sábado, 17 de janeiro de 2015

Tripudiando sobre o cadáver de Josef Mengele

Minha filha, uma amiga dela e eu, pisoteando a areia da praia onde morreu Josef Mengele.
Em 2012, Diogo Mainardi publicou A Queda - As memórias de um pai em 424 passos. Narra o nascimento de seu filho Tito, com paralisia cerebral devido a um erro médico. É um livro muito forte, que li de uma tacada. Na ocasião, escrevi este post.

(Aproveito para recomendar o site de Diogo Mainardi e Mario Sabino, O Antagonista. As poucas linhas que eles escrevem diariamente valem mais que todo o conteúdo da Folha de S.Paulo, do Estadão e da Globo juntos.)

Vou reproduzir um capítulo em que Diogo trata de Josef Mengele.



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Agora estamos na praia da Enseada, em Bertioga.

Em 7 de fevereiro de 1979, entrando no mar, na praia da Enseada, Josef Mengele teve um derrame cerebral e morreu.

Vim até aqui, com meus filhos Tito e Nico, seguindo o rastro de Josef Mengele. Quero entrar no mar em que ele morreu. Quero tripudiar sobre seu cadáver. Quero comemorar o valor da vida de um filho inválido.

Sou o Simon Wiesenthal da paralisia cerebral.

Josef Mengele está morto. Tito está vivo.



Josef Mengele, pouco antes do
final da Segunda Guerra Mundial
O médico nazista Josef Mengele trabalhou no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. Selecionava quem deveria ir para a câmara de gás e quem seria poupado. Fez diversas experiências dolorosas e cruéis com seres humanos, especialmente com gêmeos, pessoas com um olho de cor diferente do outro e anões.

Mengele amputava membros desnecessariamente. Inoculava doenças em um gêmeo para observar sua evolução e, quando o paciente morria, matava o outro irmão e dissecava os dois para comparar. Injetava substâncias químicas nos olhos de suas vítimas para tentar alterar sua cor. Expunha pessoas a drogas diversas e a raios X. Em um experimento mencionado por Diogo Mainardi, costurou duas crianças ciganas uma na outra. Elas morreram de gangrena depois de vários dias de sofrimento.

Depois da derrota da Alemanha, fugiu para a Argentina. Em 1960, outro criminoso de guerra nazista, Adolf Eichmann, foi seqüestrado na Argentina pelo Mossad, o serviço secreto israelense. Foi levado a Israel, julgado, condenado à morte e enforcado. Mengele fugiu então para o Brasil, onde viveu o restante de sua vida. Em 1985, autoridades alemãs descobriram que Mengele havia morrido em Bertioga e estava enterrado em Embu das Artes. Um exame de DNA, feito em 1992, constatou que o corpo era dele mesmo. Sua família não quis receber seus restos mortais. Ele permanece insepulto, no Instituto Médico Legal de São Paulo.

Em 7 de janeiro de 2015, o mesmo dia do atentado contra o Charlie Hebdo em Paris, tive a oportunidade de também levar meus filhos a Bertioga. Vimos um monumento aos pracinhas da FEB, perto da praia. Depois, fomos até a Enseada, para também tripudiarmos sobre o cadáver daquele assassino abjeto. Minha filha, uma amiga dela e eu pisoteamos a areia para lembrar das vítimas do nazismo. Meu filho não quis participar.

Josef Mengele está morto. Meus filhos estão vivos.



Monumento aos pracinhas da FEB

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