obras musicais. Sucedeu Carl Philipp Emanuel Bach, filho de Johann Sebastian Bach, como diretor musical em Hamburgo. Schwencke publicou uma edição de O Cravo Bem-Temperado por volta de 1800. É a aparição mais antiga que se conhece desse compasso a mais. Diversas edições posteriores tiveram a de Schwencke como fonte. A mais famosa é a de Carl Czerny, de 1837. Não temos certeza se quem introduziu o compasso foi mesmo Schwencke ou se ele também copiou de outra fonte. O curioso é que a edição de Czerny foi usada pelo compositor francês Charles Gounod para criar sua Ave Maria, uma melodia tocada por cima do Prelúdio em Dó Maior, com o “Compasso de Schwencke”.

É claro que prefiro o Prelúdio original, como foi escrito por Bach. A passagem do compasso 22 ao 23 é de fato abrupta e audaciosa. E o compasso extra quebra essa tensão, que é talvez o momento mais bonito da obra. Mas existe quem prefira a versão suavizada. O Prelúdio possui 35 compassos, que podem ser divididos em 9 grupos, 8 com 4 e esse trecho do 21 ao 23 com 3. Talvez isso incomode músicos com TOC.

É curioso que alguém tenha achado que poderia corrigir, melhorar o trabalho de um gênio da grandeza de Bach. E que o tenha feito de maneira sub-reptícia, anônima, levando muita gente boa a acreditar que a obra alterada era o que o Bach pretendia. Fico pensando que Schwencke passou à imortalidade de uma maneira muito peculiar. Se não fosse pelo compasso, ele talvez estivesse esquecido. Mas é lembrado por um ato infamante, do qual nem temos certeza de quem foi o autor.

Prelúdio nº 1 em Dó Maior,
tocado em um cravo flamengo,
por Martha Goldstein. 




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Khomeini, o crítico musical

Khomeini: A música entorpece a mente, porque envolve prazer e êxtase, de maneira semelhante às drogas. A sua música, eu quero dizer. Normalmente, a sua música não exalta o espírito, ela o coloca para dormir. E destrói nossos jovens que se envenenam com ela, e então não se importam mais com seu país.

Pergunta: Mesmo a música de Bach, Beethoven, Verdi?

Khomeini: Não conheço esses nomes.

Khomeini admitia a possibilidade de que, se “nossa”música não entorpecesse a mente, não precisaria ser proibida: “Algum tipo de música sua é permitida. Por exemplo, marchas militares e hinos para marchar. […] Sim, mas suas marchas são permitidas.” Então, talvez o falecido Aiatolá e o Grand Mufti al-Husseyni, apoiador do nazismo, achassem ambos Die Fahne Hoch adequado ao seu gosto musical.


Trecho de The Sword of the Prophet, de Serge Trifkovic, citando uma entrevista dada pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini a Oriana Fallaci, publicada em The New York Times Magazine, de 7 de outubro de 1979.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Os países mais capitalistas da África

Anoitecer em Port Louis
Poucas pessoas saberiam dizer quais são os dois países mais capitalistas da África, onde há menos dificuldades legais em acumular patrimônio, menos impostos, menos gastos governamentais, legislação trabalhista mais livre, menos corrupção.

Um primo meu me mandou este vídeo da Fair Labor Association - FLA, em que seu ex-presidente, Auret van Heerden, apresenta situações de pessoas trabalhando em condições sub-humanas em alguns países e atribui o problema ao capitalismo e à falta de regulamentação trabalhista. Os países citados são Zimbábue, China, Congo, Uzbequistão. Fui pesquisar o índice de liberdade ecônomica deles. A Heritage Foundation faz um trabalho fantástico de avaliação da liberdade econômica no mundo, que pode ser consultada neste site. Não é surpreendente que os países citados por van Heerden tenham índices muito ruins. O que me surpreendeu foi encontrar dois países com excelente performance ecônomica na África: Maurício e Botsuana.

Maurício é um país insular no Oceano Índico, a 2000 km da costa continental africana. Sua área é pouco maior que a do município de São Paulo. Não possui recursos minerais. Era desabitado até o século 16. A população é formada principalmente por descendentes de indianos, árabes e europeus. Desde a descolonização, em 1968, tem um regime democrático estável, com um sistema legal funcional e a mais ampla liberdade econômica da África. De produtor de açúcar, o país passou a exportador de têxteis, pólo turístico e hoje é também um centro de desenvolvimento de software. Tem a quinta renda per capita mais alta da África em paridade de poder de compra.

Botsuana é fica no interior da África, em uma região semi-árida, entre a Namíbia, a África do Sul, o Zimbábue, Angola e Zâmbia. 70% do território pertence ao deserto de Kalahari. Com uma área comparável à da França, possui 2 milhões de habitantes, que vivem dispersos pelo país. A capital, Gaborone, tem apenas 230 mil habitantes. A renda per capita por paridade de poder de compra saltou de 70 dólares anuais na época da independência, em 1966, para 16.400 dólares anuais em 2013, a sexta maior da África. Sua principal fonte de renda é a mineração de diamantes. Porém, ao contrário de outros grandes produtores de diamantes como Angola e a República Democrática do Congo, Botsuana conseguiu transformar essa riqueza mineral em crescimento econômico e benefícios para seu povo. O grande desafio hoje é diversificar a produção e diminuir a dependência da atividade mineradora. Botsuana foi muito afetado pela epidemia de AIDS, o que freou seu crescimento na década passada. Aparentemente, esse problema está sendo superado.

Comparar esses países com o Brasil dá desânimo e tristeza. O gráfico de liberdade econômica dos três países mostra que quase conseguimos alcançá-los entre 1998 e 2002 e que perdemos o bonde a partir daí.


O gráfico de renda per capita do Banco Mundial nos dá a conseqüência disso.


Maurício e Botsuana não têm CLT, não têm Bolsa-Família, não têm uma carga tributária de de 40% do PIB, não têm Petrobras, não têm PT.

Uma palavra final sobre Auret van Heerden. Depois que a FLA passou a receber doações da Apple, parou de criticar e passou a elogiar a Foxconn, fornecedora chinesa da Apple. Várias organizações denunciaram que as condições de trabalho na Foxconn continuavam muito ruins e acusaram van Heerden de ter se vendido. Ele teve de renunciar à presidência da associação em 2013.

Voltando a Maurício e Botsuana, o fato de os países mais capitalistas da África terem um desempenho econômico superior não é coincidência. É o resultado da liberdade e do respeito às leis. Em qualquer parte do mundo, se o capitalismo e a liberdade forem aplicados, a população enriquece.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Muita Retórica — Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel

Um dos melhores livros que li no ano passado é Muita Retórica — Pouca Literatura, de Rodrigo Gurgel. É um painel da prosa brasileira da segunda metade do século 19. Em cada capítulo, Rodrigo analisa uma obra de um autor diferente. O único escritor que aparece em dois capítulos é o Visconde de Taunay, com Inocência e A Retirada da Laguna.

Confesso que só li quatro dos livros analisados: Memórias de um Sargento de Milícias, O Cortiço, O Ateneu e Dom Casmurro. Quase todos quando estava no colegial, há mais de 25 anos. Encontrei muitos reflexos da impressão que me ficou dessas obras na crítica de Rodrigo Gurgel.

Memórias de um Sargento de Milícias é um livro muito bom. Despretensioso, leve, bem-escrito, narra o cotidiano de pessoas comuns. Suas personagens são verossímeis e perfeitamente humanas com suas pequenas mesquinharias e seus pequenos gestos de heroísmo. O Cortiço é uma obra forte, com momentos marcantes. Porém, sua visão naturalista, totalmente pessimista sobre a capacidade moral do ser humano, o faz um romance mediano. O Ateneu é um livro muito ruim, tanto pelo excesso de retórica como pelo sarcasmo destrutivo que o narrador dirige contra tudo e contra todos.

E fiquei muito satisfeito por Rodrigo Gurgel não gostar de Dom Casmurro. Ele ressalta o quanto Machado de Assis deve ao autor de Memórias de um Sargento de Milícias, dívida nunca reconhecida por Machado. Rodrigo diz que Bentinho constrói uma narrativa que só conduz o leitor a becos sem saída. Não é possível dizer se Capitu traiu Bentinho ou não. E não é possível dizer mais quase nada. Bentinho simplesmente nos confunde e para nada.

Muita Retórica — Pouca Literatura
resgata diversos escritores esquecidos, como João Francisco Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, Inglês de Souza e Xavier Marques. Dá umas boas pauladas em autores incensados como Adolfo Caminha, Afonso Arinos e Graça Aranha, além das unanimidades José de Alencar, Machado de Assis e Raul Pompéia. Fiquei com muita vontade de ler A Retirada da Laguna e os livros de Joaquim Nabuco e Eduardo Prado. E estou ansioso para começar o próximo do Rodrigo, Esquecidos e Superestimados, que continua analisando a prosa brasileira, agora no início do século 20.

A crítica de Rodrigo Gurgel é muito bem fundamentada. É divertida e equilibrada. Os pontos fortes de uma obra ruim ou os defeitos de um livro excelente não são deixados de lado, mas explicados pacientemente ao leitor.

Para dar uma noção do que é o livro, publico o nome dos capítulos e o autor e a obra a que se referem. Boas leituras!

1. Romantismo autodestrutivo
José de Alencar e Lucíola

2. Talento para recriar a vida
Manuel Antônio de Almeida e Memórias de um Sargento de Milícias

3. O ironista macambúzio
João Francisco Lisboa e Jornal de Timon

4. O contestador liberal
Joaquim Felício dos Santos e Memórias do Distrito Diamantino

5. Valioso, mas desigual
Visconde de Taunay e Inocência

6. Ecos do ultra-romantismo
Bernardo Guimarães e O Seminarista

7. Épico às avessas
Visconde de Taunay e A Retirada da Laguna

8. Lenga-lenga maçante
Franklin Távora e Um casamento no arrabalde

9. O preço do naturalismo
Aluísio Azevedo e O Cortiço

10. Acima do naturalismo
Inglês de Souza e Contos amazônicos

11. Subliteratura e vingança
Adolfo Caminha e Bom Crioulo

12. Encoberto pela retórica
Domingos Olímpio e Luzia-Homem

13. Em busca do realismo
Manuel de Oliveira Paiva e Dona Guidinha do Poço

14. Enfermo de retórica
Raul Pompéia e O Ateneu

15. A pior das respostas
Machado de Assis e Dom Casmurro

16. O antifilisteu
Joaquim Nabuco e Minha formação

17. O anti-revolucionário
Eduardo Prado e Fastos da ditadura militar no Brasil

18. Arenga sertanista
Afonso Arinos e Pelo sertão

19. Retorno ao paraíso
Xavier Marques e Jana e Joel

20. Puro pedantismo

Graça Aranha e Canaã