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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Entrevista com José Anselmo dos Santos, o “Cabo Anselmo”


Existe um brasileiro cuja cidadania foi cassada pela ditadura militar e jamais foi restabelecida. Existe um homem que possui uma Certidão Negativa de Nascimento, que atesta que ele não nasceu. É o único dos presos políticos que não foi anistiado. Seu nome é José Anselmo dos Santos e sua história está contada no livro Cabo Anselmo – Minha Verdade.

Conversei com Anselmo e trago aos leitores do blog um pouco de sua experiência.

PERGUNTA: Como está a situação da sua identidade civil? Mudou alguma coisa desde a publicação do livro? Você tem esperança de recuperar a cidadania brasileira? 

JOSÉ ANSELMO DOS SANTOS: Nada mudou. Continuo clandestino ou apátrida. José Anselmo dos Santos, aquele marinheiro de primeira classe do serviço subalterno da Armada, existe nos arquivos da instituição. Portava uma cédula de identidade de militar da Marinha e tinha uma conta bancária no Banerj, onde eram depositados os soldos mensais. Não sei em que momento fiquei sem aquele documento. Após a fuga da prisão, passei um ano fechado em “aparelhos”, sob a proteção de famílias militantes ou simpatizantes de grupos comunistas. Desde então tenho utilizado identidades “frias”, com outros nomes. A pedido do meu advogado, foi feito o reconhecimento através de impressões digitais por um datiloscopista oficial, na presença de Procuradores da Justiça Federal e de um agente da Marinha. A Justiça determinou à Marinha o prazo de 10 dias para devolver minha identidade. A resposta foi negativa. O juiz que despachou a ordem foi removido do posto e substituído por outro que determinou à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo a expedição da identidade em meu nome. A SSP-SP exigiu a certidão de nascimento. O cartório em que fui registrado enviou uma “Certidão Negativa”. Não nasci, não existo. Nem sei como fui parar na Marinha.

Recuperar o meu nome é o objetivo primeiro. Venho tentando desde o processo de pedido de anistia, que segundo informações do meu advogado atrasou durante anos, segundo as autoridades da Comissão de Anistia, porque faltava anexar identidade, CPF e indicação de conta bancária. Depois julgaram sem nada disto, numa sessão em que só compareceram familiares de militantes comunistas, pessoas que declaravam conhecer-me sem nunca me terem encontrado, acredito que “testemunhas plantadas”, algumas. Embora com os direitos políticos cassados na primeira lista de 1964, embora enquadrado em diversos itens da Lei de Anistia… O direito me foi negado.

Quanto ao futuro, o cumprimento puro e simples da Lei sem os vieses políticos depende do ambiente e das cores da mente dos juízes. Só Deus sabe. Quanto a mim fico lembrando uma citação que vem da velha Grécia: “A justiça é o interesse dos privilegiados”. E o interesse dos privilegiados do momento parece ser a inversão de valores e direitos humanos. O descumprimento das Leis vigentes está na moda.

PERGUNTA: Fale um pouco sobre a sua atividade profissional depois da luta armada. Que tipo de trabalho você desenvolveu? Qual era o perfil dos seus clientes?

ANSELMO: Liberado da prisão do DOPS de S. Paulo, fui trabalhar no interior, administrando uma pequena empresa de corte e transporte de madeiras, pertencente ao Delegado de Polícia do DOPS, Afonso Acra. Foi o meu primeiro emprego. Claro que não havia carteira de trabalho, mas o tratamento era respeitoso. Aprendi a me relacionar com os operadores de campo, transportadores de madeira e com o pessoal das fábricas de papel, ajustando preços, emissão de faturas, pagamentos.

Ao mesmo tempo, buscava outros horizontes, que me afastassem das “autoridades”. Sabia que os serviços de inteligência me vigiavam e vez por outra era “convidado” para um encontro com um agente. Soube que era uma rotina de “avaliação”. A partir de 1973, comecei a ajudar a pessoa que me acompanharia durante a vida. Passei a conhecer sobre administração predial. Como não era possível freqüentar uma escola formal, lia e fazia todo tipo de seminário sobre administração e “auto-ajuda”. Com novos relacionamentos, a empresa foi tomando forma e prestando serviços de consultoria na esteira de um dos cursos que freqüentei.

Depois de conhecer e freqüentar seminários de Programação Neuro Lingüística, comecei a montar e oferecer cursos de Liderança, Comunicação Empresarial e outros, que eram muito aceitos pelas empresas. Servi a pequenas, médias e grandes empresas, algumas multinacionais. Em fins da década de 80, minha sócia e dona da empresa de consultoria morreu. Fui convidado para um outro tipo de trabalho no oeste paulista. Mudei e, em dois anos, o projeto inadimplente me fez voltar à capital, sem eira nem beira.

Com ajuda de amigos, consegui trabalho como instrutor de Relações Públicas numa empresa de formação de vigilantes. Passei a contatar antigos clientes da consultoria e tive o contrato para cuidar de um assunto privado para o dono de uma empresa famosa. O resultado de trinta dias de busca de informações numa cidade do interior foi a absolvição de um empregado de confiança, envolvido num processo. Encontrei provas e duas declarações de testemunhas oculares que inocentavam o réu. Este trabalho me rendeu o suficiente para reatar os trabalhos de consultoria com um grupo de amigos. Desta vez, com a especialidade em treinamento de pessoal.

Foi o que fiz durante a maior parte da vida ativa. Até que fui convidado por um amigo para a entrevista a Percival de Souza, que resultou na edição do livro Eu, Cabo Anselmo, aparição no programa Fantástico, exibição da imagem que deveria ser “borrada”, exposição da voz através do site da revista Época… E impossibilidade de continuar com meu trabalho. Um amigo, já falecido, me emprestou um sítio. Fui ser artesão e apicultor. Com a apicultura investi tudo quanto tinha e algo mais. Perdi. Fui roubado. Recomecei no Piauí, ainda com apicultura. Outra porrada. Aos 68 anos, retornei a São Paulo. E desde então tenho recebido ajuda de alguns amigos para sobreviver. Algumas situações são constrangedoras. Outras francamente afirmativas. Tenho um computador que ganhei de presente e devo agradecimentos eternos a muitas pessoas, que me incentivaram e ajudaram. São pessoas conscientes das realidades históricas e do papel das FFAA durante os governos militares, francamente manipulado pelos intelectuais e acadêmicos que formam a tal “opinião pública”, todos os cérebros lavados na linha da “Propaganda” de Edward Bernays, sobrinho do Freud e do Instituto Tavistock gerado pelos serviços de inteligência inglesa e transferidos para os EEUU com financiamento da Fundação Rockefeller.

PERGUNTA: Você continua estudando? Quais os seus principais interesses de estudo hoje?

ANSELMO: Durante anos pude acompanhar religiosamente o True Outspeak, a palestra semanal do Prof. Olavo de Carvalho o que escancarou uma porta imensa, arrumando áreas mentais. Fui ampliando a leitura na medida do possível. A internet ajudou muito. Mais tarde um amigo (do Facebook) me contatou, visitou diversas vezes junto com a esposa e me forneceu uma considerável biblioteca em CDs. Ainda não li tudo: filosofia, política, história, religiões comparadas, antropologia cultural… Atualmente, uma das vertentes de estudo é a física quântica. Mas acompanho diversos blogs, como do E. Griffin, reunindo opiniões da Europa, dos Estados Unidos, Argentina, Chile… todas “politicamente incorretas”, na contramão do “aquecimento global”. Também escrevo. E tento entender as origens da tal “nova ordem mundial” na linha do tempo. Tenho um livro quase pronto sobre este assunto, começando por Darwin, Pavlov, Freud, Escola de Frankfurt, criação do Instituto Tavistock, ligações com os membros do secretismo da hierarquia de poder real, hoje segredo de polichinelo (em parte), passando pelo comércio de armas e drogas e mostrando como a PNL é um instrumento estratégico da engenharia social aplicada no mundo inteiro.

Também tenho escrito contos, crônicas, umas 500 páginas anotadas para uma novela e mais de 1500 artigos publicados em blogs sob pseudônimo. Atualmente, tenho publicado uma ou duas vezes por semana num blog próprio que um amigo disponibilizou para mim, no Wordpress. O endereço é www.controvertido.com.br.

PERGUNTA: Uma pergunta sobre a ditadura. A esquerda fala muito em tortura. Todos os heróis do panteão da esquerda dizem ter sido vítimas de torturas bárbaras e prolongadas. Conhecemos o célebre conselho atribuído a Mario Lago, para os comunistas que saíssem da prisão: “Diga que foi torturado.” Você conta no livro que foi torturado desde logo que foi preso pela segunda vez. Sem necessidade de citar nomes ou casos específicos, o que existe de verdade e de inverdade nas histórias de tortura durante o regime militar?

ANSELMO: Minha primeira prisão, em 1964, foi feita pelo DOPS do Rio de Janeiro. Não fui torturado e convivi com dezenas de presos políticos, todos circulando entre as celas abertas e onde havia um mínimo de higiene. Depois, fui transferido para o Presídio Fernandes Viana, onde estavam outros marinheiros, em estreita convivência com presos comuns. A justiça ainda funcionava. Os advogados conseguiram a nossa transferência para uma prisão somente para políticos, numa delegacia recém-inaugurada no Alto da Boa Vista. Ali, recebíamos visitas semanais de um grupo de moças universitárias, ligadas à Ação Popular (AP), já naqueles dias empenhadas em divulgar as idéias de Althusser, Teilhard de Chardin, Franz Fanon, Sartre e Marcuse. Alguém chegou com a proposta de uma entrevista com Marcio Moreira Alves, que escrevia um livro (A tortura e os torturados), talvez uma versão local do livro de Henri Alleg, La Question, publicado em 1958, denunciando as torturas praticadas pelos pára-quedistas franceses no ambiente da guerra da Argélia.

– Mas eu não fui torturado…

– Mesmo assim, fale de tortura psicológica…

No cenário de 1970, no DOPS de São Paulo, sim. Fui retirado de uma cela infecta na madrugada, fui levado para o primeiro interrogatório e torturado no pau de arara. O que perguntaram e o que respondi está borrado da memória. No segundo dia, na madrugada, nova sessão. A primeira não deve ter sido satisfatória para os policiais. No terceiro dia, fui levado à presença do Dr. Sergio Paranhos Fleury. Eu já estava convicto desde Cuba e isto foi escrito e firmado pelos integrantes do grupo de ex-marinheiros (éramos seis), em carta dirigida a Fidel Castro, que não concordávamos com a interferência dos cubanos na “luta contra a ditadura militar” no Brasil.

No meu caso, conscientemente, já estava afastado da selvageria das guerrilhas e queria mesmo era regressar ao Brasil, depois de vivenciar as maravilhas do comunismo em Praga e em Havana. Sobre as torturas, tínhamos notícias. Particularmente já sabia que naquele tipo de guerra ou mesmo em guerras declaradas, a tortura era prática corrente e presente na história mais remota. A brutalidade daquela prática marcou minha alma. E, sem dúvida, marcou todas as pessoas envolvidas, direta ou indiretamente atingidas. Marcou com um sentimento de horror, de medo. A morte nos entreveros armados, a prisão, a tortura, a coerção, o fuzilamento nos cenários de revoluções comunistas, as imposições restritivas não são condições normais de vida. Mas continuam sendo rotineiras. Neste sentido, o poder, em toda a história passada e recente, tem sido o carrasco e coveiro da beleza, das virtudes, da ética, do respeito humano, enfim da essência dos homens que buscam a paz, a paz construtiva e a convivência fraterna. Entre os companheiros daqueles dias de clandestinidade, quando havia referência à brutalidade dos fuzilamentos ou qualquer ato extremo ditado pelo catecismo revolucionário, a justificativa era imediata: “Guerra é guerra, companheiro!” Fatos e realidades vergonhosas. É um dever de honra e humanidade superá-las.

Todos os governos desta era coletivista submetem seus povos a mais escabrosa das torturas: o medo permanente, desemprego, crises econômicas, violência crescente, insegurança… Tudo isto conforma um aparato de tortura mental e estresse, causando doenças e até a morte. Quem os julgará?

PERGUNTA: Você viu ou presenciou torturas em Cuba? O que você pode falar sobre isso?

ANSELMO: Não vi, nem presenciei. Ouvi relatos de intelectuais e de cidadãos comuns com os quais convivi: exposição ao sol, sem acesso à água; celas sem ventilação e sem instalações sanitárias; simulação de fuzilamento. É o que lembro. Nunca tivemos acesso pessoal a prisões.

PERGUNTA: E sobre as alegações de tortura dos militantes comunistas, alguns beneficiados pela Comissão de Anistia? Qual a credibilidade desses relatos?

ANSELMO: Acredito que houve torturas porque eu mesmo fui vítima. No entanto, estou convencido que muito do que se descreve é exagerado. É a norma de conduta constante dos manuais de doutrinação. Os choques elétricos no “pau-de-arara”, o isolamento durante dias sem ter com quem falar em celas infectas, “telefone” (tapas com ambas as mãos nos dois ouvidos), "palmatória", porradas com cassetetes de borracha. E por fim é bom lembrar que Dan Mitrione, um agente da CIA assassinado pelos tupamaros no Uruguai, passou por aqui, treinou policiais sobre “técnicas de interrogatório”. Ouvi relato de um policial, vi foto publicada num jornal e tenho cópia de uma publicação da época sobre o seqüestro, interrogatório feito pelos tupamaros.

PERGUNTA: Como você vê o panorama político e cultural do Brasil hoje?

ANSELMO: Tudo quanto vivemos como nação republicana é conseqüência do processo de liderança patriarcal e autoritária. A propriedade sobre o território ficou sob o controle de famílias oligárquicas, descendentes de escravocratas. Não houve uma colonização, nem educação suficiente para assegurar as liberdades e direitos essenciais aos habitantes miscigenados entre portugueses, aborígenes e negros. Depois da Lei Áurea, a ignorância foi mantida, assegurando os votos para os oligarcas do “café com leite”, para os “coronéis” da era Vargas e todos se tornaram “donos” de partidos políticos, fazendo leis em benefício próprio e negligenciando um projeto de nação soberana e independente de fato, que cuidasse da defesa, do território, do controle sobre as riquezas e do bem-estar dos cidadãos, ou seja, do “bem comum”. A elite brasileira do Norte enviava os filhos para serem educados nos Estados Unidos e na Europa. As mentes assimiladas aplicavam entre nós os pesos e medidas de realidades e culturas diferentes, sem cuidar de construir uma cultura local e desenvolver uma elite organizada com identidade própria.

É bastante olhar para os núcleos de colonização implantados no sul e financiados pelos governos do Japão, Itália, Áustria e outros tantos, cujo trabalho desenvolveu São Paulo, o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, e como os bolsões de desenvolvimento no norte e nordeste hoje, em sua maioria, foram implantados por iniciativa dos descendentes daqueles imigrantes.

Que conseqüências, políticas e econômicas poderíamos esperar? O único intervalo de desenvolvimento e pleno emprego, vivemos no século passado quando os governantes militares aplicaram um projeto de desenvolvimento continuado, abrindo espaço para a ocupação territorial de áreas agrícolas. Interessava aos estrategistas da nova ordem mundial. Em grandes lances do tabuleiro de xadrez geopolítico, no ambiente da “guerra fria”, preparavam-se os lances seguintes da “guerra cultural”. Isto pode ser acompanhado desde a Trilateral e Diálogo Interamericano, nas políticas indicadas por McNamara, Brzezinski, Kissinger…

No plano cultural, cumprindo a agenda das elites controladoras da economia, a ONU encarregou-se de exigir o cumprimento de contratos, acordos firmados e sistematicamente aplicados para implantar a revolução cultural: behaviorismo, gramscismo, fomento de grupos fechados (cada um no seu quadrado): étnico, religioso, comportamental, classista… Mas todos arrolados em defesa do multiculturalismo e abandono da identidade cultural nacional. Ainda mais na atualidade, com as comunicações eletrônicas na palma da mão e a intensa propaganda, como utilização de outras técnicas avançadas de controle mental e lavagem cerebral.

PERGUNTA: E no mundo, como você vê as disputas políticas e culturais dissimuladas? Quais são as principais forças que você vê disputando poder e influência hoje? São muito diferentes das forças de quarenta ou cinqüenta anos atrás?

ANSELMO: Entendo que são as mesmas forças de sempre, disputando o controle mundial em escala de interesses cada dia mais complexos. 

Olavo de Carvalho situa o embate entre três vertentes: a nova ordem mundial integrada pelos potentados de grandes empresas (hoje com filiais na China, na Rússia, no Vietnã e pelo mundo afora) e rede bancária – estes identificados como Grupo Bilderberg, Clube de Roma (que tem como afiliado o sr. Fernando Henrique Cardoso), as realezas européias, grandes jornais controlados pelo Council of Foreign Relations e outros clubes semi-secretos.

O comunismo da China e da Rússia que apóia, privilegia e defende a nova versão do “comunismo light” dos fabianos, da Escola de Frankfurt, do Lukács que Gramsci popularizou, da Teologia da Libertação gerada no Kremlin e adotada pelo Vaticano, o mesmo comunismo que Kissinger defendeu em seu relatório secreto de 1948 como apropriado para ser implantado nas nações latino-americanas, a par com a revolução verde. Daí para a Tricontinental e para o Diálogo Interamericano (com participação de FHC e Lula, Victor Civita e alguns outros brasileiros postados na ONU), de onde saíram as diretrizes para a criação do Foro de São Paulo e do Pacto de Princeton entre FHC e Lula.

Finalmente, os muçulmanos, que invadem a Europa e são recebidos pelos liberais-sociais democratas-socialistas light de braços abertos, abrindo espaço e até coagindo os cidadãos a aceitar os que “fogem dos cenários de guerra” iniciada e mantida – com lucros para os fabricantes de armas e traficantes de drogas – pelas democracias ocidentais para defender-se contra o “terrorismo”. Para confusão dos cristãos perseguidos e degolados pelos radicais do Islã, o Vaticano também os acolhe.

O interesse comum é manter as pessoas em choque, em estresse, sem condição de reagir, o que facilita a implantação definitiva das soluções de controle totalitário. Terceira guerra mundial? Como, se não houve tratado de paz encerrando a Segunda? A guerra está aí e nos atinge em cheio, nas ruas das nossas cidades, nas universidades, nas igrejas, nas associações de profissionais liberais, em cada casa atingida pela propaganda e lavagem cerebral através da onipotente televisão. 

PERGUNTA: O que podemos fazer para defender nossa liberdade diante dessas ameaças?

ANSELMO: Vamos utilizar uma metáfora: os agricultores de uma grande família, falando o mesmo idioma, decidiram compartilhar conhecimentos sobre os tratos da terra, escolha de sementes, épocas de plantio das diversas variedades, observação da natureza. E cada grupo, de modo consciente e dedicado, trabalhou com afinco, obtendo as melhores e mais saudáveis colheitas. Chegou o Estado e tomou coercitivamente mais de 45% da produção…

A defesa está em reconhecer a liberdade, a vida e a capacidade de trabalho, a boa vontade e o respeito humano, como valores maiores, sem os quais somos todos objetos úteis e envolvidos na concepção puramente materialista da vida. O caminho é a religação com as origens. Se fomos feitos “à imagem e semelhança do Criador”, temos seu DNA, temos uma força espiritual adormecida. Temos de recuperá-la e, só então, um novo paradigma emergirá, uma consciência na ação, abrindo espaço para mentes saudáveis e lideranças voltadas para o bem comum.

PERGUNTA:
Se as pessoas quiserem conhecer mais sobre sua história e suas opiniões ou quiserem contribuir com você, o que elas podem fazer, além de comprar seu livro?

ANSELMO:
O livro Minha Verdade pode ser adquirido através do site da Editora Matrix, e nas livrarias Cultura, da Vila, Saraiva, da Travessa e Amazon. No mais, podem acessar o meu blog (www.controvertido.com.br) e comentar, perguntar, opinar. Respondo a todos na medida limitada do que vivi, apreendi e continuo buscando. Concebo isto como objetivo na vida que me resta. E quem quiser e puder, em atenção a este trabalho, pode deixar sua contribuição para manter o blog. Lembrando Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso” e cada dia as contas são mais caras. O blog vale como ferramenta interativa, ponto de encontro, como se fosse a mesa de bar onde os amigos se reúnem para trocar experiências, evoluir e comemorar.

Também aceito (com reservas) convites para palestras.

PERGUNTA: Que mensagem você quer passar aos leitores do blog?

ANSELMO: Ainda existem professores, políticos, intelectuais, empresários conscientes e capazes de orientar os jovens para uma saída deste labirinto de horrores. Ainda existem pais conscientes e começam a surgir movimentos como a “Escola sem Partido” e muitos outros por aqui e pelo mundo. Atentem os meninos de hoje e busquem o saber, acima de tudo busquem o contato com a própria força da essência humana, o espírito sábio e melhor conselheiro.

sábado, 17 de setembro de 2016

Cabo Anselmo - Minha verdade, de José Anselmo dos Santos


Algumas vezes nos surpreendemos com o quanto ignoramos fatos básicos da História do Brasil. Foi meu caso com relação a este livro, Cabo Anselmo - Minha verdade. Já tinha ouvido falar do “Cabo Anselmo”, já tinha sem dúvida lido sobre ele, mas ase alguém me perguntasse o que ele fez, não saberia dizer exatamente. E é um personagem fundamental para compreendermos o golpe de 1964 e o Brasil dos anos 60 e 70. Mais que isso, num país democrático, em que não existe a pena de banimento, José Anselmo dos Santos é um não-cidadão, um apátrida, um homem sem direito a uma identidade civil. Embora pague impostos como todos nós, não tem direito aos serviços básicos do Estado, porque não tem nenhum documento.

Anselmo, que nunca teve a patente de cabo, era um jovem inteligente e carismático, de classe média baixa, que precisava ajudar a sustentar a família depois que seu pai faleceu. Entrou na Marinha. Com sua personalidade cativante, foi eleito presidente da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. No dia 25 de março de 1964, quando a Associação comemorava dois anos de sua fundação, Anselmo leu um discurso escrito por Carlos Marighella, sem compreender o que estava em jogo no Brasil naquele momento. Nem sabia quem era Marighella. Pretendia protestar contra as duras condições a que os militares de baixa patente eram submetidos. Porém, esse discurso foi um dos estopins do golpe militar.

Os marinheiros se declararam em rebelião. Os oficiais mandaram fuzileiros para prendê-los, mas os fuzileiros se juntaram aos amotinados. João Goulart demitiu o ministro da Marinha e anunciou que os revoltosos não seriam punidos.

Anselmo foi preso depois do golpe e conseguiu fugir com ajuda de grupos armados de esquerda. Passou pelo Uruguai e recebeu treinamento em Cuba. Voltou clandestino ao Brasil para participar da luta armada. Em meio a crises de consciência sobre o sentido de sua ação, foi preso e torturado. O delegado Fleury propôs que ele se tornasse um agente duplo. Com a ajuda de Anselmo, um policial se infiltrou no grupo de militantes.

Os militantes desconfiaram de Anselmo e o condenaram à morte (“justiçamento”, na língua deles) em um tribunal revolucionário. O agente infiltrado ficou encarregado de levá-lo até o local de execução. Em vez disso, levou-o para outra cidade. Aqueles que iriam executá-lo foram emboscados pelas autoridades e mortos. Entre eles, Soledad Barret Viedma, namorada de Anselmo, que pretendia ajudar a “justiçá-lo”.

O ex-marinheiro é um homem culto, que aprecia filosofia e literatura. Lê inglês, francês e italiano. Exerceu diversas profissões ao longo de sua vida, tendo trabalhado com assessoria empresarial e treinamento, porém sempre com documentos falsos. Depois da publicação do livro Eu, Cabo Anselmo, de Percival de Souza, foi procurado pela Rede Globo para uma entrevista. Prometeram que sua imagem seria preservada, que sua voz seria distorcida, mas isso não aconteceu e, em conseqüência, ele perdeu todos os seus clientes

Anselmo requereu que lhe seja devolvida sua identidade formal e que ele seja anistiado. A Comissão de Anistia lhe negou a condição de anistiado. Embora tenha havido uma determinação da Justiça para que ele volte a ter documentos, os órgãos responsáveis se recusam a emiti-los, utilizando-se de desculpas burocráticas. A principal dessas desculpas é que não se encontra assento do seu registro de nascimento no cartório em que foi registrado, nem de seu registro de batismo na paróquia em que foi batizado.

Cabo Anselmo - Minha Verdade conta essa história de maneira muito envolvente. O prefácio é de Olavo de Carvalho.

Se você já conhece bem toda essa história, parabéns. Caso contrário, pare o que estiver fazendo e vá comprar e ler Cabo Anselmo - Minha verdade!


Quem é Cabo Anselmo?
Terça Livre, exibido em 22/09/2015, com Ítalo Lorenzon, Beatriz Kicis, Olavo de Carvalho e José Anselmo dos Santos.

Livro: Cabo Anselmo - Minha verdade
Autor: José Anselmo dos Santos
Editora Matrix
256 páginas
1ª Edição - 9 de junho de 2015

Onde comprar:

Amazon
Fnac
Livraria Cultura
Livraria da Folha
Livraria da Travessa
Livraria Saraiva

domingo, 27 de julho de 2014

Cinqüenta Anos Esta Noite, de José Serra

José Serra lançou recentemente o livro Cinqüenta Anos Esta Noite: o Golpe, a Ditadura e o Exílio. Conta toda a sua experiência traumática de líder estudantil, cujo curso e cujos projetos pessoais e políticos foram interrompidos bruscamente pelo golpe de 64.

Li seu relato com grande curiosidade e, para falar a verdade, com grande espanto. Nasci sete anos depois do golpe. Quando comecei a me interessar por notícias, a anistia já era uma realidade. Provavelmente, fui prestar atenção em Serra quando ele se candidatou a prefeito de São Paulo, em 1988. Conhecia muito pouco de sua carreira como líder estudantil.

A primeira coisa que me chocou foi a reunião, que abre o livro, entre o presidente João Goulart e os dirigentes da Frente de Mobilização Popular (FMP), em um apartamento em Ipanema, num domingo de outubro de 1963. Quem conduz a reunião é Leonel Brizola, que liderava a ala radical da FMP. A ala moderada era ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). José Serra, presidente da UNE, com 21 anos, disse a Jango:

“— Presidente, nós defendemos que o pedido de estado de sítio seja retirado. Ele vai suprimir as garantias constitucionais e fortalecer a direita. Vai acabar se voltando contra o povo, contra o seu governo e contra o senhor mesmo.”

É um fato completamente exótico que o presidente da República participe de uma reunião secreta com representantes de organizações regulares e clandestinas para discutir a suspensão da ordem constitucional.

Pelo que Serra conta ao longo do livro, ele certamente não estava preparado, aos 21 ou 22 anos, para dar opiniões embasadas sobre a organização política nacional. Mas fazia isso com desembaraço. Tinha se mudado de São Paulo para o Rio de Janeiro para presidir a UNE. Tinha parado de assistir aulas do curso de engenharia na Poli e voltava a São Paulo apenas para fazer provas e visitar a família. É recebido por Jango para discutir assuntos políticos e educacionais. É convocado pelo Congresso para explicar as atividades da UNE. Discursou no Comício da Central, em 13 de março de 64.

Seis dias depois desse comício, houve a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Serra reconhece que a maioria das pessoas que participou desse ato foi de boa-fé, com medo das ameaças de comunismo que rondavam o Brasil. Conheço gente apolítica que esteve na Marcha, achando que era um tipo de procissão. Serra está convencido que essas pessoas temiam uma ameaça irreal. Não tenho a mesma certeza. Menciona grupos paramilitares de direita e diz que não havia paramilitares de esquerda. Minimiza a importância das Ligas Camponesas de Francisco Julião e dos Grupos dos Onze de Brizola. Não tenho conhecimento suficiente para avaliar essa questão. A sensação que tenho é que a ordem institucional estava sendo claramente ameaçada pelos dois lados. Talvez a esquerda de fato não tivesse força para ser vitoriosa em um golpe. Mas me parece claro que setores importantes dela tinham essa intenção e que as pessoas tinham motivos para ter medo.

É evidente que a ditadura militar brasileira foi uma violência sem tamanho contra toda uma geração de brasileiros. Ninguém deveria ter sido obrigado a fugir do Brasil. Ninguém deveria ter sido preso sem o devido processo legal. Ninguém deveria ter sido torturado, morto sob custódia, desaparecido. Os militares se aproveitaram da ameaça percebida contra a democracia para tomarem o poder e ficarem por lá por 21 anos, traindo as pessoas que os apoiaram.

Então, ocorre o golpe militar e Serra foge. A UNE foi invadida e incendiada. Muitas pessoas foram presas. Depois de vagar por algum tempo sem saber direito para onde ir, Serra se refugia na Embaixada da Bolívia. Muitos outros refugiados passam por lá e, rapidamente, conseguem o salvo-conduto para saírem do Brasil. Ele fica por 80 dias, mas finalmente consegue ir para a Bolívia e, de lá, para a França. Conseguiu uma bolsa em uma universidade francesa, mas passou pouco tempo por lá. Antes do final de 64, falsificou um passaporte brasileiro e, em janeiro de 1965, voltou para a América, para o Chile, com o documento falso. Passando pela Argentina e pelo Uruguai, entrou clandestinamente no Brasil, em fevereiro. Quem o ajudou a cruzar a fronteira foi Brizola, que tentava organizar uma resistência armada ao regime, a partir de Santa Catarina. Quem o ajudou no Uruguai foi Andrés Cultelli, que Serra diz ter sabido depois que era um dos líderes do Movimento de Libertação Nacional, os Tupamaros. Cultelli participou do assassinato de um agente da CIA em Montevidéu. Serra se espanta em descobrir que o “homem cordial e paciente” que o recebeu era um líder Tupamaro.

Escondido em São Paulo, Serra foi ajudado por dois companheiros da Ação Popular (AP), Egídio Bianchi e Sérgio Motta.  Em março, houve uma reunião nacional da AP em São Paulo. Serra queria ir. Os companheiros pediram que ele não se arriscasse e foram à reunião no lugar dele. O Dops interrompeu o evento e prendeu todo mundo. Bianchi e Motta passaram nove dias na prisão, mas não foram torturados. A polícia apreendeu uma pasta de Bianchi, com a correspondência cifrada que ele mantinha com Betinho (Herbert de Souza) e Aldo Arantes, exilados no Uruguai. Os papéis mencionavam contatos com Brizola, que tentava montar uma guerrilha de padrão cubano. A polícia não entendeu os textos cifrados e não deu importância à papelada. Serra resolveu sair novamente do Brasil e foi para o Chile.

No Chile, estudou economia. Conseguiu uma graduação, dava aulas, conheceu sua esposa e teve dois filhos. Trabalhou para o governo chileno.

Sobre o governo de Salvador Allende, Serra narra as arbitrariedades cometidas contra diversos setores da economia e reconhece parte dos erros de Allende. Mas também acusa a oposição de tentar inviabilizar o governo dele. Se o que ele narra acontecesse em meu país e eu fosse a oposição, também tentaria inviabilizar um governo que cometesse aqueles absurdos.

Em agosto de 1973, Serra foi a Moscou, a convite da Federação Mundial da Juventude. Lá, num encontro com Luís Carlos Prestes, ficou sabendo que o general Pinochet havia substituído Carlos Pratts no comando do Estado-Maior das Forças Armadas chilenas. Voltou ao Chile acreditando que logo haveria um golpe, mas não conseguiu sair do país com sua família antes que ocorresse. Ficou seis meses na Embaixada da Itália, até obter um salvo-conduto para deixar o país, em maio de 74. Morou nos Estados Unidos até 1977. Nesse momento, a abertura estava em andamento no Brasil e ele voltou para cá. Chegou a ser interrogado algumas vezes, mas não foi realmente perturbado pelo regime militar a partir de então.

Percebo, nas opiniões expressas por José Serra por todo o livro, que as opiniões dele são diferentes das minhas sobre quase todos os assuntos. Ele é um homem de esquerda, que tem uma visão de esquerda sobre qualquer questão política e econômica. Não é marxista e não apoiou o regime da União Soviética, mas sempre defendeu a intervenção do Estado na vida das pessoas. Gostaria que os meus prezados amigos de esquerda, com quem tenho o prazer de debater, lessem este livro e me contassem em que pontos discordam do autor. Não diferencio o que ele diz do que eles dizem.

O que vou dizer agora vai soar desrespeitoso, mas não posso evitar. Considero Serra um homem sério e acho que seus governos no Município e no Estado de São Paulo foram excelentes. Considero-o um grande administrador. Acho que ele conseguiu seu objetivo no exílio, de ser um dos políticos mais preparados de sua geração. Porém, por todo o livro, ele está sempre se encontrando com comunistas, com terroristas, com guerrilheiros. Acho que ele não tentou de fato participar da luta armada. Mas não vejo uma expressão mais clara de arrependimento ou repúdio por esses contatos, por voltar clandestino ao Brasil, pelas atividades de Betinho ou de Brizola. Não consigo deixar de lembrar do personagem de Casseta e Planeta, o Wanderney, que estava sempre em uma sauna gay com o Peludão, mas declarava aos brados: “— Estou aqui, mas eu não sou gay! Eu não sou gay!”

domingo, 6 de julho de 2014

A Morte e a Donzela, de Ariel Dorfman

Li, meio por acaso, a peça A Morte e a Donzela, de Ariel Dorfman. Tinha assistido o filme há muitos anos. Levei meus filhos à biblioteca municipal e vi o livro e peguei emprestado. Peças de teatro são curtas, li no mesmo dia.

Ariel Dorfman é um autor chileno conhecido pela obra Para Ler o Pato Donald, escrita em parceria com Armand Mattelard. É uma coleção de bobagens sobre o universo Disney, que li também há muitos anos.

A Morte e a Donzela se passa no Chile (ou em algum país latino-americano), pouco depois do fim de uma ditadura militar. Os três personagens são: Paulina Salas, uma mulher que, 15 anos antes, foi torturada pela ditadura; Gerardo Escobar, advogado, marido de Paulina; e Roberto Miranda, um médico. Gerardo tem um problema com o carro e, por acaso, Roberto o ajuda e o leva para casa. Paulina acredita reconhecer Roberto como o principal dos seus torturadores e o seqüestra. Essa é a situação em que a peça se desenvolve.

Ariel Dorfman não diz quase nada sobre as convicções políticas de Paulina. Ela é A Vítima. É forte, corajosa. Está abalada por tudo o que passou, mas sabe o que está fazendo. Nunca denunciou Gerardo enquanto era torturada. Podemos presumir que seja comunista, mas só sabemos que, quando foi presa, ajudava outras pessoas perseguidas a saírem do país.

Roberto Miranda é o vilão evidente. A peça não deixa realmente claro se ele era culpado. Pode ser tudo uma ilusão de Paulina, mas isso é improvável. É óbvio que um torturador é uma figura odiosa. Ele é obrigado por Paulina a gravar e a escrever uma confissão, na qual conta que seu pai teve um infarto quando os comunistas expropriaram sua fazenda, que resolveu se juntar aos militares para minorar o sofrimento dos presos, mas tomou gosto pela coisa e se aproveitou de muitas mulheres torturadas. É totalmente asqueroso, mas não temos certeza se é ele mesmo.

O maior vilão da peça é mesmo Gerardo Escobar, que representa as forças democráticas que assumiram o governo. Ele é covarde, mentiroso, ambicioso, egoísta, hipócrita. Mente para Paulina na primeira cena, negando que já tenha aceito o convite do presidente da República para comandar uma comissão para investigar crimes contra os direitos humanos. Diz a ela que só aceitará se ela concordar, mas já aceitou. Enquanto ela estava presa, sendo torturada, Gerardo arranjou outra mulher. Também mente para Paulina sobre isso. Só pensa em sua carreira, não em Paulina, nem no povo. Sobre Gerardo, não temos dúvidas. Ariel Dorfman quer nos convencer de que não devemos confiar naqueles que defendem a democracia e de que a violência sofrida pelos torturados justifica qualquer coisa.

Por último, uma palavra sobre a anistia, que é o grande tema da peça. Se for possível derrotar uma ditadura pela força, não é necessária nenhuma anistia. Punem-se todos os membros do antigo regime à vontade. Caso contrário, considera-se que o melhor para o país é deixar de lado os crimes cometidos pelos agentes da ditadura, como condição para o fim do arbítrio. Uma anistia não perdoa esses crimes. Considera que esquecê-los é um mal menor, em troca do bem maior que é a conquista da liberdade. Sendo assim, as anistias devem ser respeitadas.

Evidentemente, os outros países não têm nada a ver com isso. Não é por que houve uma anistia no Brasil que Fernando Gabeira ou Franklin Martins poderão algum dia por os pés nos Estados Unidos, depois de terem seqüestrado o embaixador americano. Da mesma forma, os torturadores brasileiros correm grande risco de prisão se saírem do Brasil. Isso é normal e correto. O que não é normal nem correto é brasileiros continuarem tentando reverter o pacto que nos trouxe liberdade política.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Ditadura à Brasileira, de Marco Antonio Villa

Depois de Década Perdida, Marco Antonio Villa lançou, no começo do ano, Ditadura à Brasileira - A Democracia Golpeada à Esquerda e à Direita. Da mesma forma que no livro anterior, é uma recapitulação dos fatos mais importantes ocorridos no Brasil entre 1962 e 1984. Cada divisão do livro corresponde a um governo: Jango, Castello, Costa e Silva, Junta Militar, Médici, Geisel e Figueiredo. Dentro de cada divisão, um capítulo para cada ano.

Se Década Perdida é um saudável exercício de masoquismo, Ditadura à Brasileira é menos sombrio. Talvez porque eu não tenha vivido a maior parte desses acontecimentos. Talvez porque a ditadura tenha terminado com grandes esperanças, que depois se concretizaram apenas parcialmente.

O livro é bem completo e abrangente, embora não se aprofunde nos detalhes de cada acontecimento narrado. Quando li os livros do Elio Gaspari, fiquei frustrado por ele pular simplesmente alguns acontecimentos. Marco Antonio Villa preenche essas lacunas.

Durante o conturbado governo João Goulart, havia ameaças à democracia de vários lados. O PCB possuía células clandestinas nas Forças Armadas. O PC do B havia mandado um grupo de guerrilheiros para ser treinado na China. As Ligas Camponesas criaram campos de treinamento de guerrilheiros no Brasil mesmo. Os Grupos dos Onze, de Leonel Brizola, pretendiam ser o embrião de um partido revolucionário. Enquanto isso, os militares também não paravam de conspirar. Nesse ambiente, Jango sabotou sistematicamente o parlamentarismo, até conseguir a volta do presidencialismo. Depois disso, articulava para permanecer na presidência. Assustou a opinião pública e os militares com o Comício da Central e o apoio ao movimento dos sargentos da Marinha.

Sua derrubada pelo Exército foi recebida com alívio pela maior parte da população. Ninguém imaginava que essa intervenção seria diferente de todas as anteriores, entre 1945 e 1964, e que os militares ficariam 21 anos no poder.

Villa considera que o que pode ser chamado de ditadura é o período de vigência do AI-5, ou seja, de 13 de dezembro de 1968 a 31 de dezembro de 1978. Entre 1964 e 1968 e de 1979 em diante, o Brasil teve uma intensa vida cultural e política. Entendo o ponto de vista dele, mas não concordo. As arbitrariedades do Ato Institucional original e do AI-2, AI-3 e AI-4, que ele descreve melhor que o Elio Gaspari, não têm como existir em uma democracia. E o que não é democracia é ditadura. Pode ser uma ditadura parcial, menos agressiva, violenta e mortífera que outras, mas continua sendo ditadura.

Durante todo o regime militar, os governantes evitaram perpetuar um único presidente no poder, falaram por diversas vezes em democracia e reconheciam que o país passava por um regime de exceção. Castello Branco e Costa e Silva governaram numa escalada autoritária, ou por fraqueza ou por vontade, e chegamos ao auge do arbítrio com o AI-5. A doença repentina de Costa e Silva complicou tremendamente a situação. Os ministros militares, com a ajuda do ministro da Justiça, Gama e Silva, impediram a posse do vice-presidente civil, assumiram temporariamente o governo e fizeram uma transição para um novo governo, com mandato determinado. Villa diz que, embora fossem chamados de Os Três Patetas, conseguiram, com habilidade, evitar uma crise maior ainda, arbitrar a disputa que havia pelo poder e manter o país em paz. Médici foi um presidente extremamente autocrático, em cujo governo ocorreu grande parte dos abusos de direitos humanos do regime militar, prisões arbitrárias, tortura e morte de opositores. Seu sucessor foi escolhido pessoalmente por ele, sem consultar mais ninguém.

Enquanto isso, a opinião pública parecia anestesiada, muito mais preocupada com a Seleção Brasileira que com as cassações, banimentos e censura. Ninguém protestou contra o AI-5. Todos pareciam felizes com o “milagre econômico”. A situação começou a virar somente em 1973, com a primeira crise do petróleo. Nas eleições de 74 (sim, houve eleições em 1974, com horário eleitoral gratuito mais livre que em 1978), a oposição conseguiu uma vitória importante, que pegou o governo de surpresa.

Os governos Geisel e Figueiredo foram na direção contrária de Castello Branco e Costa e Silva, desfazendo muito lentamente a estrutura das leis de exceção. Geisel demitiu o general Sylvio Frota do Ministério do Exército, impedindo um provável golpe para manter a ditadura por tempo indeterminado. Para mim, parece que a decisão deles de fazer os militares voltarem aos quartéis foi o fator mais importante para o fim da ditadura.

Não quero menosprezar o trabalho da oposição, a coragem de Ulysses Guimarães, de Sobral Pinto, de tantos outros e, muito menos, o movimento Diretas Já, um dos raros momentos em nossa história em que a população se mobilizou e se uniu para fazer a coisa certa. Mas tudo teria sido muito mais difícil se os governantes não estivessem decididos a permitir que a abertura acontecesse.

Por outro lado, o livro deixa claro que os movimentos de luta armada não contribuíram em nada para a retomada democrática. Foram completamente desbaratados por volta de 1972, não existindo mais quando a abertura começou. Enquanto existiram, desprezaram solenemente a democracia, que chamavam de “burguesa” e tinham como único objetivo estabelecer a “ditadura do proletariado”, que sem dúvida seria muito mais cruel, violenta e sanguinária que a ditadura que sofremos. O livro compara o número de mortos pelo regime e pelos grupos clandestinos em alguns anos. Há um empate em 1969. Em 1970 e 1971, embora o regime matasse mais, os números são da mesma ordem de grandeza.

Uma coisa que me incomodou foi a sensação de que a edição foi feita de maneira apressada. Achei alguns erros de ortografia e gramática e um parágrafo repetido.

Achei falta de mais detalhes sobre a discussão da Lei de Anistia, uma questão muito presente nos dias de hoje, com a instituição da Comissão Nacional da Verdade. E discordo das opiniões econômicas de Marco Antonio Villa, que aparecem em alguns trechos.

Com esses pequenos reparos, considero que é uma obra fundamental para se entender o que foi a ditadura militar no Brasil.