sábado, 3 de novembro de 2012

O Mito da Revolução Industrial


A Revolução Industrial, iniciada por volta de 1750 na Inglaterra, provocou um imenso avanço tecnológico e econômico no mundo. Ninguém discute isso. Porém, existe um mito sobre seus efeitos sobre a população mais pobre.

Há uma crença generalizada de que o preço desse progresso foi a opressão das classes trabalhadoras pelos capitalistas. Sem restrições governamentais, as grandes corporações teriam tido liberdade de arrochar os salários, cortar custos negligenciando a segurança do ambiente de trabalho e multiplicar suas já imensas fortunas às custas da miséria da classe trabalhadora, que foi reduzida a uma virtual escravidão.

Friedrich Engels escreveu que o trabalhador típico do período pré-industrial vivia "uma vida justa e pacífica em toda piedade e probidade e sua posição material era muito melhor que a dos trabalhadores que o sucederam".

No início do século XX, seria clara a necessidade de salvar a classe trabalhadora da vitimização inerente ao sistema capitalista. O movimento de reforma social teria conseguido que fossem estabelecidos programas para proteger os desfavorecidos, impostas regulações mais rígidas sobre as empresas, dadas chances de que os trabalhadores se sindicalizassem e impedida a tendência natural à criação de monopólios que seria inerente ao capitalismo. A luta em defesa do homem comum continuaria até hoje, liderada pelos partidos progressistas, com o objetivo de, um dia, atingirmos a igualdade ecônomica que uma sociedade livre deseja.

É uma história convincente, que apela aos instintos humanos de proteger os oprimidos e lutar contra a injustiça. Os princípios básicos deste mito inspiraram grandes obras de literatura, desde Charles Dickens, com Um Conto de Natal e Oliver Twist. É extremamente popular em todo o mundo e é a crença política e econômica básica da maioria dos atores e jornalistas. Mais importante, esse mito norteia todas as políticas públicas no Brasil, pelo menos desde Getúlio Vargas. O problema é que nada disso é verdade.

A qualidade de vida dos trabalhadores melhorou drasticamente e continuamente com a Revolução Industrial. Durante todo o Feudalismo, da queda do Império Romano até o final do século XVI, era comum que pessoas fossem vendidas em leilões, submetidas a todo tipo de trabalho penoso e degradante, praticamente sem remuneração. Às vésperas da Revolução Industrial, entre 1730 e 1749, 75% das crianças inglesas morriam antes de completar 5 anos de idade. Entre 1750 e 1850, a população da Grã-Bretanha triplicou. A expectativa de vida aumentou tremendamente, mas houve também uma migração em massa do continente para as Ilhas Britânicas, de trabalhadores buscando condições melhores.

O advento da produção em massa fez com que, pela primeira vez na história, o alvo dos produtores de bens não fosse a camada mais rica da população, mas o homem comum. A explosão da produção provocou uma queda generalizada de preços. Uma miríade de produtos baratos se tornou disponível: sabão, roupas de baixo, chá, café, açúcar, chapéus, tecidos. As pequenas lojas se espalharam por toda parte e surgiram empregos no comércio. Os assalariados da indústria e do comércio passaram a ser consumidores. A dieta de uma família pobre deixou de ser uma tigela de farinha com batatas e passou a incluir carne fresca, bacon, pão de trigo, manteiga, chá.

Os trabalhadores trocaram péssimos empregos na agricultura por péssimos empregos na indústria. Porém, passaram a comer melhor, vestir-se melhor, ter mais saúde e produzir mais.

A inovação tecnológica era feita por pessoas que tivessem capacidade intelectual de criá-la, independentemente de sua origem. George Stephenson, criador da locomotiva a vapor, havia sido vaqueiro. O engenheiro Telford, que construiu 1200 pontes e mais de 1500 quilômetros de estradas, era filho de um pastor de ovelhas e começou como aprendiz de pedreiro. Joseph Bramah, inventor da prensa hidráulica, foi aprendiz de carpinteiro. Frederich König, imigrante alemão, inventor de uma impressora de alta velocidade, era filho de um camponês e foi aprendiz numa gráfica. Como estes, há incontáveis outros exemplos.

Friedrich Hayek disse que o Mito da Revolução Industrial sobrevive porque os historiadores estão contaminados pelo marxismo. Como acreditam que o capitalismo produz miséria, procuram e encontram supostas provas dessa crença. Antes da Revolução Industrial, a miséria dos pobres era considerada um fato imutável da vida. Com o progresso, as pessoas passaram a tolerar cada vez menos a pobreza que restou. Isso fez com que aumentassem as críticas à situação dos mais pobres e não o fato de essa situação estar piorando.

Ludwig von Mises argumentou que os donos das fábricas não tinham nenhum poder de obrigar alguém a se tornar operário contra sua vontade. Só podiam contratar quem aceitasse o emprego voluntariamente, nas condições oferecidas e pelo salário tratado. Os salários eram muito, muito baixos e as condições de vida eram muito, muito ruins. Mas eram melhores que a alternativa. Fora das fábricas, as mulheres mal tinham o que dar de comida a seus filhos. As fábricas literalmente os salvaram da fome. Portanto, é verdade que o capitalismo criou o proletariado. Não no sentido de Marx e Engels, mas no sentido de que esse enorme contingente de pessoas não teria sobrevivido se não houvesse surgido o capitalismo. Von Mises escreveu: "O que há de notável na Revolução Industrial é que ela iniciou uma era de produção em massa para atender as necessidades das massas. Os assalariados não são mais pessoas que trabalham exaustivamente apenas pelo bem-estar de outras pessoas. Eles próprios são os principais consumidores dos produtos saídos das fábricas. Não existe, nos Estados Unidos de hoje, nenhum ramo de grandes empresas que não tente satisfazer as necessidades das massas. O princípio essencial do empreendedorismo capitalista é fornecer produtos ao homem comum. [...] Não há outra maneira, numa economia de mercado, de se adquirir e preservar riqueza, exceto suprir as massas, da maneira melhor e mais barata, de todos os bens que elas pedirem."

A Revolução Industrial foi um processo evolutivo, realizado por tentativa e erro. Para haver um avanço em uma área era necessário que houvesse outro avanço paralelo em outras áreas. O processo que resultou nas grandes invenções aconteceu sem nenhum planejamento central. Aconteceu com cada pessoa buscando seus próprios interesses particulares. Aconteceu porque as pessoas eram motivadas pelo lucro. Não poderia ter ocorrido por meio de uma mente humana tentando planejá-lo. Não aconteceria se as pessoas fossem movidas por razões altruísticas. Também não aconteceria se as pessoas não vislumbrassem a perspectiva de vantagens pessoais como resultado de suas ações.

Um ponto essencial do Mito da Revolução Industrial diz respeito ao trabalho infantil. Em primeiro lugar, é necessário dizer que o trabalho infantil sempre existiu. As condições de trabalho para crianças também eram muito ruins, o trabalho era pesado, perigoso e insalubre. Um dos estímulos para os pais buscarem trabalhos em fábricas é que o trabalho para seus filhos era mais leve e menos perigoso. Com a melhoria do padrão de vida, os pais puderam prescindir da renda resultante do trabalho infantil, e as crianças passaram a ficar em casa. Não foi a Revolução Industrial que criou o trabalho infantil, ele sempre existiu antes. Foi a Revolução Industrial que acabou com o trabalho infantil.

Também é importante diferenciar o que se chamava, na Inglaterra, de "free-labour children" e "parish-apprentice children". "Free-labour children" eram crianças que tinham uma família e trabalhavam junto com seus pais em uma fábrica. Um dono de empresa não tinha como subjugar uma dessas crianças e obrigá-la a trabalhar em condições com as quais seus pais não concordassem. "Parish-apprentice children" eram crianças órfãs ou abandonadas (como Oliver Twist), submetidas à autoridade e supervisão de funcionários do Estado. Quando os historiadores narram casos de crianças submetidas aos tipos mais cruéis de trabalhos, quase sempre as situações envolvem exclusivamente essas crianças.

Sobre os monopólios, só existe uma maneira de manter um monopólio numa economia de mercado: ter um produto tão melhor que o da concorrência, a um preço tão baixo, que todos os consumidores escolham comprá-lo. Se, em virtude dessa posição de monopólio, a empresa resolver subir os preços ou descuidar da qualidade, os concorrentes vão fatalmente aparecer e ocupar uma fatia cada vez maior do mercado. Numa economia livre, a competição nunca é eliminada. Não tem como ser eliminada.

Outra coisa completamente diferente é o monopólio estatal. Se o governo impede a competição, a empresa ou as empresas monopolistas podem cobrar preços absurdos e entregar produtos e serviços ruins. Se alguém quiser trabalhar (ou continuar trabalhando) nesse específico ramo de atividade, terá de se sujeitar às condições de trabalho que essas empresas impuserem. Existem dois tipos de monopólio estatal. O monopólio clássico é aquele em que leis proíbem que existam competidores. O outro tipo, mais comum atualmente, é aquele em que o governo impede que surjam novos competidores por meio do excesso de regulação. Poucas grandes empresas dominam o mercado. Elas competem entre si, mas são protegidas de concorrentes inovadores porque o custo de adequar-se às regras é proibitivo.

O padrão de vida das pessoas só se eleva e as condições de trabalho só melhoram por meio de investimentos de capital e da produção de mais bens, de melhor qualidade. É exatamente isso que foi a Revolução Industrial. E é exatamente disso que os países mais pobres e anticapitalistas do mundo precisam para prosperarem.

Este texto é um pastiche traduzido dos artigos abaixo. Recomendo a leitura dos originais.




5 comentários:

  1. Olá Marcelo Centenaro, você tem fontes históricas que poderia compartilhar acerca das condições de vida do povo inglês antes da revolução industrial?
    Tenho pesquisado sobre isso e até agora você foi o único que encontrei falando de modo mais profundo sobre as condições anteriores à revolução.
    Se puder colaborar ficarei bastante agradecido.
    No mais, excelente artigo.
    Obrigado.

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    1. Obrigado, Samuel, pelo interesse.
      Na verdade, esse texto não é resultado de uma grande pesquisa, mas da combinação dos quatro artigos citados no final. A intenção é divulgar em português essas informações praticamente desconhecidas por aqui.
      Vou pesquisar um pouco. Se achar alguma coisa mais embasada, avisarei você.
      Abraços.

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  2. Olá Marcelo, estou produzindo meu TCC, e minha pesquisa se depara com este tema da revolução industrial a respeito do trabalho infantil, gostaria de saber onde posso encontrar fontes que me levem a citar a respeito da mortalidade infantil (Como vc mencionou) que era maior antes da revolução industrial, e os tipos de trabalho que estes exerciam para suas famílias, se por acaso vc tiver alguma ideia a respeito dos "vagabundos" (menores infratores da época) e se como eles eram punidos (se também eram incluídos no trabalho dessas usinas. Meu trabalho inclui crianças, e como a maioria das fontes que encontramos é de cunho marxista me decepciona. Se puder dar alguma dica agradeço!

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    1. Bela, obrigado pelo interesse. Não tenho essa referência a fontes sem pesquisar. Mas prometo que vou procurar um pouco. Se eu achar algo interessante, avisarei você.
      Abraços.

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  3. Oi Marcelo! Você encontrou as fontes históricas que outrora disse que pesquisaria? Preciso muito pra me embasar. Obg. Abraços.

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